Final e Finalidade

Brian K. Vaughan, roteirista de Y: O Último Homem, Ex Machina, Fugitivos, Saga, Mística, entre outros.
Brian K. Vaughan, roteirista de Y: O Último Homem, Ex Machina, Fugitivos, Saga, Mística, entre outros.

2012 foi o ano em que os brasileiros se despediram de duas das séries mais elogiadas de Brian K. Vaughan: Ex Machina e Y: O Último Homem. A primeira envolvia um super-herói eleito prefeito por ter impedido a queda da segunda torre do Empire State Buiding no onze de setembro. A segunda mostrava um futuro apocalíptico onde quase todos os homens do mundo haviam sido erradicados, a não ser por um deles, vivendo em um mundo dominado pelas mulheres. Diversas vezes Brian K. Vaughan falou se identificar com os protagonistas de suas séries, Mitchel Hundred e Yorick Brown, dizendo que havia imbuído os dois com características suas.

Mestre em caracterizações e em diálogos, Vaughan, apostou alto em suas séries abordando política e questões de gênero numa indústria saturada de quadrinhos sobre super-heróis. Poderia ter sido um fracasso, mas o roteirista soube manter o interesse e a polêmica girando sobre suas séries. Abordou temas controversos em Ex Machina: racismo, casamento homossexual, legalização da maconha, liberdade religiosa e aborto, apenas pra citar alguns. Em Y: O Último Homem mostrou para um público essencialmente masculino as dificuldades e as virtudes das mulheres que, segundo a história, poderiam ser capazes de se virar muito bem em um mundo sem homens. Ainda em Y mostrou vários momentos românticos e sexuais entre mulheres e uma cena de nudez masculina total, vista poucas vezes em quadrinhos, mesmo naqueles denominados para maiores de 18 anos.

Y: O Útimo Homem - Vol. 10 - Não há Causa sem Porquê, de Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.
Y: O Útimo Homem – Vol. 10 – Não há Causa sem Porquê, de Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.

Ele conseguiu êxito mesmo assim. Uma das razões para este sucesso é que as duas séries carregavam perguntas que deveriam ser respondidas apenas no final: “Por que todos os portadores do cromossomo Y foram erradicados do planeta?” ou “De onde vieram os poderes da Grande Máquina?” ou “Yorick vai finalmente reencontrar Beth?” ou “Hundred será o próximo presidente dos EUA?”. Vaughan deve ter lido o livro de David Mamet, Os Três Usos da Faca, sobre a natureza do drama, que diz o seguinte: “O tema do drama é a mentira. No final do drama a verdade – para a qual não se deu atenção, foi desconsiderada, tratada com escárnio, e negada – prevalece. É assim que sabemos que o drama está pronto”.

Por outro lado, a resposta para essas perguntas deixou alguns dos leitores decepcionados, esperando mais. Por mais viajante ou distante das expectativas que tenha sido o final destas séries, precisamos reconhecer que as duas séries cumpriram com a sua finalidade: nos fazer refletir. Essa é a finalidade das histórias com grandes perguntas, não apenas percorrer o caminho, mas nos dar subsídios para usá-las em nossas vidas. Não é apenas saber “Por que os sobreviventes estão presos na ilha de Lost?” ou “Como Ted Mosby encontrou-se com a mãe de seus filhos?”, mas construir artifícios para que os leitores saiam daquela história diferentes de como entraram. Christopher Booker fala sobre essa importância em seu livro The Seven Basic Plots – Why We Tell Stories:

“Tão profunda e instintiva é nossa necessidade por elas (as histórias) que, quando crianças pequenas, tão logo nós aprendemos a falar, começamos a pedir que nos contem histórias, como evidência de um apetite que irá continuar até o dia da nossa morte. As histórias têm atuado como uma parte tão central em cada sociedade da nossa história que nós temos por certo que grandes contadores de histórias, como Homero ou Shakespeare, deveriam ser as pessoas mais famosas que já viveram. Nos tempos modernos não há dúvidas que certos homens e mulheres, como Charles Chaplin e Marilyn Monroe, deveriam ser reconhecidos como as figuras mais conhecidas no mundo pelo simples fato de que eles atuaram além dos personagens das histórias e das telas de cinema. Até mesmo quando olhamos do nosso mundo para o espaço, nós descobrimos que nomeamos inúmeros corpos celestes – Vênus, Marte, Júpiter, Órion, Perseu, Andrômeda – por causa de personagens de histórias”.

Talvez Vaughan seja criticado pelos finais nada felizes que seus personagens tiveram. Mas ele certamente escreveu grandes histórias. E, antes dos finais- que-não-são-tão-finais-no-final-das-contas – ele nos brindou com grandes momentos de conflito entre os personagens principais e aqueles que os orbitavam, promovendo reações emocionais que apenas uma boa história – ou uma boa série de histórias – como essa(s) poderiam causar: lágrimas, revolta, decepção com os protagonistas, com o autor, mas nunca nos deixar incólumes. Christopher Booker completa:

“Dizer que as histórias possam ter um final feliz ou infeliz pode parecer um lugar-comum que alguém poderia evitar destacar. Mas isso precisa ser dito, simplesmente porque esta é a coisa simples mais importante a ser observada sobre histórias. Sobre aquele fato e sobre o que é necessário para trazer a história a um tipo de final ou outro, remexe na totalidade da sua extraordinária significância em nossas vidas”.

Ex Machina - Vol. 10 - Limite de Mandato, de Brian K. Vaughan, Tony Harris e JD Mettler E, para finalizar, as palavras do próprio
Ex Machina – Vol. 10 – Limite de Mandato, de Brian K. Vaughan, Tony Harris e JD Mettler
E, para finalizar, as palavras do próprio

Mitchel Hundred a.k.a. Brian K. Vaughan sobre finais:

“Finais felizes são uma mentira. Só existem certos períodos felizes. Se você acompanhar qualquer história até o fim, sempre vai encontrar a mesma coisa. Remoso. Dor. Perda. É por isso que eu gosto de revistas de super-heróis. Mês após mês, eles seguem em frente. Não importa quantas coisas terríveis possam acontecer, sempre existe uma chance para consertar o que está errado. Na falta de um último ato, essas histórias não têm como virar tragédias. Talvez por isso também as chamem de comics. Mas no mundo real não existem batalhas sem fim, certo? Cedo ou tarde, alguém ganha. E todos os outros perdem”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s