
Fun Home: Livro ou HQ?
Em 2006 uma graphic novel (HQ) foi escolhida como livro do ano pela revista americana Time. A obra superou nesta escolha autores consagrados como Cormac McCarthy. Por causa deste prêmio tomou corpo uma polêmica de que quadrinhos deveriam ser encarados e reconhecidos como literatura. No ano seguinte, conquistou o prêmio maior dos quadrinhos americanos, o Eisner Award por melhor obra baseada em fatos. A The New York Times Book Review o definiu como “uma obra pioneira, que eleva dois gêneros (quadrinhos e relato autobiográfico) a novos patamares”. O “livro” em questão é Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, de Alison Bechdel.
A história é baseada na vida da própria autora e lida com temas como homossexualismo, morte e relação entre pais e filhos. Um dos pontos chaves da trama se dá depois de Alison contar à família que é lésbica, sua mãe liga para ela revoltada e conta que o pai manteve relações sexuais com outros homens durante o casamento. Toda a graphic novel trata desta conexão entre Alison e seu pai Bruce e suas sexualidades. Fala ainda de como cada um optou para vivê-la. Enquanto o pai optou por esconder, sua filha quis revelar.
Bruce Bechdel era professor de inglês e tomava conta da casa funerária da família, (trocadilho do título Fun Home), obcecado com a aparência, passava horas redecorando e construindo o casarão da família. Alison compartilha de algumas obsessões com o pai, como revela em um capítulo que tem de fazer um diário escrevendo todas as coisas que fazia durante o dia, incluindo as repetições que costumava executar. Aos dez anos tentava conter o vazamento da torneira da banheira com seu dedão a fim de que as gotas parassem em um número par. Ímpares e múltiplos de 13 deviam ser evitados a todo custo. Mas as boas obsessões também eram compartilhadas: os dois amavam literatura e o pai iniciou a filha no mundo das letras, guiando-a por vários autores célebres.

Alison e Bruce: Opostos complementares
O relacionamento entre a autora e seu pai sempre é mostrado com uma distância emocional, como se vivessem em mundos alheios. Cenas de carinho entre os dois são expostas de um modo cínico, com a expressão indiferente de Bruce. Em suas descrições e desenhos Alison revela uma ambigüidade de sentimentos em relação ao pai. Por vezes ela o odeia, outras vezes o compreende e em grande parte das vezes faz graça de suas situações. O contraste entre os dois é bem exemplificado nesta seqüência: “Eu era a espartana do meu pai ateniense. A moderna do vitoriano. A masculina do afetado. A funcional do esteta”. Mais adiante, completa: “Não éramos apenas invertidos, éramos inversões um do outro. Era uma guerra contraditória fadada sempre a piorar”.
A distância entre os dois tornou a concepção do álbum mais trabalhosa. Foram sete anos de pesquisa, entre conversas com a mãe e os irmãos, leituras de diários, fotos antigas, cartas do pai e registros de polícia, mas principalmente nos livros mais lidos por Bruce, que tomaram parte do livro. “Eu estava tentando escrever sobre meu pai, mas não sabia muito sobre ele. Filhos tem uma perspectiva distorcida sobre seus pais. A proximidade atrapalha que se enxergue claramente. Então comecei buscar traços da personalidade de meu pai nestes livros que ele amava. E aos poucos eles começaram a rastejar para dentro da minha história”, conta Alison.

Os pais de Alison são personagens literários
As alusões são um dos recursos mais elogiados em Fun Home. Estão lá desde comparações de Bruce e Alison com Dédalo e Ícaro (posteriormente comparados com os personagens Leopold Bloom e Stephen Dedalus, do Ulisses de James Joyce), da família Bechdel com a Família Addams, há citações de livros como A Morte Feliz e O Mito de Sísifo, de Albert Camus; Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust e A Importância de Ser Prudente, de Oscar Wilde. O diálogo com a literatura acontece em toda graphic novel, e uma das melhores referências talvez sejam os papéis que os pais se acostumaram a representar: Bruce, se via como O Grande Gatsby, e a mãe, a protagonista de Retrato de Uma Senhora. “Faço uso destas alusões a Henry James e Fitzgerald não só como recursos descritivos, mas porque meus pais são mais reais pra mim em termos de ficção”, justifica a quadrinhista.
Para fazer sua arte, Alison contou com referências fotográficas em que usa a si mesma como modelo. A autora é dona de um estilo próprio, mas que pode ser descrito como um Robert Crumb mais econômico. Não que os desenhos de Alison sejam simples, por vezes, quando fotos são mostradas no livro, os desenhos tomam uma expressão quase real. Outra das características dos desenhos de Bechdel são as inserções de desenhos escritos, como excertos de cartas e livros. A pintura conta com um monocromático verde que toma conta das sensações provocadas pela história, de estar encarando uma verdade inevitável, uma ligação curiosa entre opostos, crua e natural.

"Deixe seu Deus longe do meu corpo"
Alison Bechdel é um nome conhecido no meio alternativo americano. Ela escreve e desenha a tira Dykes to Watch Out For (um duplo sentido na tradução entre Sapatas para tomar cuidado/ prestar atenção). Sem dúvida Alison pode ser comparada à outros quadrinhistas americanos que também utilizaram de biografias para contar histórias em quadrinhos, como Robert Crumb (Fritz, the Cat) e Art Spiegelman (Maus). Mas para quem não está acostumado aos nomes dos quadrinhos underground, vale a referência do filme Anti-Herói Americano, que trata da vida de outro autor de HQs, Harvey Pekar (American Splendor). Já o filme Correndo com Tesouras, baseado na autobiografia de Augusten Burroughs, é semelhante a Fun Home na temática, tratando de um personagem descobrindo-se gay e levantando também a teoria de uma homossexualidade hereditária.
Os capítulos de Fun Home não são compostos em ordem cronológica. Bechdel tenta juntar as peças e constrói um mosaico que vai se montando passo a passo na mente do leitor que vai compreendendo as ações dos personagens. Ela não entrega tudo de uma vez só, mas vai conquistando o leitor aos poucos revelando a humanidade dos personagens em seus erros, acertos, imersos na tragédia ou na comédia que surge inesperadamente.
Três meses depois que Alison saiu do armário seu pai morreu. Foi atropelado por um caminhão em uma estrada. A autora levanta a hipótese de suicídio e justifica-a numa seqüência no velório do pai. O período em que Bruce ficou sabendo que Alison era lésbica foi o mais próximo entre os dois, no qual ele pôde confessar à filha suas experiências. No último capítulo, Bechdel define o pai como um anti herói, baseada em algo que ele havia escrito para ela quando esta revelou sua opção sexual : “Tomar partido é um tanto quanto heróico, e eu não sou um herói”.
E afinal, Fun Home é um livro ou uma HQ? “É muito importante para mim que as pessoas sejam capazes de ler as imagens da mesma forma que vão descobrindo uma maneira de desdobrar o texto. Não gosto de figuras que não comportem informações. Quero figuras que você seja tenha de ler, que você tenha de decodificar, que tomem tempo e que você possa se perder nelas. Senão, qual seria a graça?”. Fun Home é um livro para quem gosta de quadrinhos com densidade e personagens bem desenvolvidos. Fun Home é um quadrinho para quem gosta de livros com recursos de paradoxos, justaposições, metáforas e metalinguagem plenamente utilizados.
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Publicada originalmente em ThingsMag #4.