Ano: 2013

Os melhores Quadrinhos de Super-Heróis que Li em 2013

ANTES DE WATCHMEN: DR. MANHATTAN, J. MICHAEL STRACZYNSKI E ADAM HUGHES A série Antes de Watchmen teve seus altos e baixos. Os altos, até agora – falta sair a minissérie dos Minutemen – , foram os volumes do Dr. Manhattan e da Espectral, ambos resenhados neste blog. Os piores, do Roscharch e do Ozymandias. O que faz das minisséries do Dr. Manhattan e da Espectral tão boas é a ousadia. Através da iniciativa de ir um pouco além da história apresentada por Alan Moore e Dave Gibbons, os autores destes contos do passado, mostram porque – além dos milhares de dólares envolvidos – era possível fazer novas histórias no universo de Watchmen. Por outro lado, histórias como as de Roscharch, que mostra um caso do anti-herói e de Ozymandias, um vergonhoso conto que só faz um apanhado preguiçoso da história do “salvador do mundo” em ordem cronológica, dizem para o leitor que em certos cânones não se deve mexer. Apesar das grandes polêmicas que estes retcons provocaram no mundo dos quadrinhos, como a óbvia e …

Os Melhores Quadrinhos Brasileiros Que Li em 2013

ESTÓRIAS GERAIS, WELLINGTON SRBEK E FLÁVIO COLIN Esperava que essa fosse mais uma daquelas histórias em quadrinhos brasileiras que glorificam o país, mas acabei me deparando com uma história rica. A riqueza de Estórias Gerais fica por conta de seu traço cultural sem cair no exagero ou no ufanismo.  São “estórias” – assim grafada da maneira antiga que diferenciava a narrativa dos acontecimentos humanos – , porque elas têm aquele gostinho de cousas antigas, de causos que nossos avós contavam. Ela permite um paralelo com as novelas fantástico-maravilhosas da Globo, como Saramandaia e Roque Santeiro e tantas outras que seguem nessa tradição de Dias Gomes, mas cuja fonte mesmo é a inovadora literatura moderna de Guimarães Rosa. Estórias Gerais traz vários causos de um interior do Brasil situado numa fronteira entre o nordeste e o sudeste rural,ou  talvez no centro-oeste do país, que se entrelaçam formando um painel único dessa tradição. ENTREQUADROS – CIRANDA DA SOLIDÃO, MÁRIO CÉSAR Esta foi uma das HQs que eu incentivei a produção através do site Catarse, e acabei fazendo …

As Melhores Leituras de 2013

Neste ano, até o Natal, foram 277 leituras. Neste gráfico estão distribuídos os tipos de leitura, não estão contabilizadas as revistas mensais, minisséries e especiais, mas dá pra ter uma ideia. Esse ano, como foram muitas leituras, selecionarei os melhores do ano por categoria, a serem publicados toda terça e quinta-feira a parti da semana que vem. Como esse foi um ano em que aprendi que expectativa não é tudo, vou fazer minirresenhas diferentes, com as respostas às perguntas “O que eu esperava?” e “O que eu achei no final das contas?”, também pra dar uma dinâmica diferente para as resenhinhas. Também vou colocar links aqui para as resenhas feitas ao longo do ano e que tratam destas leituras. Conforme eu for colocando os posts, vou adicionando os links aqui embaixo, para facilitar: Melhores Graphic Novels Americanas Melhores Quadrinhos da Vertigo Melhores HQs de Super-Heróis Melhores Mangás Melhores Graphic Novels Estrangeiras Melhores Quadrinhos Brasileiros Melhores Romances Obrigado por terem acompanhado o blog este ano!

Os super-heróis na ficção popular, por Neil Gaiman

“Na minha opinião há duas maneiras principais de utilizar os super-heróis na ficção popular. Na primeira, o significado deles é pura e simplesmente o que se vê na superfície. Na segunda eles são o que significam na superfície: verdade. E não só isso. Por um lado, significam a cultura pop e por outro, esperanças e sonhos. Ou melhor, a interação das esperanças e sonhos, uma perda da inocência. A linhagem dos super-heróis é bem antiga. Começa, obviamente, na década de 1930. Então, volta aos primórdios das tiras de jornais e também à literatura, assimilando Sherlock Holmes, Beowulf e vários deuses e heróis pelo caminho. Superfolks, o livro de Robert Mayer, usa os super-heróis como uma metáfora para tudo aquilo que os Estados Unidos se tornaram nos anos 70: a perda do sonho americano significava a perda dos sonhos americanos, e vice-versa. Joseph Torchia pegou a iconografia do Superman e escreveu The Kryptonite Kid, um poderoso e belo romance epistolar sobre um garoto que acredita, literalmente no herói e que, num livro construído como uma série …

Os Zeróis de Ziraldo, por Maria Gessy

“O ridículo existente por trás do mito americano da força, do podere da invencibilidade, evidenciado pela bem-humorada síntese visual do artista, permanece como uma leitura possível no momento presente, além, é claro, de demonstrar que a História e seu ator, o ser humano, se repetem indefinidamente. Mudam apenas os intérpretes e os cenários”. “”Sou filho dos comics americanos’ costuma dizer o artista, com razão. Sua estética original e inovadora segue os caminhos abertos pelos mestres da HQ, com o uso de cores primárias e da retícula, além do sentido narrativo presente em seus trabalhos, mesmo nos cartuns e nas charges”. Maria Gessy de Sales, em Os Zeróis de Ziraldo, São Paulo, Editora Globo, 2012.

A Grade Hierárquica, por Ivan Brunetti

“Podemos comparar o ato de desenhar uma história em quadrinhos ao de criar uma realidade em miniatura numa página, ou, como disse Chris Ware, ‘sonhar no papel’. O sonho, por exemplo, é autobiografia ou ficção? Por um lado, os sonhos são saltos da imaginação, sinais da plasticidade das informações armazenadas no cérebro, as quais se recombinam de formas às vezes fantásticas, às vezes assustadoras, formas eu jamais poderiam ser imaginadas no estado de vigília – formas de ficção, portanto. Ao mesmo tempo, essa ficção específica só pode ter sido produzida por determinado cérebro, pelos estímulos que ele processou e armazenou. Num sonho seu, todas as personagens são essencialmente… você. Ou uma extensão devocê, seu autor inconsciente. No fim, autobiografia e ficção não constituem uma dicotomia, mas uma polaridade, um perpétuo cabo de guerra que não pode jamais ser definido e medido com precisão. A página de quadrinhos reflete o modo pelo qual o autor se lembra da sua própria existência da realidade, do fluxo de tempo, da importância das pessoas, lugares e coisas. Nas HQs, …

Séries de TV x Séries de Quadrinhos

O que as séries de TV e de quadrinhos têm em comum? E o que as torna diferentes? Por que uma série de TV é capaz de fidelizar mais a audiência? É o que pretendo tratar aqui. Não pretendo discutir aspectos estrutura e de criação. O primeiro deles é a quantidade de roteiristas envolvidos em uma série de quadrinhos e em uma série de TV. As de quadrinhos geralmente contam com um roteirista, que é coordenado por um editor. As de TV são escritas por um time de roteiristas escalados conforme a necessidade e coordenados por um roteirista-chefe. Sendo assim, as passagens de um episódio para outro, nas séries de TV é atenuada com essa mistura de artífices. Enquanto os quadrinhos são divididos em “runs” ou em “arcos de histórias”, as séries de TV são divididas em temporadas. E é através do artifício das temporadas que as séries de TV angariam mais público para suas exibições e geram “buzz” para fidelizar seus espectadores. Tanto os quadrinhos quanto as séries de TV dependem dos ganchos, ou …

Thor 2 – O Mundo Sombrio, de Alan Taylor

Não fui com muitas esperanças de encontrar em Thor 2 – O Mundo Sombrio um grande filme de super-heróis. Tive que dar o braço a torcer e perceber que, diferente do primeiro filme, Thor 2 é um dos melhores filmes do Marvel Studios até agora.   DEIXEM O THOR DE LADO Ok, o primeiro filme já passou, então não precisa mais contar a origem do Thor (Chris Hemsworth), quem ele é, o que ele quer, porque ele não é feliz e blá, blá, blá. O fato é que sem a persona de Donald Blake, ou uma das suas múltiplas outras (Erick Masterson, Sigurd Olson, Jake Olsen), temos que dizer que o Thor fica meio sem graça (seria pior se ele falasse com o inglês arcaico). Aquela “voz de trovão”, impostada, querendo ser Batman já é o bastante. Então, os roteiristas – entre eles Chistopher Yost, de X-Men – Evolution, Robin Vermelho e X-Force –, numa sábia decisão, resolveram deixar um pouco Thor de lado e se concentrar em dois fronts: Midgard (a Terra) e Asgard …

O camundongo e o mestre dos magos. Três dedos: um escândalo animado, de Rich Koslowski

O que aconteceria se os desenhos animados vivessem lado a lado com pessoas reais? Você poderia dizer que isso já foi feito em Uma cilada para Roger Rabbit e em vários filmes da Disney bem antigos como Alô, Amigos e Mary Poppins. Pois é, mas é bem deste Walt Disney que trata Três Dedos e, também, de sua maior criação, Mickey Mouse. Porém, nesta HQ, o criador é Dizzy Walters e a criatura é Rickey Rat. A graphic novel, listada como uma das 500 essenciais pela Harper Collins,  começa com depoimentos de várias pessoas e de toons, relatando a vida de Dizzy e Rickey e o envolvimento dos dois. Cada um desses depoimentos tem lugar em uma página do livro e se repetem, conforme necessário. Paralelo a isso, temos uma linguagem documental, em letras de máquina, acompanhada de “fotos” que retratam a história do cinema e dos Estados Unidos. Dessa forma é contada a biografia dos dois, com muito mais to tell e pouquíssimo to show, conferindo a Três Dedos a exceção que confirma a …

Pinturas Inquietas. Moving Pictures, de Kathryn & Stuart Immonen

Moving Pictures, na minha humilde opinião, é uma das graphic novels que melhor trabalha o personagem multifacetado, com uma evolução semelhante à de um romance, mostrando, através de pequenas nuances, suas contradições e seu comprometimento com seus valores. Os personagens em questão são a curadora Ila Gardner e o oficial nazista Rolf Hauptmann, cada um empenhado com os esforços de seus países, respectivamente, a França e a Alemanha, em recuperar, catalogar e armazenar as obras de arte perdidas na França durante a Segunda Guerra Mundial. Em primeiro lugar é preciso dizer, que esta, assim como outras HQs, é uma obra dedicada ao amor à arte. Ela mostra como o amor pela arte pode ser maior que o amor por si mesmo. Mostra que mesmo entre as penúrias da Segunda Guerra, enquanto passam fome, as mesmas pessoas se esforçam para manter a arte viva, e preservar ícones da civilização ocidental para as futuras gerações. Enquanto composição, a história vem e vai no tempo, entremeada de passagem que poderiam ser elipses de um filme, ou de uma …

A Fé (Não) Costuma Falhar: A Matter of Life, de Jeffrey Brown

A Matter of Life, é outra graphic novel autobiográfica. Não poderia deixar de ser, dado o título. A diferença é que esta trata de dois temas que têm e não têm a ver um com o outro: a paternidade e a fé. Já se falou muito sobre assuntos de paternidade nos quadrinhos, desde o Batman até o Invencível, de Maus a Fun Home, no recente One Soul, de Ray Fawkes e nas tirinhas brasileiras de A Vida com Logan, de Flávio Soares. A HQ de Jeffrey Brown – autor dos megassucessos Darth Vader and Son e Vader Little Princess – traz um pouco de todas as anteriores, mas, com o diferencial de abordar a religião que vêm dos nossos pais e que somos encarregados de repassar para nossos filhos. Ela não discute qual religião vale mais, nem tenta criar uma tese sobre a cristandade. A Matter of Life cria um mosaico de momentos que envolvem temas cristãos atuais e o esforço para ser um bom pai. Tudo começa quando Jeff, filho de um dos ministros …

Um Road Comic pela Magia. Os Livros da Magia, de Neil Gaiman, Scott Hampton, Charles Vess, John Bolton e Paul Johnson

O que têm em comum os três maiores escritores britânicos de super-heróis? Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison: todos eles acreditam em magia. E as praticam. A magia é um tema muito comum em suas histórias em quadrinhos e eles dizem praticá-la não apenas em performances místicas, mas nas suas próprias histórias. Magia, segundo dizem suas histórias, é transformação. Mas não é tirar um coelho da cartola ou serrar uma mulher ao meio, embora compreenda isso também. Segundo os autores, magia é acreditar em você, é ser um veículo transformador para agir no mundo. É o pensamento positivo – (mode ironic on) ou você não leu O Segredo? (mode ironic off). Engraçado como a minissérie, agora graphic novel, Os Livros da Magia percorre todos os aspectos da magia sem dar uma definição precisa do que ela é. A trama é básica: Tim Hunter, um garoto destinado a se tornar o maior mago de nosso tempo é levado a conhecer a magia por quatro desconhecidos: o Vingador Fantasma, John Constantine, o Dr. Oculto e Mister …

O Planetary dos Vingadores. Vingadores: Guerra Sem Fim, de Warren Ellis, Mike McKone e Jason Keith

Vingadores: Guerra Sem fim é primeira Marvel Original Graphic Novel a sair simultaneamente em todo o mundo (com a ressalva de que no Brasil saiu um mês depois, sendo que na Argentina chegou no dia correto – eu estava lá). Escrita por Warren Ellis e desenhada por Mike McKone, a publicação aproveita o sucesso mundial do filme dos Vingadores e prepara terreno para as vindouras continuações dos filmes do Thor – agora já estreada – e do Capitão América, focando em acontecimento do passado destes personagens. Não pretendo entrar no mérito da trama da Graphic Novel, mas dar uma olhada em seus principais aspectos, sem revelar spoilers. Como é uma HQ de Warren Ellis e se trata de uma equipe, a sensação que tem é que está lendo uma história de Planetary. Existem vários elementos que levam a comparar com os arqueólogos do desconhecido da Wildstorm: as idas e voltas no tempo e espaço, seja por todo o mundo, seja durante o século XX e XXI e a presença de elementos de ficção científica e …

Um Bangue-Bangue de Palavras: Descaracterizando Bendis

Esta semana acabei de ler a fase de Brian Michael Bendis em Os Vingadores. Foram quase dez anos à frente dos Maiores Heróis da Terra, uma run que começou polêmica – a Queda dos Vingadores – e morte de alguns dos seus mais queridos personagens, como o Visão e o Gavião Arqueiro. A fase terminou com a megassaga Vingadores versus X-Men. A última equipe é a nova casa de Bendis na Marvel. À despeito de suas grandes maquinações para revolucionar a Casa das Ideias, suas sequências bombásticas, suas experimentações narrativas e seus diálogos velozes, Bendis, um dos grandes representantes dos roteiristas de super-heróis do início do século XXI não sabe escrever uma revista de grupo. Mas cooomooo? Você diz, afirmando que ele revolucionou os Vingadores e que eles só são um sucesso no cinema por causa do que o Sr. Careca de Cleveland fez com eles. Sim, realmente ele tem esse mérito de transformar os Vingadores numa Liga da Justiça da Marvel, unindo os seus heróis mais populares numa equipe onde deveriam estar os mais …

Entrevista com Mário César Oliveira, autor de EntreQuadros

“Para quem não conhece o meu trabalho, eu já fui colaborador e um dos editores da Front, uma antologia que revelou grandes nomes do quadrinho brasileiro e sou um dos desenhistas e coeditor de Pequenos Heróis, um projeto criado pelo Estevão Ribeiro que homenageia diversos super-heróis e que já foi publicado nos EUA. Eu também sou o criador de EntreQuadros, uma série de quadrinhos em que eu busco retratar, com a devida licença poética, essa coisa complicada chamada vida”. – Mário César se apresentando no site de apoio do Ciranda da Solidão no Catarse.me. Depois de ter resenhado os quatro álbuns que Mário lançou sob o título Entrequadros (aqui), agora é a vez de conversar um pouco com o autor para conhecermos mais o que ele pensa sobre seus trabalhos, suas influência e refênrecnias e também seu relacionamento com o mundo LGBT, tem de sua última HQ. Splash Pages: Lendo um volume do EntreQuadros atrás do outro podemos perceber uma evolução. Tanto no texto, quanto nos desenhos, na experimentação e na forma narrativa. Por que você decidiu fazer o EntreQuadros …

A Mágica Acontece Entre um Quadro e Outro – Entrequadros, de Mário César

Desde 2009, Mário César de Oliveira vêm publicando a série Entrequadros. Primeiro, ela surgiu como um fanzine, publicado pelo 4º Mundo. Os dois seguintes foram publicados pela Balão Editorial e o último, Entrequadros – Ciranda da Solidão, abordando histórias do universo LGBT, foi financiado através do apoio do público, por meio do site de crowdfunding catarse.me . O lançamento será hoje, às 19h, no Testar Hostels, em São Paulo. O lançamento acontecerá junto com uma festa de Halloween. O PRIMEIRO ENTREQUADROS Como o próprio Mário conta na entrevista (que será publicada aqui no sábado), este fanzine foi uma compilação de trabalhos que ele já tinha prontos e que não foram publicados em coletâneas, como a Front. Mas nesse volume, já nos encontramos com a Morte, um dos personagens recorrentes de Mário, algo como um amálgama entre a Dona Morte de Maurício de Souza e a Morte, irmã do Sandman de Neil Gaiman. Neste volume também há a adaptação de um conto, artifício que se repetiria no volume seguinte. Mas, para mim, o destaque deste volume …

De Super e de Louco Todo Mundo tem um Pouco (III)

O HERÓI DÁ DEPRESSÃO Robert Reynolds, o Sentinela, assim como o Hulk, compartilha as identidades tanto de herói, como o Sentinela, quanto a de vilão, como o Vácuo. Mas o mais interessante das patologias do herói talvez seja a depressão que o acometeu quando o mundo se esqueceu dele. Isso mesmo, o MUNDO INTEIRO se esqueceu de que ele era um herói, e o mundo inteiro se esqueceu de que Reynolds era o supervilão Vácuo. Para conter o vilão, Reed Richard, o Senhor Fantástico, do Quarteto Fantástico, resolveu construir um dispositivo para que todos na Terra, inclusive Reynolds e sua esposa, esquecessem de que o Vácuo e o Sentinela já existiram. Assim, Reynolds caiu em depressão e no alcoolismo. Numa história subsequente, ele é analisado por um psiquiatra do qual ninguém tem conhecimento e, que numa reviravolta rocambolesca revela ser o Vácuo. Aliás, psiquiatras são a especialidade médica em que temos mais supervilões. O Sentinela/Vácuo acabou morto, durante a saga O Cerco, estripado por uma descarga energética desferida por Thor. O FIM DO MUNDO ESTÁ …

De Super e de Louco Todo Mundo tem um Pouco (II)

HULK FORTE! BANNER FRACOTE! O Hulk seria um caso de múltiplas personalidades ou de bipolaridade? Imagino que esteja mais para o segundo. Enquanto Robert Bruce Banner é tímido, inseguro, porém incrivelmente racional, o Hulk é puro instinto, natureza destruidora e irracional. Um deles poderia representar todo o potencial do superego e o outro, do id. O Hulk por um bom tempo aparecia quando Banner ficava muito nervoso. Ele também aparecia quando o sol se punha – interessante momento para o “id” se libertar. Foi através do tratamento psiquiátrico do Dr. Leonard Samson, um médico psiquiatra especialista em radiação gama – uma vez que ele mesmo havia sido exposto aos efeitos da radiação, que o Hulk/Banner conseguiu equilibrar suas identidades e equilibrar o ego na forma da persona do Professor: um ser com a força e o corpo do Hulk, mas com o raciocínio e inteligência de Bruce Banner, formando, então o ego. Uma das explicações para que o trauma da bomba gama que deu origem ao Hulk ter quebrado a persona de Banner em duas …

De Super e de Louco Todo Mundo tem um Pouco (I)

Falar que gênios do mal são doidos e pirados é chover no molhado. Mas e quando a loucura afeta os super-heróis? Quando isso acontece, ou eles acabam morrendo ou se tornam vilões. Ou ambos. Um super-herói nunca pode ter uma doença mental. É raro ver um destes personagens se tratarem com psiquiatras, psicólogos ou até mesmo tomarem remédios contra suas doenças, apesar de haver heróis como o Homem-Hora que toma sua pílula Miraclo e se torna superforte durante uma hora. Mesmo que antidepressivos necessitem de quinze dias para fazer efeito no corpo humano, nos quadrinhos eles parecem funcionar instantaneamente, como o espinafre do Popeye. “Tá triste? Toma um Prozac!”, dizia a cultura pop dos anos 90 e várias das HQs da época. Ainda por cima há uma grande confusão quanto aos diagnósticos das psicoses dos heróis. O interessante é que a loucura, ou pelo menos, o que é tachado como “loucura”, também acomete os criadores da indústria de super-heróis. Alguns deles acabaram cometendo suicídio, como Jack Cole, criador do hilário Homem-Borracha e Wally Wood, renomado …

A Terceira Via, Você é Minha Mãe? – Um Drama em Quadrinhos, de Alison Bechdel

Depois de contar seu relacionamento com o pai, um bissexual enrustido, que acaba – ou não – cometendo suicídio, Alison Bechdel lançou um novo livro, desta vez falando sobre suas interações com a mãe – ou quase isso. Enquanto no primeiro livro, Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, Alison usava de citações da literatura, como Ulisses, Retrato de Uma Senhora e O Grande Gatsby, nesta segunda graphic novel, a autora usa dois principais autores: Virginia Woolf e Donald Winnicott. A primeira, autora de Mrs. Dalloway e outros livros famosos e o segundo um dos pioneiros da análise psicanalítica entre mãe e filho. A VIA PSICOLÓGICA Esse é o grande tema da graphic novel. Mais que tratar do relacionamento com sua mãe, Alison propõe com essa autobiografia uma autoanálise, sem poupar a mãe, mas claro, sem poupar a si mesma. Afinal, uma das razões para fazer análise ou terapia é permitir se conhecer, reconhecer os erros e trabalhar em cima deles. Uma das coisas mais fascinantes em psicologia e, mais precisamente, na psicanálise, é os …

Eram os Deuses Astronautas?, Terra X, de Alex Ross, Jim Krueger e John Paul Leon

“Morra antes de morrer. Não resta chance depois”. – C. S. Lewis Terra X, minissérie criada por Alex Ross e Jim Krueger, com desenhos de John Paul Leon, mostrava o Universo Marvel daqui a 20 anos, uma Terra onde todos os humanos possuem poderes. Publicada em 1999, depois do grande sucesso de O Reino do Amanhã (Kingdom Come, da DC Comics, de Mark Waid e Alex Ross, que também mostrava o futuro distópico do universo de Superman e Batman), a Marvel resolveu chamar Ross para fazer a sua versão do que aconteceria no Universo 616. A proposta era a de mostrar o que REALMENTE iria acontecer com o Universo Marvel, mas algumas discrepâncias editorias acabaram transformando aquelas histórias em uma dimensão alternativa. O QUE É O MAL? Na minha primeira aula de Cultura Religiosa na faculdade – a qual éramos obrigados a cursar, pois a PUCRS é uma universidade católica -, eu pensei que teria um repeteco das coisas que vi na catequese e nas inúmeras aulas de religião que tive ao longo de uma …

Eu cresci no Universo Marvel, por Joss Whedon

“Eu cresci no Universo Marvel. Eu tinha uns 10 anos quando entrei pela primeira vez. Ross Andru fazia o Homem-Aranha se balançar por toda Nova York. George Pérez tinha jogado os Vingadores na Contraterra. Foram os meus primeiros gibis, aquele pelos quais eu corria pra banca de jornal, mas logo estava lendo quase toda a linha da Marvel. Conhecia todas as histórias também; devorava todas as edições anteriores, origens e antologias que podia encontrar. Era um espaço rico e místico, cheio de grandes aventuras cósmicas e dramas pessoais. Um bom lugar para crescer. E a melhor parte de tido isso é que esse universo parecia estar crescendo junto comigo. Enquanto eu passava pela adolescência e me deparava com uma realidade sombria e mais complexa, a Marvel acompanhava cada um dos meus passos. As revistas, que já eram tão ricas, tornavam-se mais profundas e sombrias. Conceitos mais audaciosos, narrativa visual mais sofisticada. Os personagens era mais ambíguos, bem amarrados, torturados e adultos do que qualquer adulto pudesse suspeitar. Deathlock, Howard, o pato, Wolverine, Elektra. Estava a …

Henry James falando sobre quadrinhos?

Henry James, escritor consagrado de A volta do parafuso e Retrato de uma senhora, nasceu em Nova York, em 1834 e morreu em 1916, em Londres. Nessa época, os quadrinhos ainda estavam dando seus primeiros passos. Então, como Henry James poderia ter escrito sobre quadrinhos? A resposta é que ele não escreveu. Mas chegou muito próximo disso quando comparou a literatura com a arte plástica em seu ensaio “A arte da ficção”, incluído no livro A Arte da Ficção, de 1884. (Publicado no Brasil pela Editora Novo Século em 2011). SE A PINTURA É A REALIDADE, O ROMANCE É A HISTÓRIA Foi o que disse o autor, que a pintura representa o que a visão pode alcançar. (Claro, muito antes dos movimentos modernistas mudarem essa perspectiva). Mas se a pintura está relacionada com o espaço, a história, o romance, estão relacionados com o tempo. Os quadrinhos, por sua vez, representam o espaço e o tempo através de seus quadros justapostos. Ambos são uma representação da realidade. Segundo o autor, “um romance, em sua definição mais …

Vou contar tudo para sua mãe: A Arte – Conversas Imaginárias com Minha Mãe, de Juanjo Sáez.

Durante a faculdade de publicidade me ensinaram: mostra o anúncio que você criou para sua mãe. Se ela entender, é porque ele funciona. Se ela não entender você precisa trabalhar mais. No jornalismo, aprendemos a existência de uma personagem, a “Dona Maria”, ou seja, a leitora comum do jornal, alguém que não é instruído, que não entende como as coisas “do mundo” funcionam, que não está ligada às tendências, que não entende de arte e não está por dentro do mundo pop. Alguém a quem as notícias devem ser deglutidas para que possa se interessar e entendê-las. A proposta do livro A Arte – Conversas Imaginárias com Minha Mãe, de Juanjo Sáez é parecida com a da publicidade e do jornalismo: fazer com que as “pessoas comuns” entendam a arte. É muito comum eu me deparar com pessoas que não entendem a “arte contemporânea”. Eu, por outro lado, sempre gostei. Mas a minha maneira de apreciar a arte contemporânea é diferente: dificilmente eu leio os significados das obras nas legendas. Eu as aprecio. Se elas …

Sua arma mortal é a simplicidade: Invencível, de Robert Kirkman

Robert Kirkman foi responsável por uma revitalização da indústria de quadrinhos assim que sua série The Waking Dead começou a sair nos EUA. Quando os quadrinhos se transformaram  em série para a televisão, as vendas foram estratosféricas, atingindo patamares não vistos desde a década de 90. Mas não vou falar de Walking Dead aqui, embora ela “peque” pelo mesmos “deslizes” que a série em questão, que veio um pouco antes dos mortos-vivos. Estou falando de Invencível. Assim como Kurt Busiek fala na introdução do primeiro volume, eu custei a ler a série do super-herói de Kirkman, mas, quando engatei, não quis parar. Kirkman tem esse dom de envolver o leitor nas suas tramas, e ele não faz isso usando subterfúgios como o sensacionalismo ou a violência gratuita. Sua arma mortal é a simplicidade. Isso pode ser explicado se formos buscar as referências de Kirkman. Muitas vezes se fala que o autor é ardoroso fã de quadrinhos, assim como Busiek, porém representante nato de outra geração.  Uma geração que nos trouxe Brian Michael Bendis e seu …

A eternidade está catatônica: representações recorrentes na obra de Jim Starlin

Mais conhecido como o criador do personagem Thanos, Jim Starlin também é renomado por suas space operas no universo de quadrinhos de super-heróis, redefinindo o conceito de sagas cósmicas. Além de desenvolver grandes arcos de histórias e de ter trabalhado com praticamente todos os super-heróis da Marvel e da DC, Starlin também é dono de características próprias, que definem suas obras. Uma de suas maiores criações independentes, Dreadstar, é um de seus melhores trabalhos. Através de Dreadstar, – que foi publicado primeiro pela Epic (Marvel), depois pela First e compilado pela Dynamite – podemos visualizar toda sua temática e narrativa visual. Então vamos falar de alguns desses elementos mais utilizados por Starlin. Em itens!!! 1. ASPECTOS EM UMA PÁGINA Assim como Neil Gaiman, Starlin trabalha muito com conceitos, mas, diferente do inglês, Starlin lida, vamos dizer, “de frente”, com eles. Há uma encarnação da morte e há uma encarnação da eternidade. Temas religiosos, como suicídio, morte e ressurreição (Starlin teve educação católica) se mesclam com temas “cósmicos”, como o caos, a ordem, a eternidade e …

A Internet é a Zona Fantasma, por Grant Morrison

“Em um e-mail recente para Mark Waid, eu estava reclamando e resmungando a respeito do conceito de “padronização”e comentei que isso era uma coisa que, particularmente, me incomodava bastante naquele dia. Nós dois tínhamos lido o mesmo, e um tanto quanto desanimador, artigo na revista New Scientist, onde se explicava que, a partir do momento que um dado grupo de pessoas passa a categorizar você de acordo com um ou outro modelo apropriado, torna-se praticamente impossível se livrar do rótulo, mesmo trabalhando de um jeito diferente. Para mim, isso simplesmente confirmava a terrível suspeita de que, por mais que eu tentasse criar enredos à prova de falhas, ou por mais bem estruturadas que as minhas narrativas ficassem, ou por mais que eu organizasse convencionalmente as minhas ideias, eu sempre seria considerado nos círculos dos fãs de quadrinhos como um frenético fornecedor de sandices imprevisíveis. Eu vi futuras gerações coçando as suas cabeças ,por causa do palavreado na minha lápide coberta de vegetação, considerando “incompreensível” o singelo nome da singela alma sob o solo. (…) Aquelas …

As mulheres de Guido Crepax, por Marco Giovannini

“As histórias de Crepax, na verdade, têm vários níveis de leitura. Um crítico bissexto de quadrinhos, o diretor de cinema Alain Resnais, afirmou: “Seguidamente, é necessário tomar uma página de Crepax e ler várias vezes para captar certos detalhes”. E tem razão. O primeiro nível de leitura, o mas simples, é aquele tradicional da leitura dos quadrinhos. A  vinheta, o diálogo, o balão, o rumor. E assim por diante. Até completar a história. É o mais simples e, é quese diga, o menos interessante em Crepax: ele, de fato, como narrador puro e simples, como criador de histórias de aventuras, não é o melhor autor de quadrinhos italiano e nem está entre os melhores. Existe um abismo entre os desenhos, sempre impecáveis, perfeitos, minuciosos, e os nexos, as relações, os movimentos da história que, “aventurosamente” falando, são simples demais ou, até mesmo, inexiostentes. E isso criou muitas discussões envolvendo leitores de Linus e também alguns críticos famosos como o espanhol Román Gubern (autor de um ensaio findamental “Il linguaggio dei comics”, Milano Libri). Falou-se muito …

Biografia Irreal: Dora, de Ignacio Minaverry

Não muito diferente das biografias e autobiografias em quadrinhos, em Dora, de Ignacio Minaverry, temos a impressão de nos deparar com um personagem que realmente existiu, embora sua história seja inteiramente ficcionalizada. Dora é a personagem principal da história em quadrinhos argentina homônima. O álbum faz parte da Coleção Fierro, lançada pela Zarabatana Books, trazendo as séries completas publicadas na revista Fierro original da terra dos portenhos. Dora é uma espiã e sua história viaja por países como a Argentina, a Argélia, a França e a Alemanha, participando de importantes movimentos sociais da história destas nações. Como uma história de espionagem, ela bebe em fontes pré e pós 007, com direito a traquitanas de escuta, gravação e transmissão de informações. Em certa parte da HQ Dora declara que a espionagem é algo “como caçar fantasmas com uma rede para borboletas”. Essas imagens textuais não ficam apenas nas combinações de figuras e diálogo. Há força quando temos apenas texto aparentemente fora da história – em placas, sinais, pichações, publicidade, documentos, todos desenvolvidos com apuro histórico –, …