O Alan Moore da América do Sul

Chega às livrarias em novembro, pela Conrad Editora, a biografia de Che Guevara escrita por Héctor Gérman Oesterheld e desenhada por Alberto Breccia. O escritor argentino, que também era jornalista, pode ser considerado o maior roteirista de quadrinhos da América do Sul.

O Eternauta, de Héctor Gérman Oesterheld
O Eternauta, de Héctor Gérman Oesterheld

A obra de Oesterheld, cheia de realismo e poesia, transformou a maneira de contar histórias em quadrinhos quase 30 anos antes da revolução que aconteceu nos quadrinhos mainstream americanos. Em 1957, Héctor e seu irmão Jorge criaram sua própria editora, a Ediciones Frontera. Lá criaram duas revistas clássicas da Argentina, Hora Cero e Frontera. Durante sua carreira Oesterheld trabalhou com grandes nomes do quadrinho como Franciso Solano Lopez, Alberto Breccia e Hugo Pratt, criador do Corto Maltese. Com a crise econômica na Argentina wem 1960, os irmãos se viram obrigados a fechar a editora. Mas isso não impediu que Oesterheld continuasse a trabalhar para editoras menores criando outras obras primas.

O maior roteirista de quadrinhos da América do Sul
O maior roteirista de quadrinhos da América do Sul

As temáticas de Oesterheld estão arraigadas na literatura pulp e de aventura, bem como nos grandes clássicos da literatura juvenil. “Com uma escrita tensa e envolvente, Oesterheld outorgou à historieta de aventuras o valor artístico que continham as narrações de Salgari, Verne, Melville, Conrad e Stevenson, autores que admirava”, descreve German Cáceres em seu El dibujo de aventuras.

Entre seus principais trabalhos estão:

– El Eternauta (1957), desenhada por Francisco Solano López. Conta a história de Juan Salvo que, após uma invasão alienígena, tem de buscar de maneira infrutífera sua mulher e filhas através do tempo e do espaço. Na versão de 1969, desenhada então por Alberto Breccia, o autor propõe uma mudança: a América Latina seria invadida pelos alienígenas através de uma negociação com as superpotências para que os invasores não atacassem o resto do planeta.

Mort Cinder (1962), desenhada pelo uruguaio Alberto Breccia. Conta a história de um homem capaz de driblar a morte e viver várias vidas distintas durante o transcorrer dos anos. Seja como gladiador ou participante do esforço de construção da Torre de Babel, seja nos dias de hoje enfrentando uma horda de zumbis chamados “olhos de chumbo”.

Outro trecho de O Eternauta
Outro trecho de O Eternauta

Entrei em contato com as histórias do roteirista argentino através da edição de Mort Cinder publicada pela Edicciones Colihue, em 2004, que também publicou outras histórias de Oesterheld. Em todas as histórias, testemunhadas por uma espécie de Watson de Mort Cinder, o antiquário Ezra Winston, o final acaba sendo o fracasso dos diferentes papéis interpretados por Mort Cinder, talvez sugerindo a inutilidade dos anseios e aspirações humanas numa história em que o protagonista é a própria morte.

O imortal Mort Cinder e a Torre de Babel
O imortal Mort Cinder e a Torre de Babel

Oesterheld apagou o estereótipo a que os leitores haviam se acostumado nos quadrinhos norte-americanos, com uma clara divisão entre quem são os mocinhos e quem são os bandidos. As histórias do escritor argentino deixavam de lado estes esquemas rígidos desprovidos de matizes psicológicas. Um aspecto evidente de sua história é o caráter experimental, usado como uma espécie de laboratório, tanto para o texto com o a arte. A história salta sem transição de um clima a outro, de uma circunstância a outra. Queima etapas, modifica os ritmos sobre os acontecimentos, passa dos pormenores às elipses.

a biografia que causou o desaparecimento de Oesterheld
Che: a biografia que causou o desaparecimento de Oesterheld

Três meses após a morte de Che Guevara, em 1968, Héctor Oesterheld lança através de uma editora chilena uma biografia do guerrilheiro, desenhada por Alberto Breccia. A partir de então começa a ser perseguido pela ditadura Argentina, que tomara o país em meados de 1970. Oesterheld foi preso e levado de casa com os seus quatro filhos. Nunca mais se ouviu falar dele desde então. Quando o jornalista italiano Alberto Ongaro, em 1979, questionou seu desaparecimento obteve esta resposta sinistra: “Livramo-nos dele porque escreveu a história mais bonita que alguma vez foi escrita sobre Che Guevara”.

A respeito da morte de Oesterheld, Hugo Pratt comentou: “O que quer que tenha acontecido, foi uma vergonha para o gênero humano: destruir sua família, trucidar as quatro filhas e matá-lo daquela forma, foi um horror incompreensível. Só posso dizer que aprendi muito com Héctor. Do ponto de vista da técnica narrativa, aprendi com ele mais do que com qualquer outro”.

Cáceres conclui o seguinte sobre a obra do maior escritor de quadrinhos da América Latina: “A viagem de Oesterheld (como um personagem da Jornada do Herói, de Campbell) é incompleta, como se a aventura tivesse uma limitação. Talvez reflita seu destino individual ou seu ativismo político. É possível que desde seus primeiros roteiros já visualizava anos muito cruéis para a Argentina. Devia suspeitar que sua aventura pessoal, que o levou a fazer parte do aparato de propaganda da Organización Montoneros, acabaria em um banho de sangue”.

Espero que a biografia de Che Guevara seja o primeiro de muitos trabalhos deste grande escritor a serem publicados no Brasil. Que venha El Eternauta, que está para virar filme em 2010, dirigido por Lucrecia Martel.

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7 Comments

  1. de fato, oesterheld é um roteirista inquestionavelmente foda. e lucrecia martel é o que há de excelente e maravilhoso no cinema atual. me deixa bastante excitado ver uma junção de dois excelentes contadores de histórias. mas no fundo, ao mesmo tempo, espero que essa junção maravilhosa não resulte numa grande merda. eu gosto muito da lucrecia, por isso, ainda assim, coloca minha mão no fogo…

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  2. Bom post. Realmente não conhecia muito sobre a vida e nem biografia deste ilustre escritor.. No entanto tenho e li em uma unica “sentada” a compilação da série El Eternauta. Uma obra fascinante, capta o leitor logo de inicio, que muda trasticamente a cada nova pagina. Diferente da digramação, sempre quadratica: semelhante ao famoso Tex.

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  3. Prezado Amigo
    Eu moro na argentina pq soy argentino,, y estou viajando a Sao Paulo em unos dias.
    Por cierto encontre tu articulo muy bueno e interesante
    Escribi algo sobre Oesterheld, La historieta y El Comic.
    me gustaria enviarselo.
    Gracias ,, desde ya Obrigado

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  4. Acabei de ler Mort Cinder, acabei de descobrir as hqs argentinas pra falar a verdade e caras… É Alan Moore que é o Oesterheld de Inglatera hahahaha simplesmente GÊNIAL. Você pode ver claramente que em Promothea a mesma ideia é usada em outro ângulo, Moore usa a premissa de idéia/inspiração artistica através de sua religião, enquanto Oesterheld faz uma metáfora de justiça e perseverança para um povo sem ambas, quase a mesma ideia de O Eternauta, porém dessa vez mais expressiva e experimental. E claro que contém muito de Jorge Luís Borges, escritor que conheci agora também procurando por matérias de Mort Cinder na internet. E Breccia… Nossa… Destruidor! Pintando com técnicas tão negativas de preto e branco que deu outra definição do que é noir, deixou mais dramático ainda, muito interessante que dizem que sua arte alí é uma consequência da morte de sua mulher. Estou apaixonado pela historia de Oesterheld e Breccia, e o foda é que ninguém que conheço manja deles ou procuram por ler e fico louco querendo conversar a respeito hahahahah Daí encontro matérias de dez anos atrás e fico lendo e me empolgando praticamente sozinho. Não me sinto inspirado por um autor desse jeito desde que conheci Henry Miller, Pynchon e Mutarelli, mas é isso aí… Vim só pra falar que apesar de Moore ser realmente o mais talentoso e competente roteirista de quadrinhos, Oesterheld estava à frente em idéias. Eu posso dizer que o amo.

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    1. Oi Pedro! Sim, o Oesterheld realmente era um daqueles “homens à frente de seu tempo”. E por isso que foi tão perseguido – como esse tipo de pessoa costuma ser, por criar interrogações nas pessoas e as fazer pensar. Se tu curte os quadrinhos argentinos, te recomendo ler o livro Bienvenido, do Paulo Ramos sobre o quadrinho do portenhos e amigos. Também recomendo a Coleção Fierro, da Editora Zarabatana que tem muita coisa legal. E, claro, visitar as comiquerias de Buenos Ayres. Não saíram muitas coisas do Oester aqui no Brasil, mas a Conrad lançou a biografia do Che que ele fez. Se quiser conversar mais sobre, tem os meu contatos nas redes sociais no topo da página inicial. Abraços! =)

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