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John Byrne e a folha em branco

2 mar
Ronald Regan: exemplo de super-heroí byrneano

Ronald Regan: exemplo de super-heróí byrneano

John Byrne é um dos grandes nomes dos quadrinhos mainstream de super-heróis. Reverenciado por seu trabalho ao lado de Chris Claremont na revista Uncanny X-Men, a partir da década de 80 e ao longo da década de 90, Byrne trabalhou com quase todos os principais super-heróis americanos. Enquanto durante a Era Reagan os super-heróis tinham uma grande tendência em se mostrar pessimistas com problemas psicológicos e culturais, os heróis de Byrne abriam um sorriso e lutavam levando consigo uma aura de que tudo daria certo. As histórias de Byrne apelavam pela nostalgia, patriotismo e cristianismo.

Em seu livro Comic Book Nation, Bradford W. Wright coloca uma entrevista de John Byrne realizada em 1990, onde o autor se mostra preocupado com a indústria dos comics. Ele criticava as tendências promovidas por alguns de seus colegas naquela época, insistindo que “tem havido uma distinta mudança de atitude entre as pessoas que estão fazendo quadrinhos. Os mantenedores estão menos em evidência e os destruidores estão mais em evidência”. Com destruidores, Byrne se referia à onda de reconstrução dos personagens promovida principalmente pelos invasores britânicos capitaneados por Alan Moore e também ao estilo cínico de Frank Miller.

Apesar de não usar a reconstrução de uma forma “britânica”, Byrne retrabalhou muitos super-heróis. Foi ele que, em 1986, reconstruiu o universo do Superman. Ele também retrabalhou Hulk, Namor, Mulher-Hulk, Mulher-Maravilha, entre outros. Além disso, Byrne usou muito experimentalismo em suas histórias, nem tanto na maneira como apresentava os personagens, mas como contava as histórias. Há vários exemplos, do Quarteto Fantástico aos Anos Perdidos dos X-Men.

A última edição de Byrne com a Mulher-Hulk: morte.

A última edição de Byrne com a Mulher-Hulk: morte.

Há uma história da Tropa Alfa em que Pássaro da Neve enfrenta Kolomaq, umas das três Bestas-Feras do Canadá. Em meio à luta, a heroína é fustigada por uma nevasca e tudo fica… terrivelmente branco. Seguem–se seis páginas de luta e quadros em branco, sendo mostrados apenas os requadros, balões e onomatopéias. Em uma história da Mulher-Hulk, o artista-roteirista anglo-canadense vai além: deixa quatro páginas da revista em branco, sem requadros, desenhos, balões ou qualquer coisa. Há uma explicação. As histórias de Byrne para a Mulher-Hulk sempre trabalharam a metalinguagem. Jennifer Walters sabia que era um personagem de quadrinhos e, além disso, que era escrita e desenhada por Byrne. Na história em quastão, Jen enfrentava o Apagador-Vivo, um inimigo bastante antigo de Hank Pym, o Homem-Formiga que simplesmente apagava a Mulher-Hulk e sua revista da existência. Claro que a heroína escapa desse destino “rasgando” as páginas do gibi e retorna tudo ao que era antes. Claro, até John Byrne morrer.

As HQs da Mulher-Hulk foram onde o criador teve a maior liberdade de experimentar, tanto é que para de despedir de sua fase no título, matou a si mesmo. Conservador ou experimentalista, John Byrne é um dos maiores criadores dos quadrinhos de super-heróis americanos e um dos poucos que podem se vangloriar de ter trabalhado com grande parte deles.

Wolverine e o Slogan da Tostines

4 fev

“Sabe, só tô fazendo pra aumentar as vendas”. Wolverine em X-Force#120 (X-Men Extra#11)

“Sabe, só tô fazendo pra aumentar as vendas”. Wolverine em X-Force#120 (X-Men Extra#11)

Há alguns anos se questionava a presença massiva de Wolverine em capas de revistas e sua participação em histórias de diversas equipes mutantes e de outros heróis da Marvel. O que ninguém pode negar é que Wolverine vende. Isso é um fato. Entretanto aqui se aplica o famoso questionamento da Tostines: È Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine?

Tudo começou em uma história do Hulk contra Wendigo, de Len Wein e John Romita Sr., em 1974. Wolverine é um agente do serviço secreto canadense e entra no pau com o Gigante Esmeralda. No fim, claro, tudo é resolvido. O bandido perde, a mocinha é salva.

Os X-Men nesse tempo sofriam uma terrível baixa de vendas e vinham se sustentado a duras penas com republicações. Eis que surge Giant Size X-Men revitalizando a equipe mutante e trazendo novos pupilos para Xavier. Wolverine é um deles, um pálido e apático personagem que não conseguia se fazer perceber na equipe. Logan viu tudo mudar em sua vida quando o anglo-canadense John Byrne assumiu o lugar de Dave Cockrum no desenho. Byrne conseguiu dar força suficiente ao seu conterrâneo para que o transformasse no mais popular x-man.

Violência. Sangue. Ação. Instintos animalescos. Um passado misterioso. Todos eles eram os temperos necessários no caldeirão de Chris Claremont e John Byrne para os primeiros anos de Wolverine e se tornaram constantes em sua vida quadrinística desde então. Esses elementos agradavam ao leitor, cansado de heróis contidos e politicamente corretos como Super-Homem e Capitão América. Os tempos eram outros, a violência urbana e familiar começava a exibir índices de crescimento. A derrota na Guerra do Vietnã havia deixado muitas seqüelas na mente e na honra dos americanos. Anti-heróis como Lobo e Justiceiro surgiam. Wolverine e os X-Men estavam, então, em franca ascensão.

Agora é a minha vez!

Wolverine: "Agora é a minha vez!"

Infelizmente chegou um derradeiro momento, que se percebeu que se colocassem Logan na capa da revista, ah… era o paraíso dos investimentos. A Marvel seguiu este caminho e começou a colocar o Wolverine em todas as revistas possíveis e imagináveis: Excalibur, Novos Mutantes, X-Factor, Hulk, Homem-Aranha, todos recebiam a inesperada visita de Wolverine nas suas revistas… e as vendas aumentavam. Inúmeras minisséries, sejam solo ou com Logan fazendo parceria com heróis como Nick Fury foram lançadas. Wolverine, nessa fase, chegou inclusive a fazer parte do Quarteto Fantástico! Por quê? Ora, vocês ainda perguntam?! Aqui se aplicava o princípio do é Wolverine porque vende mais.

Surgiram inúmeras versões para a origem do baixinho canadense e o personagem ficou mais “misterioso” e confuso do que nunca. Se ele não podia dizer nada de seu passado, muito menos nós…

Vende mais porque é Wolverine ou é Wolverine porque vende mais?

Vende mais porque é Wolverine ou é Wolverine porque vende mais?

Em 1992, com a estréia da série animada dos mutantes e com seu coerente incremento na popularidade dos X-Men, Wolverine tornou-se uma variável controlável do marketing da Marvel. Wolverine, ao lado do Homem-Aranha, passou a representar a editora. Inúmeros produtos foram lançados com o baixinho canadense no rótulo, desde canetas até sucos e sopas de letrinhas. Todas um sucesso de venda. Quer melhor situação para a Marvel? Além de ganhar royalities sobre os seus personagens, ainda tinha merchandising gratuito para suas revistas: — Mãe! Olha a revista do carinha da camiseta! Compra! Eu vi na TV!

Bons tempos… foi nesses tempos que a maioria de nós foi fisgado pela “onda X-Men”. Mas tudo que é bom dura pouco e a Marvel pediu falência… Os produtos derivados desapareceram das prateleiras. A popularidade baixou e as vendas caíram. Reconheceram que não adiantava colocar personagens populares e belos desenhos para que uma publicação desse certo, muito menos personagens chupados de outros (Youngblood e WildC.A.T.S. que o digam!), eram necessárias argumentos coerentes e consistentes. A Marvel fez uma faxina na casa e pelo final da década de 90, começou a contratar nomes premiados e de peso para a sustentação de histórias mais polêmicas e maduras. Dentre eles, Chris Claremont, o mestre em X-Men, haja visto a sua permanência no título: 19 anos ininterruptos.

iogurte, sopa, manteiga.

Wolverine: iogurte, sopa, manteiga.

Wolverine continuava ali, agora um pouco mais de canto, depois de perder o adamantium e o nariz (ué? tudo em nome das vendas, pessoal!), mas sempre alavancando as vendas de qualquer herói capenga que lhe estendesse a mão. O nosso querido peludo viu sua estrela brilhar novamente com o anúncio de X-Men, o Filme(2001). Qualquer fã de X-Men que se preze podia apostar todas as fichas em que Wolvie iria protagonizar essa série. Resultado: maaaais popularidade para o Tio Logan e para os pupilos do Chuck. No segundo filme, X2(2003), Wolverine pode mostrar a que veio e liberou toda a agressividade contida na primeira película. Isso bastou para que os espectadores caíssem de joelhos e pedissem bis. Realmente, a maior parte da ação ficou nas mãos (cheias de garras) de Wolverine.

Influenciadas pelo filme, as revistas aposentaram os uniformes colantes coloridos e desfilaram a nova coleção de roupitchas feitas com couro e metal. As revistas também passaram por uma reformulação, ganharam temáticas novas e independentes, mas mesmo figurando no Top Ten, das revistas mais vendidas nos EUA, todas elas estão atreladas, pois coincidência ou jogo de mercado, todas contam com a participação supra-especial do canadense. Aqui se aplica, vende mais porque é Wolverine.

Estréia em maio

Wolverine Origins: Estréia em maio

E Wolverine não ajudou apenas à popularidade dos X-Men, ele alçou a carreira de Hugh Jackman, que hoje é reconhecido como um dos melhores atores surgidos nos útimos tempos e tido como sex symbol (apesar de representar o Wolverine). No filme que será lançado em maio deste ano ficaremos sabendo um pouco mais do passado do mutante de garras de adamantium e, ironicamente, ocorrerá um fator inverso ao que acontece nas revistas. Ao invés de termos a participação de Wolverine em diversos títulos, teremos “aparições especiais” de inúmeros personagens dos quadrinhos: Gambit, Emma Frost, Espectro, Deadpool, Raposa Prateada, Blob e até o Bico. De qualquer forma, a Marvel já preparou um batalhão de revistas com Wolverine na capa para aquele mês. 11 no total.

Mas, afinal, é Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine? Bom, aí vocês me pegaram… Essa é uma daquelas Perguntas Eternas.

Coluna publicada originialmente no site Mutação.com sob a assinatura de Discípulo X.

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