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O Alan Moore da América do Sul

10 out

Chega às livrarias em novembro, pela Conrad Editora, a biografia de Che Guevara escrita por Héctor Gérman Oesterheld e desenhada por Alberto Breccia. O escritor argentino, que também era jornalista, pode ser considerado o maior roteirista de quadrinhos da América do Sul.

O Eternauta, de Héctor Gérman Oesterheld

O Eternauta, de Héctor Gérman Oesterheld

A obra de Oesterheld, cheia de realismo e poesia, transformou a maneira de contar histórias em quadrinhos quase 30 anos antes da revolução que aconteceu nos quadrinhos mainstream americanos. Em 1957, Héctor e seu irmão Jorge criaram sua própria editora, a Ediciones Frontera. Lá criaram duas revistas clássicas da Argentina, Hora Cero e Frontera. Durante sua carreira Oesterheld trabalhou com grandes nomes do quadrinho como Franciso Solano Lopez, Alberto Breccia e Hugo Pratt, criador do Corto Maltese. Com a crise econômica na Argentina wem 1960, os irmãos se viram obrigados a fechar a editora. Mas isso não impediu que Oesterheld continuasse a trabalhar para editoras menores criando outras obras primas.

O maior roteirista de quadrinhos da América do Sul

O maior roteirista de quadrinhos da América do Sul

As temáticas de Oesterheld estão arraigadas na literatura pulp e de aventura, bem como nos grandes clássicos da literatura juvenil. “Com uma escrita tensa e envolvente, Oesterheld outorgou à historieta de aventuras o valor artístico que continham as narrações de Salgari, Verne, Melville, Conrad e Stevenson, autores que admirava”, descreve German Cáceres em seu El dibujo de aventuras.

Entre seus principais trabalhos estão:

- El Eternauta (1957), desenhada por Francisco Solano López. Conta a história de Juan Salvo que, após uma invasão alienígena, tem de buscar de maneira infrutífera sua mulher e filhas através do tempo e do espaço. Na versão de 1969, desenhada então por Alberto Breccia, o autor propõe uma mudança: a América Latina seria invadida pelos alienígenas através de uma negociação com as superpotências para que os invasores não atacassem o resto do planeta.

- Mort Cinder (1962), desenhada pelo uruguaio Alberto Breccia. Conta a história de um homem capaz de driblar a morte e viver várias vidas distintas durante o transcorrer dos anos. Seja como gladiador ou participante do esforço de construção da Torre de Babel, seja nos dias de hoje enfrentando uma horda de zumbis chamados “olhos de chumbo”.

Outro trecho de O Eternauta

Outro trecho de O Eternauta

Entrei em contato com as histórias do roteirista argentino através da edição de Mort Cinder publicada pela Edicciones Colihue, em 2004, que também publicou outras histórias de Oesterheld. Em todas as histórias, testemunhadas por uma espécie de Watson de Mort Cinder, o antiquário Ezra Winston, o final acaba sendo o fracasso dos diferentes papéis interpretados por Mort Cinder, talvez sugerindo a inutilidade dos anseios e aspirações humanas numa história em que o protagonista é a própria morte.

O imortal Mort Cinder e a Torre de Babel

O imortal Mort Cinder e a Torre de Babel

Oesterheld apagou o estereótipo a que os leitores haviam se acostumado nos quadrinhos norte-americanos, com uma clara divisão entre quem são os mocinhos e quem são os bandidos. As histórias do escritor argentino deixavam de lado estes esquemas rígidos desprovidos de matizes psicológicas. Um aspecto evidente de sua história é o caráter experimental, usado como uma espécie de laboratório, tanto para o texto com o a arte. A história salta sem transição de um clima a outro, de uma circunstância a outra. Queima etapas, modifica os ritmos sobre os acontecimentos, passa dos pormenores às elipses.

a biografia que causou o desaparecimento de Oesterheld

Che: a biografia que causou o desaparecimento de Oesterheld

Três meses após a morte de Che Guevara, em 1968, Héctor Oesterheld lança através de uma editora chilena uma biografia do guerrilheiro, desenhada por Alberto Breccia. A partir de então começa a ser perseguido pela ditadura Argentina, que tomara o país em meados de 1970. Oesterheld foi preso e levado de casa com os seus quatro filhos. Nunca mais se ouviu falar dele desde então. Quando o jornalista italiano Alberto Ongaro, em 1979, questionou seu desaparecimento obteve esta resposta sinistra: “Livramo-nos dele porque escreveu a história mais bonita que alguma vez foi escrita sobre Che Guevara”.

A respeito da morte de Oesterheld, Hugo Pratt comentou: “O que quer que tenha acontecido, foi uma vergonha para o gênero humano: destruir sua família, trucidar as quatro filhas e matá-lo daquela forma, foi um horror incompreensível. Só posso dizer que aprendi muito com Héctor. Do ponto de vista da técnica narrativa, aprendi com ele mais do que com qualquer outro”.

Cáceres conclui o seguinte sobre a obra do maior escritor de quadrinhos da América Latina: “A viagem de Oesterheld (como um personagem da Jornada do Herói, de Campbell) é incompleta, como se a aventura tivesse uma limitação. Talvez reflita seu destino individual ou seu ativismo político. É possível que desde seus primeiros roteiros já visualizava anos muito cruéis para a Argentina. Devia suspeitar que sua aventura pessoal, que o levou a fazer parte do aparato de propaganda da Organización Montoneros, acabaria em um banho de sangue”.

Espero que a biografia de Che Guevara seja o primeiro de muitos trabalhos deste grande escritor a serem publicados no Brasil. Que venha El Eternauta, que está para virar filme em 2010, dirigido por Lucrecia Martel.

Batman – O Cavaleiro de Gotham

20 jul
A animação une os dois filmes do Batman

A animação une os dois filmes do Batman

Depois de assistir ao fantástico Batman – O Cavaleiro das Trevas, assitimos ontem ao Batman – O Cavaleiro de Gotham. Explico. A Warner fez uma estratégia parecida com o que aconteceu com os filmes de Matrix e a animação Animatrix. As histórias do Batman ocorrem entre o primeiro e o segundo filme de Christopher Nolan. São seis episódios interligados, todos desenvolvidos por estúdios japoneses, por isso o estilo anime.

O primeiro deles, e que foi o que mais gostei, chamado “Eu tenho uma história para você”, mostra garotos skatistas e suas visões sobre o Morcego. Um deles acha que ele é uma sombra, outra que ele é um morcego humano voador e outro, um robô. Qual deles estará certo?

O segundo, “Fogo Cruzado” foca nos policiais Chrispus Allen (que agora é o Espectro no universo DC) e Anna Ramírez (uma Renèe Montoya genérica e que também está no filme com o Coringa). A história é escrita por Greg Rucka (Gotham City Contra o Crime). A hitória traz os agentes da lei no meio de uma briga entre as máfias de Gotham. É interessante que em certa parte da história Allen pede reforços para o cruzamento entre a O’Neill e a Morrison. Os dois nomes são de roteiristas do Homem-Morcego. O’Neill escreve histórias do Batman desde o final da década de 60 e esteve presente durante o famigerado arco A Queda do Morcego da década de 90. Já Morrison foi responsável pela insana graphic novel Asilo Arkham em 1988 e é responsável pelas atuais histórias do personagem.

O episódio seguinte, “Teste de Campo” traz uma nova invenção de Lucius Fox, um gerador de pulso eletromagnético e conta como Bruce Wayne vai usar o aparato para dar cabo da máfia russa e italiana da cidade. Além disso há um torneio de golfe em prol dos sem-teto de Gotham.

“Esconderijos na Escuridão” lembra um pouco a mini Batman – O Messias, de Jim Starlin, pelo visual subterrâneo e a presença de um religioso. O episódio é escrito por David Goyer, roteirista dos filmes do Batman e das primeiras histórias da nova Sociedade da Justiça ao lado de Geoff Johns. No desenho, Batman enfrenta o Espantalho e o Crocodilo para salvar um cardeal seqüestrado.

“Lidando com a Dor” também tem seus momentos O Messias. Batman deve lidar com a dor e chegar consciente até a cidade enquanto atravessa os esgotos. A série é escrita por Brian Azzarelo, mais conhecido por 100 Balas, mas também escritor do excelente arco Cidade Castigada da revista do guradião de Gotham. É meu segundo episódio preferido, porque não enfoca lutas do cruzado embuçado, mas sua peregrinação pelo mundo em busca do não-sofrimento. Traça um paralelo interessante com a origem e motivações do personagem.

O último episódio, “Pistoleiro“, mostra Bruce Wayne contra o persongem-título, que nos quadrinhos já foi intergrante do Esquadrão Suicida e do Sexteto Secreto. Mostra um aspecto nem sempre explorado do Homem-Morcego: sua aversão pelas armas de fogo. Este episódio é escrito por Alan Burnett, que além de responsável pela produção e roteiro das novas séries aniamdas de Superman e Batman, também escrevia os roteiros do saudoso desenho Ducktales.

Batman – O Cavaleiro de Gotham não é uma animação excepcional em termos de história, mas o visual e, principalmente os cenários, valem à pena. E ainda tem uma prévia da animação da Mulher-Maravilha, a ser lançada por volta de maio nos EUA com direito a contextualização histórica (!). Estou na espera também por Contrato de Judas.

20 motivos para ler Watchmen

17 jul
Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, obra seminal para qualquer fã de quadrinhos.

Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, obra seminal para qualquer fã de quadrinhos.

Hoje saiu o trailer de Watchmen. Muito bom, por sinal. Visualmente fiel. O que me surpreende é que fora do mundinho nerd a maioria das pessoas não conhece Watchmen. Eu faço meu trabalho de catequista e empresto minha série de 12 revistas, em caixa especialmente feita pela Júlia, para a maioria dos meus amigos mais próximos e que topam ler a série. Quem topou, com certeza gostou. Mas aí você que não lê quadrinhos vem e me pergunta: “Mas por que eu vou ler essa coisa?”. Agora eu lhe dou os motivos:

1. Em termos comparativos com outras mídias, Watchmen é para os quadrinhos o que Cidadão Kane é para o cinema, ou o que Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band é para a música.

2. A capa de cada edição/capítulo é um close de uma imagem que tem continuidade na primeira página de história, funcionando sempre como o primeiro quadro desta.

3. Richard Kelly (Donnie Darko) e Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho, The Fountain) apontam o trabalho de Moore como uma das principais influências em seus trabalhos.

4. O título de cada capítulo é extraído de uma citação de cultura clássica ou popular. A citação completa é colocada completa no último quadro da história.

5. Os Incríveis: A base da história é diretamente inspirada em Watchmen, com super-heróis aposentados após perseguição do governo.

6. O final de cada edição/capítulo é acompanhado por quatro páginas em preto e branco trazendo documentos fictícios, como excertos de livros, revistas, relatórios de polícia, memorandos e material publicitário, que ajudam a compor a atmosfera e a ambientação da história.

7. Lost: a narrativa não-linear, focada em flashbakcs de personagens, com histórias paralelas sendo contadas através de detalhes é uma das influências que Damon Lindelof aponta como vindas de Watchmen.

8. A graphic novel traz à tona a questão: “O que aconteceria se os super-heróis existissem no mundo real?”, e mostra as conseqüências sociais, econômicas, política, morais e no cotidiano das pessoas. Richard Nixon, por exemplo, continua eleito em 1985 porque os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã com a ajuda de seres superpoderosos.

9. Foi a primeira (e única) graphic novel a vencer o Hugo Awards, prêmio máximo da literatura de ficção e fantasia.

O Superman existe e é americano!. O Dr, manhattan é o único super-heróis com poderes no mundo de Watchmen, mas sua simples existência pode provocar tsunamis do outro lado do mundo.

"O Superman existe e é americano!". O Dr. Manhattan é o único super-herói com poderes no mundo de Watchmen, mas sua simples existência pode provocar tsunamis do outro lado do mundo.

10. Muito de Watchmen é baseado na Teoria do Caos (que ficou famosa com filmes como Jurassic Park e Efeito Borboleta), onde causa e efeito estão intimamente interligadas.

11. Influenciou dezenas de quadrinistas, que passaram a imprimir um clima mais sombrio e decadente às suas histórias, gerando uma tendência que seria mais tarde denominada como “gim’n'gritty”.

12. O nome da série vem da frase “Quem vigia os vigilantes?” ou “Who watches the watchmen?” , que vem da frase “Quis custodiet ipsos custodes” das sátiras de Juvenal. O poeta romano apresentava os vícios da sociedade dos tempos dos Césares. Alan Moore faz o mesmo revelando as perturbações e manias dos super-heróis de um mundo possivelmente real.

13. Um dos capítulos, Temível Simetria (nome retirado de um poema de William Blake) tem as páginas espelhadas simetricamente. Ou seja, a primeira página tem a mesma composição de layout que a última e assim sucessivamente.

14. O balão de pensamento é dispensado por Moore. O leitor tem as histórias numa perspectiva em primeira pessoa.

15. Moore usa a metalingugem. Dentro de Watchmen há o gibi Contos do Cargueiro Negro, que serve de reflexo para o que vai acontecendo com os personagens da história.

16. Roscharch, um dos personagens da história, acredita que há uma grande conspiração envolvendo todos os antigos super-heróis. A Teoria da Conspiração ficou famosa depois de filmes como JFK e da série Arquivo X, posteriores à obra de Moore.

17. A série lida com temas como determinismo, megalomania, absolutismo e relatividade moral. Como subtrama estupro, câncer, racismo, casamentos frustrados, tortura, o descaso das autoridades, relações internacionais, linchamento, abuso de poder, prostituição e o alarde provocado pelo temor do fim do mundo, garantindo um tom real e pessimista à realidade dos super-heróis perseguidos.

18. Foi listado pela Entertainment Weekly como um dos melhores 50 romances (apesar de não ser literatura) escritos nos últimos 25 anos.

19. Está sendo transformado em filme por Zack Snyder (300, Madrugada dos Mortos) e com estréia prevista para março de 2009.

20. Listado pela revista TIME entre os 100 livros mais influentes publicados de 1923 até os dias de hoje, pela psicologia realista e cruel.

Leiam Watchmen e estejam preparados para o filme. Garanto que não se arrependerão!

Quadrinhos e literatura

3 jul
Fun Home cita Joyce, Camus, Proust, Wilde, Henry James e Fitzgerald, mas não é literatura.

Fun Home cita Joyce, Camus, Proust, Wilde, Henry James e Fitzgerald, mas não é literatura.

A escolha de Fun Home – Uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel como livro do ano pela revista Time, em 2006 e American Born Chinese, de Gene Luen Yang, ter concorrido ao National Book Award gerou a polêmica: quadrinhos são literatura?

O histórico de prêmios diria que sim. Afinal, Maus, de Art Spiegelman ganhou o Pulitzer em 1992. E a história Sonho de Uma Noite de Verão, de Neil Gaiman em Sandman ganhou o World Fantasy Award como melhor história curta em 1991. E Chris Ware, com seu Jimmy Corrigan ganhou em 2001 o Guardian First Book Award. Watchmen foi escolhido como um dos 100 melhores romances do século XX pela Time novamente.

Mas o fato é que quadrinhos NÃO são literatura. Assim como quadrinhos NÂO são cinema. Eles são as duas coisas e também não são. As histórias em quadrinhos CONTÉM literatura e cinema. Assim como contém a pintura, por exemplo. Os quadrinhos não são um subgênero literário, ou uma divisão artística. Eles são uma coisa à parte. Eles são a nona arte, mas eles também possuem uma forma narrativa própria. Não são um gênero, mas uma mídia.

Estou dizendo que os quadrinhos não são profundos o suficiente para gerarem os questionamentos que um romance traria? Que não oferecem a mesma fruição que uma obra de arte proporcionaria? Que não são capazes de arrebatar o público, determinar emoções e criar climas da mesma maneira que o cinema? CLARO QUE NÃO. Quero dizer que eles fazem TUDO ISSO ao mesmo tempo. E a maioria das pessoas nem percebe ou dá importância pra isso. Quadrinhos não são um complemento. São um meio que tem história própria e interações únicas.

Os quadrinhos não conseguem traduzir um romance, muito menos um filme. Um dos exemplos disso são as adaptações de filmes para quadrinhos, que nem sempre se saem bem no seu intento. Ou as adaptações de clássicos da literatura para os quadrinhos nos Classic Illustrated ou nas Edições Maravilhosas. Ou até mesmo quando um livro é adaptado para o cinema. Muita coisa é perdida no processo. Outras coisas são ganhas. Mas a maioria das pessoas concorda que a experiência de ler um livro é diferente da de assistir um filme. Cada meio possui uma linguagem própria e tem sua forma de capturar atenção do público e de envolvê-lo em sua história.

Infelizmente, por ser um meio marginalizado, os quadrinhos não possuem uma taxonomia própria. E por isso, têm de pegar muitos termos emprestado da literatura e do cinema. Samuel R. Delany cunhou o termo “paraliteratura”, onde os quadrinhos seriam abarcados como um TIPO de literatura. Mas não a literatura propriamente dita.

como as Graphic Novels funcionam e o que elas querem dizer

Lendo Quadrinhos: como as Graphic Novels funcionam e o que elas querem dizer

“Quadrinhos não são prosa. Quadrinhos não são filmes. Eles não são um meio movido pelo texto com figuras adicionadas; eles não são o equivalente visual da narrativa em prosa ou uma versão estática dos filmes. Eles são sua própria coisa: um meio com dispositivos próprios, com inovadores próprios, clichês próprios, seu próprios gêneros, fórmulas, armadilhas e liberdades” foi o que disse Douglas Wolk no seu Reading Comics – how graphic novels work and what they mean.

Quando se afirma que os quadrinhos têm uma linguagem própria e uma forma única de lidar com o leitor, quer dizer que existe uma subjetividade intrínseca entre as páginas de uma HQ, que é impossível de ser traduzida em outras mídias. Para ilustrar melhor o que eu quero dizer, vou usar um termo que Wolk apresenta no capítulo 5: cada quadro em um gibi representa um MOMENTO GRÁVIDO. Ou seja, cada quadro contém um determinado espaço e tempo cristalizado. Eles estão grávidos de seu passado ou de seu futuro, que não acontece necessariamente no quadrinho anterior ou no posterior, mas no espaço entre eles.

É nesse espaço, que Scott McCloud batizou de SARJETA, que ocorre a grande sacada dos quadrinhos. É ali onde o cérebro do leitor trabalha, unindo o acontecimento do quadro 1 com o do quadro 2 e assim por diante. Esse espaço subjetivo vai ser preenchido com a visão de mundo do leitor. Visão de mundo, essa que já vem sendo trabalhada nas imagens, que nada mais são do que metáforas do artista para o mundo. O espaço não é visto como ele realmente é, como em um filme, mas como o artista o vê: é a sua interpretação, seja ela errada, adaptada ou inventada.

Alan Moore já falou uma vez que os quadrinhos são o único meio que trabalha os dois hemisférios cerebrais: O esquerdo, racional, que processa as palavras. O direito, emocional, as imagens. Numa leitura que acontece AO MESMO TEMPO AGORA, a que o leitor é exposto durante o tempo que achar necessário, na hora e local que bem lhe couber. A qualidade da atenção de um leitor de quadrinhos é diferente da de um leitor de romances ou de um espectador de cinema.

Quadrinhos podem promover uma aquisição de conteúdo mais efetiva do que os livros e despender de uma atenção maior dos detalhes do que um filme. Segundo Eisner: “Ler a imagem requer experiência e permite a aquisição no ritmo do observador. O leitor deve fornecer internamente o som e a ação das imagens”. Existe um grande ironia na forma que os quadrinhos comunicam. “Os quadrinhos sugerem movimento, mas eles são incapezes de realmente demonstrar movimentação. Eles indicam som, e até mesmo os soletram, mas são silenciosos. Eles deduzem a passagem de tempo, mas a experiência temporal deles é controlada mas pelo leitor do que pelo artista. Eles conduzem histórias contínuas, mas são feitos de uma série de momentos discretos. Eles estão preocupados com a condução das percepções do artista, mas uma dos componentes cruciais é o espaço em branco”, para Wolk.

O autor também apresenta uma analogia entre a poesia e a pintura para chegar até os quadrinhos. Simônides de Ceos possuía uma máxima que dizia: “poesia é uma figura verbal, pintura é uma poesia silenciosa”, Horácio, mais tarde reduziu para “assim como a pintura, a poesia também o é”.Então Gotthold Ephraim Lessing, num ensaio de 1766, reescrevia o princípio dizendo que o espaço era o domínio da pintura, enquanto o tempo era o domínio da poesia. O tempo é o domínio da poesia (ou da linguagem) porque toma tempo para a experimentação, e porque pode descrever o tempo ou a mudança sobre o tempo, de uma maneira mais fácil que as figuras o fazem. Os quadrinhos, por serem a cristalização de um momento no espaço, abarcam a poesia e a pintura comunicando através da MUDANÇA SOBRE O TEMPO.

Poesia, linguagem… Afinal, os quadrinhos são literatura? Não. Eles são MUITO MAIS que apenas isso. Espero que agora você veja os quadrinhos com outros olhos.

Liga da Justiça: A Nova Fronteira

23 abr

Assisti ao DVD do filme Liga da Justiça: A Nova Fronteira, baseado na HQ escrita e desenhada por Darwyn Cooke, que mostra a transição da Era de Ouro para a Era de Prata dos quadrinhos de super-heróis. A história impressiona pela contextualização. Passa nos meados dos anos 50, época da Guerra Fria, da perseguição aos comunistas, das comissões do senado presididas pelo senador McCarthy e da corrida espacial. Esses momentos são bem pontuados tanto na história em quadrinhos quanto na animação. A desistência da Sociedade da Justiça frente à comissão que pretendia desmascará-los (referências aqui à uma história escrita por Paul Levitz e à minissérie A Era de Ouro, de James Robinson). O momento em que Hal Jordan, futuro Lanterna Verde, conta ao coreano que quer matá-lo que a Guerra da Coréia havia se encerrado, e seu ato subseqüente de matar seu inimigo em busca da própria sobrevivência. Depois, vemos o Superman se encontrando com a Mulher-Maravilha, na Indochina. Ela havia libertado as mulheres de uma aldeia assolada pelos rebeldes, e que haviam sido espancadas e violentadas por eles. Assim que a princesa amazona libertou-as, elas correram às armas para vingar-se de seus algozes. O Superman questiona essa postura de sua colega e ela responde que apenas agiu de acordo com o “american way”. Há o Flash, ao vivo na televisão, avisando que abandonaria a carreira heróica, se despedindo com “Boa noite e boa sorte”, da mesma maneira que Edgar R. Murrow fazia. Sem falar no pano de fundo da corrida espacial, aqui representada pela Ferris Aeronáutica e sei principal piloto, Hal Jordan.

O visual da história remete, sem dúvida, aos anos 50 e 60. Isso foi transmitido também na animação, que emula o estilo de Cooke. Além disso, a abertura é calcada nas capas da minissérie em estilo vintage.

A vida anterior ao super-heróis de Jordan é o pivô da história, mas outros super heróis como o Caçador de Marte também são essenciais. Todos os heróis se reúnem para lutar contra “O centro”, uma força primitiva da Terra que quer erradicar a raça humana. Só que se a história possui esse forte elemento contextualizador, que situa perfeitamente o leitor, o clímax se opõe a essa atmosfera. Enquanto o início da história tem um fundo revolucionário, de oposição ao governo, o final parece um tanto ingênuo e previsível. Talvez tenha sido proposital, já que a história é uma espécie de gênese da Liga da Justiça, um dos pontos altos da Era de Prata, um tempo em que as HQs de super-heróis foram obrigadas a regredir a ingenuidade e simplicidade. Lá pelas tantas um personagem diz: “De agora em diante, trabalharemos juntos, como americanos livres”. E aí se percebe o ufanismo americano na história, que até então vinha pintando o governo como força de controle e repressão. Outra alusão á Era de Prata, quando o governo pedia para as editoras elogiarem o futuro glorioso que esperava a nação, as inovações tecnológicas e cientificas. Não por acaso, o vídeo e a arte seqüencial acabam com um discurso do presidente Kennedy e que justifica o nome da obra. Ele diz que não há mais uma fronteira americana. Que agora existe uma nova fronteira: as áreas não mapeadas da ciência e do espaço. E com essa ingenuidade, esse ufanismo, esse assombro das maravilhas do futuro é que pisamos na Era de Prata e assim foram criados os representantes da geração pós-guerra, do baby boom, da qual Darwyn Cooke, o autor, faz parte.

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