Arquivo para Fevereiro, 2009

Omissão

“Os quadrinhos podem ser considerados como a arte de omitir”

Joris Driest,  Subjective Narration in Comics

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As HQs como extensões do homem

Marshall McLuhan: O meio é a mensagem

Marshall McLuhan: "O meio é a mensagem"

Em 1964, Marshall McLuhan lançava o livro Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media: the Extensions of Man). Suas teorias foram revolucionárias para a Teoria da Comunicação por postular, entre outras idéias, que o meio de comunicação não apenas conduz a mensagem, mas que o meio é a mensagem. Segundo McLuhan, os meios não condicionam seu público pelo que informam, mas pela maneira como informam. A mudança de percepção ocorre devido ao meio e não ao seu conteúdo.

Seguindo esse raciocínio, o teórico dividiu os meios de comunicação em mídias “quentes” e “frias”, de acordo com as fases quentes e frias do jazz. As mídias quentes, como fotografia e cinema, são menos interativas e mais diretas; permitindo que a audiência seja passiva em relação a elas. As mídias frias, por outro lado, requerem mais participação por parte de sua audiência e, por isso, são mais interativas. Os quadrinhos são uma mídia fria porque “o observador, ou o leitor, é compelido a participar completando e interpretando as poucas pistas deixadas nas entrelinhas”. É a idéia da sarjeta de Scott McCloud que retorna aqui, os espaços em brancos entre quadros nos quais o leitor de quadrinhos deve depositar sua imaginação para que a história faça sentido.

MAD: tão envolvente quanto um anúncio publicitário
MAD: tão envolvente quanto um anúncio publicitário

Marshall McLuhan dedica um capítulo de seu livro às histórias em quadrinhos, em especial à revista MAD. O autor diz que as histórias em quadrinhos foram substituídas pela televisão e que histórias como Ferdinando, de Al Capp perderam sua audiência por causa deste advento. Sobraria para a revista MAD encantar as crianças e os adolescentes americanos criando um envolvimento tal que, segundo o autor, é semelhante aos dos anúncios publicitários. O teórico também estabelece uma comparação entre as HQs e a televisão, pois para ele, as duas são mídias frias: “As histórias em quadrinhos, apresentando baixa definição, possuem uma forma de expressão altamente participante, perfeitamente adaptada à forma do mosaico do jornal. Dão também um sentido de continuidade de um dia para o outro. Também as notícias sobre pessoas são de baixo teor informacional e por isso convidam a que o leitor as preencha, exatamente como acontece com a imagem da televisão e a radiofoto”.

Diz McLuhan ao final de seu capítulo sobre os quadrinhos: “A era pictórica do consumo está morta. Sobre nós vem a era icônica”. Os personagens de quadrinhos deixaram há muitos anos de ser apenas figuras para tornarem-se ícones. Seu papel como garotos-propaganda já foi comprovado e também já foi comprovado que o estímulo que leva uma pessoa a comprar uma revista é o mesmo que a leva a comprar um alimento ou um brinquedo com as cores e o nome de seu personagem de quadrinhos. O consumidor não leva pra casa o objeto de consumo, mas o personagem inserido nele. De forma semelhante trabalham as marcas quando o consumidor compra um produto sem levar em conta seus benefícios, mas o símbolo que está gravado nele.

Apreensão Cognitiva, um pacto entre o autor e o leitor.
Apreensão Cognitiva, um pacto entre o autor e o leitor.

Segundo McCloud, os quadrinhos fazem uso extensivo de ícones para representar objetos, ações, entidades, idéias. São representações icônicas do mundo. Tudo isso graças à apreensão cognitiva, conforme explica Wellington Srbek em seu livro Um Mundo em Quadrinhos: “Seu figurativismo é um elemento essencial para a assimilação de uma história em quadrinhos. (…) O caráter icônico das imagens dos quadrinhos assegura um limite básico de coincidência entre as intenções do autor e a interpretação do leitor”.

Esse limite básico de coincidência é o que torna a mídia dos quadrinhos interativa. É o “pacto” estabelecido entre leitor e autor que permite uma leitura subliminar dos quadrinhos e através do qual as possibilidades comunicativas à disposição de um autor de quadrinhos tornam-se virtualmente ilimitadas, tornando as histórias em quadrinhos uma extensão de quem as produz e de quem as lê.

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ThingsMag #6

Está no ar a ThingsMag #6. Minha colaboração é um texto sobre o Che de Oesterheld, baseado no texto que publiquei no blog ano passado. Confiram!

things

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Wolverine e o Slogan da Tostines

“Sabe, só tô fazendo pra aumentar as vendas”. Wolverine em X-Force#120 (X-Men Extra#11)

“Sabe, só tô fazendo pra aumentar as vendas”. Wolverine em X-Force#120 (X-Men Extra#11)

Há alguns anos se questionava a presença massiva de Wolverine em capas de revistas e sua participação em histórias de diversas equipes mutantes e de outros heróis da Marvel. O que ninguém pode negar é que Wolverine vende. Isso é um fato. Entretanto aqui se aplica o famoso questionamento da Tostines: È Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine?

Tudo começou em uma história do Hulk contra Wendigo, de Len Wein e John Romita Sr., em 1974. Wolverine é um agente do serviço secreto canadense e entra no pau com o Gigante Esmeralda. No fim, claro, tudo é resolvido. O bandido perde, a mocinha é salva.

Os X-Men nesse tempo sofriam uma terrível baixa de vendas e vinham se sustentado a duras penas com republicações. Eis que surge Giant Size X-Men revitalizando a equipe mutante e trazendo novos pupilos para Xavier. Wolverine é um deles, um pálido e apático personagem que não conseguia se fazer perceber na equipe. Logan viu tudo mudar em sua vida quando o anglo-canadense John Byrne assumiu o lugar de Dave Cockrum no desenho. Byrne conseguiu dar força suficiente ao seu conterrâneo para que o transformasse no mais popular x-man.

Violência. Sangue. Ação. Instintos animalescos. Um passado misterioso. Todos eles eram os temperos necessários no caldeirão de Chris Claremont e John Byrne para os primeiros anos de Wolverine e se tornaram constantes em sua vida quadrinística desde então. Esses elementos agradavam ao leitor, cansado de heróis contidos e politicamente corretos como Super-Homem e Capitão América. Os tempos eram outros, a violência urbana e familiar começava a exibir índices de crescimento. A derrota na Guerra do Vietnã havia deixado muitas seqüelas na mente e na honra dos americanos. Anti-heróis como Lobo e Justiceiro surgiam. Wolverine e os X-Men estavam, então, em franca ascensão.

Agora é a minha vez!

Wolverine: "Agora é a minha vez!"

Infelizmente chegou um derradeiro momento, que se percebeu que se colocassem Logan na capa da revista, ah… era o paraíso dos investimentos. A Marvel seguiu este caminho e começou a colocar o Wolverine em todas as revistas possíveis e imagináveis: Excalibur, Novos Mutantes, X-Factor, Hulk, Homem-Aranha, todos recebiam a inesperada visita de Wolverine nas suas revistas… e as vendas aumentavam. Inúmeras minisséries, sejam solo ou com Logan fazendo parceria com heróis como Nick Fury foram lançadas. Wolverine, nessa fase, chegou inclusive a fazer parte do Quarteto Fantástico! Por quê? Ora, vocês ainda perguntam?! Aqui se aplicava o princípio do é Wolverine porque vende mais.

Surgiram inúmeras versões para a origem do baixinho canadense e o personagem ficou mais “misterioso” e confuso do que nunca. Se ele não podia dizer nada de seu passado, muito menos nós…

Vende mais porque é Wolverine ou é Wolverine porque vende mais?

Vende mais porque é Wolverine ou é Wolverine porque vende mais?

Em 1992, com a estréia da série animada dos mutantes e com seu coerente incremento na popularidade dos X-Men, Wolverine tornou-se uma variável controlável do marketing da Marvel. Wolverine, ao lado do Homem-Aranha, passou a representar a editora. Inúmeros produtos foram lançados com o baixinho canadense no rótulo, desde canetas até sucos e sopas de letrinhas. Todas um sucesso de venda. Quer melhor situação para a Marvel? Além de ganhar royalities sobre os seus personagens, ainda tinha merchandising gratuito para suas revistas: — Mãe! Olha a revista do carinha da camiseta! Compra! Eu vi na TV!

Bons tempos… foi nesses tempos que a maioria de nós foi fisgado pela “onda X-Men”. Mas tudo que é bom dura pouco e a Marvel pediu falência… Os produtos derivados desapareceram das prateleiras. A popularidade baixou e as vendas caíram. Reconheceram que não adiantava colocar personagens populares e belos desenhos para que uma publicação desse certo, muito menos personagens chupados de outros (Youngblood e WildC.A.T.S. que o digam!), eram necessárias argumentos coerentes e consistentes. A Marvel fez uma faxina na casa e pelo final da década de 90, começou a contratar nomes premiados e de peso para a sustentação de histórias mais polêmicas e maduras. Dentre eles, Chris Claremont, o mestre em X-Men, haja visto a sua permanência no título: 19 anos ininterruptos.

iogurte, sopa, manteiga.

Wolverine: iogurte, sopa, manteiga.

Wolverine continuava ali, agora um pouco mais de canto, depois de perder o adamantium e o nariz (ué? tudo em nome das vendas, pessoal!), mas sempre alavancando as vendas de qualquer herói capenga que lhe estendesse a mão. O nosso querido peludo viu sua estrela brilhar novamente com o anúncio de X-Men, o Filme(2001). Qualquer fã de X-Men que se preze podia apostar todas as fichas em que Wolvie iria protagonizar essa série. Resultado: maaaais popularidade para o Tio Logan e para os pupilos do Chuck. No segundo filme, X2(2003), Wolverine pode mostrar a que veio e liberou toda a agressividade contida na primeira película. Isso bastou para que os espectadores caíssem de joelhos e pedissem bis. Realmente, a maior parte da ação ficou nas mãos (cheias de garras) de Wolverine.

Influenciadas pelo filme, as revistas aposentaram os uniformes colantes coloridos e desfilaram a nova coleção de roupitchas feitas com couro e metal. As revistas também passaram por uma reformulação, ganharam temáticas novas e independentes, mas mesmo figurando no Top Ten, das revistas mais vendidas nos EUA, todas elas estão atreladas, pois coincidência ou jogo de mercado, todas contam com a participação supra-especial do canadense. Aqui se aplica, vende mais porque é Wolverine.

Estréia em maio

Wolverine Origins: Estréia em maio

E Wolverine não ajudou apenas à popularidade dos X-Men, ele alçou a carreira de Hugh Jackman, que hoje é reconhecido como um dos melhores atores surgidos nos útimos tempos e tido como sex symbol (apesar de representar o Wolverine). No filme que será lançado em maio deste ano ficaremos sabendo um pouco mais do passado do mutante de garras de adamantium e, ironicamente, ocorrerá um fator inverso ao que acontece nas revistas. Ao invés de termos a participação de Wolverine em diversos títulos, teremos “aparições especiais” de inúmeros personagens dos quadrinhos: Gambit, Emma Frost, Espectro, Deadpool, Raposa Prateada, Blob e até o Bico. De qualquer forma, a Marvel já preparou um batalhão de revistas com Wolverine na capa para aquele mês. 11 no total.

Mas, afinal, é Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine? Bom, aí vocês me pegaram… Essa é uma daquelas Perguntas Eternas.

Coluna publicada originialmente no site Mutação.com sob a assinatura de Discípulo X.

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Supermassive Blackholes

Muse

Muse

Perto da parada final do metrô vem uma música. A música vem de uma casa noturna. A casa noturna está cheia de gente. Gente que logo fica amiga. Amigos, depois de alguns drinks. Um drink à minha fossa. Uma fossa que é um buraco negro. Um buraco negro que a arrasta. E arrasta as pessoas ao seu redor. E o seu redor vai ficando escuro. Escuro, porque fecha os olhos. Fecha os olhos porque não quer ver. Não precisa ver quando se beija. Beijando boca estranhas. Estranhas bocas que se arrastam sobre a boca dela. A boca dela é um buraco negro engolido por outros buracos negros. Até formarem um buraco negro supermassivo, cheio de bocas, cheias de saliva, cheias de gostos diferentes.

Ela não sabe até onde foi arrastada. O buraco negro em movimento. Engolindo pensamentos, sensações, idéias. Girando, girando, girando. Hahahahahaha. Tudo é bom. Meu ex é bom. O atual também. E esse que eu beijo agora tem gosto de noite morta. Hoje ela não precisa se decidir. Ela pode com todos, sendo levados diretamente para seu buraco negro, onde ela absorve suas luzes. Ninguém deve brilhar mais do que ela essa noite. A luz desponta, ela absorve. A boca se abre, a língua aparece, os dentes mordem. Um, dois, quinze. Superstar.


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ComicSpace

Imagem de O Quarto Desejo

Imagem de O Quarto Desejo

Atualizei minha página do ComicSpace com o preview de Os Bons Morrem Jovens e de O Quarto Desejo. Para conferir basta clicar nesse link ou clicar no link na barra à direita.

Imagem de Os Bons Morrem Jovens

Imagem de Os Bons Morrem Jovens

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As coisas que deixamos para trás (03 de 50)

DC Especial #1

DC Especial #1

O que é?

Run de Brad Meltzer no titulo do Arqueiro Verde, o arco chamado Arqueiro Verde: A Busca. Ao lado do ex-parceiro Arsenal, Oliver Queen, o Arqueiro Verde, percorre o país em busca de objetos importantes da sua vida.

Por que eu gosto desse quadrinho?

Um dos meus tipos favoritos de filmes são os road movies. E Arqueiro Verde tem uma certa tradição com histórias de estrada. Essa é uma daquelas histórias em que o herói deve atingir um objetivo. A diferença é que, num primeiro momento, não sabemos que objetivo é esse e quando nos damos conta da natureza do mesmo, percebemos que esta não é uma história de super-heróis tradicional.

Há o carisma de Oliver Queen, um dos super-heróis mais únicos que já apareceram nos quadrinhos de super-heróis. Engajado, canalha, figura paternal. Dennis O’Neil transformou Queen de imitação do Batman num personagem esférico, e em A Busca, Meltzer aumenta o estofo do herói, criando e desenvolvendo algumas nuances que precisavam ser trazidas à tona depois de sua ressurreição pelas mãos de Kevin Smith.

Phil Hester e Ande Parks garantem o estilo animated para o arco, remetendo aos desenhos animados da DC Comics e dando continuidade ao estilo que consagrou a retomada do Arqueiro e continuou com ele algumas edições depois, já sob os roteiros de Judd Winick.

E, por último, a HQ tem sentimento. Nada piegas, ou excessivamente romântico. Mas revela uma camada nem sempre mostrada nas aventuras de super-heróis. Que emoções levariam um homem a empreender uma busca ao seu passado atrás de objetos que marcaram sua carreira? A resposta surpreende o leitor.

Por que você deveria ler este quadrinho?

Arqueiro Verde: A Busca faz parte de uma nova maneira de fazer quadrinhos. Um jeito que começou a se consolidar no final dos anos 90 e tomou corpo nesta década. É uma volta às origens, um road movie em direção à essência dos super-heróis sem deixar o suspense, os bons diálogos e a aventura de lado. É uma preocupação com o lado humano do justiceiro mascarado sem ter que se preocupar em quebrar a sua coluna, matá-lo ou causar uma tragédia em sua família.

O que se vê hoje em dia é uma tentativa de resgatar determinados elementos perdidos após as Eras de Ouro e de Prata: o otimismo constante e a esperança dos heróis e, claro, nessa onda nostálgica, aparecem aqui e ali alguns elementos mais estrambóticos, porém de valor sentimental, como a flecha com ponta de diamante, na história em questão, que marca a adesão de Oliver Queen à Liga da Justiça da América.

Você deveria ler esse quadrinho se você gosta de suspense, personagens bem construídos, diálogos precisos, nostalgia, a Jornada do Herói, pingos nos i’s, road movies e da sua família.

Diálogo de Queen e Connor Hawke

Diálogo de Queen e Connor Hawke

O que dizem sobre esse quadrinho?

“Os quadrinhos evoluíram. O gênero de super-heróis, principalmente, se tornou muito mais sombrio, amargurado e violento e, por que não, mais realista (tanto quanto é possível ser realista em uma história onde o personagem principal é o único sobrevivente de um planeta moribundo que pode saltar sobre prédios em um simples pulo).

E nostalgia virou um palavrão.

Este é um dos motivos pelo qual a Busca é tão marcante. Em uma época em que os super-he´rois sofrem todas as mazelas possíveis – desde problemas conjugais ate arroubos de auto-recriminação –, Meltzer, Hester e Parks criaram juntos uma história que explorou magistralmente o conceito de pureza dos super-heróis do passado sem cair nas exigências do mercado de hoje”.

Greg Rucka, escritor de várias séries DC, entre elas, Gotham City Contra o Crime, 52 e Xeque Mate, em seu pósfácio do arco A Busca.

Onde você encontra essa história:

DC Especial#1 – Arqueiro Verde: A Busca (março de 2004)

Frase:

“Você é um canalha Ollie Queen. Você sabia. Sempre soube. E o pior de tudo é que… Esse ainda é o seu segredo”.

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