Mês: março 2012

A Chegada, Shaun Tan

Muito antes de um filme mudo ganhar o Oscar deste ano, Shaun Tan nos apresentou sua história em quadrinhos sem palavras sobre um imigrante que deixa sua família em busca de melhores condições de vida. A história é simples, mas o que encanta são todos os conceitos da história, seja em personagens, criaturas, arquitetura, cenários, plantas, animais, tudo parece ter sido reinventado por Tan. Não por acaso ele foi o artista conceitual dos filmes Horton e o Mundo dos Quem e Wall-E.  Na HQ parece que fomos transportados para um mundo surreal onde cada família tem o seu Pokémon de estimação, as pessoas vivem em grandes blocos arquitetônicos com pequenas janelas e precisam se comunicar com os gestos. Chama atenção as histórias dentro da história que cada imigrante vai contando para o protagonista, em belos momentos de contemplação. Para representar a passagem de tempo, o autor mostra o ciclo de vida de uma dessas plantas surreais, mostrando que cada elemento tem uma história própria. Se você busca inspiração ou simplesmente quer ser transportado para um …

A Playboy, Chester Brown

Como diz a orelha desta graphic novel, Chester Brown tem a coragem de expor temas e situações que muita pouca gente tem de tocar, literalmente. A história é curta, mas o autor conta como foi crescendo sua obsessão pela revista Playboy desde que comprou sua primeira, aos quinze anos, depois de uma missa, e vai até a parte em que precisava recorrer à lembrança de suas playgirls favoritas para que conseguisse fazer sexo com mulheres. A apresentação visual da graphic novel é contraditória: quadros grandes, no máximo quatro quadros por página sobre um fundo preto. Enquanto os quadros mostram a vontade de expor escancaradamente o tema controverso, o fundo preto encarna a vergonha que ele mesmo admite ter ao revelar suas experiências. Exatamente a mesma contradição da criação cristã com a libertação sexual. É como muitas HQs autobiográficas, mas esta tem o fundo sexual o que a transforma em uma boa porcentagem mais interessante e instigante. Um tipo de história como essa merecia uma continuação: e ela vem com Paying For It, na qual Chester …

A Guerra de Alan, Emmanuel Guibert

Apesar de ter guerra no nome, o que menos vemos nessa HQ são batalhas. O personagem, que é uma pessoa real, é muito cativante e não só ele, mas aqueles, os lugares e as situações que vive durante a Segunda Guerra Mundial. Mérito de Emmanuel Guibert que roteirizou e desenhou as páginas deste álbum. Os desenhos são de uma técnica muito apurada que parece desenhar ao contrário como mostra este vídeo. Guibert desenha com ÁGUA! E escreve como se as experiências fossem dele mesmo. Além de mostrar que Alan era uma pessoa guiada pelo coração e por isso aproveitou a guerra para fazer amizades, turismo e conhecer um mundo que, não fosse pela guerra, não teria construído uma pessoa tão íntegra e verdadeira. Uma comparação com o filme Soldado Anônimo deixa muito a desejar sobre a jornada de Alan, mas é um começo. Um dos quadrinhos mais interessantes e emocionais que eu li nos últimos tempos. Tão bom que me fez buscar por mais material de Guibert, mas outra hora falarei mais sobre eles.

Cicatrizes, David Small

Cicatrizes também são uma maneira de registrar uma história. Elas nos fascinam e fazem perguntar a nós mesmos por que elas existem, sem perceber a violência, o egoísmo e a crueldade que há nisso. Uma cicatriz pode ser algo charmoso, mas é sempre a lembrança de algo doloroso. É essa dor que sentimos quando lemos o álbum de David Small, uma história que nos corta de dentro pra fora. Encontramos o sentimento de culpa do pai e  loucura da mãe e da avó do protagonista, enquanto as nuances aquareladas do preto no branco criam o clima melancólico de solidão. Durante toda a história do álbum não vemos como o mundo externo reage aos problemas de David, tudo é muito íntimo e intenso como as belas metáforas visuais criadas por ele.

Novos Posts

Olá! Faz tempo que não venho aqui tirar o pó. Pretendo começar a atualizar este blog mais frequentemente, mas, desta vez, com postagens menores, algumas resenhas mais intimistas de HQs, principalmente das que andei lendo do começo do ano passado para cá. Espero que vocês gostem.

Superman/Batman

Identidade Secreta

Através do viés da história que é contada numa história em quadrinhos podemos dizer que os super-heróis assumem identidades secretas para proteger sua família e entes queridos. Como no exemplo da origem do Homem-Aranha que deixa um bandido escapar e depois descobre que o mesmo foi responsável pelo assassinato de seu tio. Peter Parker, o alter-ego do Homem-Aranha jura, então, usar seus poderes com responsabilidade e isso envolve não revelar sua identidade para o mundo. Por outro lado, se analisamos de um ponto de vista externo às histórias concluiremos que as identidade secretas como Peter Parker e Clark Kent existem com o intuito de trazer o leitor para realidade da HQ. Tanto Peter como Clark são dois desajustados na sociedade, eles não se encaixam nos padrões pré-estabelecidos pela mídia e por isso permitem a identificação com o que Umberto Eco chamou de leitor-médio deste tipo de entretenimento. É possível para o leitor se identificar com as histórias de Peter e Clark e ainda aspirar a ser também ele um super-herói, mostrando que por trás de …