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Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

Destino: Crônica de Mortes Anunciadas, de Kwitney, Williams, Zulli, Hampton e Guay

O ano era 1999, descontente com a foto da fachada do colégio que ilustrava minha agenda do primeiro ano do segundo grau e querendo conferir a mim mesmo um certo ar místico, recortei o anúncio de uma minissérie que se chamava Destiny de uma revista Wizard comprada numa das idas a Florianópolis (minha primeira revista importada comprada por mim mesmo). Pronto: uma nova capa. Havia simplesmente gostado da ilustração, desconhecia por completo o universo de Sandman e seus irmãos, os perpétuos, entre os quais estava Destino.

Já o subtítulo, Chronicle of Deaths Foretold, era um tanto atraente, levando em conta que devia ter sido inspirado em Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Marquez e por acaso na época eu lia Cem Anos de Solidão. A imagem rendeu até a minha primeira tentativa de fazer um conto, na sua estrutura subtextual, falando sobre aquilo que estávamos destinados a ser ou se éramos livres para escolher. Coisas de cabeça adolescente. Treze anos depois – um número mais do que místico – era relançada a minissérie, agora em capa dura e edição de luxo com a imagem que me cativou na adolescência. Dessa vez eu já sabia que Destino era o irmão mais velho dos Perpétuos, que era cego e sua incumbência era ler – e estar acorrentado – ao livro que conta a jornada da humanidade na Terra.

Mas a história desta HQ não tem Destino como protagonista e sim, o seu filho, o suposto cavaleiro da Peste, dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Há outras duas protagonistas, Ruth, cujas passagens no ano de 2009 são retratadas por Kent Williams (ilustrador da graphic novel A Fonte, de Darren  Aronofsky) e a própria peste negra cuja epidemia se espalha em quatro períodos de tempo diferentes. Cabe a Zulli ilustrar a origem do cavaleiro durante o império de Justiniano, Hampton ilustra os dias de reinado de Eduardo III e Guay, os puritanos do final do século XIX. Tempos da peste, tempos em que o seu cavaleiro esteve rondando estas paragens. A edição é muito caprichada: a capa tenta emular o Livro do Destino com suas correntes e molduras.

O texto de Kwitney é saboroso e infeccioso, se espalha através de notas do Livros de Destino, notas do diário de Ruth, anotações do clérigo que interpretou as passagens do Livro do Perpétuo e diálogos bem construídos. Se a um primeiro instante o texto mais denso e multifacetado pode parecer um empecilho, logo digo que essa impressão é desfeita porque a história é muito bem construída. Apenas a apresentação escrita pela autora não ajuda muito, entrega um ponto de vista entremeado na obra. Com ilustrações primorosas e narrativa envolvente, tratando de temas caros ao universo adulto como doenças, morte, sexo e as  complicadas relações humanas do ponto de vista de uma figura bíblica, Destino: Crônicas de Mortes Anunciadas, capta a essência do que a Vertigo foi em seu início. E eu? Bem, meu destino era ler essa história, mas juro que foi por livre-arbítrio.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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