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Blankets: Poesia Visual

2 abr

Uma das 10 melhores graphic novesl segundo a revista Time.

Uma das 10 melhores graphic novesl segundo a revista Time.

Blankets, segunda graphic novel de Craig Thompson é uma história semi-autobiográfica que, segundo o autor, conta como é “dividir a cama com alguém pela primeira vez”. A obra tem 582 páginas, uma das mais extensas do seu gênero, mas a fluidez da narrativa de Thompson, seu texto emocional e seus traços livres retiram o peso que um livro tão extenso poderia colocar sobre o leitor. Muitos consideram Blankets, lançada em 2003, um marco na história das graphic novels, não apenas pelo seu número de páginas, mas por sua narrativa, apuro técnico e graça visual. Ganhou quatro prêmios Harvey, dois Eisner e dois Ignatz. Foi listada pela Time como uma das 10 melhores graphic novesl de todos os tempos. A Companhia das Letras promete publicá-la no Brasil em maio de 2009.

O conto que Craig Thompson traz mistura uma narrativa linear com momentos de flashback e conta uma história sobre o primeiro amor e sobre crescimento. O autor começa na infância para mostrar a origem de seus medos, traumas e desilusões, depois, já na adolescência, conhece Raina, por quem se apaixona e começa a se corresponder freqüentemente. Até o dia em que viaja até a casa da menina para passar alguns dias com ela e tem de lidar com uma família em divórcio e aprender a conviver com os dois irmãos de Raina, Ben e Laura, que tem síndrome de down. Ele ganha uma colcha de retalhos feita por Raina e acaba dividido-a com a menina, sobre sua cama. Em troca, ele faz um desenho na parede do quarto dela.

Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.

Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.

Os cobertores estão presentes por toda a história. E os padrões da colcha de retalhos que Raina fez aparecem em diversas seqüências, ora como momentos mágicos e de sonho, ora como desejos e lembranças. Pelo fato de concretizar elementos visuais que vivem apenas na imaginação dos personagens, Blankets guarda algumas semelhanças com Epiléptico de David B., ainda que em B. essas imagens sejam mais monstruosas. Thompson combina o realismo detalhado com traços cartunescos que dinamizam sua arte, lembrando por vezes Will Eisner, na execução das expressões dos personagens, as práticas de layout e a mesclagem de texto e imagem. No traço, lembra Kyle Baker. A forma como os quadros estão arranjados nas páginas variam freqüentemente, sempre ancorados no sentimento que o autor quer passar, seja dois meninos em perigo imaginando estarem fugindo de tubarões, seja a imaginação cristã da redenção e do pecado, ou o êxtase de tocar o cabelo da pessoa amada enquanto ela dorme.

A poesia está presente verbal e visualmente.

A poesia está presente verbal e visualmente.

“Este não é meu mundo. Estou apenas passando por ele”. É o que Craig fala quando está na escola, onde os professores o destratam e os bullies o odeiam. Por outro lado, juncto com os eu irmão Craig volta a ter felicidade, fazendo desenhos e deixando sua imaginação fuir. O confronto imaginação infantil/realidade também é um dos temas de Persépolis, de Marjane Satrapi. No caso de Marjane a realidade é a guerra e no caso de Thompson, é ser deixado à margem na escola. O pequeno Craig resolve seu problema descontando nos próprios malfeitores: escreve um poema em que professores, bullies e babysitters comem seu próprio cocô. Contudo, quando está com Raina, Craig é confrontado com outra realidade: a separação dos pais dela, a dificuldade em cuidar dos irmãos e também da filha da outra irmã dela. Craig compara sua responsabilidade com seu irmão, Phil e seu distanciamento dele e como Raina consegue lidar com toadas as dificuldades em seu caminho e ainda assim mostrar-se popular na escola.

Outro eixo temático de Blankets é a religiosidade. Craig Thompson foi criado por uma família fundamentalista cristã, o que confrontava com muitos de suas aspirações, entre elas o desejo sexual e a vontade de ser artista. Na história existem parábolas cristãs sendo colocadas lado a lado a uma sexualidade exposta delicadamente. Talvez seja na forma como Thompson coloca a sua sexualidade que reside a maior poesia da história. O amor por Raina acontecendo pouco a pouco, inocente e tentando ser evitado, mas ao mesmo tempo desejado. O sexo visto como abuso ou punição pela igreja, mas ao mesmo tempo algo que podia assumir os mais diversos sabores. Criag chega à seguinte conclusão, ao conversar com o irmão: “Eu ainda acredito em Deus, e mesmo nos ensinamentos de Jesus, mas o resto da Cristandade, sua Bíblia, seus dogmas, suas igrejas,… apenas estabelecem fronteiras entre pessoas e culturas. Isso nega a beleza de ser HUMANO e ignora todas essas LACUNAS que precisam ser preenchidas pelo individual”.

Sexualidade tratada com tato e sensibilidade.

Sexualidade tratada com tato e sensibilidade.

Em sua crítica, Kevins Johns define a graphic novel dessa maneira: “Finalmente, Blankets é sobre escolher o amor sobre a vergonha, sexualidade sobre repressão, arte sobre censura, e individualidade sobre conformismo. É uma graphic novel sobre tomar um papel ativo sobre determinar sua própria identidade, e isso demonstra o significado transcendental da arte e da ficção gráfica”. Para mim, é uma graphic novel sobre crescimento e desprendimento e que combina muito com uma música que venho escutando bastante, do Ben Folds Five. Ela diz que é difícil crescer, mas todo mundo cresce. Os dias passam e ainda estamos lutando contra isso. E o final da graphic novel mostra que o “personagem” ainda está aprendendo, ainda está crescendo e que o final não é bem um final para quem quer continuar seguindo. A mensagem é que a vida continua, como diz toda boa autobiografia.

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