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O autor está morto, longa vida ao autor

Alegoria do Messias

Superman: Alegoria do Messias

Em 1968, Roland Barthes publicava um ensaio chamado “A Morte do Autor”. Nele o estudioso dizia que o autor é um personagem moderno, produto da nossa sociedade e que durante todo ensino da literatura até então, a explicação da obra era sempre procurada junto às intenções do autor com a mesma. Barthes vem dizer que não há sentido único em uma obra e que com diversos leitores vêm diversas significações.

Uma forma de buscar estas diversas interpretações é a alegoria. Em Gargantua, Rabelais criticava àqueles que colocavam um sentido cristão nas obras de Homero, uma vez que as obras haviam sido compostas séculos antes do cristianismo. O mesmo é feito com o Superman, de Siegel e Shuster que, dizem ter uma interpretação messiânica. O herói kriptoniano seria uma alegoria de Moisés, uma vez que seus criadores eram judeus. Mas como saber se esta foi realmente a intenção dos autores?

Continuando com o homem de aço, sabe-se que sua primeira versão foi criada poucos anos depois da quebra da bolsa de Nova York de 1929 e da Grande Depressão que se seguiu. Estudiosos dizem que o Superman foi uma resposta para o clima de desesperança que se abateu sobre a população americana. Um super-herói, portanto, seria uma resposta otimista à uma sociedade falida. Superman seguiria a onda escapista das revistas pulp que publicavam as ficções científicas baratas e servia como uma injeção de ânimo ao povo. Em suas primeira histórias o homem de aço não combatia supervilões, mas maridos que batiam nas esposas, traficantes de armas, lobistas, turbas de linchamento, detratores das conferências de paz mundial, enfim, detratores da ordem. Essa ordem buscada pelo Superman e pelos demais super-heróis era estabelecida através da força e da violência. E aqui cabem outras questões.

protótipo fascista do Homem de Aço

"O Reino do Superman": protótipo fascista do Homem de Aço

A méme do übermensch de Nietzche estava rondando as cabeças das pessoas lá pelo início da década de 30. Não por acaso o partido nazista na Alemanha apregoava a superioridade da raça ariana, uma classe de super-homens que devia reinar sobre a Terra em detrimento das outras raças, consideradas inferiores. Em 1933, Siegel e Shuster publicavam seu protótipo do que viria a ser o Superman no fanzine chamado Science Fiction. A história, intitulada “O Reino do Superman”, contava como o mendigo Bill Dunn era transformado pelas experiências de um professor em um ser superpoderoso, dotado de poderes telepáticos, que deseja governar o mundo inteiro. Mais tarde, em entrevistas, Siegel confessou que havia se inspirado nas idéias de Nietzche para criar a história.

Então vejamos: Superman é um homem superior aos outros, com força e poderes extraordinários, através dos quais impõe a ordem em uma nação desiludida cujas cores da bandeira ele usa em seu peito para instaurar um certo ufanismo e restaurar a crença no país. “A valorização fascista da nação é inevitavelmente retórica”, diz Leandro Konder em “Introdução ao fascismo, “precisa ser agressiva, recorrer a uma ênfase feroz para disfarçar o seu vazio e tende a menoscabar os valores das outras nações e da humanidade em geral”.

Seria o Superman uma alegoria do Messias? Ou de Hitler? Siegel e Shuster queriam trazer nova esperança para os Estados Unidos ou queriam controlá-lo à força? Estaria o Dr. Frederic Wertham certo ao dizer que o Superman é um megalomaníaco?

Precisa haver um Superman?

Superman #247 (1972): Precisa haver um Superman?

A questão da intenção e do contexto se confunde desde então. Não está certo nem quem diz que o kriptoniano é o novo Cristo, nem quem diz que seus ideais se adequam aos de Mussolini. O significado do Superman é renovado a cada era, sempre ligado a alegorias diferentes. No contexto dos anos 30 ele tinha um significado e tem outro aos olhos de uma sociedade que viu as Torres Gêmeas caírem e enfrenta uma crise econômica semelhante à de 1929.

Para exemplificar esse pensamento, trago à baila duas histórias. A primeira é de 1972, escrita por Elliot S! Maggin e desenhada por Curt Swan e se chama “Precisa haver um Superman?”. A história questiona se o Superman deve interferir na história da humanidade, salvando-a toda vez que surge uma ameaça ou deixar os humanos virarem-se por si mesmos. Diferente de suas primeiras histórias, o homem do amanhã chega à seguinte conclusão: “Vocês não devem contar com um Superman consertando suas vidas toada vez que há uma crise ou um desastre..Vocês não precisam de um Superman. O que precisam mesmo é da supervontade de serem guardiões de seu próprio destino”.

Alegoria do The Authority

A Elite: Alegoria do The Authority

A segunda é de março de 2001, seis meses, portanto, antes do 11 de setembro. “Olho por Olho?”, escrita por Joe Kelly e desenhada por Doug Mahnke e Lee Bermejo mostra o Superman medindo forças com a Elite, uma equipe que resolveu usar de atitudes extremas para defender a Terra. Aqui vemos o bom-mocismo do homem de aço em confronto com uma alegoria do The Authority, de Warren Ellis e Brian Hytch, que, na história em questão, retrata o fascismo: o mundo governado por uma força superior que usa de extrema violência para resolver as crises planetárias. Ou nas palavras de Manchester Black, líder da Elite: “Regra número um: quem tem o poder faz as regras. (…) Isto não tem a ver com amor, tem a ver com a remoção dos cânceres que infestam nosso corpo e a eliminação deles na privada. As pessoas não querem babás de colante que lhes dêem tapinhas nas costas quando forem más, querem cirurgiões que cortem os nacos podres de seus corpos e cobrem uma atitude decente daí por diante”. No final da história Superman vence a Elite e fica mais próximo de um messias do que de um fascista.

Voltando à Morte do Autor, de Barthes, ela não é tão premente na indústria de quadrinhos de super-heróis. Aqui vale o que os autores pensam, suas ideologias e suas imagens para os super-heróis, que vão se tornar alegoria da sociedade em que estão inseridos, capturando aqui e ali os pensamentos e sistemas de idéias que estão em voga no momento. Na indústria dos quadrinhos de super heróis vale a máxima: “o autor está morto, longa vida ao autor”.

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