Uma vida sem spoilers

“X-Factor – ou Fator X… significa uma coisa imprevisível. (…) É aquilo que você se culpa por não ter previsto… sendo que ninguém podia adivinhar”. – X-Factor#1/ Wolverine #26

X-Factor: espere o inesperado

X-Factor: espere o inesperado

Estamos tão acostumados a ler spoilers aqui e ali, em sites de noticias sobre quadrinhos, em fóruns e blogs que nos esquecemos como era a vida antes de eles existirem. Sabemos que Bucky vai se tornar o Capitão América e que o Batman vai morrer na Crise Final, ou melhor, seu destino final não é esse. Claro, é legal saber das coisas antes de elas acontecerem, assim a gente pode se preparar pra saber o que vale à pena ler ou não. Mas tem o lado ruim, perdemos aquela sensação de surpresa, do tudo-pode-acontecer que as histórias em quadrinhos tinham antes do aparecimento da Internet.

Há pouco tempo atrás Peter David, roteirista de X-Factor se manifestou sobre o assunto. Ele não queria revelar o que aconteceria nas próximas edições da revista da equipe mutante. Eu não quero adiantar nada. Nem um detalhe. O que eu quero é que as pessoas tenham a sensação de que qualquer coisa pode acontecer em X-Factor, de que essa é uma revista imprevisível e emocionante. Às vezes parece que o propósito da internet é estragar a surpresa para possíveis futuros leitores e isso é prejudicial para a indústria dos quadrinhos“. Nas solicitações da Marvel nada é falado sobre as próximas edições, repercutindo a política de silêncio de David.

Nas histórias do X-Factor o roteirista provou que era capaz de surpreender. Um bom exemplo é a primeira história do grupo, que trata da imprevisibilidade da vida. Rictor está prestes a se suicidar, mas Madrox manda uma de suas cópias para salvá-lo. Depois de uma conversa no alto do prédio, a cópia revela ser a parte imprevisível da personalidade de Jamie Madrox e empurra Rictor do alto do edifício. Em uma história bem construída não é apenas o fato em si que impressiona, é todo o clima gerado pelo autor que desemboca na situação descrita. E David sabe construir bem suas histórias. Dessa forma, o spoiler por spoiler não rouba tanto o prazer da leitura.

Outro exemplo de história bem contada pelo PAD é “Sem Domínio”, publicada em X-Factor#16 (no Brasil, Wolverine #42) em que Madrox vai em busca de uma cópia sua que se tornou religioso com mulher e filho. É uma história emocionante e novamente bem construída, com as reflexões do personagem levando ao final da história. Mas esse é o tipo de história que passa batido em fóruns e não sofre os malefícios do spoiler.

A primeira das três edições de X-Factor cujo objetivo era surpreender os leitores.

A primeira das três edições de X-Factor cujo objetivo era surpreender os leitores.

O pedido de Peter David vem mais especificado na edição 39 de X-Factor (no Brasil, Wolverine #62, do mês passado) em que Syrin dá luz ao filho que teve com Madrox. A história é simplesmente genial e usa elementos já utilizados anteriormente na série. Talvez seja a melhor idéia para um bebê que eu já li em uma série de super-heróis. Mas eu não vou contar spoilers. O PAD pediu, eu acato. Se quiser saber o que acontece leia por si mesmo. O autor promete as mesmas emoções para as duas próximas edições.

Enquanto isso, no Brasil, uma revista que tem sido bastante agradável de ler é a Turma da Mônica Jovem. Cada edição tem sido bastante recompensadora. Fiquei pensando que talvez seja a nova roupagem de personagens da minha infância, ou o humor nas entrelinhas. Mas aí me dei conta que era mesmo a surpresa, a imprevisibilidade, que há muito tempo eu não tinha ao ler quadrinhos de super-heróis ou coisa assim.

É a mesma coisa que acontece no final do filme Pequena Miss Sunshine. (Se não viram, DEVEM assitir). O final é catártico, e você chora de rir porque é uma coisa que você realmente não espera. Eu quero que as pessoas sintam que elas têm que estar lá quando as coisas acontecerem, quero que exista uma ligação emocional entre os leitores e essas histórias“, disse David. E assim são as coisas mais gratificantes, aquelas que não geram ansiedade, que surpreendem e vêm na hora exata.

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Quando a porta da geladeira está fechada (04 de 50)

Asilo Arkham: Inferno na Terra

Asilo Arkham: Inferno na Terra

O que é?

Asilo Arkham: Inferno na Terra, no original, Arkham Asylum: Living Hell (2003) foi uma minissérie publicada pela DC Comics. Escrita por Dan Slott e desenhada por Ryan Sook. As capas eram desenhadas por Eric Powell, criador do The Goon. A história mostra como Warren White, um magnata das finanças que sempre se safa de seus trambiques acaba parando no Asilo Arkham, lar dos criminosos de Gotham, após alegar insanidade temporária. Lá ele aprende que essa alegação lhe custará a própria sanidade.

 

Por que eu gosto desse quadrinho?

Asilo Arkham: Inferno na Terra, à primeira vista pode parecer uma pretensa continuação para a graphic novel de 1988 de Grant Morrison e Dave McKean, mas não é. Pelos desenhos, uma outra daquelas histórias noir, mas não é. A autoria de Dan Slott, responsável por títulos como Mulher-Hulk e O Coisa, não aparenta que a série terá a carga dramática necessária para o universo de Batman, mas mais uma vez o pensamento óbvio está errado. A série possui um tom psicológico profundo e analisa as características doentias de alguns dos vilões de Batman, os motivos de suas patologias e o porquê de estarem no Arkham. Nesse caso a história se assemelha muito com a série Oz, que retratava o dia-a-dia de funcionários e detento de uma prisão estadual. Inferno na Terra lida não apenas com os vilões, mas com os dramas vividos pelos guardas, psicólogos e diretor do manicômio. Cada parte da história é mais ou menos focada em um drama e todos são levados ao grand finale. Desfilam entre os perigosos moradores do Arkham, Coringa, Hera Venenosa, Duas-Caras, Magpie, Crocodilo e o Chapeleiro Louco. Slott não deixa de lado o humor, e aí está mais uma razão para eu gostar da série. Ele se utiliza de um humor negro só seu, mais de acordo com um humor involuntário do que com o mesmo tipo de risadas provocadas por fatos mórbidos como em histórias de Warren Ellis ou Garth Ennis. Ah sim, por falar no Garth Ennis, Etrigan também tem a sua participação na trama.

Michael Jackson: Novo vilão do Batman?

Michael Jackson: Novo vilão do Batman?

Por que você deveria ler este quadrinho?

Explorar a galeria de vilões sempre foi um ponto alto das histórias do homem-morcego, particularidade que Bob Kane pegou emprestada de Chester Gould e os deformados vilões de Dick Tracy. A diferença é que os do Arkham trazem estampadas suas deformações psíquicas e as exibem também na maneira que compõem seus crimes. Em sua obra, Slott não explora apenas velhos vilões, mas cria seus próprios: Humpty Dumpty, trazido do universo de Alice, seria um vilão da Batgirl que tem obsessão por consertar as coisas que acha defeituosas, e, por causa disso, acaba provocando acidentes que o levam ao Arkham. A história da origem de Humpty é contada no melhor estilo Oz, só que da forma carismática de Slott: em versos rimados, como a história de sua versão original é mostrada na obra de Lewis Carrol. O ápice de sua história é engraçado, mas perturbador, levando a crer que Humpty é uma espécie de Norman Bates de Gotham. Outro motivo para ler o quadrinho é porque a minissérie mostra o que acontece no universo de Batman quando o Morcego não está por perto. Inferno na Terra é uma espécie de Gotham City Contra o Crime versão vilões. Imagine o que acontece em Gotham quando a porta da geladeira está fechada. E não estou falando do Sr. Frio.

 

O que dizem sobre este quadrinho?

“Esta é a grande história fechada do universo de Batman, possivelmente a melhor que eu já li. Se você é fã de Batman ou de Slot e ainda não leu esta história, talvez você mereça ser trancado no Arkham!” – Rob, do Pannel Patter.

 

Onde você encontra essa história:

Asilo Arkham: Inferno na Terra (maio de 2006, Mythos Editora)

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Possibilidades promissoras para patos e paladinos

Quando os fãs ouviram pela primeira vez que a Disney havia comprado a Marvel por 4 bilhões de dólares devem ter se perguntado: quando o Super-Pato e o Super Pateta irão se encontrar com o Homem-Aranha e o Homem-de-Ferro? Uma possibilidade curiosa, mas, na junção destas duas grandes empresas de entretenimento, é um dos fatos menos prováveis de ocorrer. A interação entre as duas empresas deve ir muito além de crossovers entre seus personagens.

Do outro lado da trincheira, podemos ver como a compra de uma editora de quadrinhos por um conglomerado pode ajudar a popularizar seus personagens. Em 1968, a Warner uniu-se à DC Comics – casa de Superman, Batman e Mulher-Maravilha – e a fusão das duas companhias tornou mais fácil levar Superman para as telonas em 1975. Mais tarde, em 1989, Batman estreou nos cinemas. O sucesso do homem-morcego alavancou a produção de desenhos e seriados dos heróis DC pela Warner. Alguns exemplos recentes são o desenho-animado da Liga da Justiça e o seriado Smallville. Ambos têm um público fiel e uma grande audiência, fato amplamente respaldado pelos estúdios Warner.

Bem como o grupo Time/Warner, a Disney também é um conglomerado com outras empresas sob seu guarda-chuva, entre elas os estúdios de animação Pixar, o canal ABC (de Lost e Desperate Housewives), as produtoras de cinema Touchstone e Miramax e os canais a cabo Jetix e History Channel. O que isso significa para a Marvel? A possibilidade serem produzidas animações de seus personagens pela Pixar, ou mesmo de algumas revistas adultas – caso de Alias e Poder Supremo – serem transformadas em séries e transmitidas pela ABC. Seria o paraíso para os fãs se o History Channel produzisse especiais sobre os bastidores da criação de seus heróis favoritos.

O principal interesse da Disney, contudo, está no cinema, a mina de ouro da Marvel, cujas franquias hoje se dividem entre Fox (X-Men, Quarteto Fantástico e Demolidor), Sony (Homem-Aranha) e Universal (Hulk e Homem-de-Ferro). Vale lembrar que há pouco tempo a Marvel fechou um acordo com a Universal para a distribuição de seus novos filmes produzidos pelos Marvel Studios. É possível que, com a aquisição pela Disney, a Universal pressione os Marvel Studios a acelerar a produção dos próximos filmes como Thor, Capitão América e Vingadores. A Disney prometeu honrar todos os contratos até que expirem e, então, poderíamos ver X-Men e Homem-Aranha juntos na mesma película.

E quanto aos quadrinhos? A princípio, a Disney prometeu pouca interferência criativa na Marvel Publishing. Por outro lado, podemos imaginar gibis de Piratas do Caribe, Kill Bill, Os Incríveis e até Lost. Para os personagens originais da Disney seria uma boa saída contar com o expertise em publicação da Marvel, já que, nos Estados Unidos, as revistas de Pato Donald e Mickey Mouse amargam baixas vendas, passando de editora em editora sem melhorias.

Esta compra representa possibilidades promissoras de interação entre as empresas envolvidas, não apenas para os negócios, mas para os fãs. Agora que a DC/Warner terá uma oponente com poder de fogo equiparado ao seu, veremos se ela não anunciará novos filmes de super-heróis ou acelerará o processo daqueles em pré-produção, caso de Shazam!, Lanterna Verde e Arqueiro Verde.

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Umbigo Sem Fundo: Uma Família de Imagens e Palavras

Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw

Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw

Um dos aspectos principais na produção de histórias independentes dos últimos anos é ter como temas principais o deslocamento e a disfuncionalidade. Cada uma trata de temas diferentes e desenvolve estes aspectos de forma a se adaptar com eles. Em Umbigo Sem Fundo, lançada mês passado pela Companhia das Letras, o tema central é a família e as relações que se dão entre seus vários integrantes. Tudo começa quando, depois de quarenta anos de casados, os pais da família Loony (maluco, em inglês) resolvem se divorciar. Para passar uma última semana juntos, os membros da família, filhos, netos e cunhados voltam a morar na casa na beira da praia onde cresceram. Os filhos, retratados bastante diferentes um dos outros, ecoam suas visões diversas sobra a família e divórcio. Dennis, o mais velho, se mostra nervoso e preocupado com o fim do casamento, ele é pai de família e acredita que as família são o pilar para uma vida de sucesso. Claire, a filha do meio, que já se divorciou, é atormentada pelo passado e pela preocupação com sua filha, Jill. Por fim, Peter, o caçula, está alheio a tudo isso agindo como se vivesse num mundo só seu, já que toda a família por vezes esquece que ele existe.

Dash Shaw

Dash Shaw

Na história, Peter é retratado como um sapo, – a não ser por um único quadro – pois é como ele acredita que a família e o mundo o vêem. Aqui a zoomorfização funciona como modo de trabalhar o deslocamento e a disfuncionalidade de uma forma gráfica e explícita, sem remeter a artistas que usaram este recurso anteriormente como Spielgman e David B.. Há ainda uma possibilidade de que Peter seja reflexo do autor, Dash Shaw, descrito como quieto e recluso em reportagens. Nesse caso, Peter lembra alguns personagens de Woody Allen principalmente quando retrata a si mesmo em seus trabalhos. Mas não é somente a semelhança com protagonistas que guardam analogia com o trabalho de Allen. O humor também segue um caminho parecido quando os personagens fazem piadas sobre si mesmos e seus entes queridos. Há uma cena bastante emblemática deste caso quando Claire imita os membros da família para sua filha, dizendo, ao final, que imitar Denis, descrito pelo autor como “um Homer Simpson com cabelos”, era crueldade, pois ele já era uma paródia de si mesmo.

O clima inicial da história lembra bastante Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, de Daniel Clowes pela sensação de estranheza e não-pertencimento que o leitor sente. Somos apresentados à família Loony através de gráficos, esquemas de layout e por cenas características dos quadrinhos undergrounds. Acabada a primeira parte da graphic novel – que tem mais de setecentas páginas –, entretanto, os personagens já cativaram e envolveram de uma forma que fica difícil largar o tijolão e fazer uma pausa para ler o que vem na sequencia, como o autor sugere na abertura.

Talvez o principal recurso narrativo que Dash Shaw usa em Umbigo Sem Fundo sejam os reflexos. Há desde reflexos que temos sobre nós mesmos (como a retratação de Peter como um sapo), do que os outros têm sobre nós (após ser comparada com um homem, toda vez que Jill é refletida, ela se vê como um) ou até mesmo os dos outros em nós mesmos (os filhos tornando-se pais e os pais tornando-se filhos), o que produz um efeito também reflexivo no leitor que passa a se colocar no lugar dos personagens. Afinal, se o leitor não foi pai, com certeza já foi filho.

Contemplação

Contemplação

Umbigo sem Fundo é uma história contemplativa, contada vagarosamente para que o leitor capte as nuances nos diálogos e nas cenas. Infelizmente, uma leitura apenas não dá conta de todos. Longas seqüências de imagens são usadas para mostrar experiências sensoriais como as páginas inteiras que mostram os diferentes tipos de areia e água. O mais impressionante é que estas imagens não guardam apenas uma grande carga sensória, mas também a sensibilidade de momentos-chave da narrativa e na emoção dos personagens. Há efeitos de leitura que remetem a filmes como Encontros e Desencontros que levam o leitor a ponderar a importância de momentos banais para os personagens. Por outro lado, esse efeito também é usado para realçar a importância de uma cena, como quando Peter vê Kat despindo lentamente a roupa, evento que leva quatro páginas para ser mostrado. A naturalidade e a casualidade são pontos altos da condução da narrativa  — atenção para as cenas explícitas de sexo, ou para quando os personagens recorrem ao banho para renovar suas energias — e lembra filmes da nova safra de filmes independentes como Pequena Miss Sunshine, A Família Savage e Juno.

Palavras utilizadas para substituir imagens

Palavras utilizadas para substituir imagens

Os desenhos da graphic novel não são muito desenvolvidos ou detalhados como em outros quadrinhos de autor. Lembram a simplicidade de Persépolis, mas têm a estranheza de traço dos quadrinhos underground. Porém, o recurso gráfico que mais chama atenção são as palavras. O autor lança mão de descrições e onomatopéias. Usa palavras para representar aquilo que não pode ser desenhado como barulhos e ações, ou por vezes para mostrar o efeito de uma ação ou diálogo sobre um personagem, como quando Peter ou seu pai encolhem os ombros. Se de início a utilização destes recursos pode parecer cansativa e repetitiva, por outro lado pode ser algo poético. Umbigo sem fundo é uma HQ sem cores. Para demonstrar um pôr-do-sol, Shaw desenha um horizonte e escreve sobre ele algumas cores em um quadro, outras cores em outro. Provavelmente o aspecto mais literário desta obra esteja, ironicamente, nas palavras que valem mais que mil imagens.

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Só os Inteligentes Podem Ver

Novo Projeto

Novo Projeto

Convido a todos para acessarem o blog soosinteligentespodemver.wordpress.com . Se trata de um novo projeto de quadrinhos, em parceria com o Fabrício Bohrer. Prentendemos postar alguns dos processos de produção da graphic novel, da criação dos personagens até a impressão. Acessem e comentem!

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A Linguagem do Albatroz – Cores

E agora, a primeira página de A Linguagem do Albatroz colorida.

A Linguagem do Albatroz - Cores

A Linguagem do Albatroz - Cores

Cortesia do M.A.O.S.

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Veja se Você Responde Essa Pergunta

Lançamento Veja se Você Responde Essa Pergunta

Lançamento Veja se Você Responde Essa Pergunta

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Wolverine, por Jason Aaron

  • Wolverine #64Wolverine #64
  • Engraçado… As pessoas pensam que, só porque tenho fator de cura, não sinto dor.

    Infelizmente, nunca foi o caso.

    Senti cada tiro, facada e queimadura que me detonaram ao longo dos anos.

    Mas pior ainda é a sensação quando meu corpo começa a se remendar… quando os nervos voltam a crescer. Tu não imagina a agonia.

    Fora a dor de ter um esqueleto coberto por adamantium… um metal inquebrável.

    Já fiz de tudo pra me livrar dela: acupuntura, meditação hindu, terapia aquática atlante, analgésicos alienígenas… mas nada funcionou.

    No final, tive de aceitar o fate e pronto.

    Dói paca ser Wolverine.

    _______

    Publicado originalmente em Wolverine#64 (2008)

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    A linguagem do albatroz

    A Linguagem do Albatroz

    A Linguagem do Albatroz

    A imagem acima faz parte da história A Linguagem do Albatroz, com roteiro meu e desenhos do M.A.O.S.. Uma história curta que está pra sair em breve como um novo projeto da Não Editora.

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    Epiléptico – A ascensão dos monstros internos

    David B. é um nome bastante conhecido na Europa, onde já trabalhou em diversos álbuns pela editora independente de quadrinhos L’Association, que ajudou a fundar. No Brasil é mais conhecido por seus dois álbuns intitulados Epiléptico. Neles o autor conta como sua vida foi alterada devido a doença do irmão, a epilepsia, ou como é chamado em francês, o Grande Mal (Haut Mal). A epilepsia é uma doença incurável, que causa convulsões, desmaios e vai, com o tempo, debilitando o cérebro. A odisséia dos pais atrás de uma cura para a doença do filho é a força-motriz da história. A família passa por acumpulturas e dietas macrobióticas, psicanálises e drogas, seitas religiosas e crenças sobrenaturais sempre na esperança que alguma dessas tentativas acabasse ou diminuísse o sofrimento da família.

    O desenho sempre foi a válvula de escape de David B., que na verdade chama-se Pierre-François Beauchard. Resolveu usar o nome de David, pois se identificava com os judeus ainda no tempo em que passava os finais de semana lendo literatura fantástica na biblioteca da sua casa. Foi da imaginação alimentada por histórias extraordinárias que surgiram os monstros que estão presentes em Epiléptico. Primeiro Pierre-François desenhava cenas ultra-detalhadas de batalhas históricas, depois, com o desenvolvimento da doença de seu irmão, Jean-Christophe, passou a ser acompanhado por criaturas sobrenaturais que representavam seus temores e instintos. Ao revelar seus impulsos e fragilidades na figura de seres horrendos, B. humaniza sua obra, dá forma às suas limitações e dessa maneira, às vence. “Desenhar essa história foi uma forma de exorcizá-la, torná-la algo meu, que eu pude entender e aceitar”, conta o artista.

    O autor une a narrativa com o processo criativo, explorando de maneira inteligente a linguagem dos quadrinhos e, a exemplo de Maus, de Art Spiegelman, transforma pessoas em animais e animais em pessoas – os monstros que o acompanham são aspectos de sua psique. Seus desenhos são baseados em artes japonesas, africanas, indígenas e medievais, chegando a ser comparadas inclusive à xilogravura. Quando da publicação na Inglaterra, o jornal The Guardian disse que Epiléptico era Harvey Pekar (de Anti-Herói Americano) desenhado por Picasso. Talvez por haverem se tornado seu refúgio, os desenhos de David B. guardam tanta riqueza nos detalhes. Seu irmão que, quando criança, tinha delírios de grandeza, queria ser como Hitler ou Gengis Khan, por outro lado, foi refugiando-se pouco a pouco na doença, perdendo quase toda a ligação que tinha com o mundo e ficando cada vez mais dependente da família e dos tratamentos.

    Marjane Satrapi, autora de Persépolis, foi bastante influenciada por David B.. Ambas histórias são autobiográficas e mostram uma criança tendo que crescer rapidamente forçada a encarar o mundo através da perspectiva de um adulto. Já crescidos, porém, não conseguem achar seu lugar entre os demais por terem a sensação de haverem vivido demais. Os dois artistas encontraram nos quadrinhos uma maneira de expor e exorcizar seus monstros. David B. compara a segregação por causa da doença do irmão com as diferenças entre as civilizações – tema central de Persépolis – e diz que a criação de Epiléptico foi uma maneira de buscar entender por que razão as pessoas se afastam umas das outras.

    Epiléptico ganhou prêmio de melhor roteiro no Festival de Angouléme em 2000 e David B. foi escolhido Artista Destaque no Prêmio Ignatz em 2005. Essa é uma história que merece atenção, outra da leva de autobiografias em quadrinhos, que ganham o leitor com a verdade e a crueza de sentimentos embutidos não apenas nas palavras, mas nos desenhos e na junção dos dois. Uma obra que nos leva a compreender a epilepsia não apenas do lado de quem sofre a doença, mas daqueles que convivem diariamente com a ascensão do “grande mal”.

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