Citações, quadrinhos
Deixe um comentário

Eles estavam certos, por Terry Gilliam

“(…) Mas eles estavam certos. Os quadrinhos foram e são corruptores. E assim permanecerão.

Os Quadrinhos foram minha rota de fuga. Não que a minha vida fosse chata ou difícil; de fato eu tive uma infância incrível no interior arborizado do Minnesota e então, mais tarde, nos iluminados subúrbios de Los Angeles. Mas esses mundos eram tão prazerosos, tão limitadores, tão seguros, e tão razoáveis. Eles não envolviam os cantos escuros da minha imaginação. Uma parte de mim se sentia aprisionada.

Quadrinhos significavam liberdade. Dependendo no que estava disponível na loja da esquina, eu poderia escolher viver esquizofrenicamente numa metrópole grande e vibrante como um vigilante de múltiplas personalidades, vestido bizarramente, lidando brutalmente com grandes criminosos, frustrando seus planos malignos onde quer que pudessem aparecer. Se eu tinha algum tempo livre à tarde, eu poderia ir até Marte, sem problemas. Zapeando de quadro para quadro com aquela capa vermelha balançando nas minhas costas, meus próprios músculos logo entenderiam como seria voar. Cada fibra do meu corpo experimentou essa sensação. Reconhecidamente, eu envelheci, e percebi que eu só poderia voar uns três pés do chão, mais ou menos. Mas aquilo foi parte do meu crescimento. Na verdade, para ser completamente honesto, eu não tinha certeza até que eu tivesse trinta anos e então pudesse provar a mim mesmo, de uma vez por todas, de que eu era, de fato, incapaz de voar – nem mesmo meros três pés do chão. Não podemos ser jovens para sempre.

Muito antes dos anos 60, na vanguarda do ácido e de outros alucinógenos, existia O Pequeno Nemo para inalar. Eu aprendi a entender a infinita mutabilidade do “mundo real” enquanto tentava lidar com a arquitetura mutante de Windsor McCay. Quando eu estava velho o suficiente para inalar propriamente, a jornada noturna de Nemo havia provado que o Budismo e as drogas eram desnecessários. Os quadrinhos não apenas me pouparam um monte de tempo e dinheiro, eles também me providenciaram uma maneira de evitar o trabalho real e continuar levando a vida. Tudo o que eu precisava era de um pedaço de papel e uma caneta. (…)”.

Terry Gilliam, no prefácio de 1001 Comics You Must Read Before You Die, editado por Paul Gravett.

Anúncios
Este post foi publicado em: Citações, quadrinhos

por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s