Ler Um Quadrinho Está Cada Vez Mais Rápido

Já faz tempo que queria escrever um post do tipo, desde que analisamos as narrativas de várias histórias de diversos períodos dos quadrinhos no Curso de Quadrinhos da PUCRS. A conclusão a que chegamos é de que, com o passar dos anos, as histórias em quadrinhos tem a tendência de comunicar com uma quantidade cada vez menor de palavras e voltarem-se para a contemplação. Para retratar isso, vamos dar uma passada rápida pela história das histórias em quadrinhos.

Começando pelas histórias ilustradas de Christophe e a Família Fenouillard e de Angelo Agostini, que já tinham a composição de vários quadros por página, mas ainda não eram representados balões. O texto, geralmente, vinha abaixo da imagem, ajudando a contar a história, como se os quadrinhos fossem um filme mudo. Com o seu Menino Amarelo, Richard F. Outcault popularizou o uso dos balões nos comics, e tudo mudou.

Famille Fenouillard, de Christophe
Famille Fenouillard, de Christophe

As histórias de super-heróis da Era de Ouro (como podem ser conferidos em Batman e Superman Crônicas), tinham longos recordatórios de textos e longos diálogos. No Guia Oficial da DC Comics para Roteiros, Dennis O’Neil diz que o ideal é que um balão de diálogo não ultrapasse 36 palavras, mas isso, claro, nos dias atuais.

Já na Era Marvel era comum ver o texto dos recordatórios, balões de diálogo e pensamento repetir o que estava mostrado pelos desenhos. Isso acontecia por causa do Método Marvel de construir uma história. Consistia em o escritor (geralmente Stan Lee) criar um plot (argumento) para a história dando ao desenhista um apanhado geral do que deveria acontecer na história. Era o artista quem deveria esmiuçar a história contando ela quadro a quadro. O escritor viria fazer o arremate da história, escrevendo, sobre os desenhos, os recordatórios e os diálogos. Era imprescindível que todo quadro tivesse texto (talvez para prender o fôlego do leitor). Isso você pode conferir nas várias Bibliotecas Históricas Marvel publicadas pela Panini Books. Ao longo dos tempos isso foi mudando, não sei dizer exatamente em que ponto da história dos quadrinhos, o Método Marvel foi flexibilizado. A Marvel até hoje, raros casos, permite a divulgação de seus roteiros.

O Método Marvel, balões de pensamento. Amazing Spider-Man, de Stan Lee e Steve Ditko
O Método Marvel, balões de pensamento. Amazing Spider-Man, de Stan Lee e Steve Ditko

O curioso de analisar a narrativa de uma história da Era de Ouro ou do início dos anos 60, era perceber como tudo acontecia muito rápido, e geralmente elas eram histórias curtas. Para se ter uma noção, as histórias publicadas em Tales to Astonish e Tales of Suspense, por exemplo, equivaliam à metade das 22 páginas publicadas hoje. Bem, talvez tudo não acontecesse tão rápido assim, talvez os acontecimentos fossem mais condensados, porque se você pegar uma história daquela época e uma de hoje, você vai acabar de ler a história de hoje (com o mesmo número de páginas) muito antes.

A Marvel foi pioneira no “Continua na próxima edição…” e das histórias interligadas, mas isso se tornou um fenômeno, já na década de 80, por causa de Chris Claremont e Marv Wolfman, respectivamente em X-Men e Novos Titãs. Os roteiristas, apoiados pelos desenhistas John Byrne e George Pérez,  estruturavam vários arcos de histórias, com acontecimentos que aconteciam na edição 8 e só iriam se desdobrar na edição 26, causando um enorme sucesso de fidelização de leitores, que acompanhavam sua revistinha como se fosse um seriado ou uma novela que não acabava nunca.

NARmiller
As Captions de Frank Miller em Sin City

Ainda nos anos 80, Frank Miller e sua experimentação narrativa fez com que os diálogos em off se tornassem uma nova espécie de recordatório e também servissem como um substituto para o balão de pensamento, que tanto trazia redundância às histórias do Método Marvel. Já pelo final dos anos 80, a fim de valorizar ainda mais a arte e como muitos desenhistas haviam se tornado roteiristas, houve um uso exagerado das splash pages, a ponto de revistas inteiras se aproveitarem deste recurso, como no evento A Morte do Superman.

Toda essa evolução ajudou para a redução do texto nas histórias em quadrinhos. Hoje as histórias são mais rápidas em termos de leitura, porém mais contemplativas, dando espaço para o quadro sem nenhum diálogo e nenhum recordatório.

Uma boa comparação é observarmos a origem do Homem-Aranha escrita por Stan Lee e Steve Ditko em Amazing Fantasy #15 e depois lermos o arco de história de origem do Homem-Aranha Ultimate, por Brian M. Bendis e Mark Bagley em Marvel Millennium Homem-Aranha – Poder & Responsabilidade. As duas contam a mesma história, mas o que está condensado em textos e quadros condensados da história dos anos 60, está distribuído em diálogos e “momentos mudos” na versão século XXI.

Hoje temos arcos inteiros onde os personagens trocam poucos diálogos, como em Vikings (Northlanders), de Brian Wood e Ryan Kelly, o que não indica que a qualidade da história é ruim ou que não entretenha o leitor. Faz parte da evolução da narrativa. Hoje também vemos muito mais histórias autocontidas do que se via há um certo tempo. Histórias como Demo, de Wood e Becky Cloonan e O Bravo e o Audaz, de J. M. Straczinky, para citar as mais populares. Brian Wood fez um trabalho exemplar mostrando aspectos da guerra de ZDM através da óptica de alguns dos moradores da zona desmilitarizada. Essas são histórias independentes. Como eu já disse, saber contar uma boa história autocontida é um ótimo sinal para saber escrever histórias mais longas. Lembra de O Som de Suas Asas e de Ramadã, de Sandman? Então você sabe o que eu digo.

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A edição “nuff said” da edição dos Novos X-Men de Grant Morrison

O futuro guarda para nós histórias sem diálogos, apenas com imagens? Muitas histórias conseguem realizar esse trabalho perfeitamente dessa forma. Um exemplo bem fácil? As HQs que compunham o mês ‘Nuff Said, o Mês Silencioso da Marvel, lá pelo início dos anos 2000. Mas os diálogos também são importantes porque eles revelam os personagens, o importante é saber dosar e encontrar a medida certa que agrade a você.

O negócio é que com toda essa evolução na narrativa, os leitores acabam se tornando mais impacientes para histórias “lentas”, tanto  no sentido da quantidade de texto, quanto no desenvolvimento da trama. Não é tão difícil encontrar um arco de histórias que serviu só “para encher linguiça”, que foi do nada para lugar nenhum, ou que seria melhor aproveitado como uma história de menor duração. Esse é um dos problemas da narrativa moderna das HQs, se alongar em diálogos curtos e contemplação. Não por acaso são comuns hoje em dia as graphic novels tijolão, em que o autor se permite estender-se em poucos quadros por páginas e textos distribuídos por página. Mas isso só é ruim quando o argumentista é obrigado a manter um determinado número de edições para completar um encadernado, prática cada vez mais comum nas editoras americanas. Por outro lado, esse sistema de composição de enredos mais espraiados tanto em texto como em arte, tem gerado trabalhos sensacionais como Retalhos, Umbigo Sem Fundo e Lucille, que sabem utilizar do ritmo da maneira correta.

Autores como Bendis, Mark Millar e Geoff Johns contam suas histórias de maneira que as lemos mais rápido. Digamos, por exemplo, que você leve 20 minutos para ler uma história standard de 22 páginas. Com esses autores você leva 15 minutos. Claro, isso depende de cada um. Na vez que eu me dei o trabalho de marcar quanto tempo eu levava para ler uma história, contei 20 minutos, o que dá um pouco mais de um minuto por página em média. Roteiristas como Christos Gage, que tem diálogos mais densos, costumam alongar esse tempo de leitura. Um dia ainda vou me dar ao trabalho de fazer um gráfico (!), se eu resolver fazer uma tese, mas não é o caso por enquanto. Pra encerrar essa questão de tempo, Jeph Loeb disse que enquanto as histórias dos outros autores levavam o tempo de você dar uma cagada, as dele, duravam o tempo de dar uma mijada.

NARflash
Weee! Fui ali ler um gibi e já voltei!

O importante, mas o importante mesmo é aproveitar seu tempo de leitura e retirar algo saudável dele, algo novo, algo que te transporte para um outro mundo, algo que você possa usar na sua vida ou no seu trabalho. Seja respeitando o tempo que os grandes mestres das HQs levaram para que você apreciasse seu trabalho, seja no novo ritmo de um mundo cada vez mais ansioso e acelerado. Afinal, o tempo que essas HQs levaram para serem feitas, no passado ou nas próximas semanas, são muito maiores que os 20 minutos em que você vai apreciá-las, então saiba valorizá-las.

 

 

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