Flex Mentallo, the Muscle Mistery Man

"Meu quadrinho ideal é aquele que expressa perfeitamente seu momento e te faz querer dançar, como seus discos prediletos fazem”

Um fisiculturista super-herói, vestindo uma sunga de leopardo, que ao flexionar seus músculos muda a realidade. Só poderia vir da mente de Grant Morrison. Ou melhor, em parte. Flex Mentallo é descaradamente inspirado em Charles Atlas, um dos pioneiros do fisiculturismo e totalmente ligado à indústria dos quadrinhos de super-heróis. Muita gente já deve ter visto por aí anúncios antigos em que um cara fracote, acompanhado de sua namorada encontra um cara músculoso na praia e acaba pedendo a garota por causa dele. Então, ele resolve utilizar o método Atlas e fica tão forte quanto seu rival. Enfrenta o valentão e recupera sua namorada. Esse tipo de anúncio que Charles Atlas veiculava em diversas revistas de super-heróis durante a Era de Ouro. O fisiculturismo também foi um dos elementos básicos da gênese dos super-heróis, assim como a ficção científica. Foi nos fisiculturistas (os homens-fortes do circo) e suas roupas coladas e coloridas, que Jerry Sigel e Joe Shuster se inspiraram para criar visualmente o Superman.

O personagem Flex Mentallo apareceu pela primeira vez em dois arcos de histórias da Patrulha do Destino, grupo também escrito por Morrison em 1992. Quando Flex usa seus músculos para mudar a realidade, surge um halo sobre sua cabeça nomeando-o “Hero of the Beach”. O herói se descobria um personagem de histórias em quadrinhos e se encontrava com seu com seu criador, Wally Sage. Na minissérie em quatro partes por Morrison e desenhada pelo versátil Frank Quitely, Flex e Wally parecem viver em mundos diferentes. Fica sugerida a ligação entre os, porém cada um deles vive sua própria história. Flex está a procura de seu parceiro desaparecido, o Fato. Já Wally acabara de misturar dúzias de pílulas com uma garrafa de vodka e em seus derradeiros momentos fala no telefone em tom confessional com um estranho. Enquanto narra as peripécias do criador e da criatura, e estabelece sutis e escancaradas ligações entre as duas, Morrison contrói uma homenagem nostálgica aos quadrinhos.

Flex Mentallo foi publicada em 1996, numa época em que as imagens valiam mais que as palavras nos quadrinhos. Quando quanto maiores fossem os detalhes musculares de um super-herói maior seria seu valor. As bad girls curvilíneas e voluptuosas estavam na moda. O melhor super-herói era aquele que fosse mais cruel com seus inimigos, dilacerando-os fibra por fibra, gota de sangue por gota de sangue. Olho por olho. Dente por dente. Então Morrison surgiu com Flex, satirizando e protestando contra as tendências nos quadrinhos de super-heróis, reinventando-os e trazendo de volta um herói que é praticamente anterior aos super-heróis. A origem de tudo.

Segundo o site Annotated Flex Mentallo, a homenagem feita a Charles Atlas representa duas idéias. Primeiro, reiterar que os comics são um produto, uma indústria cultural descartável em que se lê e se põe fora em seguida, regida pela lógica do consumo e que deve ser alimentada pela publicidade (anúncios de Atlas). Segundo, que os quadrinhos de super-heróis possuem um potencial de transformação,envolvenmdo em si mesmos um sistema de representação e confrontoe, e que, no final, seu conteúdo envolve até mesmo uma transformação no leitor.

Para mostrar essa transformação vemos como as idéias de Wally sobre os quadrinhos vão se transformando ao longo dos números e como isso afeta as aventuras de Flex Mentallo. Na primeira edição, o autor retrata o encantamento da leitura das primeiras histórias em quadrinhos, da descoberta de um novo mundo fantástico e poderoso. A segunda edição enfoca nas mudanças da Era de Prata, em que os personagens eram submetidos às mais diversas mudanças para que o leitor tivesse essa sensação de se deparar com o inesperado edição por edição. Na terceira edição, cuja capa é um plágio da de Batman, o Cavaleiro das Trevas (onde se destaca a sunga de leopardo do herói), Wally relembra sua adolescência e a descoberta do sexo. As histórias de Flex, portanto, refletem esse período de 1996, quando mostram os heróis indo se encontrar em um local secreto para praticarem sexo sem limites e com uso de seus superpoderes.

Aí o autor pisa num calo bem doído dos quadrinhos de super-heróis. A hiperssexualização dessas histórias. Afinal, os quadrinhos desse gênero apresentam homens e mulheres andando por aí com roupas que praticamente fazem com que se perceba todos os detalhes de seu corpo. E quando essa descoberta do corpo estiver ligada a essas histórias é que tudo pode ficar um pouco confuso. É o que acontece com Wally, que grita: “Frederic Wertham tava certo pra caralho!”. Para quem não sabe, Wertham foi um psicólogo que perseguiu os quadrinhos, afirmando que a leitura destas revistas eram perniciosas para a juventude e que os transformava em delinqüentes. Foi a partir dele que surgiu toda a mítica de um relacionamento homossexual entre Batman e Robin. Morrison não deixa isso barato e já na primeira edição traz um pin-up de Flex fazendo pose e dedicando a foto aos fãs com beijos. Depois ainda tasca mais crítica ao modus operandi da década de 90. “Sobre o que é tudo isso? Superpornografia para retardados. Vigilantes aumentando sua contagem de corpos. Cenas de estupro e roupas rasgadas”. (…) “Sonhos fetichistas de mulheres voadoras e garotas supertarados”.

Assim, que, depois da nostalgia e da crítica, chegamos à reconstrução. E novamente a capa mostra isso. São várias fotografias de Flex, de diversos ângulos e enquadramentos, que formam o todo, seu corpo. È nessa edição que o confronto metalinguagem versus realidade surge. Imaginem um embate entre A História Sem Fim e Matrix. Morrison dialoga com uma suprarrealidade. Imagine Bastian (Wally) e Atreyu (Flex) encontrando-se com o Arquiteto. Claro, Flex Mentallo não é mais uma daqueles gibis que “você lê e põe fora”. Ele permite diversas leituras, e cada vez que se lê, pode perceber algo que não estava lá. Para ajudar um pouco há o Annotated, mas o melhor é descobrir por si mesmo e também discutir, já que cada um pode ter uma interpretação diferente. Não é só em Flex Mentallo que Morrison faz isso. Em outras obras suas como o Homem-Animal, ou no recente Sete Soldados da Vitória essas múltiplas significações também são possíveis. A minissérie faz parte de uma trilogia temática junto com Os Invisíveis e The Filth (que eu não li ainda).

Uma das frases finais da história, para confundir ou esclarecer ainda mais o leitor é “Você esteve habitando o primeiro gibi ultra pós-futurista: os personagens estão plenamente autorizados a interagir com os leitores a este nível”. Mas o que ficou pra mim, na minha interpretação da história, foi a frase “Os gibis eram só, tipo, tentativas desesperadas de lembrar a verdade sobre a realidade”. Os comics, em sua história, se assemelham ao crescimento humano, ao amadurecimento. Por um lado, sim, uma fuga da realidade, por outro uma maneira de mostrar que nossas fantasias são possíveis de acordo com nosso nível de consciência da realidade e de nós mesmos.

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