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Quadrinhos e Recepção

Desconcerto

O travesti nazista Bruno, de Frank Miller: Desconcerto

A teoria da recepção é um pressuposto bastante novo. Começou a ser estudada há menos de 40 anos. Ela examina o papel do leitor na literatura. Como assim, o leitor? Trata da obra vista da perspectiva do leitor, não do autor ou do texto como outras teorias literárias já estudaram. A Teoria da Recepção vai buscar as deduções que o leitor vai fazer quando exposto a um determinado texto.

Podemos usar essa mesma teoria nos quadrinhos. É o leitor quem completa a história fazendo a ligação entre um quadro e outro. Ele próprio, conforme o ritmo que ele mesmo estabelece para sua leitura, vai estabelecendo as conexões implícitas no texto e nas imagens em seqüências. Ao longo da narrativa o leitor vai fazendo deduções e comprovando suposições usando de seu conhecimento de mundo e do contexto em que está inserido.

Diz Terry Eagleton: “Na Teoria da Recepção, o leitor ‘concretiza’ a obra literária, que em si mesma não passa de uma cadeia de marcas negras organizadas numa página” – ou de diversos quadros coloridos, balões brancos e marcas negras, no caso dos quadrinhos – “Sem essa constante participação do leitor, não haveria obra literária”.

Quando defrontado por uma obra literária, o leitor preenche os ‘hiatos’ presentes nela. Nos quadrinhos ele preenche também as ‘calhas’ ou ‘sarjetas’. Para o teórico polonês Roman Ingarden a obra literária existe apenas como schemata, ou seja, uma série de direções gerais dadas pelo autor para os leitores. O leitor abordará a obra com seus pré-entendimentos do mundo e, se a obra for bem realizada, segundo Wolfgang Iser, da Escola da Constância, estes entendimentos – também chamados de preconceitos –, serão mudados. Para Iser, a obra eficiente gera uma nova consciência crítica no leitor, mudando seus códigos e expectativas habituais. As obras devem desconfirmar nossos hábitos. Desconcertar.

Claro que nem todo leitor está preparado para ser “desconcertado” e absorver a nova realidade apresentada pelo livro. Pois como dissemos antes o leitor é formado pelas suas experiências anteriores e pelo contexto em que se insere. Um quadrinho de Frank Miller com travestis nazistas certamente chocaria uma freira de uma maneira que ela não poderia absorver a experiência da leitura. Ou ainda Lost Girls, de Alan Moore, que traz experimentações sexuais de todas as formas abalaria os supostos defensores da moral e dos bons costumes. A escatologia de um Garth Ennis ou a crueza de Warren Ellis não serão experiências tão transformadoras quando lidas por conservadores. E o que dizer dos quadrinhos undergrounds?

Leitura orgásmica

Shade, o Homem-Mutável, de Peter Milligan: Leitura orgásmica

O leitor deve concretizar a obra à sua maneira, mas de forma que encontre coerência em tudo isso. Seja na exclamção que entende que os meios de Ozymandias são justificados pelos fins em Watchmen ou seja na sensação associativa-dissociativa que certas obras de Grant Morrisson nos levam, como Flex Mentallo ou Kid Eternidade, que precisamos de mais de uma leitura atenta para construirmos significados. Obras desconstruídas, calcadas nas sensações, como as de Morrisson, ou de seus seguidores como Peter Milligan em Shade, o Homem Mutável, que detonam a identidade cultural segura do leitor, são para o crítico francês Roland Barthes ao mesmo tempo uma bênção da leitura e um orgasmo sexual.

Sabe-se hoje que nenhuma leitura é inocente e feita sem pré-conceitos. Como diria o crítico americano Stanley Fish,a leitura não é a descoberta do que significa o texto – ou o desenho, a imagem, o quadro, a composição da página –, mas um processo de sentir aquilo que ele nos faz.

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11 comentários

  1. renan diz

    dae guilherme, blz?

    achei muito interessante esse texto, especialmente essa coisa do ‘a obra deve gerar nova consciência crítica’, ‘desconstruir os hábitos do leitor’, etc. é nesse o ponto que eu tenho a impressão que os quadrinhos nacionais mais pecam: muito embora eu já tenha lido coisas boas escritas por aqui, eu nunca li nada que realmente me desconstruísse – na verdade, nem algo que TENTASSE.

    tu acha que isso é resultado do meu desconhecimento a respeito do que anda acontecendo no underground fanzineiro brazuca ou, de fato, falta ousadia nos quadrinistas nacionais?

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  2. guilhermesmee diz

    Então Renan, o que faltam no Brasil são mais roteiristas pra que essa impressão comece a mudar.Temos desenhistas sensacionais, mas são poucos roteiristas que se destacam. Mas posso citar alguns exemplos de quadrinhos brasileiros que “desconsertam”. Tá saindo agora a republicação da Chiclete com Banana, que era publicada nos anos 80 com o Glauco, Angeli, Laerte e Luiz Gê. Esses são bons exemplos. Pra uma coisa mais recente tenta ler o Mutarelli, ou pelo menos dá uma chance pra ele assistindo O Cheiro do Ralo, que é sensacional. E desconcerta.

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  3. permanecendo no campo da literatura mesmo, me parece que essa teoria da recepeção era um assunto muito recorrente nos textos do Cortázar, mas de forma indireta ainda, sem ser assumida totalmente como teoria de algo. mas de alguma maneira ele sempre escrevia sobre o assunto, era uma preocupação constante. e obras como O Jogo da Amarelinha, 62 Modelo para Armar e A Volta ao Dia em 80 Mundos são referências nesse sentido…
    quanto aos quadrinhos brasileiros, acho que tem muito autor recente que traz um certo desconserto. me surpreende bastante o trabalho do Marcelo d’Salete, do Kitagawa também. o pessoal que fez brevemente a DumDum mandava ver, e muitos ainda estão na ativa, desconsertando. porém esses já são mais de longa data…. a revista Graffiti 76% oferece sempre bons autores que desconsertam. mas acho que temos bons roteiristas. alguns estão nas tocas ainda. ás vezes falta tbm uma conciliação-maravilhosa de talento, bagagem cultural consistente e eficiência na hora de colocar isso pra fora. outros momentos vejo pessoas que escrevem bem mas há uma carência muito grande de criatividade… tem uma profusão de pessoas escrevendo, e escrevendo qualquer coisa, e ás vezes escevendo as mesmas coisas (e isso no desenho tbm)…
    enfim, isso varia de leitor pra leitor tbm…
    me estendi…
    abraço

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