Não é de hoje que se usa o artifício da amnésia para se escrever histórias em quadrinhos de super-heróis. Só pra ficarmos em poucos exemplos, na década de 70 Carol Danvers combatia o crime como Miss Marvel sem saber da existência e das ações de seu alter-ego. Temos os X-Men emergindo do Portal do Destino na década de 80, todos desmemoriados e com uma vida nova, distantes de suas aventuras combatendo o preconceito. Outro exemplo é história de Mark Waid para a retomada da Liga da Justiça por Grant Morrison nos anos 90: todos os personagens estavam imersos em uma espécie de sonho.
Da metade dos anos 2000 para cá houve um surto de retomada dos povos fantásticos da mitologia dos super-heróis. Os povos de deuses e de seres superpoderosos voltaram à baila e a maneira como isso foi feito parece bastante semelhante em todos os casos. Vamos à eles:

Os Eternos, por Neil Gaiman e John Romita Jr.
1. Os Eternos
Perdidos durante a minissérie dos Eternos e encontrados na mesma.
Quando Neil Gaiman assumiu a série dos Eternos propôs que esse povo estaria disperso pelo mundo, sem saber de suas próprias identidades. Ao poucos, no entanto, os heróis iam relembrando de seu passado e da luta contra os Deviantes, para mais uma vez defender a Terra contra o despertar do Celestial Sonhador.

O Ataque das Amazonas, por Will Pfeifer e Pete Woods
2. As Amazonas
Perdidas durante a Crise Infinita e retomadas durante a minissérie O Ataque das Amazonas.
Durante a Crise Infinita, as Amazonas de Themyscira partiram para outro plano de existência e deixaram de habitar a Ilha Paraíso. Com a ressurreição de Hipólita por Circe, entretanto, as mulheres guerreiras voltaram de seu exílio e atacaram os Estados Unidos.

Os Atlantes, por Paul Jenkins e John Watson
3. Os Atlantes
DC Comics (perdidos durante a Crise Infinita)
Marvel Comics (dispersados em Marvel Especial #7)
No universo DC, os atlantes foram erradicados com o final da oitava era da magia e o surgimento da nona. No universo Marvel, após os eventos da Guerra Civil, os atlantes resolvem se dispersar pelo mundo e conviver com os humanos, de maneira disfarçada, enquanto Namor e seu exército rumam para a Latvéria, pedindo asilo ao Dr. Destino.

Thor, por J. M. Straczinsky e Oliver Coipel
4. Os Asgardianos
Perdidos durante a saga Ragnarok e retomados nas atuais histórias de Thor.
Após a batalha final, os deuses nórdicos sucumbem, mas eis que o deus do trovão retorna e empreende uma busca pelos asgardianos desmemoriados através do mundo.
Existem muitas semelhanças na maneira como Neil Gaiman trabalha o retorno dos Eternos e como J. Michael Straczinsky mostra a volta do povo da cidade dourada. A vida nova, a maneira como não se lembram de sua vida passada, uma cidade fantástica vazia à espera de seus habitantes. Por outro lado, na história de Gaiman há a “Recusa ao Chamado”, parte integrante da Jornada do Herói, de Campbell. Os Eternos recusam-se, a priori, a voltarem para seu papel de guardiões da humanidade. Os asgardianos, por outro lado, aceitam de bom grado a transformação proporcionada por Thor.

A nova Asgard, no meio de Oklahoma
A renovação do panteão tem raízes na mitologia. Não apenas nas lendas de um só povo, mas em vários. Na cosmogonia grega, ou seja, a origem dos deuses e do mundo. Os deuses são substituídos de geração em geração, filho se sobrepõe ao pai para estabelecer uma nova ordem. Na mitologia egípcia, os faraós são os representantes de Rá e Osíris no mundo dos vivos. No caso dos asgardianos, na própria mitologia nórdica, a lenda do Ragnarok serve para constituir uma nova ordem cósmica, fazendo com que o ciclo de criação-destruição se refaça infinitamente.
No caso dos atlantes, das amazonas e a dispersão dos seus povos, encontramos raízes na Diáspora judia. Depois que o Templo de Salomão foi destruído pelos romanos em 70 d.C. o povo da Terra Prometida se espalhou pelo mundo e só veio se reunificar com a fundação do estado de Israel em 1948.
O engraçado é que grande parte dos povos fantásticos das editoras americanas encontraram destinos semelhantes. Seria crise criativa ou um “méme” que rondava a cabeça dos criadores? A explicação estaria no 11 de setembro? Um povo “desmemoriado” retomando seus valores originais e se unindo contra um mal comum? Talvez. O fato é que temos aí a Crise Final que está mexendo com o panteão de outro povo fantástico: os Novos Deuses. Veremos o que o futuro lhes guarda.