Mês: abril 2012

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor...

Ao Coração da Tempestade, Will Eisner

Will Eisner (1917-2005) é um artista ímpar e, apenas para apresentá-lo, para os poucos que não o conhecem, já rende-se algumas linhas: foi criador do Spirit (que virou um filme contestável nas mãos de Frank Miller em 2008), dá nome ao prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, e foi vencedor de alguns destes prêmios ainda em vida. Eisner influenciou quadrinistas de Ziraldo a Alan Moore (ou seja, de A a Z) e foi um dos pioneiros na experimentação de técnicas narrativas nos quadrinhos – principalmente com o Spirit. Ele também foi o criador e divulgador do termo graphic novel, com Um Contrato com Deus, em 1978 e com sua prolífica obra. Uma de suas HQs, talvez a seminal, seja Ao Coração da Tempestade. Uma autobiografia quase escancarada como diz o autor na apresentação: “Numa obra como esta, fatos e ficção se misturam com a memória seletiva, resultando numa realidade bem específica. Fui obrigado a confiar na veracidade da memória visceral”. A capa, produzida em papel sem acabamento, aumenta a sensação de pureza e ligação às …

Era a Guerra de Trincheiras, Jacques Tardi

Se você está procurando uma HQ com toda crueza, violência e inclemência de uma guerra, Era a Guerra de Trincheiras é indicada. Neste álbum Tardi mostra os terrores da Primeira Guerra Mundial (uma guerra que não é tão retratada assim nos quadrinhos como a sua sucessora, principalmente na visão de seus combatentes de solo) pelo ponto de vista – que não poderia deixar de ser cínico – dos franceses. Tardi, em sua introdução, diz que não pretende com o álbum contar histórias reais da guerra, nem explorar a História do combate, mas criar um panorama do sentimento humano de estar em meio a um jogo mundial de vida e morte. Ele faz isso muito bem. Na primeira história somos apresentados a Binet, um soldado que odeia as pessoas, sua pátria e principalmente a guerra. É uma das melhores partes do álbum. Pela visão de Binet: “Não havia diferenciação… todos eram enviados para a morte. A liberdade poderia ser voltar pra casa. Binet pensava em sua casa. (…) A calma… estava entre os mortos. No que …

Eles estavam certos, por Terry Gilliam

“(…) Mas eles estavam certos. Os quadrinhos foram e são corruptores. E assim permanecerão. Os Quadrinhos foram minha rota de fuga. Não que a minha vida fosse chata ou difícil; de fato eu tive uma infância incrível no interior arborizado do Minnesota e então, mais tarde, nos iluminados subúrbios de Los Angeles. Mas esses mundos eram tão prazerosos, tão limitadores, tão seguros, e tão razoáveis. Eles não envolviam os cantos escuros da minha imaginação. Uma parte de mim se sentia aprisionada. Quadrinhos significavam liberdade. Dependendo no que estava disponível na loja da esquina, eu poderia escolher viver esquizofrenicamente numa metrópole grande e vibrante como um vigilante de múltiplas personalidades, vestido bizarramente, lidando brutalmente com grandes criminosos, frustrando seus planos malignos onde quer que pudessem aparecer. Se eu tinha algum tempo livre à tarde, eu poderia ir até Marte, sem problemas. Zapeando de quadro para quadro com aquela capa vermelha balançando nas minhas costas, meus próprios músculos logo entenderiam como seria voar. Cada fibra do meu corpo experimentou essa sensação. Reconhecidamente, eu envelheci, e percebi que …

Asterios Polyp, David Mazzucchelli (Citações)

Seguem algumas citações retiradas de Asterios Polyp, de David Mazzucchelli: “E se a realidade (como a percebemos) fosse uma mera extensão do self? Isso não influenciaria o modo com que cada individuo vivencia o mundo? (Sendo alguém que não existe tenho direito a fazer estas perguntas) Talvez isso explique por que algumas pessoas parecem se relacionar sem esforço algum, enquanto outras não se entendem. Ainda que as pessoas continuem tentando”. – Ignazio “Aristófanes, no banquete de Platão, sugere que a forma humana nem sempre foi como é hoje: originalmente os humanos eram esféricos, tinham quatro braços, quatro pernas e um rosto em cada lado de uma única cabeça. (Em termos evolucionários, é difícil entender a vantagem de tal construção). Tamanha era sua arrogância que ousaram desafiar os próprios deuses. Zeus, em sua sabedoria, dividiu os arrivistas em dois. Cada lado se tornou uma entidade distinta. (Platão deixa claro seu parecer sobre essa teoria fazendo com que Sócrates a descarte sem alarde). Desde então, homens e mulheres corrrem esbaforidos atrás de suas metades perdidas, em pânico, …

Encruzilhada, Marcelo D’Salete

Encruzilhada, Marcelo D’Salete

Vamos começar pela capa: um menino sozinho, sentado no meio fio, enquanto atrás do muro podemos ver a lona de um parque de diversões. Há magia na capa, mas ela está escondida. E há a marginalização. Mas também não é magia que nos prometem as grandes marcas e seus comerciais maravilhosos e cheios de efeitos especiais? E aqueles que não as usam não ficam alheios aos outros, solitários num meio fio? O álbum de D’Salete traz cinco histórias, cada uma enfocando vidas que não seguem o padrão social estabelecido. Ladrões, prostitutas, drogados, camelôs. Todos cercados pelos logotipos de empresas como McDonald’s, Motorola, Nike, Adidas, Nescau, Omo, bem destacados e em primeiro plano. Os diálogos são poucos e ajudam, junto com a arte contrastante e a abundância do preto, a construir o clima de opressão em que os personagens vivem. Há ainda o grafite, talvez resgistrando algo de sujo, mas mostrando que os oprimidos também tem o direito de se expressar. No álbum isso fica registrado mais por atos do que por palavras. Sensações, vontade de …

Estigmas, Lorenzo Mattotti e Claudio Piersanti

Já diz a célebre frase: tudo se transforma. Em Estigmas vemos que uma repentina transformação externa, as chagas nas mãos, é capaz de transformar o interior de uma pessoa. A história, singela, foge do lugar-comum de comparar o “estigmatizado” a um santo. Pelo contrário, ele refuta a imagem e a veneração divina e vaga como alguém marcado, mas como alguém comum apontado com suas tragédias e epifanias pessoais. A arte de Mattotti é pungente, influenciada pelo expressionismo e pós-impressionismo. Como uma conjunção de rabiscos desgovernados que num olhar mais detido tomam forma, assim também é a saga do protagonista deste álbum. O lirismo de certas partes do texto de Piersanti contrasta com a arte marcante, formando uma bela sequência quando o personagem se depara com um livro de orações. Dor e fascinação vão erigindo a transformação numa passagem que me lembrou a que descrevi anteriormente na resenha de A Chegada. Senão, copio aqui uma parte desta passagem de Estigmas: “Não eram as almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos grandes pecadores, eu ardia …

Os Escapistas, Brian K. Vaughan e Vários Artistas

Os Escapistas, Brian K. Vaughan e Vários Artistas

Eu não li As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, mas sabia que o livro de Michael Chabon tratava dos bastidores da gênese de um super-herói, o Escapista, na década de 30, a Era de Ouro dos Quadrinhos de Super-heróis. O mote de Os Escapistas é que anos depois, nos anos 2000, Maxwell Roth adquire os direitos de publicação do Escapista e com eles começa a republicar o super-herói por uma nova visão. Para isso vai contar com a ajuda de Case e Denny, a nova desenhista e o melhor amigo (que encarna o Escapista), já que cabe a Max escrever as histórias. O mérito do roteiro de Vaughan e também das transições entre os desenhos de Phillip Bond e Steve Rolson, e Shawn Alexander e Eduardo Barreto (que faleceu no final do ano passado) é a mescla perfeita entre a história dos criadores independentes e a das novas histórias que estão criando para a nova versão do super-herói. Como diz a contracapa deste encadernado, essa aventura é uma defesa apaixonada dos sonhadores em toda …

Kiki de Montparnasse, Catel e Bocquet

Uma das coisas mais legais de ter lido esta graphic novel foi ficar sabendo dos bastidores da cena artística e cultural parisiense dos anos entre guerras, daqueles movimentos que estudamos na escola como surrealismo e dadaísmo. Não há o que se discutir quando se afirma que Kiki de Montparnasse foi um personagem marcante no que tange a liberdade sexual e emocional. Entretanto, desde que começamos a acompanhar a biografia desse ícone percebemos que por trás do bom-humor e do jogo de cintura havia uma angústia (escondida ou talvez nem tanto). Kiki queria SER alguém, mostrar seu interior, ser querida pelas pessoas pelo que é. Talvez por isso tenha se envolvido com artistas que faziam disso seu ganha-pão como Man Ray, que a eternizou na foto que é reproduzida na capa desta HQ. Kiki é uma personagem ímpar que merece ser conhecida e reconhecida pelo que ela representou e ser querida pelas pessoas mesmo anos depois da sua morte. Os extras da graphic novel são uma atração à parte, com a cronologia da vida de Kiki …

Castelo de Areia, Frederik Peeters e Pierre Oscar Lévy

Castelo de Areia é uma história intrigante para quem gosta de ler ficção científica e fantasia. Tudo começa com uma família encontrando um cadáver na praia e então as noções de tempo e espaço começam a ficar questionáveis. Estariam as pessoas envolvidas em um experimento científico ou elas perderam a noção da realidade? É interessante o contraste das reações dos adultos com as das crianças para o que a trama lhes reserva: seria melhor aceitar naturalmente o que acontece com você ou devemos nos questionar o tempo todo sobre estas coisas? A capa talvez dê uma pista, mas contar um pouco mais da história e das situações em que os personagens vão sendo colocados seria estragar um quadrinho surpreendente e surreal que com certeza merece a sua leitura, o seu questionamento, a indicação a outras pessoas e a discussão de o que realmente acontece com os personagens.