Ano: 2008

De novo a identificação…

Dando continuidade às polêmicas da identificação e da mitologia dos personagens, destaco uma passagem de  “O Quarto Fechado”, último conto da Trilogia de Nova York, de Paul Auster. “Todos queremos ouvir histórias e as ouvimos do mesmo modo que fazíamos quando éramos pequenos. Imaginamos a história verdadeira por dentro das palavras e, para fazê-lo, tomamos o lugar do personagem da história, fingindo que podemos compreendê-lo porque compreendemos a nós mesmos. Isso é um embuste. Existimos para nós mesmos, talvez, e às vezes chegamos até a ter um vislumbre de quem somos realmente, mas no final nunca conseguimos ter certeza e, à medida que nossas vidas se desenrolam, tornamo-nos cada vez mais opacos para nós mesmos, cada vez mais conscientes de nossa própria incoerência. Ninguém pode cruzar a fronteira que separa uma pessoa da outra – pela simples razão de que ninguém pode ter acesso a si mesmo”.

Melhores de 2008

Entram na lista só aqueles que eu li esse ano, não importando a data do lançamento. Sem classificação, ordenados em ordem alfabética. Válido apenas para graphic novels e álbuns. Balas Perdidas 1 Obra prima de David Laphan, que usa do pincel para fezer seus traços, resultando num estilo semelhante ao de Darwin Cooke. Além das histórias bem construídas, é marcante o grid de quadros, sempre oito a cada página. Black Hole: O Fim Última parte da saga adolescente/adulta de horror/realidade de Charles Burns. Ficam o apuro da técnica de desenho, a riqueza de detalhes, o clima de noite tempestuosa que a leitura da graphic novel traz. Epiléptico 1 e 2 Todos temos monstros internos, e David B. concretizou e exorcizou os seus nestes dois álbuns mostrando a luta da família contra a epilepsia do irmão. O estilo de desenho do autor se destaca por trazer influências de várias culturas e escolas de arte, as capas são um destaque à parte. Fell, Cidade Brutal Talvez por influência de Laphan, Warren Ellis e Ben Templesmith fizeram este …

Editora do Ano

Caros leitores, no início desta semana os sócios da Não Editora tiveram a honra de ganhar o Prêmio Açorianos de Editora do Ano 2008.  No mesmo dia coloquei um piercing na sobrancelha.  Não doeu. Nada. Não estou pagando promessa. ThingsMag #5 no ar, minha participação com uma resenha de Epiléptico 1 e 2 do David B.  Pra acessar clique aqui.

A mitologia dos super-heróis

Os quadrinhos de super-heróis, assim como outras obras de arte, provocam reações de identificação com o leitor: podem desvendar de forma vicariante, com seu efeito catártico, os dramas psicológicos e os mitos universais do homem. Por sua facilidade de leitura e de ingresso na trama, seus atributos se mostram como uma oferta à intimidade, proporcionando elaborações de fantasias acompanhadas de sensações de bem estar, ou mesmo de desconforto, provocando empatia no seu público-leitor. “Na plenitude de sua função expressiva e catártica, a obra criada se impõe como objeto bom, revalorizador do ego, para o agente da criação e para o espectador. Para o agente, porque vivencia a obra como um complemento do próprio ser, que o ajuda, através do artifício da projeção, a configura e a corrigir a representação que faz de sua auto-imagem e a ampliar a compreensão de sentido de sua existência. Para o espectador, mediante a função especular e as conseqüentes oportunidades de identificação projetiva inerentes a toda produção conceitual ou artística, e mais precisamente porque lhe proporciona uma experiência no intemporal. …

O inverso dos arquétipos na Santa Ceia Perpétua!

Projeção e Identificação

Os quadrinhos promovem um sistema de identificação e projeção nos leitores. Com a revista do Homem-Aranha nas mãos o nerd médio se identifica com Peter Parker e projeta em sua imaginação ter a coragem e os poderes do Homem-Aranha. Ou será que acontece um processo inverso? O nerd se identifica com a ausência de poderes e coragem e projeta a vida do comum Parker, buscando um dia ser fotógrafo como ele ou jornalista como Clark Kent?. São as semelhanças ou as diferenças que nos atraem? Essa questão vem norteando os relacionamentos humanos durante os tempos. Nunca chegou-se a uma conclusão. Mas os estudos mostram que uma das grandes razões de sucesso das narrativas heróicas é a utilização de arquétipos. Nos quadrinhos podemos encontrar vários deles. Já vimos aqui que em vários quadrinhos, o que faz a grande diferença, o grande big-bang no cérebro é o desconcerto que certas cenas nos oferecem. São as obras quebrando nossas projeções e identificações. Quando o leitor de quadrinhos cresce, ele não está mais preocupado em querer ser o Homem-Aranha, …

Projetos de HQs

Esse ano tenho feito vários roteiros de quadrinhos. Alguns se tornam em coisas mais concretas, outros continuam na espera de um dia serem ilustrados. O primeiro deles é o roteiro para Os Bons Morrem Jovens, super-heróis nacionais adolescentes a sairem pelo selo Eras, que você pode conferir mais aqui. Os desenhos são de Pedro Kapullo. O segundo é uma história de fantasia que se passa num ambiente árabe medieval e, ao mesmo tempo, no presente. Se chama “O Quarto Desejo”, tem desenhos de Jader Corrêa e, se tudo der certo, será publicado no Ficção de Polpa vol. 3. E o terceiro se chama “A Linguagem do Albatroz” e é uma história sobre como humanos e animais são diferentes e como não estamos atrelados apenas ao instinto de preservar a espécie. Os desenhos são do x-friend Marcio André de Oliveira Silva, ou maos. Ainda não tem um destino definido, mas estamos pensando em algumas soluções. Tem ainda um projeto que estou trabalhando com a Gisa, mais conhecida como Gisele Moura de Oliveira e capista dos dois …

As múltiplas personalidades do Homem-Múltiplo

X-Factor Citações

Peter David sempre nos brinda com histórias sensacionais na sua nova “temporada” com o grupo mutante X-Factor.  Seja na história de abertura da série ou naquela em que Madrox descobre que uma de suas cópias é um pastor com família. E sobram sempre boas reflexões. No último arco publicado no Brasil, “O Isolacionista”, temos uma série de pensamentos de Jamie Madrox no mínimo interessantes. Vou colocar alguns aqui: “Você pode pensar que é capaz de viver sozinho… e talvez até consiga por um tempo… mas no fim tem que sai da toca e entrar no mundo real. Claro que é arriscado. Nunca se sabe o que vai aocntecer. Mas é or sico que se corre. É… existe um mundo assustador lá fora. E, às vezes, é bom saber que não estamos sós. Talvez seja genético. Afinal, nosso maior instinto é o de sobrevivência. Quanto mais pessoas existirem, maiores as chances de perpetuar a vida. É fácil eliminar indivíduos isolados, mas a união faza força, mesmo que seja a união de só duas pessoas”. “Às vezes …

Mirando a Relevância Social

Como Oliver Queen tomou a postura de radical de esquerda que hoje apresenta nos quadrinhos? A resposta, a seguir: No final dos anos 60, e depois, através dos anos 70, o Arqueiro Verde está longe de casa, sem uma publicação fixa, e tinha passado uma longa temporada agindo junto ao Batman na série The Brave and The Bold, onde apareceu mais de uma dúzia de vezes no decorrer da publicação. Em sua terceira aparição em Brave and The Bold # 85 (Setembro de 1969) o visual do personagem sofreu uma revisão geral para conectar aa sua nova caracterização pelo artista Neal Adams, com um uniforme impressionante, mais berrante para produzir um estilo “Robin Hood”, um sabor “herói do povo”, e um bigode e um esquisito cavanhaque para separar o novo Arqueiro Verde do visual anterior. Enquanto o guarda-roupas de Oliver Queen estava ganhando melhorias, naquele mesmo mês, nas páginas de Justice League of America, o terreno estava sendo preparado para que Ollie recebesse algo que necessitava há um bom tempo: uma namorada. O escritor de …

Povos fantásticos sem memória: uni-vos!

Não é de hoje que se usa o artifício da amnésia para se escrever histórias em quadrinhos de super-heróis. Só pra ficarmos em poucos exemplos, na década de 70 Carol Danvers combatia o crime como Miss Marvel sem saber da existência e das ações de seu alter-ego. Temos os X-Men emergindo do Portal do Destino na década de 80, todos desmemoriados e com uma vida nova, distantes de suas aventuras combatendo o preconceito. Outro exemplo é história de Mark Waid para a retomada da Liga da Justiça por Grant Morrison nos anos 90: todos os personagens estavam imersos em uma espécie de sonho. Da metade dos anos 2000 para cá houve um surto de retomada dos povos fantásticos da mitologia dos super-heróis. Os povos de deuses e de seres superpoderosos voltaram à baila e a maneira como isso foi feito parece bastante semelhante em todos os casos. Vamos à eles: 1. Os Eternos Perdidos durante a minissérie dos Eternos e encontrados na mesma. Quando Neil Gaiman assumiu a série dos Eternos propôs que esse povo …

Doctor Who Magazine: a revista mais longeva da Marvel UK

Um chá com a Marvel UK (12 de 12)

Por ocorrerem no mesmo universo dos heróis tradicionais da Marvel, a presença dos mesmos nas revistas da Marvel UK dos anos 90 era constante. Para se ter uma idéia, os X-Men aparecem em 10 das 16 edições de Hell’s Angel. Contudo, apesar da quase-onipresença dos heróis americanos, seus colegas britânicos poucas vezes apareceram ou foram referidos em revistas que não eram produzidas na Europa. Com o estouro da Bolha Especulativa, os gibis da Marvel UK, que por vezes tinham de ser reimpressos pela grande demanda, acabaram por encerrar sua circulação dos dois lados do Atlântico em 1994. A perda de interesse pela linha britânica da Casa das Idéias fez com que a Marvel UK entrasse em declínio. Seria o fim da representação dos heróis Marvel na Grã-Bretanha se, na metade dos anos 90, a Panini Comics não comprasse seus bens e passasse a reimprimir as histórias americanas. A Panini Comics vinha de um acordo bem-sucedido com a Marvel, pelo qual representava a editora na Itália e em outros países da Europa. O material original inglês, …

A Guerra vai ser pra decifrar todos esses personagens!

Um chá com a Marvel UK (11 de 12)

AS GUERRAS MYS-TECH Os grandes inimigos dos super-heróis britânicos eram os integrantes da corporação Mys-Tech, um grupo de sete magos oriundos do século X, que venderam sua alma a Mefisto em troca de imortalidade. Ao longo dos anos eles vem sacrificando almas para o demônio e acumulando riqueza e poder em seu império de negócios. Os atos derradeiros da organização resultaram nas Guerras Mys-Tech e envolveram grande parte dos heróis americanos da Marvel. Era uma época de crossovers e a lógica era quanto mais melhor. Participaram desta história Homem-Aranha, Hulk, X-Men, Nick Fury, Vingadores, X-Factor e Excalibur pelo lado americano e todos os super-heróis dos anos 90 da Marvel UK. O roteiro dos hoje celebrados Andy Lanning e Dan Abnett, responsáveis pelas minisséries de Aniquilação, era muito fraco. Para dar um exemplo, na minissérie muitos dos heróis morrem em combate com os Mys-Tech, mas, ahá, se encontra uma maneira de reverter todo o acontecido, voltar 24 horas no tempo e restaurar a vida dos heróis combalidos. Guerras Mys-Tech é um bom exemplo de tudo de …

A Guerra vai ser pra decifrar todos esses personagens!

Um chá com a Marvel UK (10 de 12)

Com a chegada dos anos 90, Paul Neary se tornou editor-chefe da Marvel UK e os títulos produzidos na Inglaterra passaram a ser comercializados nos EUA. Tudo isso acontecia em meio à ascensão da Bolha Especulativa que fazia com que os consumidores comprassem o maior número possível de revistas, já que tinham potencial de se valorizar muito em um futuro não muito distante, e os primeiros números poderiam valer milhões. Assim, a Marvel UK entrou na onda e lançou nos Estados Unidos, entre outros, uma segunda versão de Death’s Head (que ficou conhecido como Espectro e Caveira no Brasil), um segundo volume de Cavaleiros de Pendragon, Motormouth (título que depois foi chamado de Motormouth e Killpower) e Hell’s Angel. Todos esses títulos tinham como plano de fundo as ações da organização subversiva Mys-Tech, o que acabou resultando no crossover Guerras Mys-Tech. Na terra da rainha, todos estes títulos eram publicados na antologia Overkill. Assim como todo “bom” personagem do início dos anos 90, os novos protagonistas das revistas Marvel UK, andavam na onda do “grim and …

Os atuais Cavaleiros de Pendragon

Um chá com a Marvel UK (9 de 12)

OS CAVALEIROS DE PENDRAGON Os Cavaleiros de Pendragon tiveram duas fases, a primeira, escrita por Dan Abnett e John Tomlinson e desenhada por Gary Erkshine, elogiada pela crítica misturava aventura de super-heróis, horrores do mundo real e mitologia arturiana. A segunda, escrita pelos mesmos autores, mas desenhada por vários artistas, buscava sucesso comercial ao tentar imitar outras equipes de super-heróis como X-Men e WildC.A.T.S.. Participavam da primeira tentativa heróis como o Capitão Bretanha e Union Jack. A premissa da série era baseada na interpretação de um poema medieval inglês “Sir Gawain e o Cavaleiro Verde”. O Cavaleiro Verde é a encarnação das forças de vida da Terra que distribui a “força Pendragon” a campeões que combatem Bane, forças do “inverno e guerrilha” que usam corporações multinacionais e magia negra para atingir seus fins. Cada um destes campeões carrega consigo as memórias de cada ser escolhido pela força Pendrgon durantes os séculos, por isso os campeões modernos são invadidos pelas personalidades dos primeiros cavaleiros da Távola Redonda como Gawain e Lancelote, uma idéia não muito original, …

Detalhe de HQ de Morrison

Um chá com a Marvel UK (8 de 12)

Grant Morrison também deu as caras na Marvel UK. Antes mesmo do sucesso com Zenith, o super-herói pop-star da 2000 A.D., o escritor escocês escreveu para a Doctor Who Weekly (tendo colaborado com um Bryan Hitch imberbe) e com Spiderman and Zoids Weekly. Zoids? Tratavam-se brinquedos famosos da década de 80, produzindo por uma empresa japonesa, que eram construtos mecânicos na forma de mamíferos, dinossauros e insetos, que como muitos outros brinquedos daquela época geraram animes, mangas, videogames e, na Inglaterra, uma série de comics.   Não eram só os Zoids que receberam esse tratamento. Em 1984, a Marvel lançava um outro selo nos Estados Unidos, a Star Comics, cujo publico alvo eram crianças pequenas e geralmente trazia desenhos animados ou brinquedos adaptados para os comics. He-Man e os Mestres do Universo, Thundercats, G.I. Joe, Transformers, Smurfs, Os Caça-Fantasma eram algumas das muitas séries que hoje são nostálgicas. Não demorou muito para que esse selo aparecesse também na Grã-Bretanha. O maior fenômeno de vendas da Marvel UK foi Transformers, que vendia 200 mil cópias por …

Esta é A FÚRIA!!!

Um chá com a Marvel UK (7 de 12)

Quando Alan Moore assumiu o título do Capitão Bretanha passou a botar em prática a fórmula mooriana para personagens de séries contínuas: tudo que o protagonista sabia sobre si mesmo até então, era uma mentira. Nesse processo, o parceiro do capitão, o elfo Jackdaw morreu, e Braddock é apresentado à uma realidade alternativa governada pelo déspota Mad Jim Jaspers e passa a ser perseguido pela Fúria (que reapareceu recentemente durante a fase de Chris Claremont em Uncanny X-Men). Enquanto luta com o inimigo o Capitão acaba libertando Lady Saturnyne, guardiã do Ominiverso. Aqui Moore cria uma das pedras fundamentais do Universo Marvel: a relação dos heróis com realidades alternativas: não existe apenas uma versão da Terra, mas um universo recheado de ominirealidades, onde existem diversas versões de Capitães Bretanhas (o mesmo vale para outros super-heróis), que sob o comando de Saturnyne e Roma se chamariam de Tropa de Capitães Bretanhas (uma homenagem do barbudão à Tropa dos Lanternas Verdes).   A Terra que acompanhamos os heróis da Marvel não se chamaria Terra-1, demonstrando um certo …

Um chá com a Marvel UK (6 de 12)

Há boatos de que Dez Skinn se desligou da Marvel UK devido a conflitos sobre direitos autorais em 1981. Anos mais tarde, depois de trabalhar com cinema, Dez fundou a Quality Communications. Nessa empresa nova, de sua propriedade, o editor lançou a antológica revista Warrior que traria em suas páginas duas das maiores séries de quadrinhos inglesas: Miracleman e V de Vingança, ambas escritas e desenhadas por talentos que Dez conhecera na Marvel UK, Alan Moore, David Lloyd e Alan Davis. Um dos últimos atos de Dez na Marvel, entretanto, foi trazer o Capitão Bretanha para o mix da revitalizada Mighty World of Marvel, agora mensal, sob a batuta de Dave Thorpe e Alan Davis. Quando Thorpe deixou a série, foi sucedido por um certo barbudo de Northampton, que garantiu a Brian Braddock as aventuras mais estranhas e incríveis que já haviam sido concebidas. A popularidade das novas histórias do Capitão transferiu o personagem para outro título em 1982, The Daredevils, no qual compartilhava as páginas com outro sucesso da década de 80, o Demolidor …

Um chá com a Marvel UK (5 de 12)

NIGHT RAVEN Night Raven é um herói criado nos moldes dos pulps, mais precisamente do Sombra. Assim como The Spider e o Fantasma, Night Raven deixa uma marca em vítimas. Ele usa roupas modificadas e uma máscara de rosto intero com aspectos semelhantes a aves. É um justiceiro solitário e sua identidade é envolvida em mistério. Night Raven não tem poderes, mas é imortal e atua em Nova York e Chicago. Ele se vê como um curandeiro, “e um curandeiro deve lutar contra as doenças. E se ele não pode salvá-los seja com habilidade ou amor – então ele precisa levá-los gentilmente à morte”. Originalmente criado pelos editores Dez Skinn e Richard Burton, as primeira histórias de Night Raven eram escritas por Steve Parkhouse e desenhadas por David Lloyd. Stan Lee não gostava da arte “dura” de Lloyd e logo o artista foi substituído por John Bolton. As histórias do personagem duraram menos de um ano. A série era popular e os leitores pediam por mais, mas a Marvel tinha outras prioridades (a revista do …