Black Hole – Sexo, drogas e surrealismo

Black Hole, de Charles Burns, pela Conrad

Black Hole, de Charles Burns, pela Conrad

A sensação de estar caindo em um buraco negro é recorrente durante a adolescência. O mundo está mudando, o corpo está mudando e nem sempre se consegue acompanhar essa mudança. A graphic novel Black Hole – Introdução à Biologia, de Charles Burns, desperta esta impressão no leitor, mas de modo potencializado. A história mostra adolescentes descobrindo as drogas e o sexo na Seattle dos anos 1970. Estas primeiras experiências se tornam terríveis quando uma doença que se dissemina pelo contato sexual assola a cidade, gerando as mais variadas mutações.

Durante uma festa, Chris conhece Rob. Decidem sair da festa para conversar melhor. A garota leva uma garrafa de vinho. Bebem o vinho, beijam-se, deitam-se no chão e transam. Chris resolve beijar o pescoço de Rob. Quando ela puxa a gola da camisa do rapaz para baixo, enxerga uma segunda boca em seu pescoço, fazendo sons guturais. E tudo fica frio como a certeza de que estava com a doença.

Que tal beijar uma boca no pescoço?

Que tal beijar uma boca no pescoço?

É fácil perceber que a graphic novel de Burns traça um paralelo com os primeiros anos da conscientização do perigo da AIDS e de como a doença reprimiu as pessoas que uma década antes haviam se libertado sexualmente. Burns mostra que o sentimento de deslocamento é tão presente nos infectados quanto nos sãos, e insinua que a praga sexualmente transmissível não é o único problema entre os personagens, mas a própria adolescência e o despreparo em lidar com o embate entre perigo e prazer que ocorre em suas cabeças. O autor se aproveita deste conflito para desenvolver cenas surreais, em que pessoas têm o corpo de serpentes marinhas, um cigarro se torna uma espécie de ser vegetal, imagens que surgem em sonhos ou em alucinações geradas pelo consumo de LSD. O que torna tudo ainda mais alarmante é perceber que estas visões se concretizam em Seattle, com escalpos encontrados na margem de um lago ou criaturas deformadas habitando a mata fechada, todos resultados da praga.

Os efeitos da moléstia podem ir de pequenas manchas e rasgos na pele a deformações extremas no rosto como calombos e pústulas. “Gosto de pensar na adolescência como uma doença que aflige as pessoas e que as afeta de modos diferentes”, justifica o autor. “Naquele tempo eu me sentia como uma criatura alienígena”.Há uma passagem na história em que Keith encontra uma garota de costas e nua da cintura para baixo. O rapaz fica atraído e também apavorado: a garota tinha um rabo, um pedaço de pele que se mexia sobre sua bunda. Ela era um deles, os infectados.

Uma garota com um charme a mais.

Uma garota com um charme a mais.

Se Black Hole fosse um filme poderia ser dirigido por David Cronemberg, cineasta conhecido por desenvolver películas que aproximam o físico do psicológico de uma maneira bastante explícita (A Mosca, Crash – Estranhos Prazeres). Assim como Cronemberg, Charles Burns não se furta em mostrar ferimentos abertos, órgãos sexuais, consumo de drogas e outros detalhes que algumas obras deixam de retratar sob o pretexto de ofender alguém. Em sua filmografia, Cronemberg tentou mostrar que seus filmes devem ser assistidos através do ponto de vista da doença. Da mesma forma que Black Hole encara a adolescência e suas transformações de uma forma mais radical, doença e desastre, na obra de Cronemberg, são encarados mais como agentes de transformação pessoal do que problemas a serem superados.

A arte do quadrinista reforça o sentimento de aprisionamento e deixa as passagens inquietantes ainda mais terríveis e sombrias. Burns se utiliza de um traço pesado, porém extremamente detalhista. Os quadros são todos completos, com cenários bem desenvolvidos e, por vezes, na história é possível sentir até claustrofobia. O suspense se mostra eficiente em uma história em quadrinhos que utiliza um contraste tão intenso entre luz e sombras, resultado de xilogravura numa técnica chamada scratch board, de uma maneira que leva a crer que o perigo está presente a todo tempo, espreitando sob uma extensa área de nanquim.

Linhas sinuosas, o uso de chiroscuro e o deslocamento dão o clima da história

Linhas sinuosas, o uso de chiroscuro e o deslocamento dão o clima da história

Apesar de lidar com temas de ficção científica todos os personagens de Black Hole são reais, com motivações e preocupações que qualquer um de nós teria durante a adolescência. Keith, Rob e Chris poderiam ser qualquer um de nossos colegas e também nós mesmos. A realidade dos personagens é tão incerta, que Chris tenta deixar de lado suas inquietações beijando a boca no pescoço de Rob, o único amparo que lhe restava. Por sua vez, a garota com rabo é uma das personagens mais carismáticas da HQ, talvez por ser esse misto de sensações e sentimentos, que a fazem parecer ao mesmo tempo sensual e abominável. Em Black Hole – Introdução à Biologia, o surreal torna-se verossímil.

Beijo na boca

Beijo na boca

Originalmente, a história foi publicada em doze edições e levou dez anos para ficar pronta (1995-2005). Black Hole é derivada da série Teen Plague (Praga Adolescente), publicada por Burns na revista Raw, nos anos 80. A revista Raw era editada por um dos grandes nomes do quadrinho underground americano, Art Spiegelman, autor de Maus e ganhador do Pulitzer por este trabalho. Já Black Hole ganhou o Eisner Award (espécie de Oscar dos quadrinhos americanos) de melhor álbum em 2006 e 9 Harvey Awards. Charles Burns foi responsável pela autoria de boa parte das capas dos primeiros discos do selo Sub Pop que, entre outros, descobriu o Nirvana. A segunda parte da história foi prometida pela Conrad Editora para este ano.

Um filme adaptado da graphic novel está sendo preparado, com roteiro de Neil Gaiman (Sandman) e Roger Avery (Pulp Fiction – Tempo de Violência), dupla responsável pelo roteiro de A Lenda de Beowulf. As últimas notícias dão conta que David Fincher (Zodíaco, Clube da Luta) dirigirá a película.

A fixação de Burns pela adolescência se revela também no visual dos personagens, baseados em amigos e colegas de escola daquele período de sua vida. “Nunca superei esta fase”, o autor chegou a afirmar. Black Hole – Introdução à Biologia é aquela graphic novel ideal para se ler de uma vez só durante uma madrugada chuvosa e é indicada para quem gosta de história de horror, mas também para aqueles que se deleitam com seqüências delirantes e gostam que o inusitado os espere a cada virada de página.

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Publicado originalmente em ThingsMag #2

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Persépolis – Estrangeira no próprio país

Persépolis Completo, de Marjane Satrapi pela Companhia das Letras

Persépolis Completo, de Marjane Satrapi pela Companhia das Letras

O ano era 1979, e a revolução iraniana caiu feito uma bomba na cabeça da pequena Marji. Engana-se quem pensa que a revolução foi obra dos fundamentalistas muçulmanos. Como é mostrado na autobiografia em quadrinhos Persépolis – Completo, de Marjane Satrapi, a revolução começou com ares socialistas, com manifestações populares nas ruas. Era uma revolução do proletariado, usando a religião apenas como mais um pretexto para derrubar o tirano Xá que os governava. Mais tarde, seria controlada e contida pelos “barbudos”, como são chamados pela autora os representantes do setor fundamentalista, que impedem que a antiga monarquia se transforme em uma república laica. Fortemente influenciado pela religiosidade islâmica, o Irã se vê despojado da liberdade que conquistara nas últimas décadas. Marjane, por sua vez, se viu separada dos meninos na escola e forçada a usar véu aos dez anos de idade. O uso do véu era obrigatório, já que as autoridades afirmavam que os cabelos das mulheres emanavam raios que atraiam os homens.

Como é mostrado na história, quando pequena, Marjane queria ser profeta e conversava com Deus todas as noites. Com a chegada da revolução, passou a ler o materialismo dialético em quadrinhos e abandonou o Todo-Poderoso. Como uma espécie de Mafalda (criação do argentino Quino) do Irã, a Marji criança é politicamente consciente e ousa fazer perguntas que até os adultos evitariam.

A graphic novel ganhou prêmio no Festival de Angoulême, na França e foi escolhida como melhor HQ na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. A obra, agora compilada, foi publicada inicialmente em quatro partes (lá fora e no Brasil), nas quais a autora mostra como é lidar com um país e uma maneira de viver com os quais não se encaixava. Estrangeira em seu próprio país, estranha em um lugar estranho, é a singularidade de suas experiências que dão o tom da graphic novel. O sentimento de não-pertencimento, a vontade de fazer diferente, marcam as ações da protagonista, seja por seus pensamentos ocidentais em um país muçulmano ou por sua cultura iraniana na Europa, para onde é enviada aos 14 anos, fugindo da guerra Irã-Iraque que irrompia em sua terra natal.

Apesar de lidar com a dureza dos anos de guerra, e provocar relatos emocionantes como a despedida de seu tio Anuch, ou a lembrança do cheiro de jasmim da avó, a autora também consegue trazer humor ao que conta, como ao lembrar que, ainda criança, inventava as histórias mais inverossímeis sobre seu pai ser um herói da revolução, e as relatava para as outras crianças, em busca de admiração ou ao revelar que o nome da sua tia, que no Irã significava “paraíso”, era uma gíria para “vagina” na Europa. “Minha tarefa é fazer rir, pois rir pode ser uma arma bastante subversiva”.

Ao ler Persépolis, é impossível ficar indiferente aos contrastes entre a cultura ocidental e a fundamentalista muçulmana. Marjane, que era fã de Bruce Lee, Michael Jackson e Iron Maiden, e gostava de cantar Kids in America, só podia ter acesso a esse tipo de entretenimento clandestinamente. Na HQ, Marjane revela que mostrar o pulso, rir alto e possuir um walkman eram considerados subversão. No Irã, as festas tinham de ser em segredo e as bebidas eram utilizadas clandestinamente: muitas vezes, os agentes de governo faziam ronda nas casas para acuar e prender quem festejasse. Durante uma perseguição, um de seus amigos cai de um telhado e morre.

Os desenhos de Satrapi são extremamente simples, e alguns poderiam dizer que são feitos por uma criança, mas foi essa naturalidade que conquistou o mundo. Persépolis foi publicada em mais de 15 países. Os desenhos têm apelo universal, como os melhores quadrinhos infantis, mas retratam questões adultas. A narrativa acompanha as idas e vindas de Marjane, das guerras ao exílio, do retorno ao Irã à decisão de morar na França. “Nestas graphic novels, eu não só conto 16 anos da minha vida, mas passagens que por muito tempo eu quis esquecer, que foram muito dolorosas. Por serem tão verdadeiras e ao mesmo tempo terem humor, acabaram tendo apelo universal”, expõe a quadrinhista.

Não é possível dizer se os piores anos da vida da autora foram os que ela passou no Irã em guerra ou sozinha na Europa. No velho mundo, Marji era vista como estranha na escola, e apesar de ter conquistado amizades de outros párias como ela (Momo, o punk, Julie, a liberada, dois órfãos, os oito gays que moravam com ela numa república), o conflito interno entre a negação de suas origens e a auto-afirmação era imenso. Naquela época, para se integrar na escola, Satrapi começou a traficar drogas e também a consumi-las em excesso até, como ela mesma diz, virar um legume. Meses depois, com o final frustrante de um namoro, ela passa a atravessar as noites em metrôs, a dormir na rua, até parar no hospital. Afinal, qual é o pior sofrimento: o que é compartilhado entre milhares de pessoas ou aquele que só você sente?

De volta ao Irã, Marjane vê que os perigos não acabaram. Tem de enfrentar a ortodoxia da universidade e as dificuldades do casamento. Na faculdade de artes, as aulas de desenho anatômico tiveram o modelo nu substituído por uma pessoa coberta da cabeça aos pés. Os alunos deviam recorrer à imaginação para poder retratá-los. Hoje, Marjane mora em Paris e faz cartuns para jornais como o The New York Times.

Em 2007, Persépolis foi transformada em uma animação dirigida por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. O filme foi aplaudido de pé na última edição do Festival de Cannes e foi o vencedor da Mostra Internacional de São Paulo. Indicada ao Oscar 2008 de melhor animação, concorreu com Ratatouille e Tá Dando Onda.

Persépolis é mais uma daquelas obras que promovem a abertura de mente para a cultura muçulmana, onda que arrebatou o mundo a partir do 11 de setembro, mas o faz de uma maneira diferente. Não traz apenas uma paisagem dessa civilização, mas através de um “infiltrado”, mostra a busca de liberdade por uma pessoa que vive sob um intransigente e radical governo islâmico, como nos livros O Caçador de Pipas e Lendo Lolita em Teerã.

Persépolis é indicado para quem gosta de desvendar culturas diferentes e aprecia filmes como Casamento à Indiana, Memórias de Uma Gueixa e O Último Imperador. É o retrato de uma luta contra a opressão de um regime político guiado por visões de mundo tradicionalistas e falsos moralismos. Mas também é recomendado, principalmente, para quem se interessa pela jornada humana da auto-descoberta. A mensagem que fica da HQ é o conselho da avó de Marjane, sempre a voz da razão na narrativa: “Para se integrar é preciso manter a própria integridade”.

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Publicado originalmente em Things Mag#1

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Marvel Divas

Marvel Divas. No sentido horário: Flama, Fóton, Felina e Gata Negra.

Marvel Divas. No sentido horário: Flama, Fóton, Felina e Gata Negra.

Semana passada Joe Quesada anunciou uma nova minissérie da casa das idéias: Marvel Divas. O editor-chefe anunciou a série como uma espécie de Sex and The City com super-heroínas. Foi divulgada a capa de J. Scott Campbell. Como roteirista foi escolhido o competente Roberto Aguirre-Sacasa e o croata Tonci Jonzic. Mas o que eu pergunto é: a Marvel vai publicar um história falando de sexo? Talvez esteja seguindo uma corrente, já que foi lançado ano passado um anual do Homem-Aranha Ultimate em que Peter Parker e Mary Jane discutiam sua primeira vez. E com certeza é uma evolução, já que não é a primeira vez que a Marvel tenta dar um enfoque maior para suas personagens femininas.

Patsy Walker: revistas de romance faziam sucesso nos anos 50 pela Marvel.

Patsy Walker: revistas de romance faziam sucesso nos anos 50 pela Marvel.

A primeira tentativa foi no final da década de 40 com revistas como Namora e Vênus, lançada no crepúsculo dos super-heróis. Claro que a editora já tinha um nicho formado para as leitoras com revistas de romance e de humor adolescente, entre as quais Patsy Walker, da qual falarei mais daqui a pouco. A segunda tentativa foi na década de 70, tentando se emparelhar com os movimentos feministas. A Marvel lançou três revistas: Shanna, a Mulher-Demônio, A Gata e Night Nurse, mas a empreitada não logrou sucesso (para saber mais sobre essas séries leia a matéria que fiz para o Fanboy sobre o feminismo e as super-heroínas aqui). Durante o final da década de 70 e início da década de 80, outras heroínas se destacaram: Miss Marvel, Mulher-Aranha e Mulher-Hulk. Nos anos 90, as mulheres dos X-Men foram bastante valorizadas, mas em conta do fator comic babe. Psylocke era a musa de muitos garotos. Nos anos 2000, com uma onda de revival dos anos 70 encabeçada por Brian M. Bendis, as heroínas dos anos 70 voltaram aos holofotes. Miss Marvel e Mulher-Hulk ganharam títulos próprios.

Mas em toda esta história como esquecer da maior diva da Marvel?

Ela é a Disco Queen!

Ela é a Disco Queen!

Ela tem o rosto pintado com glitters, ela usa uma roupa de vinil branco, usa um globo de luz pendurado no pescoço, é loira, canta e dança, dança de patins. É claro que estou falando da Cristal, a cantora mutante capaz de transformar som em luz. Você tem de concordar que ela é um show vivo. Britney Spears, morda-se de inveja!

Cristal foi criada na década de 70 por John Romita Jr. e Tom DeFalco. No início era para ser chamada de Disco Queen e era inspirada na cantora Donna Summer. Tudo fazia parte de um acordo prévio com a Casablanca Records. O acordo acabou não dando certo. Mas a Marvel não desistiu da personagem. Em 1980, era lançado Dazzler#1 apenas para comic shops. Dessa vez Cristal era inspirada em Bo Derek.

Ponha seus patins e dance! Dance de patins!

Ponha seus patins e dance! Dance de patins!

Ok, não te convenci de que que Alison Blaire é a maior Diva da Marvel? Aqui vão alguns Dazzler’s Facts:

1. A primeira edição de sua revista vendeu 400 mil cópias apenas em lojas especializadas e convenceu a Marvel a entrar no mercado direto dos comic books;
2. Foi cogitado que Cristal seria a quinta integrante do X-Factor no lugar da Fênix;
3. Cristal foi escolhida como arauto do Galactus;
4. Ela já namorou o Beyonder;
5. Ela provou ser uma integrante de valor dos X-Men enferentando Wolverine, Colossus e Ciclope;
6. O Fanático tem um crush por ela;
7. Ela é a cantora mais famosa do universo Marvel. Vários personagens já apareceram usando a camisa de suas turnês.
8. É uma das personagens escolhidas para se jogar o arcade dos X-Men;
9. É a única personagem feminina dos X-Men a ter uma série solo com mais de 30 edições;
Mas o fact mais importante é que:
10. A Marvel pensou em fazer um filme com Cristal no final da década de 80 e para o elenco escalou Cher, Donna Summer, KISS e o Village People.

E então? Concordam? E como este está se tornando o queerest post neste blog, porque não se divertir com a música que a Cristal canta em Deadpool #68? “Se você tem seus problemas e seus dias são de dor, se te grila a inflação, as crianças, o calor, ponha seus patins e dance, dance de patins”. Dançar de patins é uma filosofia. Pratique!

Marvel Divas: Samanta (Felina), Carrie (Gata Negra), Miranda (Fóton) e Charlotte (Flama).

Marvel Divas: Samanta (Felina), Carrie (Gata Negra), Miranda (Fóton) e Charlotte (Flama).

Agora, voltando a falar das Marvel Divas oficiais. Não conheço muito de Sex and The City, só assisti à primeira temporada, mas não imagino que a Gata Negra seja a mais parecida com a Samantha. Provavelmente é a Gata (Felina) que mais preenche esse perfil, partindo da série adolescente da heroína, Patsy Walker, e levando em conta seus dias como a Gata do Inferno ao lado do Filho de Satã, Daimon Hellstrom. Claro, que a personagem Marvel perfeita para encarnar a personagem de Kim Cattrall seria a Tigresa, a personagem mais sexualmente ativa da casa das idéias. A Gata Negra ficaria num perfil mais Carrie. Mas não acho que Peter Parker seria assim um Mr. Big. Para Miranda, com certeza a Fóton/Pulsar/Mônica Rambeau se encaixaria melhor. Ela é a mais focada na carreira. Em Nova Onda, Warren Ellis não nos deixa esquecer como ela obcecada com o fato de já haver sido líder dos Vingadores. E para Charlotte, sobra Anjelica Jones, a Flama. Ela é mais inocente, mais conduzida por seus valores e também a mais nova.

Veremos se eu acerto quando a mini chegar nas bancas dos EUA. Sacasa diz que “Vamos falar do que realmente significa ser uma mulher em um mundo dominado por testosterona e armas (e falo tanto do mercado de super-heróis quanto do de quadrinhos)”. Será que a série será tão bem sucedida quanto Sex and The City?

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Things Mag #7

Acessem a nova ThingsMag!

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Blankets: Poesia Visual

Uma das 10 melhores graphic novesl segundo a revista Time.

Uma das 10 melhores graphic novesl segundo a revista Time.

Blankets, segunda graphic novel de Craig Thompson é uma história semi-autobiográfica que, segundo o autor, conta como é “dividir a cama com alguém pela primeira vez”. A obra tem 582 páginas, uma das mais extensas do seu gênero, mas a fluidez da narrativa de Thompson, seu texto emocional e seus traços livres retiram o peso que um livro tão extenso poderia colocar sobre o leitor. Muitos consideram Blankets, lançada em 2003, um marco na história das graphic novels, não apenas pelo seu número de páginas, mas por sua narrativa, apuro técnico e graça visual. Ganhou quatro prêmios Harvey, dois Eisner e dois Ignatz. Foi listada pela Time como uma das 10 melhores graphic novesl de todos os tempos. A Companhia das Letras promete publicá-la no Brasil em maio de 2009.

O conto que Craig Thompson traz mistura uma narrativa linear com momentos de flashback e conta uma história sobre o primeiro amor e sobre crescimento. O autor começa na infância para mostrar a origem de seus medos, traumas e desilusões, depois, já na adolescência, conhece Raina, por quem se apaixona e começa a se corresponder freqüentemente. Até o dia em que viaja até a casa da menina para passar alguns dias com ela e tem de lidar com uma família em divórcio e aprender a conviver com os dois irmãos de Raina, Ben e Laura, que tem síndrome de down. Ele ganha uma colcha de retalhos feita por Raina e acaba dividido-a com a menina, sobre sua cama. Em troca, ele faz um desenho na parede do quarto dela.

Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.

Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.

Os cobertores estão presentes por toda a história. E os padrões da colcha de retalhos que Raina fez aparecem em diversas seqüências, ora como momentos mágicos e de sonho, ora como desejos e lembranças. Pelo fato de concretizar elementos visuais que vivem apenas na imaginação dos personagens, Blankets guarda algumas semelhanças com Epiléptico de David B., ainda que em B. essas imagens sejam mais monstruosas. Thompson combina o realismo detalhado com traços cartunescos que dinamizam sua arte, lembrando por vezes Will Eisner, na execução das expressões dos personagens, as práticas de layout e a mesclagem de texto e imagem. No traço, lembra Kyle Baker. A forma como os quadros estão arranjados nas páginas variam freqüentemente, sempre ancorados no sentimento que o autor quer passar, seja dois meninos em perigo imaginando estarem fugindo de tubarões, seja a imaginação cristã da redenção e do pecado, ou o êxtase de tocar o cabelo da pessoa amada enquanto ela dorme.

A poesia está presente verbal e visualmente.

A poesia está presente verbal e visualmente.

“Este não é meu mundo. Estou apenas passando por ele”. É o que Craig fala quando está na escola, onde os professores o destratam e os bullies o odeiam. Por outro lado, juncto com os eu irmão Craig volta a ter felicidade, fazendo desenhos e deixando sua imaginação fuir. O confronto imaginação infantil/realidade também é um dos temas de Persépolis, de Marjane Satrapi. No caso de Marjane a realidade é a guerra e no caso de Thompson, é ser deixado à margem na escola. O pequeno Craig resolve seu problema descontando nos próprios malfeitores: escreve um poema em que professores, bullies e babysitters comem seu próprio cocô. Contudo, quando está com Raina, Craig é confrontado com outra realidade: a separação dos pais dela, a dificuldade em cuidar dos irmãos e também da filha da outra irmã dela. Craig compara sua responsabilidade com seu irmão, Phil e seu distanciamento dele e como Raina consegue lidar com toadas as dificuldades em seu caminho e ainda assim mostrar-se popular na escola.

Outro eixo temático de Blankets é a religiosidade. Craig Thompson foi criado por uma família fundamentalista cristã, o que confrontava com muitos de suas aspirações, entre elas o desejo sexual e a vontade de ser artista. Na história existem parábolas cristãs sendo colocadas lado a lado a uma sexualidade exposta delicadamente. Talvez seja na forma como Thompson coloca a sua sexualidade que reside a maior poesia da história. O amor por Raina acontecendo pouco a pouco, inocente e tentando ser evitado, mas ao mesmo tempo desejado. O sexo visto como abuso ou punição pela igreja, mas ao mesmo tempo algo que podia assumir os mais diversos sabores. Criag chega à seguinte conclusão, ao conversar com o irmão: “Eu ainda acredito em Deus, e mesmo nos ensinamentos de Jesus, mas o resto da Cristandade, sua Bíblia, seus dogmas, suas igrejas,… apenas estabelecem fronteiras entre pessoas e culturas. Isso nega a beleza de ser HUMANO e ignora todas essas LACUNAS que precisam ser preenchidas pelo individual”.

Sexualidade tratada com tato e sensibilidade.

Sexualidade tratada com tato e sensibilidade.

Em sua crítica, Kevins Johns define a graphic novel dessa maneira: “Finalmente, Blankets é sobre escolher o amor sobre a vergonha, sexualidade sobre repressão, arte sobre censura, e individualidade sobre conformismo. É uma graphic novel sobre tomar um papel ativo sobre determinar sua própria identidade, e isso demonstra o significado transcendental da arte e da ficção gráfica”. Para mim, é uma graphic novel sobre crescimento e desprendimento e que combina muito com uma música que venho escutando bastante, do Ben Folds Five. Ela diz que é difícil crescer, mas todo mundo cresce. Os dias passam e ainda estamos lutando contra isso. E o final da graphic novel mostra que o “personagem” ainda está aprendendo, ainda está crescendo e que o final não é bem um final para quem quer continuar seguindo. A mensagem é que a vida continua, como diz toda boa autobiografia.

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Graphic Novels

“Uma graphic novel tem que estar estruturada como um romance, como um conjunto com princípio, meio e fim, com seus próprios temas e conceitos únicos para esta obra e não apenas como uma série de tiras recompiladas para criar um livro”.

Bryan Talbot, criador de As Aventuras de Luther Arkwright, em Diseño de personajes par novela gráfica, de Steven Withrow e Alexander Danner

Essa semana li Blankets, de Craig Thompson, minha melhor leitura em quadrinhos do ano até agora.

Essa semana também concluí o rascunho (texto) da minha graphic novel. Assim que o Fabrício fizer uns esboços, falerei mais sobre ela.

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Simetria

O novo lançamento da Não Editora:

Uma Leve Simetria

Uma Leve Simetria

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John Byrne e a folha em branco

Ronald Regan: exemplo de super-heroí byrneano

Ronald Regan: exemplo de super-heróí byrneano

John Byrne é um dos grandes nomes dos quadrinhos mainstream de super-heróis. Reverenciado por seu trabalho ao lado de Chris Claremont na revista Uncanny X-Men, a partir da década de 80 e ao longo da década de 90, Byrne trabalhou com quase todos os principais super-heróis americanos. Enquanto durante a Era Reagan os super-heróis tinham uma grande tendência em se mostrar pessimistas com problemas psicológicos e culturais, os heróis de Byrne abriam um sorriso e lutavam levando consigo uma aura de que tudo daria certo. As histórias de Byrne apelavam pela nostalgia, patriotismo e cristianismo.

Em seu livro Comic Book Nation, Bradford W. Wright coloca uma entrevista de John Byrne realizada em 1990, onde o autor se mostra preocupado com a indústria dos comics. Ele criticava as tendências promovidas por alguns de seus colegas naquela época, insistindo que “tem havido uma distinta mudança de atitude entre as pessoas que estão fazendo quadrinhos. Os mantenedores estão menos em evidência e os destruidores estão mais em evidência”. Com destruidores, Byrne se referia à onda de reconstrução dos personagens promovida principalmente pelos invasores britânicos capitaneados por Alan Moore e também ao estilo cínico de Frank Miller.

Apesar de não usar a reconstrução de uma forma “britânica”, Byrne retrabalhou muitos super-heróis. Foi ele que, em 1986, reconstruiu o universo do Superman. Ele também retrabalhou Hulk, Namor, Mulher-Hulk, Mulher-Maravilha, entre outros. Além disso, Byrne usou muito experimentalismo em suas histórias, nem tanto na maneira como apresentava os personagens, mas como contava as histórias. Há vários exemplos, do Quarteto Fantástico aos Anos Perdidos dos X-Men.

A última edição de Byrne com a Mulher-Hulk: morte.

A última edição de Byrne com a Mulher-Hulk: morte.

Há uma história da Tropa Alfa em que Pássaro da Neve enfrenta Kolomaq, umas das três Bestas-Feras do Canadá. Em meio à luta, a heroína é fustigada por uma nevasca e tudo fica… terrivelmente branco. Seguem–se seis páginas de luta e quadros em branco, sendo mostrados apenas os requadros, balões e onomatopéias. Em uma história da Mulher-Hulk, o artista-roteirista anglo-canadense vai além: deixa quatro páginas da revista em branco, sem requadros, desenhos, balões ou qualquer coisa. Há uma explicação. As histórias de Byrne para a Mulher-Hulk sempre trabalharam a metalinguagem. Jennifer Walters sabia que era um personagem de quadrinhos e, além disso, que era escrita e desenhada por Byrne. Na história em quastão, Jen enfrentava o Apagador-Vivo, um inimigo bastante antigo de Hank Pym, o Homem-Formiga que simplesmente apagava a Mulher-Hulk e sua revista da existência. Claro que a heroína escapa desse destino “rasgando” as páginas do gibi e retorna tudo ao que era antes. Claro, até John Byrne morrer.

As HQs da Mulher-Hulk foram onde o criador teve a maior liberdade de experimentar, tanto é que para de despedir de sua fase no título, matou a si mesmo. Conservador ou experimentalista, John Byrne é um dos maiores criadores dos quadrinhos de super-heróis americanos e um dos poucos que podem se vangloriar de ter trabalhado com grande parte deles.

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Omissão

“Os quadrinhos podem ser considerados como a arte de omitir”

Joris Driest,  Subjective Narration in Comics

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As HQs como extensões do homem

Marshall McLuhan: O meio é a mensagem

Marshall McLuhan: "O meio é a mensagem"

Em 1964, Marshall McLuhan lançava o livro Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media: the Extensions of Man). Suas teorias foram revolucionárias para a Teoria da Comunicação por postular, entre outras idéias, que o meio de comunicação não apenas conduz a mensagem, mas que o meio é a mensagem. Segundo McLuhan, os meios não condicionam seu público pelo que informam, mas pela maneira como informam. A mudança de percepção ocorre devido ao meio e não ao seu conteúdo.

Seguindo esse raciocínio, o teórico dividiu os meios de comunicação em mídias “quentes” e “frias”, de acordo com as fases quentes e frias do jazz. As mídias quentes, como fotografia e cinema, são menos interativas e mais diretas; permitindo que a audiência seja passiva em relação a elas. As mídias frias, por outro lado, requerem mais participação por parte de sua audiência e, por isso, são mais interativas. Os quadrinhos são uma mídia fria porque “o observador, ou o leitor, é compelido a participar completando e interpretando as poucas pistas deixadas nas entrelinhas”. É a idéia da sarjeta de Scott McCloud que retorna aqui, os espaços em brancos entre quadros nos quais o leitor de quadrinhos deve depositar sua imaginação para que a história faça sentido.

MAD: tão envolvente quanto um anúncio publicitário
MAD: tão envolvente quanto um anúncio publicitário

Marshall McLuhan dedica um capítulo de seu livro às histórias em quadrinhos, em especial à revista MAD. O autor diz que as histórias em quadrinhos foram substituídas pela televisão e que histórias como Ferdinando, de Al Capp perderam sua audiência por causa deste advento. Sobraria para a revista MAD encantar as crianças e os adolescentes americanos criando um envolvimento tal que, segundo o autor, é semelhante aos dos anúncios publicitários. O teórico também estabelece uma comparação entre as HQs e a televisão, pois para ele, as duas são mídias frias: “As histórias em quadrinhos, apresentando baixa definição, possuem uma forma de expressão altamente participante, perfeitamente adaptada à forma do mosaico do jornal. Dão também um sentido de continuidade de um dia para o outro. Também as notícias sobre pessoas são de baixo teor informacional e por isso convidam a que o leitor as preencha, exatamente como acontece com a imagem da televisão e a radiofoto”.

Diz McLuhan ao final de seu capítulo sobre os quadrinhos: “A era pictórica do consumo está morta. Sobre nós vem a era icônica”. Os personagens de quadrinhos deixaram há muitos anos de ser apenas figuras para tornarem-se ícones. Seu papel como garotos-propaganda já foi comprovado e também já foi comprovado que o estímulo que leva uma pessoa a comprar uma revista é o mesmo que a leva a comprar um alimento ou um brinquedo com as cores e o nome de seu personagem de quadrinhos. O consumidor não leva pra casa o objeto de consumo, mas o personagem inserido nele. De forma semelhante trabalham as marcas quando o consumidor compra um produto sem levar em conta seus benefícios, mas o símbolo que está gravado nele.

Apreensão Cognitiva, um pacto entre o autor e o leitor.
Apreensão Cognitiva, um pacto entre o autor e o leitor.

Segundo McCloud, os quadrinhos fazem uso extensivo de ícones para representar objetos, ações, entidades, idéias. São representações icônicas do mundo. Tudo isso graças à apreensão cognitiva, conforme explica Wellington Srbek em seu livro Um Mundo em Quadrinhos: “Seu figurativismo é um elemento essencial para a assimilação de uma história em quadrinhos. (…) O caráter icônico das imagens dos quadrinhos assegura um limite básico de coincidência entre as intenções do autor e a interpretação do leitor”.

Esse limite básico de coincidência é o que torna a mídia dos quadrinhos interativa. É o “pacto” estabelecido entre leitor e autor que permite uma leitura subliminar dos quadrinhos e através do qual as possibilidades comunicativas à disposição de um autor de quadrinhos tornam-se virtualmente ilimitadas, tornando as histórias em quadrinhos uma extensão de quem as produz e de quem as lê.

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