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Wolverine e o Slogan da Tostines

4 fev

“Sabe, só tô fazendo pra aumentar as vendas”. Wolverine em X-Force#120 (X-Men Extra#11)

“Sabe, só tô fazendo pra aumentar as vendas”. Wolverine em X-Force#120 (X-Men Extra#11)

Há alguns anos se questionava a presença massiva de Wolverine em capas de revistas e sua participação em histórias de diversas equipes mutantes e de outros heróis da Marvel. O que ninguém pode negar é que Wolverine vende. Isso é um fato. Entretanto aqui se aplica o famoso questionamento da Tostines: È Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine?

Tudo começou em uma história do Hulk contra Wendigo, de Len Wein e John Romita Sr., em 1974. Wolverine é um agente do serviço secreto canadense e entra no pau com o Gigante Esmeralda. No fim, claro, tudo é resolvido. O bandido perde, a mocinha é salva.

Os X-Men nesse tempo sofriam uma terrível baixa de vendas e vinham se sustentado a duras penas com republicações. Eis que surge Giant Size X-Men revitalizando a equipe mutante e trazendo novos pupilos para Xavier. Wolverine é um deles, um pálido e apático personagem que não conseguia se fazer perceber na equipe. Logan viu tudo mudar em sua vida quando o anglo-canadense John Byrne assumiu o lugar de Dave Cockrum no desenho. Byrne conseguiu dar força suficiente ao seu conterrâneo para que o transformasse no mais popular x-man.

Violência. Sangue. Ação. Instintos animalescos. Um passado misterioso. Todos eles eram os temperos necessários no caldeirão de Chris Claremont e John Byrne para os primeiros anos de Wolverine e se tornaram constantes em sua vida quadrinística desde então. Esses elementos agradavam ao leitor, cansado de heróis contidos e politicamente corretos como Super-Homem e Capitão América. Os tempos eram outros, a violência urbana e familiar começava a exibir índices de crescimento. A derrota na Guerra do Vietnã havia deixado muitas seqüelas na mente e na honra dos americanos. Anti-heróis como Lobo e Justiceiro surgiam. Wolverine e os X-Men estavam, então, em franca ascensão.

Agora é a minha vez!

Wolverine: "Agora é a minha vez!"

Infelizmente chegou um derradeiro momento, que se percebeu que se colocassem Logan na capa da revista, ah… era o paraíso dos investimentos. A Marvel seguiu este caminho e começou a colocar o Wolverine em todas as revistas possíveis e imagináveis: Excalibur, Novos Mutantes, X-Factor, Hulk, Homem-Aranha, todos recebiam a inesperada visita de Wolverine nas suas revistas… e as vendas aumentavam. Inúmeras minisséries, sejam solo ou com Logan fazendo parceria com heróis como Nick Fury foram lançadas. Wolverine, nessa fase, chegou inclusive a fazer parte do Quarteto Fantástico! Por quê? Ora, vocês ainda perguntam?! Aqui se aplicava o princípio do é Wolverine porque vende mais.

Surgiram inúmeras versões para a origem do baixinho canadense e o personagem ficou mais “misterioso” e confuso do que nunca. Se ele não podia dizer nada de seu passado, muito menos nós…

Vende mais porque é Wolverine ou é Wolverine porque vende mais?

Vende mais porque é Wolverine ou é Wolverine porque vende mais?

Em 1992, com a estréia da série animada dos mutantes e com seu coerente incremento na popularidade dos X-Men, Wolverine tornou-se uma variável controlável do marketing da Marvel. Wolverine, ao lado do Homem-Aranha, passou a representar a editora. Inúmeros produtos foram lançados com o baixinho canadense no rótulo, desde canetas até sucos e sopas de letrinhas. Todas um sucesso de venda. Quer melhor situação para a Marvel? Além de ganhar royalities sobre os seus personagens, ainda tinha merchandising gratuito para suas revistas: — Mãe! Olha a revista do carinha da camiseta! Compra! Eu vi na TV!

Bons tempos… foi nesses tempos que a maioria de nós foi fisgado pela “onda X-Men”. Mas tudo que é bom dura pouco e a Marvel pediu falência… Os produtos derivados desapareceram das prateleiras. A popularidade baixou e as vendas caíram. Reconheceram que não adiantava colocar personagens populares e belos desenhos para que uma publicação desse certo, muito menos personagens chupados de outros (Youngblood e WildC.A.T.S. que o digam!), eram necessárias argumentos coerentes e consistentes. A Marvel fez uma faxina na casa e pelo final da década de 90, começou a contratar nomes premiados e de peso para a sustentação de histórias mais polêmicas e maduras. Dentre eles, Chris Claremont, o mestre em X-Men, haja visto a sua permanência no título: 19 anos ininterruptos.

iogurte, sopa, manteiga.

Wolverine: iogurte, sopa, manteiga.

Wolverine continuava ali, agora um pouco mais de canto, depois de perder o adamantium e o nariz (ué? tudo em nome das vendas, pessoal!), mas sempre alavancando as vendas de qualquer herói capenga que lhe estendesse a mão. O nosso querido peludo viu sua estrela brilhar novamente com o anúncio de X-Men, o Filme(2001). Qualquer fã de X-Men que se preze podia apostar todas as fichas em que Wolvie iria protagonizar essa série. Resultado: maaaais popularidade para o Tio Logan e para os pupilos do Chuck. No segundo filme, X2(2003), Wolverine pode mostrar a que veio e liberou toda a agressividade contida na primeira película. Isso bastou para que os espectadores caíssem de joelhos e pedissem bis. Realmente, a maior parte da ação ficou nas mãos (cheias de garras) de Wolverine.

Influenciadas pelo filme, as revistas aposentaram os uniformes colantes coloridos e desfilaram a nova coleção de roupitchas feitas com couro e metal. As revistas também passaram por uma reformulação, ganharam temáticas novas e independentes, mas mesmo figurando no Top Ten, das revistas mais vendidas nos EUA, todas elas estão atreladas, pois coincidência ou jogo de mercado, todas contam com a participação supra-especial do canadense. Aqui se aplica, vende mais porque é Wolverine.

Estréia em maio

Wolverine Origins: Estréia em maio

E Wolverine não ajudou apenas à popularidade dos X-Men, ele alçou a carreira de Hugh Jackman, que hoje é reconhecido como um dos melhores atores surgidos nos útimos tempos e tido como sex symbol (apesar de representar o Wolverine). No filme que será lançado em maio deste ano ficaremos sabendo um pouco mais do passado do mutante de garras de adamantium e, ironicamente, ocorrerá um fator inverso ao que acontece nas revistas. Ao invés de termos a participação de Wolverine em diversos títulos, teremos “aparições especiais” de inúmeros personagens dos quadrinhos: Gambit, Emma Frost, Espectro, Deadpool, Raposa Prateada, Blob e até o Bico. De qualquer forma, a Marvel já preparou um batalhão de revistas com Wolverine na capa para aquele mês. 11 no total.

Mas, afinal, é Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine? Bom, aí vocês me pegaram… Essa é uma daquelas Perguntas Eternas.

Coluna publicada originialmente no site Mutação.com sob a assinatura de Discípulo X.

Projeção e Identificação

10 dez

Quero ser o Homem-Aranha. Ou Peter Parker?

Quero ser o Homem-Aranha. Ou Peter Parker?

Os quadrinhos promovem um sistema de identificação e projeção nos leitores. Com a revista do Homem-Aranha nas mãos o nerd médio se identifica com Peter Parker e projeta em sua imaginação ter a coragem e os poderes do Homem-Aranha. Ou será que acontece um processo inverso? O nerd se identifica com a ausência de poderes e coragem e projeta a vida do comum Parker, buscando um dia ser fotógrafo como ele ou jornalista como Clark Kent?.

São as semelhanças ou as diferenças que nos atraem? Essa questão vem norteando os relacionamentos humanos durante os tempos. Nunca chegou-se a uma conclusão. Mas os estudos mostram que uma das grandes razões de sucesso das narrativas heróicas é a utilização de arquétipos. Nos quadrinhos podemos encontrar vários deles.

Já vimos aqui que em vários quadrinhos, o que faz a grande diferença, o grande big-bang no cérebro é o desconcerto que certas cenas nos oferecem. São as obras quebrando nossas projeções e identificações. Quando o leitor de quadrinhos cresce, ele não está mais preocupado em querer ser o Homem-Aranha, mas fica chocado ao descobrir em Do Inferno, que William Gull, médico da Rainha, é Jack, o Estripador. E não apenas isso. Ele está a mando da soberana para eliminar evidências de um caso extra-conjugal na família real. Claro, que ainda aqueles que se identificam com Gull ou outros personagens como o Justiceiro. A esses, falta um pouco de senso crítico. O que acontece em Do Inferno é a desconfirmação dos arquétipos, a desconstrução da identificação, ainda que um pouco dela deve existir para que o leitor continue acompanhando a história.

“O interesse que sentimos pelos personagens não vem, portanto, daquilo que reconhecemos em nós mesmos (somente os romances mais grosseiros fazem uso desse processo), mas daquilo que aprendemos sobre nós mesmos. A verdade que emana de nossa interação com as figuras fictícias é, com muita freqüência, uma verdade ignorada. É a diferença, e não a semelhança, que permite descobrir-se. Os personagens mais interessantes são aqueles que vão ao encontro das supostas inclinações do leitor”, diz Vincent Jouve no livro L’effet-personnage, citação copiada descaradamente do blog da Carol.

o inverso dos arquétipos

Os Perpétuos: o inverso dos arquétipos

Agora peguemos os Perpétuos de Neil Gaiman para explicar essa frase. Nem sempre reconhecemos em nós mesmos o Desespero, ou o Desejo, até mesmo a Destruição. Mas lendo as palavras dos personagens de Gaiman muitas vezes nos pegamos pensando; “é, realmente, acontece dessa forma, por que eu nunca tinha percebido?”. Os personagens de Gaiman tem essa qualidade de, como diz o próprio Sonho, “pronunciar verdades que não se falam”. Quando nos pegamos reconhecendo em nós mesmos nossas falhas, o Destino, a Morte, o Sonho, o Desejo, o Desespero, a Destruição e o Delírio dentro de nós é que conhecemos nossas diferenças. É quando compreendemos que não somos arquétipos, nem personagens. Não precisamos nos identificar exclusivamente. Mas aprendemos. Cada um na sua, com alguma coisa em comum, já dizia a marca de cigarros.

Os próprios Perpétuos são construções e desconstruções destes aspectos da vida humana. Se por um lado a Morte é aquela que nos arranca deste plano de existência, ela também é a irmã ideal, alguém com quem você pode conversar por horas sem se cansar, que é alto-astral e carinhosa. Destruição, por outro lado, é um artista frustrado. Apesar de encarnar o caos, ele quer construir algo para si, ser reconhecido por algo que ele mesmo construiu.

É a diferença, não a semelhança que permite descobrir-se. E talvez seja por essa razão que para muitos sejam mais fácil se identificar com os X-Men. Eles representam a diferença, aquilo que não é comum, mas que permite descobrir que a diversidade é algo mais normal que a semelhança. Essa é a moral da nossa história.

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