Como diz a orelha desta graphic novel, Chester Brown tem a coragem de expor temas e situações que muita pouca gente tem de tocar, literalmente. A história é curta, mas o autor conta como foi crescendo sua obsessão pela revista Playboy desde que comprou sua primeira, aos quinze anos, depois de uma missa, e vai até a parte em que precisava recorrer à lembrança de suas playgirls favoritas para que conseguisse fazer sexo com mulheres. A apresentação visual da graphic novel é contraditória: quadros grandes, no máximo quatro quadros por página sobre um fundo preto. Enquanto os quadros mostram a vontade de expor escancaradamente o tema controverso, o fundo preto encarna a vergonha que ele mesmo admite ter ao revelar suas experiências. Exatamente a mesma contradição da criação cristã com a libertação sexual. É como muitas HQs autobiográficas, mas esta tem o fundo sexual o que a transforma em uma boa porcentagem mais interessante e instigante. Um tipo de história como essa merecia uma continuação: e ela vem com Paying For It, na qual Chester conta suas experiências com prostitutas. Quando sair por aqui eu falo dele.
Black Hole – Sexo, drogas e surrealismo
1 mai

Black Hole, de Charles Burns, pela Conrad
A sensação de estar caindo em um buraco negro é recorrente durante a adolescência. O mundo está mudando, o corpo está mudando e nem sempre se consegue acompanhar essa mudança. A graphic novel Black Hole – Introdução à Biologia, de Charles Burns, desperta esta impressão no leitor, mas de modo potencializado. A história mostra adolescentes descobrindo as drogas e o sexo na Seattle dos anos 1970. Estas primeiras experiências se tornam terríveis quando uma doença que se dissemina pelo contato sexual assola a cidade, gerando as mais variadas mutações.
Durante uma festa, Chris conhece Rob. Decidem sair da festa para conversar melhor. A garota leva uma garrafa de vinho. Bebem o vinho, beijam-se, deitam-se no chão e transam. Chris resolve beijar o pescoço de Rob. Quando ela puxa a gola da camisa do rapaz para baixo, enxerga uma segunda boca em seu pescoço, fazendo sons guturais. E tudo fica frio como a certeza de que estava com a doença.

Que tal beijar uma boca no pescoço?
É fácil perceber que a graphic novel de Burns traça um paralelo com os primeiros anos da conscientização do perigo da AIDS e de como a doença reprimiu as pessoas que uma década antes haviam se libertado sexualmente. Burns mostra que o sentimento de deslocamento é tão presente nos infectados quanto nos sãos, e insinua que a praga sexualmente transmissível não é o único problema entre os personagens, mas a própria adolescência e o despreparo em lidar com o embate entre perigo e prazer que ocorre em suas cabeças. O autor se aproveita deste conflito para desenvolver cenas surreais, em que pessoas têm o corpo de serpentes marinhas, um cigarro se torna uma espécie de ser vegetal, imagens que surgem em sonhos ou em alucinações geradas pelo consumo de LSD. O que torna tudo ainda mais alarmante é perceber que estas visões se concretizam em Seattle, com escalpos encontrados na margem de um lago ou criaturas deformadas habitando a mata fechada, todos resultados da praga.
Os efeitos da moléstia podem ir de pequenas manchas e rasgos na pele a deformações extremas no rosto como calombos e pústulas. “Gosto de pensar na adolescência como uma doença que aflige as pessoas e que as afeta de modos diferentes”, justifica o autor. “Naquele tempo eu me sentia como uma criatura alienígena”.Há uma passagem na história em que Keith encontra uma garota de costas e nua da cintura para baixo. O rapaz fica atraído e também apavorado: a garota tinha um rabo, um pedaço de pele que se mexia sobre sua bunda. Ela era um deles, os infectados.

Uma garota com um charme a mais.
Se Black Hole fosse um filme poderia ser dirigido por David Cronemberg, cineasta conhecido por desenvolver películas que aproximam o físico do psicológico de uma maneira bastante explícita (A Mosca, Crash – Estranhos Prazeres). Assim como Cronemberg, Charles Burns não se furta em mostrar ferimentos abertos, órgãos sexuais, consumo de drogas e outros detalhes que algumas obras deixam de retratar sob o pretexto de ofender alguém. Em sua filmografia, Cronemberg tentou mostrar que seus filmes devem ser assistidos através do ponto de vista da doença. Da mesma forma que Black Hole encara a adolescência e suas transformações de uma forma mais radical, doença e desastre, na obra de Cronemberg, são encarados mais como agentes de transformação pessoal do que problemas a serem superados.
A arte do quadrinista reforça o sentimento de aprisionamento e deixa as passagens inquietantes ainda mais terríveis e sombrias. Burns se utiliza de um traço pesado, porém extremamente detalhista. Os quadros são todos completos, com cenários bem desenvolvidos e, por vezes, na história é possível sentir até claustrofobia. O suspense se mostra eficiente em uma história em quadrinhos que utiliza um contraste tão intenso entre luz e sombras, resultado de xilogravura numa técnica chamada scratch board, de uma maneira que leva a crer que o perigo está presente a todo tempo, espreitando sob uma extensa área de nanquim.

Linhas sinuosas, o uso de chiroscuro e o deslocamento dão o clima da história
Apesar de lidar com temas de ficção científica todos os personagens de Black Hole são reais, com motivações e preocupações que qualquer um de nós teria durante a adolescência. Keith, Rob e Chris poderiam ser qualquer um de nossos colegas e também nós mesmos. A realidade dos personagens é tão incerta, que Chris tenta deixar de lado suas inquietações beijando a boca no pescoço de Rob, o único amparo que lhe restava. Por sua vez, a garota com rabo é uma das personagens mais carismáticas da HQ, talvez por ser esse misto de sensações e sentimentos, que a fazem parecer ao mesmo tempo sensual e abominável. Em Black Hole – Introdução à Biologia, o surreal torna-se verossímil.

Beijo na boca
Originalmente, a história foi publicada em doze edições e levou dez anos para ficar pronta (1995-2005). Black Hole é derivada da série Teen Plague (Praga Adolescente), publicada por Burns na revista Raw, nos anos 80. A revista Raw era editada por um dos grandes nomes do quadrinho underground americano, Art Spiegelman, autor de Maus e ganhador do Pulitzer por este trabalho. Já Black Hole ganhou o Eisner Award (espécie de Oscar dos quadrinhos americanos) de melhor álbum em 2006 e 9 Harvey Awards. Charles Burns foi responsável pela autoria de boa parte das capas dos primeiros discos do selo Sub Pop que, entre outros, descobriu o Nirvana. A segunda parte da história foi prometida pela Conrad Editora para este ano.
Um filme adaptado da graphic novel está sendo preparado, com roteiro de Neil Gaiman (Sandman) e Roger Avery (Pulp Fiction – Tempo de Violência), dupla responsável pelo roteiro de A Lenda de Beowulf. As últimas notícias dão conta que David Fincher (Zodíaco, Clube da Luta) dirigirá a película.
A fixação de Burns pela adolescência se revela também no visual dos personagens, baseados em amigos e colegas de escola daquele período de sua vida. “Nunca superei esta fase”, o autor chegou a afirmar. Black Hole – Introdução à Biologia é aquela graphic novel ideal para se ler de uma vez só durante uma madrugada chuvosa e é indicada para quem gosta de história de horror, mas também para aqueles que se deleitam com seqüências delirantes e gostam que o inusitado os espere a cada virada de página.
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Publicado originalmente em ThingsMag #2
Marvel Divas
18 abr

Marvel Divas. No sentido horário: Flama, Fóton, Felina e Gata Negra.
Semana passada Joe Quesada anunciou uma nova minissérie da casa das idéias: Marvel Divas. O editor-chefe anunciou a série como uma espécie de Sex and The City com super-heroínas. Foi divulgada a capa de J. Scott Campbell. Como roteirista foi escolhido o competente Roberto Aguirre-Sacasa e o croata Tonci Jonzic. Mas o que eu pergunto é: a Marvel vai publicar um história falando de sexo? Talvez esteja seguindo uma corrente, já que foi lançado ano passado um anual do Homem-Aranha Ultimate em que Peter Parker e Mary Jane discutiam sua primeira vez. E com certeza é uma evolução, já que não é a primeira vez que a Marvel tenta dar um enfoque maior para suas personagens femininas.

Patsy Walker: revistas de romance faziam sucesso nos anos 50 pela Marvel.
A primeira tentativa foi no final da década de 40 com revistas como Namora e Vênus, lançada no crepúsculo dos super-heróis. Claro que a editora já tinha um nicho formado para as leitoras com revistas de romance e de humor adolescente, entre as quais Patsy Walker, da qual falarei mais daqui a pouco. A segunda tentativa foi na década de 70, tentando se emparelhar com os movimentos feministas. A Marvel lançou três revistas: Shanna, a Mulher-Demônio, A Gata e Night Nurse, mas a empreitada não logrou sucesso (para saber mais sobre essas séries leia a matéria que fiz para o Fanboy sobre o feminismo e as super-heroínas aqui). Durante o final da década de 70 e início da década de 80, outras heroínas se destacaram: Miss Marvel, Mulher-Aranha e Mulher-Hulk. Nos anos 90, as mulheres dos X-Men foram bastante valorizadas, mas em conta do fator comic babe. Psylocke era a musa de muitos garotos. Nos anos 2000, com uma onda de revival dos anos 70 encabeçada por Brian M. Bendis, as heroínas dos anos 70 voltaram aos holofotes. Miss Marvel e Mulher-Hulk ganharam títulos próprios.
Mas em toda esta história como esquecer da maior diva da Marvel?

Ela é a Disco Queen!
Ela tem o rosto pintado com glitters, ela usa uma roupa de vinil branco, usa um globo de luz pendurado no pescoço, é loira, canta e dança, dança de patins. É claro que estou falando da Cristal, a cantora mutante capaz de transformar som em luz. Você tem de concordar que ela é um show vivo. Britney Spears, morda-se de inveja!
Cristal foi criada na década de 70 por John Romita Jr. e Tom DeFalco. No início era para ser chamada de Disco Queen e era inspirada na cantora Donna Summer. Tudo fazia parte de um acordo prévio com a Casablanca Records. O acordo acabou não dando certo. Mas a Marvel não desistiu da personagem. Em 1980, era lançado Dazzler#1 apenas para comic shops. Dessa vez Cristal era inspirada em Bo Derek.

Ponha seus patins e dance! Dance de patins!
Ok, não te convenci de que que Alison Blaire é a maior Diva da Marvel? Aqui vão alguns Dazzler’s Facts:
1. A primeira edição de sua revista vendeu 400 mil cópias apenas em lojas especializadas e convenceu a Marvel a entrar no mercado direto dos comic books;
2. Foi cogitado que Cristal seria a quinta integrante do X-Factor no lugar da Fênix;
3. Cristal foi escolhida como arauto do Galactus;
4. Ela já namorou o Beyonder;
5. Ela provou ser uma integrante de valor dos X-Men enferentando Wolverine, Colossus e Ciclope;
6. O Fanático tem um crush por ela;
7. Ela é a cantora mais famosa do universo Marvel. Vários personagens já apareceram usando a camisa de suas turnês.
8. É uma das personagens escolhidas para se jogar o arcade dos X-Men;
9. É a única personagem feminina dos X-Men a ter uma série solo com mais de 30 edições;
Mas o fact mais importante é que:
10. A Marvel pensou em fazer um filme com Cristal no final da década de 80 e para o elenco escalou Cher, Donna Summer, KISS e o Village People.
E então? Concordam? E como este está se tornando o queerest post neste blog, porque não se divertir com a música que a Cristal canta em Deadpool #68? “Se você tem seus problemas e seus dias são de dor, se te grila a inflação, as crianças, o calor, ponha seus patins e dance, dance de patins”. Dançar de patins é uma filosofia. Pratique!

Marvel Divas: Samanta (Felina), Carrie (Gata Negra), Miranda (Fóton) e Charlotte (Flama).
Agora, voltando a falar das Marvel Divas oficiais. Não conheço muito de Sex and The City, só assisti à primeira temporada, mas não imagino que a Gata Negra seja a mais parecida com a Samantha. Provavelmente é a Gata (Felina) que mais preenche esse perfil, partindo da série adolescente da heroína, Patsy Walker, e levando em conta seus dias como a Gata do Inferno ao lado do Filho de Satã, Daimon Hellstrom. Claro, que a personagem Marvel perfeita para encarnar a personagem de Kim Cattrall seria a Tigresa, a personagem mais sexualmente ativa da casa das idéias. A Gata Negra ficaria num perfil mais Carrie. Mas não acho que Peter Parker seria assim um Mr. Big. Para Miranda, com certeza a Fóton/Pulsar/Mônica Rambeau se encaixaria melhor. Ela é a mais focada na carreira. Em Nova Onda, Warren Ellis não nos deixa esquecer como ela obcecada com o fato de já haver sido líder dos Vingadores. E para Charlotte, sobra Anjelica Jones, a Flama. Ela é mais inocente, mais conduzida por seus valores e também a mais nova.
Veremos se eu acerto quando a mini chegar nas bancas dos EUA. Sacasa diz que “Vamos falar do que realmente significa ser uma mulher em um mundo dominado por testosterona e armas (e falo tanto do mercado de super-heróis quanto do de quadrinhos)”. Será que a série será tão bem sucedida quanto Sex and The City?
Blankets: Poesia Visual
2 abr

Uma das 10 melhores graphic novesl segundo a revista Time.
Blankets, segunda graphic novel de Craig Thompson é uma história semi-autobiográfica que, segundo o autor, conta como é “dividir a cama com alguém pela primeira vez”. A obra tem 582 páginas, uma das mais extensas do seu gênero, mas a fluidez da narrativa de Thompson, seu texto emocional e seus traços livres retiram o peso que um livro tão extenso poderia colocar sobre o leitor. Muitos consideram Blankets, lançada em 2003, um marco na história das graphic novels, não apenas pelo seu número de páginas, mas por sua narrativa, apuro técnico e graça visual. Ganhou quatro prêmios Harvey, dois Eisner e dois Ignatz. Foi listada pela Time como uma das 10 melhores graphic novesl de todos os tempos. A Companhia das Letras promete publicá-la no Brasil em maio de 2009.
O conto que Craig Thompson traz mistura uma narrativa linear com momentos de flashback e conta uma história sobre o primeiro amor e sobre crescimento. O autor começa na infância para mostrar a origem de seus medos, traumas e desilusões, depois, já na adolescência, conhece Raina, por quem se apaixona e começa a se corresponder freqüentemente. Até o dia em que viaja até a casa da menina para passar alguns dias com ela e tem de lidar com uma família em divórcio e aprender a conviver com os dois irmãos de Raina, Ben e Laura, que tem síndrome de down. Ele ganha uma colcha de retalhos feita por Raina e acaba dividido-a com a menina, sobre sua cama. Em troca, ele faz um desenho na parede do quarto dela.

Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.
Os cobertores estão presentes por toda a história. E os padrões da colcha de retalhos que Raina fez aparecem em diversas seqüências, ora como momentos mágicos e de sonho, ora como desejos e lembranças. Pelo fato de concretizar elementos visuais que vivem apenas na imaginação dos personagens, Blankets guarda algumas semelhanças com Epiléptico de David B., ainda que em B. essas imagens sejam mais monstruosas. Thompson combina o realismo detalhado com traços cartunescos que dinamizam sua arte, lembrando por vezes Will Eisner, na execução das expressões dos personagens, as práticas de layout e a mesclagem de texto e imagem. No traço, lembra Kyle Baker. A forma como os quadros estão arranjados nas páginas variam freqüentemente, sempre ancorados no sentimento que o autor quer passar, seja dois meninos em perigo imaginando estarem fugindo de tubarões, seja a imaginação cristã da redenção e do pecado, ou o êxtase de tocar o cabelo da pessoa amada enquanto ela dorme.

A poesia está presente verbal e visualmente.
“Este não é meu mundo. Estou apenas passando por ele”. É o que Craig fala quando está na escola, onde os professores o destratam e os bullies o odeiam. Por outro lado, juncto com os eu irmão Craig volta a ter felicidade, fazendo desenhos e deixando sua imaginação fuir. O confronto imaginação infantil/realidade também é um dos temas de Persépolis, de Marjane Satrapi. No caso de Marjane a realidade é a guerra e no caso de Thompson, é ser deixado à margem na escola. O pequeno Craig resolve seu problema descontando nos próprios malfeitores: escreve um poema em que professores, bullies e babysitters comem seu próprio cocô. Contudo, quando está com Raina, Craig é confrontado com outra realidade: a separação dos pais dela, a dificuldade em cuidar dos irmãos e também da filha da outra irmã dela. Craig compara sua responsabilidade com seu irmão, Phil e seu distanciamento dele e como Raina consegue lidar com toadas as dificuldades em seu caminho e ainda assim mostrar-se popular na escola.
Outro eixo temático de Blankets é a religiosidade. Craig Thompson foi criado por uma família fundamentalista cristã, o que confrontava com muitos de suas aspirações, entre elas o desejo sexual e a vontade de ser artista. Na história existem parábolas cristãs sendo colocadas lado a lado a uma sexualidade exposta delicadamente. Talvez seja na forma como Thompson coloca a sua sexualidade que reside a maior poesia da história. O amor por Raina acontecendo pouco a pouco, inocente e tentando ser evitado, mas ao mesmo tempo desejado. O sexo visto como abuso ou punição pela igreja, mas ao mesmo tempo algo que podia assumir os mais diversos sabores. Criag chega à seguinte conclusão, ao conversar com o irmão: “Eu ainda acredito em Deus, e mesmo nos ensinamentos de Jesus, mas o resto da Cristandade, sua Bíblia, seus dogmas, suas igrejas,… apenas estabelecem fronteiras entre pessoas e culturas. Isso nega a beleza de ser HUMANO e ignora todas essas LACUNAS que precisam ser preenchidas pelo individual”.

Sexualidade tratada com tato e sensibilidade.
Em sua crítica, Kevins Johns define a graphic novel dessa maneira: “Finalmente, Blankets é sobre escolher o amor sobre a vergonha, sexualidade sobre repressão, arte sobre censura, e individualidade sobre conformismo. É uma graphic novel sobre tomar um papel ativo sobre determinar sua própria identidade, e isso demonstra o significado transcendental da arte e da ficção gráfica”. Para mim, é uma graphic novel sobre crescimento e desprendimento e que combina muito com uma música que venho escutando bastante, do Ben Folds Five. Ela diz que é difícil crescer, mas todo mundo cresce. Os dias passam e ainda estamos lutando contra isso. E o final da graphic novel mostra que o “personagem” ainda está aprendendo, ainda está crescendo e que o final não é bem um final para quem quer continuar seguindo. A mensagem é que a vida continua, como diz toda boa autobiografia.
Eu me amarro na Mulher-Maravilha!
8 set
Uma das várias capas em que a Mulher-Maravilha é subjugada
Mulher-Marvilha, símbolo do feminismo. Amazona guerreira que inspirou tantas mulheres. Dotada da força de Hércules e da beleza de Afrodite. Deusa da verdade. Dominatrix.
A Mulher-Maravilha foi criada em dezembro de 1941 pelo psicólogo William Moulton Marston, sob o pseudônimo de Charles Moulton. Seu criador queria que a personagem servisse de exemplo para as meninas, que elas não se submetessem à vontade dos homens e mostrassem sua própria força e brilho. Suas inspirações para a personagem? As duas mulheres com quem vivia: Elizabeth Moulton e Olive Byrne. Não era a esposa e a amante, mas as participantes de uma relação polígama com quem Marston teve muitos filhos.
As idéias liberais de Marston não param por aí. Muita gente deve conhecero Laço da Verdade, a principal arma da Mulher-Maravilha. Quando amarradas por esse laço, as pessoas são forçadas a falar a verdade. Não por acaso, o psicólogo foi o criador do primeiro detector de mentiras. Até então tudo bem, mas o fato é que Charles Moulton tinha uma verdadeira obsessão com bondage. Durante sua estadia como escritor do título da princesa amazona foram verificadas diversas cenas em que a Mulher-Marvilha é amarrada ou amarra pessoas,seja com seu poderoso laço ou com de outras maneiras.
No especial DC 70 Anos – As Maiores Histórias da Mulher-Maravilha, lançado este mês pela Panini Comics isso pode ser perfeitamente verificado na história “A Corporação da Vilania”, publicada originalmente em Sensation Comics #28 (janeiro de 1942), o último número que trazia histórias da heroína. A história já começa com muitos vilões amarrados. Depois, apenas as garotas são amarradas,e como Diana tem pena delas, às envia para a Ilha da Transformação, uma ilha amazona onde os prisioneiros são obrigados a usar um cinturão que muda suas mentes. São obrigados a se tornares bondosos e gentis e a obedecerem TODAS as ordens das amazonas, SEM questionamento.Uma das vilãs escapa e se alia a diversas oponentes da princesa amazona também presas na ilha, como Giganta, a Dra. Veneno e a Mulher-Leopardo. Temos, então, uma sucessão de cenas em que a Mulher-Maravilha acaba subjugada pelas vilãs, tendo de realizar alguns trabalhos, como rebocar um navio, sob as ordens das inimigas. Em uma história de 25 páginas temos 63 quadros em que ao menos uma pessoa aparece amarrada. São laços, cordas, correntes, redes, gaiolas. Homens, mulheres, grupos de mulheres amarrados e subjugados. No final da história, as amazonas são salvas pelas prisioneira que realmente haviam se transformado, ou seja, seguiam suas ordens cegamente. Marston realmente dava seu recado.
Nas palavras do próprio criador: “A única esperança para a paz é ensinar às pessoas a gostarem de serem limitadas. Oferecer-se aos outros, ser controlado por eles, submeter-se à outra pessoa não pode realmente ser aproveitado sem um forte elemento erótico”. Quanto aos seus leitores masculinos ele dizia: “Dê a eles uma mulher forte e estonteante para que se submetam, e eles serão orgulhosos em tornarem-se seus escravos voluntários”.
Moulton parece ter bastante experiência no que diz, por isso vivia não apenas com uma, mas duas mulheres bastante liberais e avançadas em seu tempo, prontas para serem o homem da casa. No final da história da Corporação Vilania, Hipólita, mãe de Diana conclui ao ver duas das vilãs capturadas: “A única felicidade verdadeira para alguém é obedecer uma autoridade benigna”.
Steve Trevor deve lamber as botas da Mulher-Maravilha e, amarrado pelo Laço da Verdade, confessar todos os pensamentos sujos que teve com ela.




