Barbarella e a Poeira Cósmica

BarbarellaBarbarella é uma aventureira espacial criada por Jean Claude Forest, que usa seu corpo e sua sensualidade para derrotar seu inimigos. Foi um ícone feminino nos anos 60, quando teve um filme seu estrelado por Jane Fonda. As histórias e o filme são bastante psicodélicos e surreais, e o nome de um vilão da moça batizou a banda Duran Duran. Uma de suas historias mais famosas é a Saga de Xam, em que a heroína faz amor com Aiktor, um robô. Inspirado na personagem e por um dos meus sonhos estranhos escrevi este conto.

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Barbarella e a Poeira Cósmica

por Guilherme Smee

Acendem-se as luzes, ligam-se as câmeras e a ação começa. Uma senhora de 58 anos dança ao lado de robôs bonitinhos, de olhos grandes e pidões, coloridos, recobertos de fofa pelúcia, semelhantes a coelhos e gatinhos guti-guti. A coreografia é marcada e Teodora tem de esquecer artrite que a repetição daqueles movimentos poderia lhe causar. Tudo dependia dela fazer do jeito certo. Os robôs já estavam programados para bailarem, não errariam.

Teodora, a única humana naquela estação espacial. O programa que gravava era direcionado às crianças. No ano 2283 as loiras de coxas de fora já não causavam comoções nos baixinhos, nem convenciam aos seus pais, que imbuídos de pesquisas de influência psicológica e gráficos da influência das cores no crescimento de seus pequenos, selecionavam a melhor programação para rodar em seus teleoniróculos enquanto dormiam. As senhoras de meia-idade estavam na ordem do dia. Eram mais confiáveis e estavam sempre prontas para prestar lições de vida baseadas em psicologia barata. Teodora cantava a arcaica Sweet Dreams Are Made of This para a audiência e planejava sonhos com ilhas desertas e toneladas de junk food gordurenta para suas noites espaciais.

Os anos se passaram e os malditos cientistas ainda não tinham inventado uma maneira de acabar com os sintomas da menopausa. As ondas de calor a acompanhavam dia após dia e todo aquele suador a deixava excitada. Graças aos céus que o homem havia inventado o robô. Estavam à disposição o tempo todo, e seriam dois meses gravando programas ali, confinada.

O que diriam seus dois ex-maridos se dissesse que preferia os autômatos a eles? Aquelas engenhocas não brochavam, não reclamavam, iam devagar ou acabavam tudo em poucos minutos, conforme eram programados, não se chateavam se a vissem fodendo com outro e principalmente não gritavam o nome da filha da vizinha enquanto transavam. Também não deitavam de lado roncando com a mão nos peitos dela quando acabavam. Os coelhinhos e gatinhos mecânicos eram seus preferidos. Mas ela gostava de todas aquelas engenhocas.

“Bom dia, amiguinhos” Teodora dizia para saudar seu publico sonhador. “Aproveitem seus devaneios e cuidado com a vida, que a vida te pega, te pega daqui e te pega de lá! Até a próxima, e tenham bons despertares”, assim ela encerrava o programa e partia num submarino voador. Depois, ia à câmara criogênica, apanhava seus teleoniróculos e dormia. Coqueiros e um sundae duplo com cobertura extra. Areia branca, brisa leve, um hambúrguer de quatro camadas, cinco coxinhas de frango fritas, um milk-shake grande, embalados e pra viagem, por favor. Muita comida e ninguém para te importunar, como a vida deve ser.

Naquela noite o sonho foi diferente. Houve uma grave trepidação e um clarão vindo do sol da praia deserta. Teodora virou-se para o lado, afofou seu travesseiro e voltou à programação normal.

Teodora não sentia falta do contato humano, nem das conversas, nem do amor. Todos que conhecia a haviam traído, ou pelo menos era isso que pensava deles. Os filhos mandaram mensagens ofensivas quando souberam de sua decisão de encabeçar um programa infantil vestindo um vestido de vinil colante. Engraçado não comentarem os grandes valores enviados por ela.

Os dois meses que ficava na estação espacial eram os melhores. Ela se desconectava do mundo e era difícil partir sabendo que ia ter de lidar de novo com as pessoas. No fim daqueles sessenta dias veria mulheres tropeçando em cabos e falhando descaradamente e homens a pedir pensão e ações inesperadas e velhas em busca de um corpo como o dela e demonstrações claras de falsidade e crianças pedindo para ter sua atenção por horas e manifestações egoísmo. Já dizia o comercial: como os robôs simplificam sua vida, não é mesmo?

O dia de partir então chegara. Teve o cuidado de, nos últimos dias, despedir-se calorosamente de todos os robôs e foi até a plataforma de malas em punho. Não havia uma nave a esperando, como de costume. E lá, no ponto onde deveria existir o planeta Terra, havia apenas destroços e poeira cósmica flutuando no vácuo. Teodora girou em seus calcanhares e sorriu, pois estava definitivamente de volta à estação espacial.

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