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Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

25 mai
Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

O ano era 1999, descontente com a foto da fachada do colégio que ilustrava minha agenda do primeiro ano do segundo grau e querendo conferir a mim mesmo um certo ar místico, recortei o anúncio de uma minissérie que se chamava Destiny de uma revista Wizard comprada numa das idas a Florianópolis (minha primeira revista importada comprada por mim mesmo). Pronto: uma nova capa. Havia simplesmente gostado da ilustração, desconhecia por completo o universo de Sandman e seus irmãos, os perpétuos, entre os quais estava Destino. Já o subtítulo, Chronicle of Deaths Foretold, era um tanto atraente, levando em conta que devia ter sido inspirado em Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Marquez e por acaso na época eu lia Cem Anos de Solidão. A imagem rendeu até a minha primeira tentativa de fazer um conto, na sua estrutura subtextual, falando sobre aquilo que estávamos destinados a ser ou se éramos livres para escolher. Coisas de cabeça adolescente. Treze anos depois – um número mais do que místico – era relançada a minissérie, agora em capa dura e edição de luxo com a imagem que me cativou na adolescência. Dessa vez eu já sabia que Destino era o irmão mais velho dos Perpétuos, que era cego e sua incumbência era ler – e estar acorrentado – ao livro que conta a jornada da humanidade na Terra. Mas a história desta HQ não tem Destino como protagonista e sim, o seu filho, o suposto cavaleiro da Peste, dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Há outras duas protagonistas, Ruth, cujas passagens no ano de 2009 são retratadas por Kent Williams (ilustrador da graphic novel A Fonte, de Darren  Aronofsky) e a própria peste negra cuja epidemia se espalha em quatro períodos de tempo diferentes. Cabe a Zulli ilustrar a origem do cavaleiro durante o império de Justiniano, Hampton ilustra os dias de reinado de Eduardo III e Guay, os puritanos do final do século XIX. Tempos da peste, tempos em que o seu cavaleiro esteve rondando estas paragens. A edição é muito caprichada: a capa tenta emular o Livro do Destino com suas correntes e moduras. O texto de Kwitney é saboroso e infeccioso, se espalha através de notas do Livros de Destino, notas do diário de Ruth, anotações do clérigo que interpretou as passagens do Livro do Perpétuo e diálogos bem construídos. Se a um primeiro instante o texto mais denso e multifacetado pode parecer um empecilho, logo digo que essa impressão é desfeita porque a história é muito bem construída. Apenas a apresentação escrita pela autora não ajuda muito, entrega um ponto de vista entremeado na obra. Com ilustrações primorosas e narrativa envolvente, tratando de temas caros ao universo adulto como doenças, morte, sexo e as  complicadas relações humanas do ponto de vista de uma figura bíblica, Destino: Crônicas de Mortes Anunciadas, capta a essência do que a Vertigo foi em seu início. E eu? Bem, meu destino era ler essa história, mas juro que foi por livre-arbítrio.

Projeção e Identificação

10 dez

Quero ser o Homem-Aranha. Ou Peter Parker?

Quero ser o Homem-Aranha. Ou Peter Parker?

Os quadrinhos promovem um sistema de identificação e projeção nos leitores. Com a revista do Homem-Aranha nas mãos o nerd médio se identifica com Peter Parker e projeta em sua imaginação ter a coragem e os poderes do Homem-Aranha. Ou será que acontece um processo inverso? O nerd se identifica com a ausência de poderes e coragem e projeta a vida do comum Parker, buscando um dia ser fotógrafo como ele ou jornalista como Clark Kent?.

São as semelhanças ou as diferenças que nos atraem? Essa questão vem norteando os relacionamentos humanos durante os tempos. Nunca chegou-se a uma conclusão. Mas os estudos mostram que uma das grandes razões de sucesso das narrativas heróicas é a utilização de arquétipos. Nos quadrinhos podemos encontrar vários deles.

Já vimos aqui que em vários quadrinhos, o que faz a grande diferença, o grande big-bang no cérebro é o desconcerto que certas cenas nos oferecem. São as obras quebrando nossas projeções e identificações. Quando o leitor de quadrinhos cresce, ele não está mais preocupado em querer ser o Homem-Aranha, mas fica chocado ao descobrir em Do Inferno, que William Gull, médico da Rainha, é Jack, o Estripador. E não apenas isso. Ele está a mando da soberana para eliminar evidências de um caso extra-conjugal na família real. Claro, que ainda aqueles que se identificam com Gull ou outros personagens como o Justiceiro. A esses, falta um pouco de senso crítico. O que acontece em Do Inferno é a desconfirmação dos arquétipos, a desconstrução da identificação, ainda que um pouco dela deve existir para que o leitor continue acompanhando a história.

“O interesse que sentimos pelos personagens não vem, portanto, daquilo que reconhecemos em nós mesmos (somente os romances mais grosseiros fazem uso desse processo), mas daquilo que aprendemos sobre nós mesmos. A verdade que emana de nossa interação com as figuras fictícias é, com muita freqüência, uma verdade ignorada. É a diferença, e não a semelhança, que permite descobrir-se. Os personagens mais interessantes são aqueles que vão ao encontro das supostas inclinações do leitor”, diz Vincent Jouve no livro L’effet-personnage, citação copiada descaradamente do blog da Carol.

o inverso dos arquétipos

Os Perpétuos: o inverso dos arquétipos

Agora peguemos os Perpétuos de Neil Gaiman para explicar essa frase. Nem sempre reconhecemos em nós mesmos o Desespero, ou o Desejo, até mesmo a Destruição. Mas lendo as palavras dos personagens de Gaiman muitas vezes nos pegamos pensando; “é, realmente, acontece dessa forma, por que eu nunca tinha percebido?”. Os personagens de Gaiman tem essa qualidade de, como diz o próprio Sonho, “pronunciar verdades que não se falam”. Quando nos pegamos reconhecendo em nós mesmos nossas falhas, o Destino, a Morte, o Sonho, o Desejo, o Desespero, a Destruição e o Delírio dentro de nós é que conhecemos nossas diferenças. É quando compreendemos que não somos arquétipos, nem personagens. Não precisamos nos identificar exclusivamente. Mas aprendemos. Cada um na sua, com alguma coisa em comum, já dizia a marca de cigarros.

Os próprios Perpétuos são construções e desconstruções destes aspectos da vida humana. Se por um lado a Morte é aquela que nos arranca deste plano de existência, ela também é a irmã ideal, alguém com quem você pode conversar por horas sem se cansar, que é alto-astral e carinhosa. Destruição, por outro lado, é um artista frustrado. Apesar de encarnar o caos, ele quer construir algo para si, ser reconhecido por algo que ele mesmo construiu.

É a diferença, não a semelhança que permite descobrir-se. E talvez seja por essa razão que para muitos sejam mais fácil se identificar com os X-Men. Eles representam a diferença, aquilo que não é comum, mas que permite descobrir que a diversidade é algo mais normal que a semelhança. Essa é a moral da nossa história.

Sandman – Entes Queridos (Citações II)

1 abr

Agora sim, acabei de ler. Não vou comentar muito, só que esse arco fecha a maioria das pontas soltas deixadas ao longo da série. Vários personagens reaparecem e alguém morre. (quem será?). Bom, vamos às citações:

“Nossa existência deforma o universo. Isso é responsabilidade” – Delírio.

“Você fica tão vulnerável. Abre o peito e o coração. Qualquer um pode entrar e bagunçar tudo. Voê constrói tantas defesas. Passa anos construíndo uma blindagem completa para que nada possa te machucar, até que uma pessoa idiota, igual a qualquer pessoa idiota, aparece em sua vida idiota… Você dá a essa pessoa um pedaço seu. E ela nem pediu. Certo dia, ela faz uma boagem como te beijar, sorrir pra você, então sua vida já não é mais sua. O amor faz reféns. Entra em você. Corrói você por dentro e te deixa chorando no escuro. De modo que uma frase simples como “melhor continuarmos só amigos” ou “mas que perspicaz” vira um caco de vidro que se enterra no seu coração. Dói. Nao só na imaginação, não só na mente. Dói na alma. No corpo. Rasga você por dentro. Nada deveria ter esse poder. Principalmente o amor. Odeio o amor”. – Rose Walker

“Os costumes têm poder. E apenas os realmente corajosos ou perigosos os desafiam. Não é sensato ofender os vizinhos” – Cluracan, de Faerie

“Você quer uma palavra verde e vermelha ao mesmo tempo?”. – Delírio

“Vou contar um segredo. Um corvo criou o mundo. Quando Noé o mandou em busca de terra firme, ele não achou nada. Estava tudo inundado. Então, ele a criou. Cagou a terra firme e mijou a água fresca. E saiu voando morrendo de rir. Foi esse o mundo que o pombo encontrou”. – Caim

“A morte significa que assino uma renúncia a qualquer idenização. Duas vezes, nas cruzinhas. Nada de milagres. Então coloco a morte de Zelda no meu cartão Visa e ponto final”. – Rose Walker

“Regras e responsabilidades. Estes são os laços que ns atam. Fazemos o que fazemos por sermos quem somos. Se fizéssemos diferente não seríamos nós mesmos. Farei o que devo fazer. E farei o que for preciso”. – Sonho

“Controversa? Eu? Prefiro me ver como uma arma biológica na guerra dos sexos”. – Vixen/Hal

“Sabe quando alguém faz uma coisa errada e não admite nem pra si mesmo qe está fazedo aquilo? Como se chama isso?”. – Morte

“É o mistério que permanece. Não a explicação”. – Neil Gaiman

Sandman – Entes Queridos (Citações I)

24 mar

Estou na metade de Sandman – Entes Queridos (Conrad, R$ 94). Aqui vão algumas citações que gostei na primeira parte. Neil Gaiman é uma das minhas grandes influências, não só para textos e um dos meus autores favoritos.

“Não posso dizer que aprecio inícios. São coisinhas confusas. Prefiro belos finais. Neles, você sabe onde está”. – A Anciã, das Bondosas.

“Sempre foi prerrogativa das crianças e dos estúpidos dizer que o imperador está nu. Mas o estúpido permanece estúpido e o imperador continua imperador”. – Sonho.

“Andei fazendo uma lista de tudo que não ensinam na escola. Não ensinam a amar alguém. Não ensinam a ser famoso. Não ensinam a ser rico ou pobre. Não ensinam a se afastar de alguém que você não ama mais. Não ensinam a saber o que se passa na cabeça dos outros. Não ensinam o que dizer a alguém moribundo. Não ensinam nada que valha à pena saber. Às vezes eu me sinto… porra… sei lá. Oca. Em geral, quando não sinto o que deveria sentir. Uma amiga está morrendo de AIDS. E como eu me sinto? Vazia. Só isso. Apenas vazia”. – Rose Walker.

“Eu era uma mulher tão dependente. Nunca tomava decisões. Tudo que fiz na minha vida foi sempre idéia de outra pessoa. Como uma menina no espelho. Como se eu estivesse observando, sentada, penteando meus cabelos, enquanto a vida toda passava no espelho. Quando minha mãe se foi. Quando Hector morreu. E quando ele morreu outra vez. Quando mataram Daniel foi como se o espelho se quebrasse. Só havia duas coisas a fazer. A primeira seria deitar e não levantar mais. Quantas vezes a vida pode bater em você? Quando os socos começam a doer? Quando você simplesmente… pára?”. – Hipollyta Hall.

“Uma mulher não deveria dormir a vida inteira. Mulheres não tem relação com os sonhos. Nós somos do mundo real. (…) As mulheres têm a ver com despertar, Rose. Como mães, despertamos as crianças do nada para a existência. Como donzelas, nós despertamos os homens para as alegrias e sofrimentos da vida adulta, para os mundos da luxúria e da responsabilidade. E quando chega a hora deles, somos sempre nós que os banhamos pela última vez e os preparamos para o despertar”. – diálogo de Rose Walker com três velhinhas.

“Olhe bem pra você. Está louca. Estranha. Horrível. Não cresci para virar você. Queria ser outra pessoa”. – Lyta criança para a Lyta adulta.

“Sou mesmo tão decepcionante?”. – Sonho.

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