quadrinhos, Resenhas
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Ao Coração da Tempestade, Will Eisner

Ao Coração da Tempestade, Will Eisner

Ao Coração da Tempestade, Will Eisner

Will Eisner (1917-2005) é um artista ímpar e, apenas para apresentá-lo, para os poucos que não o conhecem, já rende-se algumas linhas: foi criador do Spirit (que virou um filme contestável nas mãos de Frank Miller em 2008), dá nome ao prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, e foi vencedor de alguns destes prêmios ainda em vida. Eisner influenciou quadrinistas de Ziraldo a Alan Moore (ou seja, de A a Z) e foi um dos pioneiros na experimentação de técnicas narrativas nos quadrinhos – principalmente com o Spirit.

Ele também foi o criador e divulgador do termo graphic novel, com Um Contrato com Deus, em 1978 e com sua prolífica obra. Uma de suas HQs, talvez a seminal, seja Ao Coração da Tempestade. Uma autobiografia quase escancarada como diz o autor na apresentação: “Numa obra como esta, fatos e ficção se misturam com a memória seletiva, resultando numa realidade bem específica. Fui obrigado a confiar na veracidade da memória visceral”. A capa, produzida em papel sem acabamento, aumenta a sensação de pureza e ligação às raízes, que a história nos passa, a ilustração colorida mostra soldados rumo ao coração da tempestade – a Segunda Guerra Mundial. Mas, mais uma vez, ao invés de nos expor aos terrores da guerra, Eisner costura todo um background familiar para explicar seus motivos para ingressar na luta: o preconceito contra os judeus, que é o principal tema da graphic novel.

Em flashbacks ao olhar pela janela do trem, o autor nos leva aos anos 1880, com a história do avô materno que ao morrer causa uma gradual degradação no que restou da família, segundo relato da mãe de Eisner. Em seguida passamos pela década de 10, em Viena onde o pai do autor vai tentar a sorte como assistente do pintor Schiller e poucos anos depois se vê no limiar da Primeira Guerra Mundial. O jeito mais seguro de fugir dela é migrar para os Estados Unidos. Lá ele constitui família, casando – mais uma vez para evitar a guerra – e com ele o jovem Willie aprende que, mesmo quando for vítima de preconceito, não há necessidade de brigar, se você usar a inteligência. Esse preconceito vai inundando a vida de Willie, que passa a negar sua origem para frequentar clubes e conquistar amizades de descendentes de alemães, enquanto o partido nacional-socialista de Hitler ascende na Europa. Mestre nas técnicas narrativas, Eisner usa o jornal como ferramenta para descrever o curso da história em suas manchetes e também para demonstrar a passagem do tempo. Não por acaso, o jornal esteve sempre presente na vida de Willie, seja na profissão de jornalista de um tio, seja no emprego como entregador de jornal na infância e adolescência, ou com as páginas dominicais do Spirit que viria a produzir antes e depois da guerra. Há momentos singulares como o sistema usado pela precária escola de artes que o pai do autor quer inscrevê-lo.  Mas só podemos “compreendê-lo” vendo a ilustração.

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor...

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor…

A Grande Depressão também marca a história de Willie, vendo o pai mudar de emprego constantemente, ou abrindo um negócio novo, que nunca dá certo, vivendo da ajuda da família e mudando de vizinhança de tempos em tempos. O preconceito com os judeus não é encontrado apenas nos alemães, mas entre os próprio judeus que nutrem sentimentos negativos pelos originários da Europa Oriental. Ao reencontrar o amigo Buck, filho de alemães, e relembrar os bons tempos, fica claro que por trás da amizade haviam guardados sentimentos antissemitas. Mais tarde, Everett “Busy” Arnold, da Quality Comics (editora do Spirit e também do Homem-Borracha, de Jack Cole, entre outros), é contestado por seus sócios, ao propor uma participação de Eisner nos negócios: ele era judeu. Por isso, era melhor que o demitissem logo, apesar do sucesso que fazia no ramo dos quadrinhos. No entanto, Willie acaba chamado à luta e nos deixa com a reflexão de Mamid, outro recrutado: “Por que vocês, judeus, pensam que o preconceito é o seu gueto particular, hein?? Sou um cristão convertido!… desde que cheguei aqui, vindo da Turquia… tentei me integrar… tentei fugir do preconceito contra os turcos, sabe! No início senti vergonha de me curvar ao preconceito… Depois senti raiva dos meus pais e neguei minha origem – até o otimismo e as lembranças do passado me transformarem na pessoa que eu acredito ser! Então… no fim o que eu tenho é uma memória seletiva e a tirania da eterna esperança, incrível, não acha??”. Eles partem para a guerra e mal sabiam o que a História preparava para os judeus.

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