Citações, quadrinhos
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Um outro ponto de vista, por Robert Crumb

“Quadrinhos dão sua versão bem particular da realidade. Há muitas abordagens diferentes para eles, mas não é o mesmo que literatura. Quadrinhos são diferentes, e quando um cartunista tenta “elevar” o gênero, por assim dizer, corre o risco de se tornar pretensioso. Quadrinhos sempre exploraram a sensação e o choque, desde as edições baratas sobre o martírio dos santos ou cenas de batalha no século XVI. As imagens têm que ser fortes. Dá pra ser bem pessoal nos quadrinhos, mas imbuir sutileza literária séria neles me parece absurdo. Há algo de tosco e proletário nos quadrinhos. Se você afastar demais disso, bem, pode parecer bobo.

Não consigo ler boa parte dos quadrinhos sérios e profundos que são feitos hoje. Me parecem um tanto pretensiosos às vezes. “Leia você – eu não consigo”. Quando penso em aplicar meu talento artístico para demonstrar como funciona a psique profunda de um indivíduo prototípico, e como ele interage com o mundo, como no grande romance de Flaubert, Madame Bovary, a simples ideia me deixa cansado, esgotado… ufa!

Minha abordagem dos quadrinhos sempre foi meio espontânea. Em geral, só planejei alguns quadrinhos adiante – não gosto de planejar demais. Senão, o trabalho que o desenho exige fica chato e maçante. Simplesmente não consigo. Não é a minha… talvez eu seja preguiçoso… azar… vou bolando a  história enquanto desenho. Uso os velhos estereótipos dos quadrinhos para me revelar a mim mesmo. Sou tanto o Mr. Natural como o Flakey Foont. Também sou o Mr. Snoid… todos aqueles personagens Snoid. Isso é mais fácil para mim do que elaborar uma construção literária. Eu não conseguiria!”.

Robert Crumb, em Minha Vida, pág 125.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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