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Batmen morrem, Robins vivem para sempre

16 jan

O que aconteceu com o Cruzado Embuçado?

O que aconteceu com o Cruzado Embuçado?

É, o Batman morreu. Mas todo mundo sabe que ele vai voltar. Pra quem não sabe, ele morreu disparando uma arma contra Darkseid, que também morre no processo. Tudo isso em Final Crisis #6. Grant Morrison tentou justificar a morte dele remontando à origem do cruzado embuçado, que começou quando uma arma derrubou os pais de Bruce Wayne, e que nada seria mais justo que, ao fim, Batman empunhasse uma arma (do tipo que jurou nunca usar) e erradicasse a face do mal no Universo DC. Só que Batman nunca foi um herói cósmico, longe disso, era o herói mais humano da DC. Era como uma espécie de deus grego no meio de divindades monoteístas. Como já nos mostrou Kurt Busiek em LJA/Vingadores, os heróis da DC são vistos como deuses no seu universo. Todos menos o Batman. Ele tem essa diferença. Ele não é o herói puro. Ele usa meios escusos para atingir fins incontestáveis. Ele é psicótico, tão psicótico quanto seus vilões, como foi contado pelo mesmo Morrison no ótimo Asilo Arkham. Não seria mais justo que o Coringa matasse o Batman? Ou um ladrão de rua qualquer?

Só sei que, de longe, o Batman foi um dos heróis que menos me atraiu. Até hoje nunca comprei revistas regulares do homem-morcego, apesar de ter vários especiais na minha estante. Talvez por mostrar essa natureza mais realista, eu rejeitei o Morcego, assim como tento rejeitar a realidade. O que o cavaleiro das trevas mostra que sim, somos falhos, e da maneira mais doente possível. Não somos Peter Parker com um sorriso na boca, apesar de estar sempre se dando mal na vida. Ou um Clark Kent sempre disposto a ver o lado bom da humanidade e perdoá-la tantas e tantas vezes. Às vezes somos Bruce Wayne obcecados por coisas que nos tornam estranhos. E será que por essa obsessão, teria repercutido uma morte mais apropriada para o Batman?

Asa Noturna, mate o Batman Arco-Íris!

Asa Noturna, mate o Batman Arco-Íris!

Por que o Batman não tem um surto psicótico e sai matando seus vilões até que, bem, o Robin teria que matá-lo. Não, muito anos 90. Greg Capullo adoraria desenhar. Bem, então, um ataque do coração causado pelo stress. Não, indie demais. Coisa de Harvey Pekar. Ou o Batman poderia assumir seu amor pelo Robin, mas, então o Asa Noturna enciumado matava Bruce Wayne. Não, muito Young Love escrito pelo Chuck Austen e desenhado pelo Phil Jimenez.

Sabemos que o Morrison é um saudosista dos quadrinhos dos anos 50, que traziam o Batbebê, o Batman Zebra, o Batman Arco-Íris e o Batman Alienígina Cabeçudo. E sabemos também que ele sabe escrever histórias sensacionais com esses elementos. All-Star Superman está aí para provar. Nesse sim, ele conseguiu fazer uma morte digna para o Superman. Por outro lado, história do Luva Negra foi muito bem orquestrada, começando com a intrigante história da nova reunião do Clube dos Heróis. Por que não deixar o Batman apenas no R.I.P.?

Heróis morrem. Lendas vivem para sempre.

Heróis morrem. Lendas vivem para sempre.

Um ciclo se fechou. Batman sempre representou o arquétipo do Guerreiro: quando a realidade se torna um ambiente inóspito e instável, quando a dignidade é usurpada e o respeito inexiste, o Guerreiro se vê obrigado a lutar e vencer a hostilidade através da força para conquistar o respeito e a segurança. Morrison acerta quando faz Batman empunhar uma arma pois para o arquétipo do Guerreiro “o espírito de luta é o que toda pessoa precisa para vencer os obstáculos, o medo, um inimigo, suas próprias fraquezas, enfrentar problemas pessoais, físicos ou psíquicos, superá-los e atingir um patamar mais elevado de dignidade pessoal”, segundo Martins, no livro A natureza emocional da marca.

A superação do obstáculo, da psicose individual de Batman, acabaria com o propósito do herói. Bruce Wayne nunca deve superar o trauma da morte dos pais como um ser humano comum, ele deve sofrer até a morte com essa obsessão para dar o ritmo às suas revistas. Sem um evento catalizador, não há um Batman, como foi explorado em tantas tramas Elseworlds. Robin, por outro lado, parece lidar de forma menos penosa sobre essa história. O grande inimigo de Batman não é o Coringa ou o Duas-Caras, mas ele próprio e as suas limitações. No momento em que ele as vencer, acaba sua história. Os Robins, contudo, se perpetuam. Já tivemos quatro. E é por isso que Batmen morrem e Robins vivem para sempre.

Um chá com a Marvel UK (8 de 12)

4 nov

inicio de carreira de Grant Morrison

Spiderman and Zoids Weekly: início de carreira de Grant Morrison

Grant Morrison também deu as caras na Marvel UK. Antes mesmo do sucesso com Zenith, o super-herói pop-star da 2000 A.D., o escritor escocês escreveu para a Doctor Who Weekly (tendo colaborado com um Bryan Hitch imberbe) e com Spiderman and Zoids Weekly. Zoids? Tratavam-se brinquedos famosos da década de 80, produzindo por uma empresa japonesa, que eram construtos mecânicos na forma de mamíferos, dinossauros e insetos, que como muitos outros brinquedos daquela época geraram animes, mangas, videogames e, na Inglaterra, uma série de comics.

Não eram só os Zoids que receberam esse tratamento. Em 1984, a Marvel lançava um outro selo nos Estados Unidos, a Star Comics, cujo publico alvo eram crianças pequenas e geralmente trazia desenhos animados ou brinquedos adaptados para os comics. He-Man e os Mestres do Universo, Thundercats, G.I. Joe, Transformers, Smurfs, Os Caça-Fantasma eram algumas das muitas séries que hoje são nostálgicas. Não demorou muito para que esse selo aparecesse também na Grã-Bretanha. O maior fenômeno de vendas da Marvel UK foi Transformers, que vendia 200 mil cópias por semana. Sob o comando da editora, a série durou 322 edições. Após deixar a editora, a série continua a ser publicada até hoje, mantendo-se como um dos títulos mais importantes da história do mercado inglês de quadrinhos.

o maior sucesso da Marvel UK

Transformers: o maior sucesso da Marvel UK - 200 mil cópias/semana

Seguindo o sucesso dos robôs gigantes e alienígenas veio Death’s Head, o primeiro título publicado no formato americano (revista simples, com uma série apenas). Em seguida, no mesmo formato, foi lançado Knights of Pendragon, que recebeu elogios da crítica especializada e era escrita por Dan Abnett e John Tomlinson com arte de Gary Erkshine.

Em 1984 começaria a chamada Invasão Britânica nos quadrinhos, comandada pelos editores Karen Berger e Dick Giordano, da DC Comics, uma caça de talentos ingleses que seriam trazidos para os Estados Unidos. Alan Moore foi um dos primeiros escolhidos pelos editores quando foi incumbido de escrever The Saga of the Swamp Thing (A Saga do Monstro do Pântano). Não demorou muito para que outros quadrinistas fossem recrutados, como Neil Gaiman, Grant Morrison, Brian Bolland, Dave Gibbons, Jamie Delano e Peter Milligan. O mercado norte-americano começava a absorver o talento britânico, restando à Marvel UK autores menos brilhantes para escreverem suas histórias na década seguinte.

Flex Mentallo, the Muscle Mistery Man

10 mai

Um fisiculturista super-herói, vestindo uma sunga de leopardo, que ao flexionar seus músculos muda a realidade. Só poderia vir da mente de Grant Morrison. Ou melhor, em parte. Flex Mentallo é descaradamente inspirado em Charles Atlas, um dos pioneiros do fisiculturismo e totalmente ligado à indústria dos quadrinhos de super-heróis. Muita gente já deve ter visto por aí anúncios antigos em que um cara fracote, acompanhado de sua namorada encontra um cara músculoso na praia e acaba pedendo a garota por causa dele. Então, ele resolve utilizar o método Atlas e fica tão forte quanto seu rival. Enfrenta o valentão e recupera sua namorada. Esse tipo de anúncio que Charles Atlas veiculava em diversas revistas de super-heróis durante a Era de Ouro. O fisiculturismo também foi um dos elementos básicos da gênese dos super-heróis, assim como a ficção científica. Foi nos fisiculturistas (os homens-fortes do circo) e suas roupas coladas e coloridas, que Jerry Sigel e Joe Shuster se inspiraram para criar visualmente o Superman.

O personagem Flex Mentallo apareceu pela primeira vez em dois arcos de histórias da Patrulha do Destino, grupo também escrito por Morrison em 1992. Quando Flex usa seus músculos para mudar a realidade, surge um halo sobre sua cabeça nomeando-o “Hero of the Beach”. O herói se descobria um personagem de histórias em quadrinhos e se encontrava com seu com seu criador, Wally Sage. Na minissérie em quatro partes por Morrison e desenhada pelo versátil Frank Quitely, Flex e Wally parecem viver em mundos diferentes. Fica sugerida a ligação entre os, porém cada um deles vive sua própria história. Flex está a procura de seu parceiro desaparecido, o Fato. Já Wally acabara de misturar dúzias de pílulas com uma garrafa de vodka e em seus derradeiros momentos fala no telefone em tom confessional com um estranho. Enquanto narra as peripécias do criador e da criatura, e estabelece sutis e escancaradas ligações entre as duas, Morrison contrói uma homenagem nostálgica aos quadrinhos.

Flex Mentallo foi publicada em 1996, numa época em que as imagens valiam mais que as palavras nos quadrinhos. Quando quanto maiores fossem os detalhes musculares de um super-herói maior seria seu valor. As bad girls curvilíneas e voluptuosas estavam na moda. O melhor super-herói era aquele que fosse mais cruel com seus inimigos, dilacerando-os fibra por fibra, gota de sangue por gota de sangue. Olho por olho. Dente por dente. Então Morrison surgiu com Flex, satirizando e protestando contra as tendências nos quadrinhos de super-heróis, reinventando-os e trazendo de volta um herói que é praticamente anterior aos super-heróis. A origem de tudo.

Segundo o site Annotated Flex Mentallo, a homenagem feita a Charles Atlas representa duas idéias. Primeiro, reiterar que os comics são um produto, uma indústria cultural descartável em que se lê e se põe fora em seguida, regida pela lógica do consumo e que deve ser alimentada pela publicidade (anúncios de Atlas). Segundo, que os quadrinhos de super-heróis possuem um potencial de transformação,envolvenmdo em si mesmos um sistema de representação e confrontoe, e que, no final, seu conteúdo envolve até mesmo uma transformação no leitor.

Para mostrar essa transformação vemos como as idéias de Wally sobre os quadrinhos vão se transformando ao longo dos números e como isso afeta as aventuras de Flex Mentallo. Na primeira edição, o autor retrata o encantamento da leitura das primeiras histórias em quadrinhos, da descoberta de um novo mundo fantástico e poderoso. A segunda edição enfoca nas mudanças da Era de Prata, em que os personagens eram submetidos às mais diversas mudanças para que o leitor tivesse essa sensação de se deparar com o inesperado edição por edição. Na terceira edição, cuja capa é um plágio da de Batman, o Cavaleiro das Trevas (onde se destaca a sunga de leopardo do herói), Wally relembra sua adolescência e a descoberta do sexo. As histórias de Flex, portanto, refletem esse período de 1996, quando mostram os heróis indo se encontrar em um local secreto para praticarem sexo sem limites e com uso de seus superpoderes.

Aí o autor pisa num calo bem doído dos quadrinhos de super-heróis. A hiperssexualização dessas histórias. Afinal, os quadrinhos desse gênero apresentam homens e mulheres andando por aí com roupas que praticamente fazem com que se perceba todos os detalhes de seu corpo. E quando essa descoberta do corpo estiver ligada a essas histórias é que tudo pode ficar um pouco confuso. É o que acontece com Wally, que grita: “Frederic Wertham tava certo pra caralho!”. Para quem não sabe, Wertham foi um psicólogo que perseguiu os quadrinhos, afirmando que a leitura destas revistas eram perniciosas para a juventude e que os transformava em delinqüentes. Foi a partir dele que surgiu toda a mítica de um relacionamento homossexual entre Batman e Robin. Morrison não deixa isso barato e já na primeira edição traz um pin-up de Flex fazendo pose e dedicando a foto aos fãs com beijos. Depois ainda tasca mais crítica ao modus operandi da década de 90. “Sobre o que é tudo isso? Superpornografia para retardados. Vigilantes aumentando sua contagem de corpos. Cenas de estupro e roupas rasgadas”. (…) “Sonhos fetichistas de mulheres voadoras e garotas supertarados”.

Assim, que, depois da nostalgia e da crítica, chegamos à reconstrução. E novamente a capa mostra isso. São várias fotografias de Flex, de diversos ângulos e enquadramentos, que formam o todo, seu corpo. È nessa edição que o confronto metalinguagem versus realidade surge. Imaginem um embate entre A História Sem Fim e Matrix. Morrison dialoga com uma suprarrealidade. Imagine Bastian (Wally) e Atreyu (Flex) encontrando-se com o Arquiteto. Claro, Flex Mentallo não é mais uma daqueles gibis que “você lê e põe fora”. Ele permite diversas leituras, e cada vez que se lê, pode perceber algo que não estava lá. Para ajudar um pouco há o Annotated, mas o melhor é descobrir por si mesmo e também discutir, já que cada um pode ter uma interpretação diferente. Não é só em Flex Mentallo que Morrison faz isso. Em outras obras suas como o Homem-Animal, ou no recente Sete Soldados da Vitória essas múltiplas significações também são possíveis. A minissérie faz parte de uma trilogia temática junto com Os Invisíveis e The Filth (que eu não li ainda).

Uma das frases finais da história, para confundir ou esclarecer ainda mais o leitor é “Você esteve habitando o primeiro gibi ultra pós-futurista: os personagens estão plenamente autorizados a interagir com os leitores a este nível”. Mas o que ficou pra mim, na minha interpretação da história, foi a frase “Os gibis eram só, tipo, tentativas desesperadas de lembrar a verdade sobre a realidade”. Os comics, em sua história, se assemelham ao crescimento humano, ao amadurecimento. Por um lado, sim, uma fuga da realidade, por outro uma maneira de mostrar que nossas fantasias são possíveis de acordo com nosso nível de consciência da realidade e de nós mesmos.

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