Ano: 2009

Possibilidades promissoras para patos e paladinos

Quando os fãs ouviram pela primeira vez que a Disney havia comprado a Marvel por 4 bilhões de dólares devem ter se perguntado: quando o Super-Pato e o Super Pateta irão se encontrar com o Homem-Aranha e o Homem-de-Ferro? Uma possibilidade curiosa, mas, na junção destas duas grandes empresas de entretenimento, é um dos fatos menos prováveis de ocorrer. A interação entre as duas empresas deve ir muito além de crossovers entre seus personagens. Do outro lado da trincheira, podemos ver como a compra de uma editora de quadrinhos por um conglomerado pode ajudar a popularizar seus personagens. Em 1968, a Warner uniu-se à DC Comics – casa de Superman, Batman e Mulher-Maravilha – e a fusão das duas companhias tornou mais fácil levar Superman para as telonas em 1975. Mais tarde, em 1989, Batman estreou nos cinemas. O sucesso do homem-morcego alavancou a produção de desenhos e seriados dos heróis DC pela Warner. Alguns exemplos recentes são o desenho-animado da Liga da Justiça e o seriado Smallville. Ambos têm um público fiel e uma …

Umbigo Sem Fundo: Uma Família de Imagens e Palavras

Um dos aspectos principais na produção de histórias independentes dos últimos anos é ter como temas principais o deslocamento e a disfuncionalidade. Cada uma trata de temas diferentes e desenvolve estes aspectos de forma a se adaptar com eles. Em Umbigo Sem Fundo, lançada mês passado pela Companhia das Letras, o tema central é a família e as relações que se dão entre seus vários integrantes. Tudo começa quando, depois de quarenta anos de casados, os pais da família Loony (maluco, em inglês) resolvem se divorciar. Para passar uma última semana juntos, os membros da família, filhos, netos e cunhados voltam a morar na casa na beira da praia onde cresceram. Os filhos, retratados bastante diferentes um dos outros, ecoam suas visões diversas sobra a família e divórcio. Dennis, o mais velho, se mostra nervoso e preocupado com o fim do casamento, ele é pai de família e acredita que as família são o pilar para uma vida de sucesso. Claire, a filha do meio, que já se divorciou, é atormentada pelo passado e pela …

Wolverine, por Jason Aaron

Wolverine #64 Engraçado… As pessoas pensam que, só porque tenho fator de cura, não sinto dor. Infelizmente, nunca foi o caso. Senti cada tiro, facada e queimadura que me detonaram ao longo dos anos. Mas pior ainda é a sensação quando meu corpo começa a se remendar… quando os nervos voltam a crescer. Tu não imagina a agonia. Fora a dor de ter um esqueleto coberto por adamantium… um metal inquebrável. Já fiz de tudo pra me livrar dela: acupuntura, meditação hindu, terapia aquática atlante, analgésicos alienígenas… mas nada funcionou. No final, tive de aceitar o fate e pronto. Dói paca ser Wolverine. _______ Publicado originalmente em Wolverine#64 (2008)

Epiléptico – A ascensão dos monstros internos

David B. é um nome bastante conhecido na Europa, onde já trabalhou em diversos álbuns pela editora independente de quadrinhos L’Association, que ajudou a fundar. No Brasil é mais conhecido por seus dois álbuns intitulados Epiléptico. Neles o autor conta como sua vida foi alterada devido a doença do irmão, a epilepsia, ou como é chamado em francês, o Grande Mal (Haut Mal). A epilepsia é uma doença incurável, que causa convulsões, desmaios e vai, com o tempo, debilitando o cérebro. A odisséia dos pais atrás de uma cura para a doença do filho é a força-motriz da história. A família passa por acumpulturas e dietas macrobióticas, psicanálises e drogas, seitas religiosas e crenças sobrenaturais sempre na esperança que alguma dessas tentativas acabasse ou diminuísse o sofrimento da família. O desenho sempre foi a válvula de escape de David B., que na verdade chama-se Pierre-François Beauchard. Resolveu usar o nome de David, pois se identificava com os judeus ainda no tempo em que passava os finais de semana lendo literatura fantástica na biblioteca da sua …

"Sou Lésbica!" "Legal, posso contar pras minhas amigas?"

Fun Home – Queer as Family

Em 2006 uma graphic novel (HQ) foi escolhida como livro do ano pela revista americana Time. A obra superou nesta escolha autores consagrados como Cormac McCarthy. Por causa deste prêmio tomou corpo uma polêmica de que quadrinhos deveriam ser encarados e reconhecidos como literatura. No ano seguinte, conquistou o prêmio maior dos quadrinhos americanos, o Eisner Award por melhor obra baseada em fatos. A The New York Times Book Review o definiu como “uma obra pioneira, que eleva dois gêneros (quadrinhos e relato autobiográfico) a novos patamares”.  O “livro” em questão é Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, de Alison Bechdel. A história é baseada na vida da própria autora e lida com temas como homossexualismo, morte e relação entre pais e filhos. Um dos pontos chaves da trama se dá depois de Alison contar à família que é lésbica, sua mãe liga para ela revoltada e conta que o pai manteve relações sexuais com outros homens durante o casamento. Toda a graphic novel trata desta conexão entre Alison e seu pai Bruce e …

Lançamento do Ficção de Polpa vol.3

No próximo dia 13, acontece no Cult Bar, o lançamento do terceiro volume do Ficção de Polpa. Desta vez, participo do livro com uma HQ, conforme já havia comentado.  Se chama “O Quarto Desejo” e foi desenhada pelo Jader Corrêa. O endereço do Cult é Comendador Caminha, 348 e a função começa às 19 horas. Segundo algumas fontes confiáveis essa é a melhor edição do livro feita até então.

Black Hole – Sexo, drogas e surrealismo

A sensação de estar caindo em um buraco negro é recorrente durante a adolescência. O mundo está mudando, o corpo está mudando e nem sempre se consegue acompanhar essa mudança. A graphic novel Black Hole – Introdução à Biologia, de Charles Burns, desperta esta impressão no leitor, mas de modo potencializado. A história mostra adolescentes descobrindo as drogas e o sexo na Seattle dos anos 1970. Estas primeiras experiências se tornam terríveis quando uma doença que se dissemina pelo contato sexual assola a cidade, gerando as mais variadas mutações. Durante uma festa, Chris conhece Rob. Decidem sair da festa para conversar melhor. A garota leva uma garrafa de vinho. Bebem o vinho, beijam-se, deitam-se no chão e transam. Chris resolve beijar o pescoço de Rob. Quando ela puxa a gola da camisa do rapaz para baixo, enxerga uma segunda boca em seu pescoço, fazendo sons guturais. E tudo fica frio como a certeza de que estava com a doença. É fácil perceber que a graphic novel de Burns traça um paralelo com os primeiros anos …

Persépolis – Estrangeira no próprio país

O ano era 1979, e a revolução iraniana caiu feito uma bomba na cabeça da pequena Marji. Engana-se quem pensa que a revolução foi obra dos fundamentalistas muçulmanos. Como é mostrado na autobiografia em quadrinhos Persépolis – Completo, de Marjane Satrapi, a revolução começou com ares socialistas, com manifestações populares nas ruas. Era uma revolução do proletariado, usando a religião apenas como mais um pretexto para derrubar o tirano Xá que os governava. Mais tarde, seria controlada e contida pelos “barbudos”, como são chamados pela autora os representantes do setor fundamentalista, que impedem que a antiga monarquia se transforme em uma república laica. Fortemente influenciado pela religiosidade islâmica, o Irã se vê despojado da liberdade que conquistara nas últimas décadas. Marjane, por sua vez, se viu separada dos meninos na escola e forçada a usar véu aos dez anos de idade. O uso do véu era obrigatório, já que as autoridades afirmavam que os cabelos das mulheres emanavam raios que atraiam os homens. Como é mostrado na história, quando pequena, Marjane queria ser profeta e …

Patsy Walker: revistas de romance faziam sucesso nos anos 50 pela Marvel.

Marvel Divas ou Sex and The City encontra as Heroínas

Semana passada Joe Quesada anunciou uma nova minissérie da casa das idéias: Marvel Divas. O editor-chefe anunciou a série como uma espécie de Sex and The City com super-heroínas. Foi divulgada a capa de J. Scott Campbell. Como roteirista foi escolhido o competente Roberto Aguirre-Sacasa e o croata Tonci Jonzic. Mas o que eu pergunto é: a Marvel vai publicar um história falando de sexo? Talvez esteja seguindo uma corrente, já que foi lançado ano passado um anual do Homem-Aranha Ultimate em que Peter Parker e Mary Jane discutiam sua primeira vez. E com certeza é uma evolução, já que não é a primeira vez que a Marvel tenta dar um enfoque maior para suas personagens femininas. UM POUCO DE HISTÓRIA A primeira tentativa foi no final da década de 40 com revistas como Namora e Vênus, lançada no crepúsculo dos super-heróis. Claro que a editora já tinha um nicho formado para as leitoras com revistas de romance e de humor adolescente, entre as quais Patsy Walker, da qual falarei mais daqui a pouco. A …

Retalhos (Blankets): Poesia Visual

Retalhos (Blankets), segunda graphic novel de Craig Thompson é uma história semi-autobiográfica que, segundo o autor, conta como é “dividir a cama com alguém pela primeira vez”. A obra tem 582 páginas, uma das mais extensas do seu gênero, mas a fluidez da narrativa de Thompson, seu texto emocional e seus traços livres retiram o peso que um livro tão extenso poderia colocar sobre o leitor. Muitos consideram Blankets, lançada em 2003, um marco na história das graphic novels, não apenas pelo seu número de páginas, mas por sua narrativa, apuro técnico e graça visual. Ganhou quatro prêmios Harvey, dois Eisner e dois Ignatz. Foi listada pela Time como uma das 10 melhores graphic novesl de todos os tempos. A Companhia das Letras promete publicá-la no Brasil em maio de 2009. O conto que Craig Thompson traz mistura uma narrativa linear com momentos de flashback e conta uma história sobre o primeiro amor e sobre crescimento. O autor começa na infância para mostrar a origem de seus medos, traumas e desilusões, depois, já na adolescência, …

Graphic Novels

“Uma graphic novel tem que estar estruturada como um romance, como um conjunto com princípio, meio e fim, com seus próprios temas e conceitos únicos para esta obra e não apenas como uma série de tiras recompiladas para criar um livro”. Bryan Talbot, criador de As Aventuras de Luther Arkwright, em Diseño de personajes par novela gráfica, de Steven Withrow e Alexander Danner Essa semana li Blankets, de Craig Thompson, minha melhor leitura em quadrinhos do ano até agora. Essa semana também concluí o rascunho (texto) da minha graphic novel. Assim que o Fabrício fizer uns esboços, falerei mais sobre ela.

John Byrne e a folha em branco

John Byrne é um dos grandes nomes dos quadrinhos mainstream de super-heróis. Reverenciado por seu trabalho ao lado de Chris Claremont na revista Uncanny X-Men, a partir da década de 80 e ao longo da década de 90, Byrne trabalhou com quase todos os principais super-heróis americanos. Enquanto durante a Era Reagan os super-heróis tinham uma grande tendência em se mostrar pessimistas com problemas psicológicos e culturais, os heróis de Byrne abriam um sorriso e lutavam levando consigo uma aura de que tudo daria certo. As histórias de Byrne apelavam pela nostalgia, patriotismo e cristianismo. Em seu livro Comic Book Nation, Bradford W. Wright coloca uma entrevista de John Byrne realizada em 1990, onde o autor se mostra preocupado com a indústria dos comics. Ele criticava as tendências promovidas por alguns de seus colegas naquela época, insistindo que “tem havido uma distinta mudança de atitude entre as pessoas que estão fazendo quadrinhos. Os mantenedores estão menos em evidência e os destruidores estão mais em evidência”. Com destruidores, Byrne se referia à onda de reconstrução dos …

Marshall McLuhan: "O meio é a mensagem"

As HQs como extensões do homem

Em 1964, Marshall McLuhan lançava o livro Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media: the Extensions of Man). Suas teorias foram revolucionárias para a Teoria da Comunicação por postular, entre outras idéias, que o meio de comunicação não apenas conduz a mensagem, mas que o meio é a mensagem. Segundo McLuhan, os meios não condicionam seu público pelo que informam, mas pela maneira como informam. A mudança de percepção ocorre devido ao meio e não ao seu conteúdo. Seguindo esse raciocínio, o teórico dividiu os meios de comunicação em mídias “quentes” e “frias”, de acordo com as fases quentes e frias do jazz. As mídias quentes, como fotografia e cinema, são menos interativas e mais diretas; permitindo que a audiência seja passiva em relação a elas. As mídias frias, por outro lado, requerem mais participação por parte de sua audiência e, por isso, são mais interativas. Os quadrinhos são uma mídia fria porque “o observador, ou o leitor, é compelido a participar completando e interpretando as poucas pistas deixadas nas entrelinhas”. É …

Esse Wolverine é o macho que eu queria ter... ops, ser!

Wolverine e o Slogan da Tostines

Há alguns anos se questionava a presença massiva de Wolverine em capas de revistas e sua participação em histórias de diversas equipes mutantes e de outros heróis da Marvel. O que ninguém pode negar é que Wolverine vende. Isso é um fato. Entretanto aqui se aplica o famoso questionamento da Tostines: È Wolverine por que vende mais ou vende mais por que é Wolverine? Tudo começou em uma história do Hulk contra Wendigo, de Len Wein e John Romita Sr., em 1974. Wolverine é um agente do serviço secreto canadense e entra no pau com o Gigante Esmeralda. No fim, claro, tudo é resolvido. O bandido perde, a mocinha é salva. Os X-Men nesse tempo sofriam uma terrível baixa de vendas e vinham se sustentado a duras penas com republicações. Eis que surge Giant Size X-Men revitalizando a equipe mutante e trazendo novos pupilos para Xavier. Wolverine é um deles, um pálido e apático personagem que não conseguia se fazer perceber na equipe. Logan viu tudo mudar em sua vida quando o anglo-canadense John Byrne …

As coisas que deixamos para trás

O que é? Run de Brad Meltzer no titulo do Arqueiro Verde, o arco chamado Arqueiro Verde: A Busca. Ao lado do ex-parceiro Arsenal, Oliver Queen, o Arqueiro Verde, percorre o país em busca de objetos importantes da sua vida. Por que eu gosto desse quadrinho? Um dos meus tipos favoritos de filmes são os road movies. E Arqueiro Verde tem uma certa tradição com histórias de estrada. Essa é uma daquelas histórias em que o herói deve atingir um objetivo. A diferença é que, num primeiro momento, não sabemos que objetivo é esse e quando nos damos conta da natureza do mesmo, percebemos que esta não é uma história de super-heróis tradicional. Há o carisma de Oliver Queen, um dos super-heróis mais únicos que já apareceram nos quadrinhos de super-heróis. Engajado, canalha, figura paternal. Dennis O’Neil transformou Queen de imitação do Batman num personagem esférico, e em A Busca, Meltzer aumenta o estofo do herói, criando e desenvolvendo algumas nuances que precisavam ser trazidas à tona depois de sua ressurreição pelas mãos de Kevin …

Mainstream, aliás, Indie

O que é? Série de estréia da linha Marvel MAX, voltada para leitores adultos, Alias conta as aventuras de Jéssica Jones, uma detetive particular, que um dia já foi uma pessoa superpoderosa. Escrito por Brian Michael Bendis e ilustrado por Michael Gaydos. No Brasil foi renomeada como Alias: Conexão Mistério, talvez para fazer alguma relação com o seriado estrelado por Jennifer Garner. Por que eu gosto desse quadrinho? Meu fraco são mulheres fortes. Do início dos anos 2000 para cá esse tipo de personagem vêm se proliferando nos quadrinhos de super-heróis. Jéssica Jones não é o arquétipo de uma mulher forte. Ela é insegura, tem baixa auto-estima, não sabe o que quer da vida e tem uma personalidade destrutiva. E bebe pra dedéu. Por outro lado, ela tem atitude, o que a torna uma personagem forte. A série é carregada pela personagem, já que as tramas não são tão elaboradas. Temos Jéssica descobrindo um segredo sórdido do Capitão América, investigando um caso de traição conjugal pela Internet, buscando um suposto Rick Jones. Os diálogos são …

O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas?

Batmen morrem, Robins vivem para sempre

É, o Batman morreu. Mas todo mundo sabe que ele vai voltar. Pra quem não sabe, ele morreu disparando uma arma contra Darkseid, que também morre no processo. Tudo isso em Final Crisis #6. Grant Morrison tentou justificar a morte dele remontando à origem do cruzado embuçado, que começou quando uma arma derrubou os pais de Bruce Wayne, e que nada seria mais justo que, ao fim, Batman empunhasse uma arma (do tipo que jurou nunca usar) e erradicasse a face do mal no Universo DC. Só que Batman nunca foi um herói cósmico, longe disso, era o herói mais humano da DC. Era como uma espécie de deus grego no meio de divindades monoteístas. Como já nos mostrou Kurt Busiek em LJA/Vingadores, os heróis da DC são vistos como deuses no seu universo. Todos menos o Batman. Ele tem essa diferença. Ele não é o herói puro. Ele usa meios escusos para atingir fins incontestáveis. Ele é psicótico, tão psicótico quanto seus vilões, como foi contado pelo mesmo Morrison no ótimo Asilo Arkham. Não …