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De novo a identificação…

26 dez

Dando continuidade às polêmicas da identificação e da mitologia dos personagens, destaco uma passagem de  “O Quarto Fechado”, último conto da Trilogia de Nova York, de Paul Auster.

“Todos queremos ouvir histórias e as ouvimos do mesmo modo que fazíamos quando éramos pequenos. Imaginamos a história verdadeira por dentro das palavras e, para fazê-lo, tomamos o lugar do personagem da história, fingindo que podemos compreendê-lo porque compreendemos a nós mesmos. Isso é um embuste. Existimos para nós mesmos, talvez, e às vezes chegamos até a ter um vislumbre de quem somos relamente, mas no final nunca conseguimos ter certeza e, à medida que nossas vidas se desenrolam, tornamo-nos cada vez mais opacos para nós mesmos, cada vez mais conscientes de nossa própria incoerência. Ninguém pode cruzar a frontira que separa uma pessoa da outra – pela simples razãode que ninguém pode ter acesso a si mesmo”.

A mitologia dos super-heróis

16 dez

A obra de arte proporciona uma experiência intemporal e, por momentos o espectador é tão imortal quanto Will Eisner.

A obra de arte proporciona uma experiência intemporal e, por momentos, o espectador é tão imortal quanto Will Eisner.

Os quadrinhos de super-heróis, assim como outras obras de arte, provocam reações de identificação com o leitor: podem desvendar de forma vicariante, com seu efeito catártico, os dramas psicológicos e os mitos universais do homem. Por sua facilidade de leitura e de ingresso na trama, seus atributos se mostram como uma oferta à intimidade, proporcionando elaborações de fantasias acompanhadas de sensações de bem estar, ou mesmo de desconforto, provocando empatia no seu público-leitor.

“Na plenitude de sua função expressiva e catártica, a obra criada se impõe como objeto bom, revalorizador do ego, para o agente da criação e para o espectador. Para o agente, porque vivencia a obra como um complemento do próprio ser, que o ajuda, através do artifício da projeção, a configura e a corrigir a representação que faz de sua auto-imagem e a ampliar a compreensão de sentido de sua existência. Para o espectador, mediante a função especular e as conseqüentes oportunidades de identificação projetiva inerentes a toda produção conceitual ou artística, e mais precisamente porque lhe proporciona uma experiência no intemporal. E assim, por momentos, o espectador é imortal como supõe que seja o criador”, é o que nos diz Isaac Pechansky, no livro A face escondida da criação.

Hoje, os super-heróis constituem mitos, pois estão presentes nas conversas de amigos, em produtos, na publicidade, nas mais diversas mídias, dos livros à televisão, são aceitos e apreciados por grandes camadas de público de diversas idades e países, assumindo seu lugar no imaginário popular. Os super-heróis são símbolos facilmente identificáveis, obtendo uma persuasão tão eficaz que só pode ser comparada às grandes figuras mitológicas da antiguidade. Roman Gubern, em Literatura da Imagem, compara os super-heróis com os heróis mitológicos greco-romanos:

“Ao contrário dos grandes mitos emanados das velhas religiões de culturas primitivas, o público leitor sabia perfeitamente que seus admirados personagens eram fictícios, produtos de tinta-da-china em cima do papel e não reais como os Atenienses poderiam pensar de Hércules; porém, tal condição fabulosa não impediu, nem impede, a adesão solidária e, inclusive, a veneração fervorosa do público a seu herói favorito”.

Desta maneira, os super-heróis se tornaram representações universais, mitos modernos, “sonhos coletivos, aspirações instintivas, sentimentos e padrões de pensamento da humanidade que parecem estar implantados nos seres humanos e que de alguma forma funcionam como instintos ao moldarem nosso comportamento” segundo Sal Randazzo, em A criação de mitos na publicidade: como os publicitários usam o poder do mito e do simbolismo para criar marcas de sucesso.

Os quadrinhos levam a outras realidades

Fugitivos: Os quadrinhos levam a outras realidades

O fenômeno psicológico que leva a atribuir uma personalidade quase real a um personagem desenhado chama-se identificação projetiva, com base nos mecanismos de identificação e de projeção, do “eu” do leitor sobre os personagens das histórias em quadrinhos e das narrativas em geral. Essa identificação acontece sem a necessidade de recursos técnicos. Mesmo em um ambiente impróprio, como em um ônibus superlotado, o indivíduo foge da realidade através da história e passa a “ser” o herói que tem em suas mãos.

Conforme Gubern, sem tais mecanismos seria impossível uma aceitação do ambiente ficcional da história e a adesão emotiva ao herói.

Se por um lado acontece o processo da mitificação dos super-heróis, ao mesmo tempo ocorre a desmistificação dos mesmos, facilitando a identificação por parte do público leitor.

Na pele de seus alter-egos, suas identidades secretas, os heróis personalizam cidadãos comuns, com seus próprios dilemas e complicações e é nesta humanização dos super-heróis, independentemente de serem virtualmente indestrutíveis e supra-humanos, que reside a essência da identificação projetiva que desmistifica esses heróis. Ao estudar o mito do Superman, Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados analisa o papel da outra personalidade do super-herói, Clark Kent, ao compreender que sua dupla identidade garantia a articulação de suas aventuras:

“Mas, do ponto de vista mitopoiético, o achado chega a ser mesmo sapiente: de fato Clark Kent personaliza, de modo bastante típico, o leitor médio torturado por complexos e desprezado pelos seus semelhantes; através de um óbvio processo de identificação, um accountant qualquer de uma cidade norte-americana qualquer, nutre secretamente a esperança de que um dia, das vestes de sua atual personalidade, possa florir um super-homem capaz de resgatar anos de mediocridade”.

nossos aliados na luta para entender a vida, o universo e tudo mais.

Super-heróis: nossos aliados na luta para entender a vida, o universo e tudo mais.

Caso o Superman fosse um imortal, sem a condição de ser uma criatura inserida na vida cotidiana, não seria mais um homem, mas um deus, e a identificação do público leitor com sua outra personalidade cairia no vazio. Portanto, os personagens de uma revista em quadrinhos de super-heróis devem ser arquétipos, o conjunto de determinadas aspirações coletivas, e devem se apoiar em uma imagem fixa que as tornem facilmente reconhecidas.

Os arquétipos funcionam de certa forma como instintos que guiam e moldam nosso comportamento. As mitologias, bem como os arquétipos, ajudam as pessoas a encontrarem suas identidades, ajudam-nas a em sua luta para entender o universo e o lugar que ocupam nele. Segundo Randazzo, os meios de comunicação têm o papel de transmissores da mitologia dos arquétipos, capitaneados pela publicidade geradora de modas e padrões que orientam as massas.

Para Maria Celeste Mira, que escreveu O leitor e a banca de revsitas: a segmentação da cultura no século XX, o comportamento dos jovens está estritamente ligado ao consumo de entretenimento e à mídia, gerando tribos, ondas e modas. Os profissionais de marketing utilizam amplamente esta relação entre a construção da identidade dos jovens e o consumo:

“É durante o móvel e incansável período da juventude que a necessidade e o desejo de testar o novo e esculpir identidades individuais é mais forte. As pessoas jovens têm uma grande quantidade de tempo livre e um interesse considerável em consumo e entretenimento (mesmo que os meios financeiros para acompanha-los esteja faltando) (Mira apud Reimer, 2001, p.159)”.

Ao mesmo tempo, ao analisar a indústria do cinema, o crítico Edgar Morin, analisa a função da mitologia moderna, presente em novos arquétipos chamados por ele de “olimpianos” no livro Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo.:

“Um Olimpo de vedetes domina a cultura de massa, mas se comunica, pela cultura de massa, com a humanidade corrente. Os olimpianos, por meio de sua dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação. Concentram nessa dupla natureza um complexo virulento da projeção-identificação. Eles realizam os fantasmas que os mortais não podem realizar, mas chamam os mortais para realizar o imaginário. A esse título os olimpianos são os condensadores energético da cultura de massa. Sua segunda natureza, por meio da qual cada um pode se comunicar com sua natureza divina, fá-los também participar da vida de cada um. Conjugando a vida quotidiana e a vida olimpiana, os olimpianos se tornam modelos de cultura no sentido etnográfico do termo, isto é, modelos de vida. São heróis modelos. Encarnam os mitos de auto-realização da vida privada”.

Pais com poderes extraordinários

Super-heróis: Pais com poderes extraordinários

Para as crianças, segundo Paulo Gaudêncio, que escreveu o artigo Elementar, meu caro Freud, no clássico Shazam!, de Álvaro de Moya, o super-herói é um elemento fundamental na construção de valores e durante o crescimento, enquanto se torna parte da sociedade. O herói é forte, indestrutível, honesto, altruísta e justo, características mesmas que se esperam do pai, na visão infantil. O super-herói, assim como a figura patena, encarna o ego idealizado, ou seja, o padrão que o indivíduo pretende seguir pelo resto da vida. Para o autor, “as características dos heróis, que na visão infantil são características paternas, passam a fazer parte do estereótipo de homem que cada ser humano cria para si, e que realiza no herói com o qual se identifica”.

O universo dos super-heróis com demonstrações de super-poderes, tecnologia e violência é uma forma de fuga da autoridade e de evasão da realidade, conforme atesta Amanda Sefton-Green ao conversar com garotos sobre desenhos animados:

“Para as crianças… as diferenças de idade – e a percepção social e construção do significado dessas diferenças – são inevitavelmente significantes: o que significa ser ‘homem’ e o que significa ser ‘adulto’ ou ‘infantil’ interceptam-se de formas complexas… Muito do apelo das narrativas ‘violentas’ no cinema e na televisão, pelo menos para os meninos, é que lhes parecem oferecer soluções – embora temporárias e num nível que é claramente reconhecido como o da fantasia – para inseguranças e ameaças físicas muito reais e permanentes (Mira apud Sefton-Green, 2001, p.169)”.

As revistam em quadrinhos também se revelam instrumentos de catarse, levando o leitor, através de sua identificação com os heróis, sentir-se vingado, pelo massacre inconsciente de seus inimigos, gerando um afastamento de seus próprios problemas e de suas próprias frustrações.

Os Novos Olimpianos, a mitologia permanente dos Super-heróis

Os Novos Olimpianos, a mitologia permanente dos Super-heróis

“A história em quadrinhos de aventura não é apenas uma compensação das grandes crises históricas; é-o também da monotonia da vida cotidiana, oferecendo uma fuga no sonho. (…) Tal como o folclore, a história em quadrinhos é, ao mesmo tempo, viva, atual, ligada aos problemas do tempo presente, e permanente, de todas as épocas, graças aos arquétipos dos quais toma seus temas. (…) Por trás da contingência das ideologias esconde-se a permanência das mitologias”, é o que diz Jean-Bruno Renard em Bandes dessinés et croyances du siècle

Os super-heróis, portanto, funcionam como orientação para a vida de seus leitores, modelos que devem seguir a fim de vencer as adversidades colocadas à sua frente, alimentados pelas revistas em quadrinhos que disseminam suas aventuras.

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Retirado do artigo Super-Heróis: Os Novos Olimpianos, de Guilherme Smee.

Projeção e Identificação

10 dez

Quero ser o Homem-Aranha. Ou Peter Parker?

Quero ser o Homem-Aranha. Ou Peter Parker?

Os quadrinhos promovem um sistema de identificação e projeção nos leitores. Com a revista do Homem-Aranha nas mãos o nerd médio se identifica com Peter Parker e projeta em sua imaginação ter a coragem e os poderes do Homem-Aranha. Ou será que acontece um processo inverso? O nerd se identifica com a ausência de poderes e coragem e projeta a vida do comum Parker, buscando um dia ser fotógrafo como ele ou jornalista como Clark Kent?.

São as semelhanças ou as diferenças que nos atraem? Essa questão vem norteando os relacionamentos humanos durante os tempos. Nunca chegou-se a uma conclusão. Mas os estudos mostram que uma das grandes razões de sucesso das narrativas heróicas é a utilização de arquétipos. Nos quadrinhos podemos encontrar vários deles.

Já vimos aqui que em vários quadrinhos, o que faz a grande diferença, o grande big-bang no cérebro é o desconcerto que certas cenas nos oferecem. São as obras quebrando nossas projeções e identificações. Quando o leitor de quadrinhos cresce, ele não está mais preocupado em querer ser o Homem-Aranha, mas fica chocado ao descobrir em Do Inferno, que William Gull, médico da Rainha, é Jack, o Estripador. E não apenas isso. Ele está a mando da soberana para eliminar evidências de um caso extra-conjugal na família real. Claro, que ainda aqueles que se identificam com Gull ou outros personagens como o Justiceiro. A esses, falta um pouco de senso crítico. O que acontece em Do Inferno é a desconfirmação dos arquétipos, a desconstrução da identificação, ainda que um pouco dela deve existir para que o leitor continue acompanhando a história.

“O interesse que sentimos pelos personagens não vem, portanto, daquilo que reconhecemos em nós mesmos (somente os romances mais grosseiros fazem uso desse processo), mas daquilo que aprendemos sobre nós mesmos. A verdade que emana de nossa interação com as figuras fictícias é, com muita freqüência, uma verdade ignorada. É a diferença, e não a semelhança, que permite descobrir-se. Os personagens mais interessantes são aqueles que vão ao encontro das supostas inclinações do leitor”, diz Vincent Jouve no livro L’effet-personnage, citação copiada descaradamente do blog da Carol.

o inverso dos arquétipos

Os Perpétuos: o inverso dos arquétipos

Agora peguemos os Perpétuos de Neil Gaiman para explicar essa frase. Nem sempre reconhecemos em nós mesmos o Desespero, ou o Desejo, até mesmo a Destruição. Mas lendo as palavras dos personagens de Gaiman muitas vezes nos pegamos pensando; “é, realmente, acontece dessa forma, por que eu nunca tinha percebido?”. Os personagens de Gaiman tem essa qualidade de, como diz o próprio Sonho, “pronunciar verdades que não se falam”. Quando nos pegamos reconhecendo em nós mesmos nossas falhas, o Destino, a Morte, o Sonho, o Desejo, o Desespero, a Destruição e o Delírio dentro de nós é que conhecemos nossas diferenças. É quando compreendemos que não somos arquétipos, nem personagens. Não precisamos nos identificar exclusivamente. Mas aprendemos. Cada um na sua, com alguma coisa em comum, já dizia a marca de cigarros.

Os próprios Perpétuos são construções e desconstruções destes aspectos da vida humana. Se por um lado a Morte é aquela que nos arranca deste plano de existência, ela também é a irmã ideal, alguém com quem você pode conversar por horas sem se cansar, que é alto-astral e carinhosa. Destruição, por outro lado, é um artista frustrado. Apesar de encarnar o caos, ele quer construir algo para si, ser reconhecido por algo que ele mesmo construiu.

É a diferença, não a semelhança que permite descobrir-se. E talvez seja por essa razão que para muitos sejam mais fácil se identificar com os X-Men. Eles representam a diferença, aquilo que não é comum, mas que permite descobrir que a diversidade é algo mais normal que a semelhança. Essa é a moral da nossa história.

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