As Eras dos Quadrinhos – Parte 1

Mudança de Paradigma – Metamorfose Ambulante

Superman (criado em 1938) e o Presidente John Fitzgerald Kennedy (eleito em 1961)
Superman (criado em 1938) e o Presidente John Fitzgerald Kennedy (eleito em 1961)

Umberto Eco, em seu estudo sobre o mito do Superman, publicado no livro Apocalípticos e Integrados, mostra que, por ser um arquétipo, o super-herói deve apresentar certa inércia para permitir a fácil identificação. Ou seja, nada de grandes mudanças em sua vida. Por essa razão, as editoras costumam resistir a deixar seus personagens casarem ou terem filhos. Segundo o autor, os arcos de história se sucedem, o herói enfrenta e debela inúmeras e semelhantes ameaças, mas, no final, perdura essencialmente o mesmo status quo: combater o mal, servindo como exemplo de coragem e heroísmo, geração após geração, sem nunca envelhecer ou evoluir. Caso o Superman, ou qualquer super-herói sujeito a essa mesma lei, provoque alguma ação que altere esta continuidade, daria um passo em direção a seu fim. E este fim, como sabemos, não é a morte.

Por outro lado, o personagem também não pode permanecer estático por muito tempo, especialmente em seus detalhes, ou então sua imutabilidade e eterna juventude o transformarão em uma relíquia: a idade que o personagem mantém nos quadrinhos contrasta com a defasagem em relação a seus leitores. Enquanto os jovens conversam em seus i-phones, Clark Kent usa uma máquina de escrever para redigir suas reportagens e Lois Lane é impedida de usar minissaia. Para Eco, cabe aos roteiristas criar métodos de manutenção desta mitologia, adaptando-a para o tempo corrente.

Dentro dessa mesma lógica, as histórias de super-heróis estão subordinadas a uma indústria de consumo que, por sua vez, rege-se pela lei da oferta e da demanda. Adaptações em diferentes estágios de evolução, portanto, geram um grupo de conteúdos característicos que se reúnem notavelmente nos quadrinhos de uma determinada época, compondo as “Eras” delineadas pela comunidade de leitores, que é influenciada pelo zeitgeist, o espírito da época e da sociedade. Toda esta discussão, porém, nos leva à pergunta: quando uma era é substituída por outra?

Arnold T. Blumberg, em seu ensaio sobre o nascimento da Era de Bronze dos quadrinhos aplica a teoria da Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas S. Kuhn. Este princípio trata da crise e de seu relacionamento com a inovação científica, a redefinição de paradigmas existentes, e do progresso resultante que fazem a ciência e o mundo avançarem. A crise, neste caso, seria um evento ou edição que provoca uma mudança na maneira como os quadrinhos de super-heróis são vistos pelos seus leitores.

Sabemos viver uma época diferente da dos nossos pais. Temos o mesmo tipo de percepção ao ler os quadrinhos de um período anterior e os compararmos com os atuais. Fica claro que houve uma mudança de paradigma, e que essa substituição não foi sutil. Podemos notar a transformação na maneira como a aventura é contada, nos estilos que norteiam os artistas, na linguagem e na caracterização dos personagens e, sobretudo, na influência da evolução de História e sociedade sobre todos esses aspectos.

Assim como há, na história da humanidade, uma Idade Média, situada entre pontos divisores como o Fim do Império Romano do Ocidente e a Tomada de Constantinopla, a história dos quadrinhos de super-heróis norte-americanos também possui seus períodos e seus marcos. O grande problema é que não há um consenso nem entre estudiosos, nem dentro da comunidade de leitores de quadrinhos sobre quais edições ou eventos determinam o fim de uma era e o início de outra.

Homem-Aranha (criado em 1962) com o presidente Barack Obama (eleito em 2009).
Homem-Aranha (criado em 1962) com o presidente Barack Obama (eleito em 2009).

Não é necessário tentar uma nova classificação de todo este conteúdo em novos períodos de tempo, tornando ainda mais confusas suas delimitações e transições. Mais interessante é revisar as principais formulações sobre cada Era, seus caracteres específicos e analisar os pontos de consenso e discordância em suas definições. Para entender melhor essas modificações, não se pode esquecer de indagar quais acontecimentos, nas páginas dos gibis ou dos jornais, modificam hábitos, postura e cultura de autores e leitores.

CONTINUA…

Anúncios

1 Comment

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s