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Umbigo Sem Fundo: Uma Família de Imagens e Palavras

Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw

Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw

Um dos aspectos principais na produção de histórias independentes dos últimos anos é ter como temas principais o deslocamento e a disfuncionalidade. Cada uma trata de temas diferentes e desenvolve estes aspectos de forma a se adaptar com eles. Em Umbigo Sem Fundo, lançada mês passado pela Companhia das Letras, o tema central é a família e as relações que se dão entre seus vários integrantes. Tudo começa quando, depois de quarenta anos de casados, os pais da família Loony (maluco, em inglês) resolvem se divorciar. Para passar uma última semana juntos, os membros da família, filhos, netos e cunhados voltam a morar na casa na beira da praia onde cresceram. Os filhos, retratados bastante diferentes um dos outros, ecoam suas visões diversas sobra a família e divórcio. Dennis, o mais velho, se mostra nervoso e preocupado com o fim do casamento, ele é pai de família e acredita que as família são o pilar para uma vida de sucesso. Claire, a filha do meio, que já se divorciou, é atormentada pelo passado e pela preocupação com sua filha, Jill. Por fim, Peter, o caçula, está alheio a tudo isso agindo como se vivesse num mundo só seu, já que toda a família por vezes esquece que ele existe.

Dash Shaw

Dash Shaw

Na história, Peter é retratado como um sapo, – a não ser por um único quadro – pois é como ele acredita que a família e o mundo o vêem. Aqui a zoomorfização funciona como modo de trabalhar o deslocamento e a disfuncionalidade de uma forma gráfica e explícita, sem remeter a artistas que usaram este recurso anteriormente como Spielgman e David B.. Há ainda uma possibilidade de que Peter seja reflexo do autor, Dash Shaw, descrito como quieto e recluso em reportagens. Nesse caso, Peter lembra alguns personagens de Woody Allen principalmente quando retrata a si mesmo em seus trabalhos. Mas não é somente a semelhança com protagonistas que guardam analogia com o trabalho de Allen. O humor também segue um caminho parecido quando os personagens fazem piadas sobre si mesmos e seus entes queridos. Há uma cena bastante emblemática deste caso quando Claire imita os membros da família para sua filha, dizendo, ao final, que imitar Denis, descrito pelo autor como “um Homer Simpson com cabelos”, era crueldade, pois ele já era uma paródia de si mesmo.

O clima inicial da história lembra bastante Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, de Daniel Clowes pela sensação de estranheza e não-pertencimento que o leitor sente. Somos apresentados à família Loony através de gráficos, esquemas de layout e por cenas características dos quadrinhos undergrounds. Acabada a primeira parte da graphic novel – que tem mais de setecentas páginas –, entretanto, os personagens já cativaram e envolveram de uma forma que fica difícil largar o tijolão e fazer uma pausa para ler o que vem na sequencia, como o autor sugere na abertura.

Talvez o principal recurso narrativo que Dash Shaw usa em Umbigo Sem Fundo sejam os reflexos. Há desde reflexos que temos sobre nós mesmos (como a retratação de Peter como um sapo), do que os outros têm sobre nós (após ser comparada com um homem, toda vez que Jill é refletida, ela se vê como um) ou até mesmo os dos outros em nós mesmos (os filhos tornando-se pais e os pais tornando-se filhos), o que produz um efeito também reflexivo no leitor que passa a se colocar no lugar dos personagens. Afinal, se o leitor não foi pai, com certeza já foi filho.

Contemplação

Contemplação

Umbigo sem Fundo é uma história contemplativa, contada vagarosamente para que o leitor capte as nuances nos diálogos e nas cenas. Infelizmente, uma leitura apenas não dá conta de todos. Longas seqüências de imagens são usadas para mostrar experiências sensoriais como as páginas inteiras que mostram os diferentes tipos de areia e água. O mais impressionante é que estas imagens não guardam apenas uma grande carga sensória, mas também a sensibilidade de momentos-chave da narrativa e na emoção dos personagens. Há efeitos de leitura que remetem a filmes como Encontros e Desencontros que levam o leitor a ponderar a importância de momentos banais para os personagens. Por outro lado, esse efeito também é usado para realçar a importância de uma cena, como quando Peter vê Kat despindo lentamente a roupa, evento que leva quatro páginas para ser mostrado. A naturalidade e a casualidade são pontos altos da condução da narrativa  — atenção para as cenas explícitas de sexo, ou para quando os personagens recorrem ao banho para renovar suas energias — e lembra filmes da nova safra de filmes independentes como Pequena Miss Sunshine, A Família Savage e Juno.

Palavras utilizadas para substituir imagens

Palavras utilizadas para substituir imagens

Os desenhos da graphic novel não são muito desenvolvidos ou detalhados como em outros quadrinhos de autor. Lembram a simplicidade de Persépolis, mas têm a estranheza de traço dos quadrinhos underground. Porém, o recurso gráfico que mais chama atenção são as palavras. O autor lança mão de descrições e onomatopéias. Usa palavras para representar aquilo que não pode ser desenhado como barulhos e ações, ou por vezes para mostrar o efeito de uma ação ou diálogo sobre um personagem, como quando Peter ou seu pai encolhem os ombros. Se de início a utilização destes recursos pode parecer cansativa e repetitiva, por outro lado pode ser algo poético. Umbigo sem fundo é uma HQ sem cores. Para demonstrar um pôr-do-sol, Shaw desenha um horizonte e escreve sobre ele algumas cores em um quadro, outras cores em outro. Provavelmente o aspecto mais literário desta obra esteja, ironicamente, nas palavras que valem mais que mil imagens.

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5 comentários

  1. fabriciobohrer diz

    Muito jóia, me deu vontade de ler agora mesmo.
    Vou fazer uma listinha de compras para o FIQ, com certeza Umbigo sem fundo é um deles.

    Feitow!

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  2. Érika Suzuki diz

    Buscando novidades nas prateleiras de HQs de uma livraria, me chamou a atenção o nome Umbigo sem Fundo. Pensei ser mais uma traminha familiar com pouco a acrescentar. Mas gostei do resultado.
    Os traços não-rebuscados e o estender de cenas aparentemente não tão relevantes dão um ritmo, ao contrário do que se possa pensar, leve à narrativa sensível aos encontos e desencontros – parafraseando a citação do filme acima – nas relações familiares.
    Final tocante que não se espera da distância das personagens. Está tudo lá, bem escondido, e a gente nem percebe. Nem eles…

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  3. Eu comprei Umbigo Sem Fundo (e algumas outras hqs tb) já há um tempo e ainda não tive tempo hábil de ler. Mas gostei muito do seu blog e da sua resenha. Muito legal. Congrats.

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  4. Pingback: Quadrinhos Para Quem Não Curte Quadrinhos | Splash Pages

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