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Epiléptico – A ascensão dos monstros internos

Epiléptico: Volume 1, de David B

Epiléptico: Volume 1, de David B

David B. é um nome bastante conhecido na Europa, onde já trabalhou em diversos álbuns pela editora independente de quadrinhos L’Association, que ajudou a fundar. No Brasil é mais conhecido por seus dois álbuns intitulados Epiléptico. Neles o autor conta como sua vida foi alterada devido a doença do irmão, a epilepsia, ou como é chamado em francês, o Grande Mal (Haut Mal). A epilepsia é uma doença incurável, que causa convulsões, desmaios e vai, com o tempo, debilitando o cérebro. A odisséia dos pais atrás de uma cura para a doença do filho é a força-motriz da história. A família passa por acumpulturas e dietas macrobióticas, psicanálises e drogas, seitas religiosas e crenças sobrenaturais sempre na esperança que alguma dessas tentativas acabasse ou diminuísse o sofrimento da família.

Os aproveitadores, os médicos, os charlatões da epilepsia...

Os aproveitadores, os médicos, os charlatões da epilepsia…

O desenho sempre foi a válvula de escape de David B., que na verdade chama-se Pierre-François Beauchard. Resolveu usar o nome de David, pois se identificava com os judeus ainda no tempo em que passava os finais de semana lendo literatura fantástica na biblioteca da sua casa. Foi da imaginação alimentada por histórias extraordinárias que surgiram os monstros que estão presentes em Epiléptico. Primeiro Pierre-François desenhava cenas ultra-detalhadas de batalhas históricas, depois, com o desenvolvimento da doença de seu irmão, Jean-Christophe, passou a ser acompanhado por criaturas sobrenaturais que representavam seus temores e instintos. Ao revelar seus impulsos e fragilidades na figura de seres horrendos, B. humaniza sua obra, dá forma às suas limitações e dessa maneira, às vence. “Desenhar essa história foi uma forma de exorcizá-la, torná-la algo meu, que eu pude entender e aceitar”, conta o artista.

A crise

A crise

O autor une a narrativa com o processo criativo, explorando de maneira inteligente a linguagem dos quadrinhos e, a exemplo de Maus, de Art Spiegelman, transforma pessoas em animais e animais em pessoas – os monstros que o acompanham são aspectos de sua psique. Seus desenhos são baseados em artes japonesas, africanas, indígenas e medievais, chegando a ser comparadas inclusive à xilogravura. Quando da publicação na Inglaterra, o jornal The Guardian disse que Epiléptico era Harvey Pekar (de Anti-Herói Americano) desenhado por Picasso. Talvez por haverem se tornado seu refúgio, os desenhos de David B. guardam tanta riqueza nos detalhes. Seu irmão que, quando criança, tinha delírios de grandeza, queria ser como Hitler ou Gengis Khan, por outro lado, foi refugiando-se pouco a pouco na doença, perdendo quase toda a ligação que tinha com o mundo e ficando cada vez mais dependente da família e dos tratamentos.

O refúgio

O refúgio

Marjane Satrapi, autora de Persépolis, foi bastante influenciada por David B.. Ambas histórias são autobiográficas e mostram uma criança tendo que crescer rapidamente forçada a encarar o mundo através da perspectiva de um adulto. Já crescidos, porém, não conseguem achar seu lugar entre os demais por terem a sensação de haverem vivido demais. Os dois artistas encontraram nos quadrinhos uma maneira de expor e exorcizar seus monstros. David B. compara a segregação por causa da doença do irmão com as diferenças entre as civilizações – tema central de Persépolis – e diz que a criação de Epiléptico foi uma maneira de buscar entender por que razão as pessoas se afastam umas das outras.

Epiléptico: Volume 2, de David B

Epiléptico: Volume 2, de David B

Epiléptico ganhou prêmio de melhor roteiro no Festival de Angouléme em 2000 e David B. foi escolhido Artista Destaque no Prêmio Ignatz em 2005. Essa é uma história que merece atenção, outra da leva de autobiografias em quadrinhos, que ganham o leitor com a verdade e a crueza de sentimentos embutidos não apenas nas palavras, mas nos desenhos e na junção dos dois. Uma obra que nos leva a compreender a epilepsia não apenas do lado de quem sofre a doença, mas daqueles que convivem diariamente com a ascensão do “grande mal”.

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