Ano: 2012

Meus primeiros super-heróis

Mas eis que um dia, depois de assistir aos Power Rangers, que eram mania na época, além das Tartarugas Ninja e dos Cavaleiros do Zodíaco (que eu não gostava e, pra piorar, a Manchete não pegava direito na cidade onde morava). Enfim, eis que um dia eu estava esperando para ver os Power Rangers na TV Colosso e no lugar deles aparece um desenho animado com uns super-heróis diferentes dos que eu estava acostumado a ver. E o melhor, o inimigo deles era um ser meio-homem, meio-pterodáctilo, (Jurassic Park havia feito todos pré-adolescentes fãs de dinossauros). Assim que meu irmão chegou em casa falei para ele: “Tu tem que ver esse desenho é uma mistura de Comandos em Ação com deuses da mitologia, porque cada um tem um poder diferente” (outra da minha fascinação na época eram as histórias da mitologia). Meu irmão asssitiu e pronto, tínhamos virado fãs dos X-Men. Passou um bom tempo para que descobríssemos o que era a Marvel e que os X-Men eram publicados em quadrinhos. Foi numas férias em …

Meus Primeiros Quadrinhos

Quadrinhos são grande parte da minha vida. Quadrinhos nem sempre fazem parte do meu trabalho, fazem parte do meu lazer, mas isso não quer dizer que eu não os leve a sério. Isso não quer dizer que eles não têm influência em tudo o que eu faço. Quero abrir um espaço aqui para descrever esta relação, já que esse é um blog pessoal e eu não sou pago para escrevê-lo. Nestes posts vou escrever como foram meus primeiros contatos com os quadrinhos e como eles se tornaram minha paixão. Eu praticamente aprendi a ler com os quadrinhos, principalmente com os da Turma da Mônica, apesar do Cebolinha trocar os erres pelos eles e do Chico Bento e sua turma falarem “caipirês”. Minha festa de primeiro ano teve a temática da Turma da Mônica, e eu estava vestido igual ao Cebolinha: camisa verde e calção preto. Aliás esse foi o meu personagem preferido por um longo tempo, e também minha brincadeira favorita, em que eu nomeava todo mundo da família como um personagem da Turma da …

A criatura do meu pesadelo

Transmetropolitan – De Volta às Ruas, de Warren Ellis e Darick Robertson

Pra começar, não, até hoje eu nunca tinha lido Transmetropolitan. Nunca tive curiosidade e quando ela era publicada regularmente por aqui, eu não lia porque ainda não tinha completado 18 anos (olá, criação católica, olá, falso-bom-mocismo). O fato é que acabei lendo o encadernado lançado em 2010 pela Panini essa semana, graças a um amigo que repassou a edição. Folheando as páginas me deparei com um gato de duas faces, que me lembrava um desenho que tinha feito a partir de um pesadelo meu (ver no final deste post). Imaginei que iria simpatizar com a história. Mas aconteceu o contrário. O início da trama é muito bom, Spider Jerusalém, jornalista isolado do mundo tem de voltar às ruas para cumprir uma dívida e nesse caminho não poupa ninguém em suas colunas ácidas e verdadeiras. Tudo seria perfeito se não fosse por dois detalhes: a história se passar no século 23 e o excesso de impropérios destilados por Jerusalém. Claro, um palavrão aqui e ali não causa nenhum estertor, mas Transmetropolitan deve conter, ao menos um …

5 Versões do Superman em 5 HQs Recentes

5 Versões do Superman em 5 HQs Recentes

É um pássaro…, por Steven T. Seagle e Teddy Kristiansen O Metalinguístico. Uma HQ cínica e reveladora. Nesta autobiografia marcada pela discussão dos aspectos que fazem do Superman o herói que ele é hoje, o autor se vê bloqueado em assumir o cargo como escritor regular das revistas do kriptoniano por causa do histórico da Doença de Huntington em sua família. Além de experimentar na forma, os autores nos trazem um conteúdo belíssimo, de uma obra ímpar e imperdível. Superman: Entre a Foice e o Martelo, por Mark Mllar, Killian Plunkett e Dave Johnson O Bizarro. Essa sim, é a versão contrária do Superman, que nesta história nasceu na União Soviética e, aos poucos vai se tornando o comandante da potência socialista, mudando de forma definitiva o cenário mundial. Além de lidar com aspectos geopolíticos, há destaque para as versões de Batman e Mulher-Maravilha e para o final, que é surpreendente. Superman: Identidade Secreta, por Kurt Busiek e Stuart Immonnen O Real. Se o Homem de Aço vivesse no mundo real como seria sua vida …

“Gibis?”, por Brian K. Vaughan

Henrietta: “Xi, eu conheço essa cara. Por mais que eu odeie pisar nos seus sonhos, devo lembrar que nosso orçamento atual consiste em meio maço de cigarro e nessas roupas horrendas que a gente carrega no lombo”. Cayce: “Também temos meus roteiros e a sua arte. Do que mais precisamos?”  Henrietta: “Hã, conhecimento sobre essa mídia? Papel também ajudaria, sabe?”  Cayce: “São só palavra e imagens, Henrietta. Esse formato tem todas as vantagens do cinema e nenhum dos empecilhos. É o jeito mais barato de passar nossa perspectiva, sem filtros, e ao maior número possível de pessoas”.  Henrietta: “Perpectiva de quê, exatamente? A mulherada só quer ler romancezinhos bregas que as façam lembrar como as coisas eram mais tranquilas”.  Cayce: “Ah, para, é imbecilidade achar que todas as mulheres querem a mesma coisa. Você está certa no sentido de que nem tudo que a gente faz precisa ter um propósito social, mas também não quer dizer que precisa ser essa anestesia babaca. Nós podemos criar algo novo, algo que desafie nosso público ao mesmo tempo …

5 HQs de Desamor

A Playboy, de Chester Brown Com uma incrível sinceridade, Chester nos conta como foi sua relação com a primeira Playboy que comprou na vida. Depois, sua relação com a publicação ao longo dos anos e como isso influenciou sua vida sexual e afetiva. Mais sobre essa HQ aqui. Pagando por Sexo, de Chester Brown Como uma continuação de A Playboy, agora Chester, desiludido com o amor romântico nos conta suas experiências no mundo da prostituição. Diferente de A Playboy, esta graphic novel é estruturada em um grid de oito quadros por página (em geral). Brown usa de vários argumentos para defender a profissão mais antiga do mundo, desde diálogos com amigos na própria HQ, a um apêndice no final do livro com justificativas tópico a tópico. Bordados, de Marjane Satrapi A premiada autora de Persépolis, traz aos seus leitores um momento de conversas e fofocas de mulheres iranianas ao redor do samovar. Uma a uma vão contando suas desilusões com o amor e o sexo, mostrando como as mulheres podem ser enganadas por seus maridos, …

Scarlet #1

Vários estilos, um só roteirista

O que me faz  gostar de um escritor de quadrinhos e o que deles eu posso extrair para melhorar minha percepção de leitura e de escrita? Muitas vezes o mérito é de um bom relacionamento entre o (os) artistas que geram planos, composição dos quadros e apuro estético, como faz Geoff Johns com seus colaboradores, outras vezes vem da mania de controle e dos roteiros ultra-detalhados de pessoas como Neil Gaiman e Alan Moore. As duas maneiras geram boas histórias. Eu gosto dos diálogos pingue-pongue de Brian Michael Bendis, da experimentação e da contestação de Brian Wood, da construção de personagens através do diálogo de Brian K. Vaughan, da dinâmica entre os personagens de Robert Kirkman e dos textos off-panel formando um todo com o que se lê imageticamente de Jason Aaron – como em Scalped #10, a história de Dino Urso Pobre (só pra citar autores mais recentes, mas não tão recentes como Nick Spencer, Scott Snyder e Cullen Bunn). Esses são só os elementos mais marcantes que eu vejo no estilo de cada …

Do lado de fora, por Steven T. Seagle

Terno e gravata Chapéu e óculos Clark Kent se encaixa direitinho No mundo filtrado de Metrópolis De dias corridos, Jornadas de trabalho, Conversa mole, Clic-clac, Contracheque e colarinho.   Naquele oh-tão-esperado intervalo de almoço, Sempre há tempo para uma troca rápida, Um voo rápido Trabalho rápido Para os aspirantes a destruidores do mundo E então logo de volta ao Terno e gravata Chapéu e óculos Oh, sim, Clark Kent se encaixa direitinho.   Mas abaixo, na Contabilidade, Colunas e Linhas E Linda Goldberg sabe que Os “hahahas” nos filtros São piadas sobre como o “povo dela” É sempre aquele “com a mão na grana”. Nenhum intervalo de almoço é longo o suficiente Para permitir que ela se troque rápido De seus Ancestrais ou de seus Críticos.   Luvas de couro Fardas de brim Se DeRon Sanford não viesse trabalhar Todo mundo n’O Planeta notaria Mas quando ele chega Não se mistura, Mais desaparece no Puxa e varre a plena vista O Homem Invisível.   Até que o dinheiro do café Some da mesa de alguém …

5 Aspectos do Capitão América em 5 HQs Recentes

Capitão América: Um Homem Fora de seu Tempo, por Mark Waid e Jorge Molina O Deslocado. Todo herói Marvel tem uma fraqueza, e a do Capitão, por um tempo, foi viver em uma época muito à frente de seu tempo. Adaptando o desajuste temporal do Capitão dos anos 60 para os dias atuais, a dupla de autores traz à tona momentos emocionantes, como quando Steve Rogers fica sabendo de Martin Luther King Jr. E retomam nossa fé na humanidade. Ultimate Marvel Capitão América, por Jason Aaron e Ron Garney O Alienado. Indo atrás de capangas que roubaram o soro do supersoldado, o Capitão é feito prisioneiro pelo seu semelhante da Guerra do Vietnã, Bazuca. Através dele, Steve Rogers fica sabendo da realidade dos países do terceiro mundo e de como os EUA os prejudicam. É uma boa história com espaço para o cinismo e o satanismo do roteirista. Capitão América: A Escolha, por David Morrell e Mitch Breitweiser Um por Todos e Todos por Um. A história acompanha um soldado em meio a uma guerra …

5 HQs Conceituadas Que Vão Chocar Você

Lost Girls, de Alan Moore e Melinda Gebbie É a história erótica de três garotas dos contos de fadas: Dorothy, Wendy e Alice. Nos três álbuns da série há toda a forma de experimentação sexual: desde zoofilia a pedofilia. Choca pela utilização de personagens de histórias infantis em um contexto adulto e perverso. Brat Pack, de Rick Veitch Acompanhamos a vida dos sidekicks de versões deturpadas de super-heróis como Batman, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde e Juiz Dredd, e de como esses ajudantes mirins vão sendo influenciados por eles até serem substituídos por outros. Segundo o autor, essa história mostra que Frederic Wertham não sabia nem da metade do potencial dos super-heróis para o consumo e assimilação das massas. Choca porque tudo é levado às últimas consequências, com muita violência, insinuação sexual e abuso de drogas. John Constantine: Hellblazer – Highwater, Pecados do Passado, de Brian Azzarello e Marcelo Frusin Toda fase de Azzarello no título Hellblazer é polêmica, mas o arco que é narrado através do ponto de vista de um supremacista branco que usa de …

5 HQs de Amor

10 Pãezinhos – Mesa Para Dois, de Fábio Moon e Gabriel Bá Uma história que mostra que o amor pode surgir do nada, mesmo que ele venha te espreitando há muito tempo e você nunca tenha reparado. O amor aqui só se manifesta quando o acaso dá um empurrão. Uma história singela, curtinha e gostosa de ler. 12 Razões para Amá-la, de Jamie S. Rich e Joëlle Jones São doze capítulos em ordem aleatória, cada um intitulado com uma música. Cada um deles mostra os altos e baixos de um relacionamento narrados visualmente e textualmente de diferentes formas. A Paixão do Arlequim, de Neil Gaiman e John Bolton A versão de Gaiman para um dos personagens mais conhecidos da Comédia Dell’Arte. A história começa com um coração que é pregado na porta da amada e o caminho que ele toma até que o amor se renove. Lucille, de Ludovic Debeurme Lucille e Artur, dois jovens incomuns e problemáticos, acabam encontrando, em passos pequenos, o amor um no outro. Esse amor acaba transformando suas vidas e …

Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

O ano era 1999, descontente com a foto da fachada do colégio que ilustrava minha agenda do primeiro ano do segundo grau e querendo conferir a mim mesmo um certo ar místico, recortei o anúncio de uma minissérie que se chamava Destiny de uma revista Wizard comprada numa das idas a Florianópolis (minha primeira revista importada comprada por mim mesmo). Pronto: uma nova capa. Havia simplesmente gostado da ilustração, desconhecia por completo o universo de Sandman e seus irmãos, os perpétuos, entre os quais estava Destino. Já o subtítulo, Chronicle of Deaths Foretold, era um tanto atraente, levando em conta que devia ter sido inspirado em Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Marquez e por acaso na época eu lia Cem Anos de Solidão. A imagem rendeu até a minha primeira tentativa de fazer um conto, na sua estrutura subtextual, falando sobre aquilo que estávamos destinados a ser ou se éramos livres para escolher. Coisas de cabeça adolescente. Treze anos depois – um número mais do que místico – era relançada a minissérie, …

Um outro ponto de vista, por Robert Crumb

“Quadrinhos dão sua versão bem particular da realidade. Há muitas abordagens diferentes para eles, mas não é o mesmo que literatura. Quadrinhos são diferentes, e quando um cartunista tenta “elevar” o gênero, por assim dizer, corre o risco de se tornar pretensioso. Quadrinhos sempre exploraram a sensação e o choque, desde as edições baratas sobre o martírio dos santos ou cenas de batalha no século XVI. As imagens têm que ser fortes. Dá pra ser bem pessoal nos quadrinhos, mas imbuir sutileza literária séria neles me parece absurdo. Há algo de tosco e proletário nos quadrinhos. Se você afastar demais disso, bem, pode parecer bobo. Não consigo ler boa parte dos quadrinhos sérios e profundos que são feitos hoje. Me parecem um tanto pretensiosos às vezes. “Leia você – eu não consigo”. Quando penso em aplicar meu talento artístico para demonstrar como funciona a psique profunda de um indivíduo prototípico, e como ele interage com o mundo, como no grande romance de Flaubert, Madame Bovary, a simples ideia me deixa cansado, esgotado… ufa! Minha abordagem …

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor...

Ao Coração da Tempestade, Will Eisner

Will Eisner (1917-2005) é um artista ímpar e, apenas para apresentá-lo, para os poucos que não o conhecem, já rende-se algumas linhas: foi criador do Spirit (que virou um filme contestável nas mãos de Frank Miller em 2008), dá nome ao prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, e foi vencedor de alguns destes prêmios ainda em vida. Eisner influenciou quadrinistas de Ziraldo a Alan Moore (ou seja, de A a Z) e foi um dos pioneiros na experimentação de técnicas narrativas nos quadrinhos – principalmente com o Spirit. Ele também foi o criador e divulgador do termo graphic novel, com Um Contrato com Deus, em 1978 e com sua prolífica obra. Uma de suas HQs, talvez a seminal, seja Ao Coração da Tempestade. Uma autobiografia quase escancarada como diz o autor na apresentação: “Numa obra como esta, fatos e ficção se misturam com a memória seletiva, resultando numa realidade bem específica. Fui obrigado a confiar na veracidade da memória visceral”. A capa, produzida em papel sem acabamento, aumenta a sensação de pureza e ligação às …

Era a Guerra de Trincheiras, Jacques Tardi

Se você está procurando uma HQ com toda crueza, violência e inclemência de uma guerra, Era a Guerra de Trincheiras é indicada. Neste álbum Tardi mostra os terrores da Primeira Guerra Mundial (uma guerra que não é tão retratada assim nos quadrinhos como a sua sucessora, principalmente na visão de seus combatentes de solo) pelo ponto de vista – que não poderia deixar de ser cínico – dos franceses. Tardi, em sua introdução, diz que não pretende com o álbum contar histórias reais da guerra, nem explorar a História do combate, mas criar um panorama do sentimento humano de estar em meio a um jogo mundial de vida e morte. Ele faz isso muito bem. Na primeira história somos apresentados a Binet, um soldado que odeia as pessoas, sua pátria e principalmente a guerra. É uma das melhores partes do álbum. Pela visão de Binet: “Não havia diferenciação… todos eram enviados para a morte. A liberdade poderia ser voltar pra casa. Binet pensava em sua casa. (…) A calma… estava entre os mortos. No que …

Eles estavam certos, por Terry Gilliam

“(…) Mas eles estavam certos. Os quadrinhos foram e são corruptores. E assim permanecerão. Os Quadrinhos foram minha rota de fuga. Não que a minha vida fosse chata ou difícil; de fato eu tive uma infância incrível no interior arborizado do Minnesota e então, mais tarde, nos iluminados subúrbios de Los Angeles. Mas esses mundos eram tão prazerosos, tão limitadores, tão seguros, e tão razoáveis. Eles não envolviam os cantos escuros da minha imaginação. Uma parte de mim se sentia aprisionada. Quadrinhos significavam liberdade. Dependendo no que estava disponível na loja da esquina, eu poderia escolher viver esquizofrenicamente numa metrópole grande e vibrante como um vigilante de múltiplas personalidades, vestido bizarramente, lidando brutalmente com grandes criminosos, frustrando seus planos malignos onde quer que pudessem aparecer. Se eu tinha algum tempo livre à tarde, eu poderia ir até Marte, sem problemas. Zapeando de quadro para quadro com aquela capa vermelha balançando nas minhas costas, meus próprios músculos logo entenderiam como seria voar. Cada fibra do meu corpo experimentou essa sensação. Reconhecidamente, eu envelheci, e percebi que …

Asterios Polyp, David Mazzucchelli (Citações)

Seguem algumas citações retiradas de Asterios Polyp, de David Mazzucchelli: “E se a realidade (como a percebemos) fosse uma mera extensão do self? Isso não influenciaria o modo com que cada individuo vivencia o mundo? (Sendo alguém que não existe tenho direito a fazer estas perguntas) Talvez isso explique por que algumas pessoas parecem se relacionar sem esforço algum, enquanto outras não se entendem. Ainda que as pessoas continuem tentando”. – Ignazio “Aristófanes, no banquete de Platão, sugere que a forma humana nem sempre foi como é hoje: originalmente os humanos eram esféricos, tinham quatro braços, quatro pernas e um rosto em cada lado de uma única cabeça. (Em termos evolucionários, é difícil entender a vantagem de tal construção). Tamanha era sua arrogância que ousaram desafiar os próprios deuses. Zeus, em sua sabedoria, dividiu os arrivistas em dois. Cada lado se tornou uma entidade distinta. (Platão deixa claro seu parecer sobre essa teoria fazendo com que Sócrates a descarte sem alarde). Desde então, homens e mulheres corrrem esbaforidos atrás de suas metades perdidas, em pânico, …

Encruzilhada, Marcelo D’Salete

Encruzilhada, Marcelo D’Salete

Vamos começar pela capa: um menino sozinho, sentado no meio fio, enquanto atrás do muro podemos ver a lona de um parque de diversões. Há magia na capa, mas ela está escondida. E há a marginalização. Mas também não é magia que nos prometem as grandes marcas e seus comerciais maravilhosos e cheios de efeitos especiais? E aqueles que não as usam não ficam alheios aos outros, solitários num meio fio? O álbum de D’Salete traz cinco histórias, cada uma enfocando vidas que não seguem o padrão social estabelecido. Ladrões, prostitutas, drogados, camelôs. Todos cercados pelos logotipos de empresas como McDonald’s, Motorola, Nike, Adidas, Nescau, Omo, bem destacados e em primeiro plano. Os diálogos são poucos e ajudam, junto com a arte contrastante e a abundância do preto, a construir o clima de opressão em que os personagens vivem. Há ainda o grafite, talvez resgistrando algo de sujo, mas mostrando que os oprimidos também tem o direito de se expressar. No álbum isso fica registrado mais por atos do que por palavras. Sensações, vontade de …

Estigmas, Lorenzo Mattotti e Claudio Piersanti

Já diz a célebre frase: tudo se transforma. Em Estigmas vemos que uma repentina transformação externa, as chagas nas mãos, é capaz de transformar o interior de uma pessoa. A história, singela, foge do lugar-comum de comparar o “estigmatizado” a um santo. Pelo contrário, ele refuta a imagem e a veneração divina e vaga como alguém marcado, mas como alguém comum apontado com suas tragédias e epifanias pessoais. A arte de Mattotti é pungente, influenciada pelo expressionismo e pós-impressionismo. Como uma conjunção de rabiscos desgovernados que num olhar mais detido tomam forma, assim também é a saga do protagonista deste álbum. O lirismo de certas partes do texto de Piersanti contrasta com a arte marcante, formando uma bela sequência quando o personagem se depara com um livro de orações. Dor e fascinação vão erigindo a transformação numa passagem que me lembrou a que descrevi anteriormente na resenha de A Chegada. Senão, copio aqui uma parte desta passagem de Estigmas: “Não eram as almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos grandes pecadores, eu ardia …

Os Escapistas, Brian K. Vaughan e Vários Artistas

Os Escapistas, Brian K. Vaughan e Vários Artistas

Eu não li As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, mas sabia que o livro de Michael Chabon tratava dos bastidores da gênese de um super-herói, o Escapista, na década de 30, a Era de Ouro dos Quadrinhos de Super-heróis. O mote de Os Escapistas é que anos depois, nos anos 2000, Maxwell Roth adquire os direitos de publicação do Escapista e com eles começa a republicar o super-herói por uma nova visão. Para isso vai contar com a ajuda de Case e Denny, a nova desenhista e o melhor amigo (que encarna o Escapista), já que cabe a Max escrever as histórias. O mérito do roteiro de Vaughan e também das transições entre os desenhos de Phillip Bond e Steve Rolson, e Shawn Alexander e Eduardo Barreto (que faleceu no final do ano passado) é a mescla perfeita entre a história dos criadores independentes e a das novas histórias que estão criando para a nova versão do super-herói. Como diz a contracapa deste encadernado, essa aventura é uma defesa apaixonada dos sonhadores em toda …

Kiki de Montparnasse, Catel e Bocquet

Uma das coisas mais legais de ter lido esta graphic novel foi ficar sabendo dos bastidores da cena artística e cultural parisiense dos anos entre guerras, daqueles movimentos que estudamos na escola como surrealismo e dadaísmo. Não há o que se discutir quando se afirma que Kiki de Montparnasse foi um personagem marcante no que tange a liberdade sexual e emocional. Entretanto, desde que começamos a acompanhar a biografia desse ícone percebemos que por trás do bom-humor e do jogo de cintura havia uma angústia (escondida ou talvez nem tanto). Kiki queria SER alguém, mostrar seu interior, ser querida pelas pessoas pelo que é. Talvez por isso tenha se envolvido com artistas que faziam disso seu ganha-pão como Man Ray, que a eternizou na foto que é reproduzida na capa desta HQ. Kiki é uma personagem ímpar que merece ser conhecida e reconhecida pelo que ela representou e ser querida pelas pessoas mesmo anos depois da sua morte. Os extras da graphic novel são uma atração à parte, com a cronologia da vida de Kiki …

Castelo de Areia, Frederik Peeters e Pierre Oscar Lévy

Castelo de Areia é uma história intrigante para quem gosta de ler ficção científica e fantasia. Tudo começa com uma família encontrando um cadáver na praia e então as noções de tempo e espaço começam a ficar questionáveis. Estariam as pessoas envolvidas em um experimento científico ou elas perderam a noção da realidade? É interessante o contraste das reações dos adultos com as das crianças para o que a trama lhes reserva: seria melhor aceitar naturalmente o que acontece com você ou devemos nos questionar o tempo todo sobre estas coisas? A capa talvez dê uma pista, mas contar um pouco mais da história e das situações em que os personagens vão sendo colocados seria estragar um quadrinho surpreendente e surreal que com certeza merece a sua leitura, o seu questionamento, a indicação a outras pessoas e a discussão de o que realmente acontece com os personagens.

A Chegada, Shaun Tan

Muito antes de um filme mudo ganhar o Oscar deste ano, Shaun Tan nos apresentou sua história em quadrinhos sem palavras sobre um imigrante que deixa sua família em busca de melhores condições de vida. A história é simples, mas o que encanta são todos os conceitos da história, seja em personagens, criaturas, arquitetura, cenários, plantas, animais, tudo parece ter sido reinventado por Tan. Não por acaso ele foi o artista conceitual dos filmes Horton e o Mundo dos Quem e Wall-E.  Na HQ parece que fomos transportados para um mundo surreal onde cada família tem o seu Pokémon de estimação, as pessoas vivem em grandes blocos arquitetônicos com pequenas janelas e precisam se comunicar com os gestos. Chama atenção as histórias dentro da história que cada imigrante vai contando para o protagonista, em belos momentos de contemplação. Para representar a passagem de tempo, o autor mostra o ciclo de vida de uma dessas plantas surreais, mostrando que cada elemento tem uma história própria. Se você busca inspiração ou simplesmente quer ser transportado para um …

A Playboy, Chester Brown

Como diz a orelha desta graphic novel, Chester Brown tem a coragem de expor temas e situações que muita pouca gente tem de tocar, literalmente. A história é curta, mas o autor conta como foi crescendo sua obsessão pela revista Playboy desde que comprou sua primeira, aos quinze anos, depois de uma missa, e vai até a parte em que precisava recorrer à lembrança de suas playgirls favoritas para que conseguisse fazer sexo com mulheres. A apresentação visual da graphic novel é contraditória: quadros grandes, no máximo quatro quadros por página sobre um fundo preto. Enquanto os quadros mostram a vontade de expor escancaradamente o tema controverso, o fundo preto encarna a vergonha que ele mesmo admite ter ao revelar suas experiências. Exatamente a mesma contradição da criação cristã com a libertação sexual. É como muitas HQs autobiográficas, mas esta tem o fundo sexual o que a transforma em uma boa porcentagem mais interessante e instigante. Um tipo de história como essa merecia uma continuação: e ela vem com Paying For It, na qual Chester …

A Guerra de Alan, Emmanuel Guibert

Apesar de ter guerra no nome, o que menos vemos nessa HQ são batalhas. O personagem, que é uma pessoa real, é muito cativante e não só ele, mas aqueles, os lugares e as situações que vive durante a Segunda Guerra Mundial. Mérito de Emmanuel Guibert que roteirizou e desenhou as páginas deste álbum. Os desenhos são de uma técnica muito apurada que parece desenhar ao contrário como mostra este vídeo. Guibert desenha com ÁGUA! E escreve como se as experiências fossem dele mesmo. Além de mostrar que Alan era uma pessoa guiada pelo coração e por isso aproveitou a guerra para fazer amizades, turismo e conhecer um mundo que, não fosse pela guerra, não teria construído uma pessoa tão íntegra e verdadeira. Uma comparação com o filme Soldado Anônimo deixa muito a desejar sobre a jornada de Alan, mas é um começo. Um dos quadrinhos mais interessantes e emocionais que eu li nos últimos tempos. Tão bom que me fez buscar por mais material de Guibert, mas outra hora falarei mais sobre eles.

Cicatrizes, David Small

Cicatrizes também são uma maneira de registrar uma história. Elas nos fascinam e fazem perguntar a nós mesmos por que elas existem, sem perceber a violência, o egoísmo e a crueldade que há nisso. Uma cicatriz pode ser algo charmoso, mas é sempre a lembrança de algo doloroso. É essa dor que sentimos quando lemos o álbum de David Small, uma história que nos corta de dentro pra fora. Encontramos o sentimento de culpa do pai e  loucura da mãe e da avó do protagonista, enquanto as nuances aquareladas do preto no branco criam o clima melancólico de solidão. Durante toda a história do álbum não vemos como o mundo externo reage aos problemas de David, tudo é muito íntimo e intenso como as belas metáforas visuais criadas por ele.