Análises, História dos Quadrinhos, quadrinhos
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A Bolha Especulativa dos Quadrinhos

O "BOOM" dos anos 90

O “BOOM” dos anos 90

Matéria publicada originalmente no site fanboy.com.br em 2007.

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O escritor escocês Mark Millar, perito em criar polêmicas, vem defendendo uma teoria de que a indústria de quadrinhos vive de ciclos. Esses ciclos se dariam em altos e baixos, que variam de dez em dez anos. Para exemplificar, vejamos um pouco da história dos comics norte-americanos: a indústria teve seu boom nos anos 40, quando apoiados na Segunda Guerra Mundial, os gibis venderam milhões de cópias. Depois, na década de 50, com a perseguição aos quadrinhos, a indústria sofreu um declínio. Nos anos 60 se viu renovar a indústria com a chegada da Marvel, na década de 70 com a onda de cancelamentos que ficou conhecida como “Implosão da DC”, os comics voltaram a cair. Alan Moore e Frank Miller deram um novo fôlego às revistas na década de 80, e a bolha especulativa levou a Marvel à bancarrota nos anos 90, caracterizando o último ponto baixo da história dos comics.

Pouca gente sabe, ou se deu conta do que aconteceu naquela época com o comércio de quadrinhos. Para podermos entender “a bolha” e seus efeitos precisamos voltar até a década de 80 mais precisamente ao ano de 1986, que transformaria a indústria dos quadrinhos, para o bem e para o mal.

Gente como Moore e Miller vinham obtendo uma incrível resposta de seus leitores em Monstro do Pântano e Demolidor, redefinindo a mitologia destes personagens e suas relações com seu mundo. Naquele ano, estes artistas lançavam suas obras máximas — Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas — que retratavam os heróis de uma forma mais obscura, que desenvolviam sua relação consigo mesmo e com o que representavam e seu desajuste com o mundo.

Foi um ano recheado de criatividade, originalidade e de criação de novos paradigmas para os quadrinhos, pois junto a Watchmen e O Cavaleiro das Trevas, foram publicadas obras como Maus, ganhadora, anos depois, do Pulitzer e a Queda de Murdock, pelo mesmo Miller. Aquele ano também via surgir uma nova editora de quadrinhos, a Dark Horse Comics, focada em quadrinhos de autor que trouxe trabalhos como Concreto, de Paul Chadwick.

Em poucos anos, a indústria dos comics teve um boom, os preços de venda e de edições atrasadas aumentaram, editores viam a si mesmos assinando cheques com seis dígitos, muitas pessoas passavam a encarar os quadrinhos com outros olhos, como uma mídia aceita, como se comprar gibis tivesse a mesma relevância social que comprar CDs. As revistas eram reunidas em edições de luxo e passavam a ter o nome graphic novels, cunhado pelo mestre Will Eisner. Os escritores destes trabalhos eram chamados para dar entrevistas e eram tratados como qualquer outro escritor de romances. Longos artigos discutiam o status icônico do Superman ou o significado de Batman, que quebrava recordes de bilheteria no cinema com o filme de Tim Burton. Fãs ávidos, novos leitores, e um patamar literário melhoraram o status das HQs.

De aproximadamente 1985 a1993 a especulação nos quadrinhos estava em seu auge. Alguns dos principais jornais dos Estados Unidos noticiaram que comprar comics era um bom investimento e rapidamente muitas pessoas estavam comprando centenas de quadrinhos que achavam que poderiam ser valiosos no futuro.

Durante este tempo, primeiras aparições de personagens, como Action Comics#1 e Incredible Hulk #181, passaram a valer centenas de milhares de dólares. Mortes e reformulações de super-heróis estavam na ordem do dia, e todas elas tinham um enorme valor especulativo e um grande potencial de lucros. A Morte do Superman foi notícia mundial e esquentou os motores especulativos, no Brasil foi notícia no Jornal Nacional e tema de redação de vestibular em um faculdade do Rio de Janeiro.

Tanto as grandes editoras como as pequenas companhias expandiram suas linhas para que suportassem um número cada vez maior de números 1. Alguém se lembra da Malibu, especializada na colorização digital?

Nos final dos anos oitenta desenhistas como Jim Lee e Todd McFarlane haviam se tornados grandes astros dos quadrinhos, pois seus trabalhos nas revistas eram sinônimo de lucro certo para as editoras. Para se ter uma idéia, Spider-Man #1, desenhada por Todd McFarlane, vendeu 2 milhões de cópias nos EUA e  X-Men #1, desenhada por Jim Lee, vendeu 8 milhões de exemplares, configurando no maior recorde do mercado de quadrinhos até hoje.

Revoltados por não receberem uma boa porcentagem nas vendas desta revistas, Lee, McFarlane e outros cinco artistas fundaram a Image Comics, famosa na época por priorizar as imagens sobre o enredo. Quando os fundadores da Image anunciaram que estavam abrindo um novo negócio e que logo estariam lançando uma nova linha de comics, se formou um grande alvoroço na indústria dos comics e além. A revista sobre finanças Barron’s escreveu um artigo sobre e o ocorrido e a rede de TV americana CNN noticiou o acontecimento. Youngblood #1, de Rob Liefeld, vendeu mais de um milhão de cópias. A Image acabou absorvendo 15% do mercado da Marvel.

Na época que os criadores da Image romperam com a Marvel, a companhia (e também a rival, DC Comics) haviam começado a comercializar as famosas “edições limitadas”: revistas com capas variantes, sacos plásticos especiais, gimmicks (incluíndo capas metalizadas, hologramas. hot stamp e relevo seco) e brindes (como os trading cards), para estimular o interesse entre os leitores e colecionadores, dessa maneira alimentavam e faziam crescer a bolha especulativa.

Desde o começo, os quadrinhos da Image não eram comprados apenas pelos leitos, mas também pelos colecionadores-especuladores, que adquiriam diversas cópias de cada edição para garantir seu investimento.

A revista Wizard era a principal referência para o bom especulador: publicava listas de Top 10 revistas, artistas e escritores, a seção Market Watch, que mostrava não só as variações de preços das revistas ocorridas no passado como também previa o que aconteceria no futuro, e o guia de preços dos quadrinhos que trazia listas e listas de antigas publicações e destacava se a revista era ou não um “hot comic”. Além disso, se focava no leitor de quadrinhos jovem e iniciante.

Conforme John Davis relata em uma edição do The Comics Journal: “A Wizard era o grande fator no mercado especulativo. Transformava gibis em sensações do momento e mostrava-os como sendo incríveis, para colecionar e investir, e teve sua ascensão no grande boom que tivemos em 92 e 93, quando todos os jovens leitores vinham e liam Wizard. A revista era direcionada exatamente para eles, e dizia exatamente o que queriam ouvir, que era um grande investimento em potencial comprar aqueles novos gibis”.

Novos uniformes e versões alternativas dos heróis surgem para vender mais bonecos, fazendo crescer não apenas a especulação dos gibis mas também  do mercado de action figures, das quais Todd McFarlane é um grande produtor.

Mas então, o que deu errado?

Um dia a distribuição dos quadrinhos da Image começou a atrasar. Todd McFarlane, em meio a reuniões com fabricantes de bonecos e produtores de filmes foi forçado a publicar edições com artistas e histórias tapa-buracos para preencher o vazio deixado por ele próprio. E isso começou a acontecer também com as revistas de outros artistas.

A venda de gibis americana acontece em maior porcentagem pela venda direta, ou seja, as comic shops encomendam as revistas conforme o número de pedidos dos consumidores. A Image começou a atrasar no lançamento de novas edições, e suas solicitações (a lista de revistas a serem lançados pela editora em determinado mês) demoraram a refletir esta situação, causando uma instabilidade no nível dos varejistas. No momento em que determinados gibis chegavam às prateleiras, os fãs já haviam perdido interesse naquilo que haviam solicitando anteriormente através do serviço de encomendas das comics shops. Em abril de 1993, apenas dois dos treze títulos da Image chegavam às lojas mantendo a programação.

O derradeiro movimento do mercado especulador foi uma minissérie chamada Deathmate, um crossover cheio de capas variantes entre os personagens da Image e os personagens da Acclaim. Enquanto à princípio a série capturou a atenção dos prováveis compradores, o seu lançamento muitos meses depois da data prevista, fez com que a agitação ao redor de sua compra havia evaporado por inteiro, deixando os varejistas com plihas e pilhas de revistas estocadas, que serviam, no máximo, para sentar-se sobre elas.

Além dos fatores internos do mercado, havia uma crescente competição pelo dinheiro de adolescentes e jovens adultos por parte dos jogos de computador, home vídeos e outros tipos de revistas segmentadas para este público.

Outra razão para o murchamento do mercado foi a existência de poucos quadrinhos tão bons quanto Watchmen e Cavaleiro das Trevas, e era disto que aqueles novos leitores teriam vindo atrás. Foi naquela época que surgiram muito dos quadrinhos do tipo “Grim ‘n’ Gritty”, numa tradução ao pé da letra, cruéis e raivosos, que vinham na esteira das obras de Moore e Miller de uma maneira mal-interpretada, cujos parâmetros assemelhados eram apenas superficiais. A criatividade estava em falta naqueles dias, pois os editores só buscavam fatores que alavancassem as vendas como mortes, transformações, novos personagens e novas formações de equipes. E veio a recessão.

Aqueles que se tornaram “profissionais da especulação” acabavam vendendo seu comics apenas para outros especuladores. Na verdade, poucos comics do início dos anos 90 mantiveram seu valor especulativo, com mais de 10 milhões de cópias produzidas para certos títulos, seu valor quase desapareceu. Revistas como X-Men #1 e Youngblood #1, considerados valiosos na época, podem ser encontrados por menos de um dólar hoje em dia.

A especulação atingiu seu colapso entre 1993 e 1997. Dois terços das comics shops da época fecharam e vários editores foram demitidos. Numa jogada para manejar suas dívidas e devido a disputas internas entre os acionistas, a Marvel Comics declarou falência em 1997.

As séries A Morte do Superman e A Queda do Morcego também podem ser ligadas às causas do fim do mercado especulador, porque muitos especuladores que não eram leitores habituais de quadrinhos achavam que aí se acabariam as séries dos dois super-heróis. Como a  maioria dos leitores sabe, pouca coisa é definitiva nas séries regulares de super-heróis.

A bolha implodira e não se podia juntar seus restos. Desde 1997 o alto valor dos gibis do início da década de 90 caíram quase 90%. Atualmente, o hype sobre os comics se dá quando uma grande companhia promove mudanças em seus personagens, grandes escritores ou artistas se envolvem em novos projetos, ou pelo buzz envolvendo a transposição da obra para outras mídias como cinema e televisão.

Os únicos lugares que se tornaram bastiões para o mercado especulador são os sites de leilões on-line, como o e-Bay e, no Brasil, o Mercado Livre. Os quadrinhos considerados raros hoje em dia são os comics originais da Era de Ouro, com poucas cópias, diferenciando-se das grandes tiragens dos “hot comics” da década de 90.

Com as várias adaptações de quadrinhos para o cinema, segundo Millar, hoje a indústria de quadrinhos se vê novamente em um ponto alto. O escritor diz que ainda veremos a indústria crescer mais e melhorar muito: “Ciclos econômicos são coisas vivas, e a história nos mostrou que eles são tão incontroláveis quanto as marés”, Ainda é cedo para avaliar o impacto de obras recentes dos quadrinhos. Teremos que esperar mais dez anos para poder decifrar quais serão os Watchmen e Cavaleiros das Trevas dos anos 2000, e estar preparados para um novo baque na indústria em 2010.

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Como pudemos perceber, ao contrário das previsões de Millar, a indústria dos quadrinhos se fortaleceu graças à ascensão dos autores vindos dos quadrinhos independentes, de filmes como Vingadores e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e principalmente do fenômeno The Walking Dead. Aliado às renovações de linhas editoriais como Os Novos 52 e Marvel NOW! essas foram as principais “revoluções” dos últimos cinco anos. Sobre essas as revoluções na indústria de quadrinhos de super-heróis americanos, publicarei aqui no blog, em breve e em partes, outra matéria publicada originalmente no Fanboy, sobre as Eras dos Quadrinhos. Dessa vez, porém, com um Post Scriptum sobre os dias atuais.

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