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Pessoas Normais não têm História

Substituindo um post por outro. O Samir falou que eu devia por mais Gui Vision aqui nesse blog. Então tá. Essa semana estou lendo o livro novo da profe Cíntia Moscovich, Mais ou Menos Normal (Publifolha, R$19,90). O livro conta a história de Gaia, uma garota criada por pais hippies, que se vê às voltas com um atentado a um ministro. A obra faz parte da coleção Cidades Visíveis, da Folha de São Paulo, na qual os autores contam uma história com plano de fundo na cidade onde vivem. Estou gostando bastante. Até porque me identifico com a personagem. Também por se passar em Porto Alegre e a Cíntia colocar várias peculiaridades que só quem vive aqui conhece. Isso não quer dizer que não seja indicado pra quem não conhece a cidade. É, ainda, uma forma de conhecê-la sem ir até ela.

Mas, voltando à Gui Vision. Na aula, a Cíntia diz o seguinte: ninguém vai escrever um romance sobre o dia-a-dia de alguém. Ninguém vai escrever uma história sobre a normalidade. Afinal, qual seria a graça? As pessoas se interessam por coisas que fogem ao comum. É aquela estranheza que mexe com as pessoas no final de um conto, no final de um filme. Acho muita hipocrisia alguém dizer “eu sou normal”. Sim, todos temos nossos momentos de “normalidade”. Agora, um estado contemplativo e inerte de que envolve a pessoa e a confere o poder de afirmar isso, não. E se puder, bom, me desculpe, deve ser muito chato.

Afinal, o que define o que é normal? Quem define? Se alguém tiver a cartilha da normalidade eu gostaria de ler. Mostrando pra mais uma ou duas pessoas, qualquer um, não precisa ser amigo meu, acho que iria discordar. O que torna as pessoas interessantes é sua anormalidade. É aquilo que elas fazem e que nenhuma outra pessoa faz. Isso as torna únicas. Ou alguém já procurou uma pessoa dizendo: “Oi fulaninho! Vim conversar contigo porque tu pensa igual a todo mundo! Você é tão especial pra mim! Eu adoro essa sua normalidade… como você consegue?”. Blé!

Eu sei que não é fácil ser como a gente é, afinal, somos humanos, nunca estamos satisfeitos. Todo mundo já teve o desejo de ser como todo mundo, de se encaixar num padrão. Mas a verdade é que não existe um padrão, uma constante. Não dizem para as pessoas mais legais: “Quando Deus te fez jogou a forma fora?”. Pois é.

Outra coisa: as pessoas mudam o tempo todo. Se eu tive uma opinião agora, não quer dizer que eu vá mantê-la pro resto da vida. Porque é aí que está a ironia. As pessoas mudam. O mundo muda. O Zeitgeist, como gosto de falar, muda. É a mudança que faz o mundo girar, crescer, evoluir. É a falta de normalidade. Quem tem opiniões estanques e fanáticas são chamados fundamentalistas. Irã e esses países onde a liberdade é vigiada. Onde você é obrigado a entrar na marra no que é considerado “normal”. Se você gosta disso, se mude pra lá, vai adorar!

Se eu fosse um marvete fanático nunca teria lido DC. Aí eu perderia de ler Watchmen, que é uma das maiores obras dos quadrinhos em língua inglesa. E Sandman! Nunca teria lido Black Hole, Fun Home, Persépolis por serem quadrinhos indie. E, poxa, foram as melhores leituras do ano passado!

A mesma coisa com as pessoas. Uma hora você odeia, outra hora, adora. Você acerta e erra com elas e elas com você. Nada mais comum. Comum, ok? Não normal. E me aproveitando do post funesto: “Mistério sempre há de pintar por aí”. Quando você gosta de uma pessoa, você quer saber mais sobre ela. Saber sobre sua vida, as peculiaridades que a fazem fazer tão bem pra você. O atrativo está no mistério. Na capacidade desta pessoa te surpreender, dia após dia. No porquê de sermos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Sério. Qual é o sentido em saber tudo sobre uma pessoa? Nem EU sei TUDO sobre mim mesmo. Ser normal é ser igual. É ser Mais do Mesmo. Normal people worry me.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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