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Identidade Secreta

28 mar
Os Melhores do Mundo

Os Melhores do Mundo

Através do viés da história que é contada numa história em quadrinhos podemos dizer que os super-heróis assumem identidades secretas para proteger sua família e entes queridos. Como no exemplo da origem do Homem-Aranha que deixa um bandido escapar e depois descobre que o mesmo foi responsável pelo assassinato de seu tio. Peter Parker, o alter-ego do Homem-Aranha jura, então, usar seus poderes com responsabilidade e isso envolve não revelar sua identidade para o mundo. Por outro lado, se analisamos de um ponto de vista externo às histórias concluiremos que as identidade secretas como Peter Parker e Clark Kent existem com o intuito de trazer o leitor para realidade da HQ. Tanto Peter como Clark são dois desajustados na sociedade, eles não se encaixam nos padrões pré-estabelecidos pela mídia e por isso permitem a identificação com o que Umberto Eco chamou de leitor-médio deste tipo de entretenimento. É possível para o leitor se identificar com as histórias de Peter e Clark e ainda aspirar a ser também ele um super-herói, mostrando que por trás de uma aparente mediocridade pode existir algo que faça esse leitor ser “super”. É ainda mais interessante o caso do Capitão Marvel, no qual o menino Billy Batson, ao pronunciar a palavra SHAZAM!,  transforma-se no mortal mais poderoso da Terra. Essa identificação com as crianças (internas ou não) foi responsável pela maior venda de exemplares de comic books durante a Segunda Guerra Mundial.

Além de ter sido o primeiro super-herói, o Superman também foi o primeiro herói a apresentar uma identidade secreta não-aristocrática. Enquanto Zorro, Fantasma e Tarzan eram lordes e herdeiros de sangue azul, Clark Kent era um jornalista filho de fazendeiros do interior dos EUA. Por sua vez, Batman segue a linha dos heróis sem poderes com uma origem mais endinheirada, com a qual ele pode comprar seu treinamento e equipamentos usados em sua outra vida como super-herói. No caso de Batman, há uma personalidade dominante, a do Batman, enquanto seu status como Bruce Wayne serve apenas para que mantenha sua empresa e seus compromissos sociais. No caso do Superman, há ambigüidades porque a verdadeira identidade do herói é o kriptoniano e, portanto, alienígena Kal-El. Quentin Tarantino questiona essa identidade de Kent em seu filme Kill Bill Vol. 2, dizendo que Kal-El se disfarça de Clark Kent para zombar da raça humana, portando-se como um homem frágil, míope e desajeitado. Por outro lado, temos o caso do super-herói Sentinela, criado em 2000, que possui três identidades: a do super-herói Sentinela, do humano Robert Reynolds e a do vilão Vácuo. Somente desabilitando a personalidade de Sentinela, os heróis poderiam derrotar Vácuo, transformando o super-herói novamente em uma pessoa comum.

A revelação da identidade secreta vêm gerando diversos arcos de histórias nos personagens das duas maiores editoras de quadrinhos de super-heróis do mundo, a DC e a Marvel Comics, principalmente depois da segunda metade da década passada. Entre os exemplos estão a minissérie Crise de Identidade onde os entes queridos dos super-heróis da DC eram caçados e mortos. A série regular do herói cego Demolidor também lidou por anos com a revelação  e o desmentido de sua identidade secreta. E o Homem-Aranha revelou sua identidade na frente das câmeras da TV durante a minissérie Guerra Civil, mas os editores tiveram que voltar atrás dessa decisão e criaram uma nova série de histórias onde Peter Parker nunca havia tomado aquela atitude. Talvez o exemplo mais evidente de super-herói que revelou sua identidade secreta seja o do Homem de Ferro, tanto no universo dos filmes como dos quadrinhos o mundo sabe que Tony Stark é o vingador dourado.

Revelar a identidade secreta também pode ser associado ao fato de mostrar quem realmente é, por isso também está associada ao ato dos gays de “sair do armário”. Uma reportagem publicada na página online do The New York Times no ano passado afirma que há muito de homoerótico nas páginas de um quadrinho de super-herói. Não apenas a reportagem mas o psiquiatra Frederic Wetham via um romance homossexual entre Batman e Robin na década de 50. Em seu trabalho na minissérie Flex Mentallo, o escritor Grant Morrison colocava no diálogo de um de seus personagens que “Frederic Wetham estava certo pra caralho!”, dizendo que estas histórias proviam a hipersexualização dos leitores com seus corpos definidos e uniformes colantes. Será mesmo?  Não por acaso muitos gays se identificam com este tipo de histórias. Em entrevistas para o site muitos disseram que essa identificação se dá seja pelo fetiche dos uniformes colantes, seja pela mensagem de aceitação no subtexto de quadrinhos como X-Men, que “juraram proteger um mundo que os teme e odeia”. Um dos entrevistados, Dan Avery, editor de um guia gay, disse “Eu lembro de sentir que tinha dois segredos para manter: ser gay e fã de quadrinhos. Não tinha certeza de qual deles tinha mais medo que as pessoas descobrissem”. Existe ainda a fantasia de poder: “Eu acho que muitos homens e garotos gays são atraídos para isso do que o garoto comum porque eles tem uma luta a mais para lutar além de ser somente o desajustado da escola”, diz Bob Schreck, bissexual que já editou as histórias do Lanterna Verde que falavam deste tema. Para celebrar esse tipo de fãs, acontece em Nova York a festa Skin Tight, onde gays se vestem como super-heróis. Para celebrar qualquer tipo de fã de quadrinhos existem inúmeras convenções mundo afora.

O Bravo e o Audaz

O Bravo e o Audaz

O autor está morto, longa vida ao autor

21 out
Alegoria do Messias

Superman: Alegoria do Messias

Em 1968, Roland Barthes publicava um ensaio chamado “A Morte do Autor”. Nele o estudioso dizia que o autor é um personagem moderno, produto da nossa sociedade e que durante todo ensino da literatura até então, a explicação da obra era sempre procurada junto às intenções do autor com a mesma. Barthes vem dizer que não há sentido único em uma obra e que com diversos leitores vêm diversas significações.

Uma forma de buscar estas diversas interpretações é a alegoria. Em Gargantua, Rabelais criticava àqueles que colocavam um sentido cristão nas obras de Homero, uma vez que as obras haviam sido compostas séculos antes do cristianismo. O mesmo é feito com o Superman, de Siegel e Shuster que, dizem ter uma interpretação messiânica. O herói kriptoniano seria uma alegoria de Moisés, uma vez que seus criadores eram judeus. Mas como saber se esta foi realmente a intenção dos autores?

Continuando com o homem de aço, sabe-se que sua primeira versão foi criada poucos anos depois da quebra da bolsa de Nova York de 1929 e da Grande Depressão que se seguiu. Estudiosos dizem que o Superman foi uma resposta para o clima de desesperança que se abateu sobre a população americana. Um super-herói, portanto, seria uma resposta otimista à uma sociedade falida. Superman seguiria a onda escapista das revistas pulp que publicavam as ficções científicas baratas e servia como uma injeção de ânimo ao povo. Em suas primeira histórias o homem de aço não combatia supervilões, mas maridos que batiam nas esposas, traficantes de armas, lobistas, turbas de linchamento, detratores das conferências de paz mundial, enfim, detratores da ordem. Essa ordem buscada pelo Superman e pelos demais super-heróis era estabelecida através da força e da violência. E aqui cabem outras questões.

protótipo fascista do Homem de Aço

"O Reino do Superman": protótipo fascista do Homem de Aço

A méme do übermensch de Nietzche estava rondando as cabeças das pessoas lá pelo início da década de 30. Não por acaso o partido nazista na Alemanha apregoava a superioridade da raça ariana, uma classe de super-homens que devia reinar sobre a Terra em detrimento das outras raças, consideradas inferiores. Em 1933, Siegel e Shuster publicavam seu protótipo do que viria a ser o Superman no fanzine chamado Science Fiction. A história, intitulada “O Reino do Superman”, contava como o mendigo Bill Dunn era transformado pelas experiências de um professor em um ser superpoderoso, dotado de poderes telepáticos, que deseja governar o mundo inteiro. Mais tarde, em entrevistas, Siegel confessou que havia se inspirado nas idéias de Nietzche para criar a história.

Então vejamos: Superman é um homem superior aos outros, com força e poderes extraordinários, através dos quais impõe a ordem em uma nação desiludida cujas cores da bandeira ele usa em seu peito para instaurar um certo ufanismo e restaurar a crença no país. “A valorização fascista da nação é inevitavelmente retórica”, diz Leandro Konder em “Introdução ao fascismo, “precisa ser agressiva, recorrer a uma ênfase feroz para disfarçar o seu vazio e tende a menoscabar os valores das outras nações e da humanidade em geral”.

Seria o Superman uma alegoria do Messias? Ou de Hitler? Siegel e Shuster queriam trazer nova esperança para os Estados Unidos ou queriam controlá-lo à força? Estaria o Dr. Frederic Wertham certo ao dizer que o Superman é um megalomaníaco?

Precisa haver um Superman?

Superman #247 (1972): Precisa haver um Superman?

A questão da intenção e do contexto se confunde desde então. Não está certo nem quem diz que o kriptoniano é o novo Cristo, nem quem diz que seus ideais se adequam aos de Mussolini. O significado do Superman é renovado a cada era, sempre ligado a alegorias diferentes. No contexto dos anos 30 ele tinha um significado e tem outro aos olhos de uma sociedade que viu as Torres Gêmeas caírem e enfrenta uma crise econômica semelhante à de 1929.

Para exemplificar esse pensamento, trago à baila duas histórias. A primeira é de 1972, escrita por Elliot S! Maggin e desenhada por Curt Swan e se chama “Precisa haver um Superman?”. A história questiona se o Superman deve interferir na história da humanidade, salvando-a toda vez que surge uma ameaça ou deixar os humanos virarem-se por si mesmos. Diferente de suas primeiras histórias, o homem do amanhã chega à seguinte conclusão: “Vocês não devem contar com um Superman consertando suas vidas toada vez que há uma crise ou um desastre..Vocês não precisam de um Superman. O que precisam mesmo é da supervontade de serem guardiões de seu próprio destino”.

Alegoria do The Authority

A Elite: Alegoria do The Authority

A segunda é de março de 2001, seis meses, portanto, antes do 11 de setembro. “Olho por Olho?”, escrita por Joe Kelly e desenhada por Doug Mahnke e Lee Bermejo mostra o Superman medindo forças com a Elite, uma equipe que resolveu usar de atitudes extremas para defender a Terra. Aqui vemos o bom-mocismo do homem de aço em confronto com uma alegoria do The Authority, de Warren Ellis e Brian Hytch, que, na história em questão, retrata o fascismo: o mundo governado por uma força superior que usa de extrema violência para resolver as crises planetárias. Ou nas palavras de Manchester Black, líder da Elite: “Regra número um: quem tem o poder faz as regras. (…) Isto não tem a ver com amor, tem a ver com a remoção dos cânceres que infestam nosso corpo e a eliminação deles na privada. As pessoas não querem babás de colante que lhes dêem tapinhas nas costas quando forem más, querem cirurgiões que cortem os nacos podres de seus corpos e cobrem uma atitude decente daí por diante”. No final da história Superman vence a Elite e fica mais próximo de um messias do que de um fascista.

Voltando à Morte do Autor, de Barthes, ela não é tão premente na indústria de quadrinhos de super-heróis. Aqui vale o que os autores pensam, suas ideologias e suas imagens para os super-heróis, que vão se tornar alegoria da sociedade em que estão inseridos, capturando aqui e ali os pensamentos e sistemas de idéias que estão em voga no momento. Na indústria dos quadrinhos de super heróis vale a máxima: “o autor está morto, longa vida ao autor”.

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