Persépolis – Estrangeira no próprio país

Persépolis Completo, de Marjane Satrapi pela Companhia das Letras
Persépolis Completo, de Marjane Satrapi pela Companhia das Letras

O ano era 1979, e a revolução iraniana caiu feito uma bomba na cabeça da pequena Marji. Engana-se quem pensa que a revolução foi obra dos fundamentalistas muçulmanos. Como é mostrado na autobiografia em quadrinhos Persépolis – Completo, de Marjane Satrapi, a revolução começou com ares socialistas, com manifestações populares nas ruas. Era uma revolução do proletariado, usando a religião apenas como mais um pretexto para derrubar o tirano Xá que os governava. Mais tarde, seria controlada e contida pelos “barbudos”, como são chamados pela autora os representantes do setor fundamentalista, que impedem que a antiga monarquia se transforme em uma república laica. Fortemente influenciado pela religiosidade islâmica, o Irã se vê despojado da liberdade que conquistara nas últimas décadas. Marjane, por sua vez, se viu separada dos meninos na escola e forçada a usar véu aos dez anos de idade. O uso do véu era obrigatório, já que as autoridades afirmavam que os cabelos das mulheres emanavam raios que atraiam os homens.

Como é mostrado na história, quando pequena, Marjane queria ser profeta e conversava com Deus todas as noites. Com a chegada da revolução, passou a ler o materialismo dialético em quadrinhos e abandonou o Todo-Poderoso. Como uma espécie de Mafalda (criação do argentino Quino) do Irã, a Marji criança é politicamente consciente e ousa fazer perguntas que até os adultos evitariam.

A graphic novel ganhou prêmio no Festival de Angoulême, na França e foi escolhida como melhor HQ na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. A obra, agora compilada, foi publicada inicialmente em quatro partes (lá fora e no Brasil), nas quais a autora mostra como é lidar com um país e uma maneira de viver com os quais não se encaixava. Estrangeira em seu próprio país, estranha em um lugar estranho, é a singularidade de suas experiências que dão o tom da graphic novel. O sentimento de não-pertencimento, a vontade de fazer diferente, marcam as ações da protagonista, seja por seus pensamentos ocidentais em um país muçulmano ou por sua cultura iraniana na Europa, para onde é enviada aos 14 anos, fugindo da guerra Irã-Iraque que irrompia em sua terra natal.

Apesar de lidar com a dureza dos anos de guerra, e provocar relatos emocionantes como a despedida de seu tio Anuch, ou a lembrança do cheiro de jasmim da avó, a autora também consegue trazer humor ao que conta, como ao lembrar que, ainda criança, inventava as histórias mais inverossímeis sobre seu pai ser um herói da revolução, e as relatava para as outras crianças, em busca de admiração ou ao revelar que o nome da sua tia, que no Irã significava “paraíso”, era uma gíria para “vagina” na Europa. “Minha tarefa é fazer rir, pois rir pode ser uma arma bastante subversiva”.

Ao ler Persépolis, é impossível ficar indiferente aos contrastes entre a cultura ocidental e a fundamentalista muçulmana. Marjane, que era fã de Bruce Lee, Michael Jackson e Iron Maiden, e gostava de cantar Kids in America, só podia ter acesso a esse tipo de entretenimento clandestinamente. Na HQ, Marjane revela que mostrar o pulso, rir alto e possuir um walkman eram considerados subversão. No Irã, as festas tinham de ser em segredo e as bebidas eram utilizadas clandestinamente: muitas vezes, os agentes de governo faziam ronda nas casas para acuar e prender quem festejasse. Durante uma perseguição, um de seus amigos cai de um telhado e morre.

Os desenhos de Satrapi são extremamente simples, e alguns poderiam dizer que são feitos por uma criança, mas foi essa naturalidade que conquistou o mundo. Persépolis foi publicada em mais de 15 países. Os desenhos têm apelo universal, como os melhores quadrinhos infantis, mas retratam questões adultas. A narrativa acompanha as idas e vindas de Marjane, das guerras ao exílio, do retorno ao Irã à decisão de morar na França. “Nestas graphic novels, eu não só conto 16 anos da minha vida, mas passagens que por muito tempo eu quis esquecer, que foram muito dolorosas. Por serem tão verdadeiras e ao mesmo tempo terem humor, acabaram tendo apelo universal”, expõe a quadrinhista.

Não é possível dizer se os piores anos da vida da autora foram os que ela passou no Irã em guerra ou sozinha na Europa. No velho mundo, Marji era vista como estranha na escola, e apesar de ter conquistado amizades de outros párias como ela (Momo, o punk, Julie, a liberada, dois órfãos, os oito gays que moravam com ela numa república), o conflito interno entre a negação de suas origens e a auto-afirmação era imenso. Naquela época, para se integrar na escola, Satrapi começou a traficar drogas e também a consumi-las em excesso até, como ela mesma diz, virar um legume. Meses depois, com o final frustrante de um namoro, ela passa a atravessar as noites em metrôs, a dormir na rua, até parar no hospital. Afinal, qual é o pior sofrimento: o que é compartilhado entre milhares de pessoas ou aquele que só você sente?

De volta ao Irã, Marjane vê que os perigos não acabaram. Tem de enfrentar a ortodoxia da universidade e as dificuldades do casamento. Na faculdade de artes, as aulas de desenho anatômico tiveram o modelo nu substituído por uma pessoa coberta da cabeça aos pés. Os alunos deviam recorrer à imaginação para poder retratá-los. Hoje, Marjane mora em Paris e faz cartuns para jornais como o The New York Times.

Em 2007, Persépolis foi transformada em uma animação dirigida por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. O filme foi aplaudido de pé na última edição do Festival de Cannes e foi o vencedor da Mostra Internacional de São Paulo. Indicada ao Oscar 2008 de melhor animação, concorreu com Ratatouille e Tá Dando Onda.

Persépolis é mais uma daquelas obras que promovem a abertura de mente para a cultura muçulmana, onda que arrebatou o mundo a partir do 11 de setembro, mas o faz de uma maneira diferente. Não traz apenas uma paisagem dessa civilização, mas através de um “infiltrado”, mostra a busca de liberdade por uma pessoa que vive sob um intransigente e radical governo islâmico, como nos livros O Caçador de Pipas e Lendo Lolita em Teerã.

Persépolis é indicado para quem gosta de desvendar culturas diferentes e aprecia filmes como Casamento à Indiana, Memórias de Uma Gueixa e O Último Imperador. É o retrato de uma luta contra a opressão de um regime político guiado por visões de mundo tradicionalistas e falsos moralismos. Mas também é recomendado, principalmente, para quem se interessa pela jornada humana da auto-descoberta. A mensagem que fica da HQ é o conselho da avó de Marjane, sempre a voz da razão na narrativa: “Para se integrar é preciso manter a própria integridade”.

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Publicado originalmente em Things Mag#1

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