As Eras dos Quadrinhos, História dos Quadrinhos, quadrinhos
Comentário 1

As Eras dos Quadrinhos – Parte 8

A Era da Incerteza – Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço não é nada bonito!

Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986)

Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986)

Com a influência dos quadrinhos independentes, do mercado direto e restrito e o código menos rígido, o caminho estava aberto para obras como Batman, o Cavaleiro das Trevas e Watchmen, que, para o bem ou o mal, redefiniram os modelos de quadrinhos de super-heróis. Foi o tempo em que os heróis não precisavam de motivos para ser violentos, e a grande maioria era cruel e raivosa, numa tradução literal do termo grim’n’gritty, uma expressão cunhada para representar o resultado da má interpretação do tom que empregaram Moore e Miller por autores menos célebres. Os protagonistas eram sombrios, portavam grandes armas e faziam cara de mau, rangendo os dentes nas capas. Fazia-se um contraponto à nobreza da Era de Prata e ao cinismo da Era de Bronze. Nesse período, a arte passou a ser mais valorizada. Grandes desenhistas passaram a receber grandes quantias por seus trabalhos e os fãs compravam revistas em grandes quantidades. As bad girls estavam na moda: a melhor heroína era aquela que tivesse os maiores atributos. Ainda, multiplicavam-se artistas que faziam uma interpretação duvidosa da musculatura dos personagens, não conseguindo repetir seu porte e disposição por mais de dois quadrinhos.

O mercado direto conheceu seu auge e, por causa disso, foi levado à sua derrocada. (Para saber mais sobre isso, leia a matéria sobre a Bolha Especulativa). E, mais do que em qualquer período, a indústria de quadrinhos ficou saturada de crossovers, eventos que ocorriam todo o verão, sem falta, fazendo os leitores comprarem as miríades de revistas que se ligavam umas às outras, numa seqüência nem sempre lógica, para acompanhar o desenrolar da história. Houve grandes embates entre as duas maiores, em um evento em que os leitores decidiam qual herói devia vencer. Para vender mais, ainda havia spin-offs trazendo a fusão dos personagens de uma editora com a outra.

Sandman, o Caçador de Sonhos (1989), os primeiros passos da Vertigo.

Sandman, o Caçador de Sonhos (1989), os primeiros passos da Vertigo.

Para não deixar de lado as obras elogiáveis, o trabalho de Neil Gaiman na série Sandman, deu o passo inicial para a criação de um selo exclusivo para quadrinhos com temas adultos: Vertigo, na DC Comics. Junto ao Homem-Animal de Grant Morrison e do John Constantine de Jamie Delano, a divisão da editora de Action Comics encontrou leitores fiéis que buscavam histórias que tivessem mais respeito pelo seu público.

Ainda assim, no lado mais tradicional da empresa, os heróis não foram poupados. O Superman morreu e foi substituído. Batman ficou paraplégico e foi substituído. O Lanterna Verde enlouqueceu e foi substituído. A Mulher-Maravilha perdeu uma gincana e foi substituída Na Marvel, também ocorreram as mais radicais transformações. O Homem-Aranha descobriu que era um clone e foi substituído. O Quarteto Fantástico, os Vingadores e o Hulk, dividido, deram sua vida para salvar um universo e foram substituídos. Novos heróis para uma nova geração de leitores? Sim, mas em pouco tempo essa mesma geração se cansaria da fórmula e os heróis teriam de recuperar rapidamente valores dos quais haviam sido alienados.

Mas como chamar a era em questão? Até onde ela vai? Estaríamos ainda vivendo esse período? Para começo de conversa, devido a obras vitais deste período, como as supracitadas de Moore e Miller, a época foi chamada de The Dark Age (A Era Sombria), o que faz sentido, considerando-se a grande sombra raivosa que envolveu todos os super-heróis e os fazia agir de forma fria e irracional, sem se importar com os meios para atingir seus fins. Foi uma era sombria também em termos criativos. Era costume lançar eventos bombásticos como mortes, mutilações, seqüestros e traições para fazer vender títulos, sem o cuidado para obter uma boa história, utilizando-se explicações descabidas. Dada a proximidade desta época, há poucos livros que tratam dela, mas uma obra versa exclusivamente dela: The Dark Age: Grim, Great e Gimmicky Post-Modern Comics, que mostra a Era Sombria em detalhes.

Entretanto, há outras denominações. O site Quarter Bin marca o início do período com o êxodo dos artistas da Marvel para Image Comics, nomeando-o Era de Mica, matéria-prima do glitter. Em consonância, o fim da Era de Mica aconteceria com o fim de editoras como Valiant/Acclaim, Malibu e a venda da Wildstorm, um estúdio da Image, para a DC Comics. São atribuídos a essa era a especulação e os brindes metalizados, que aumentavam a venda das publicações.

O mais lógico seria que a Era de Bronze fosse sucedida pela Era de Ferro, na tradição greco-romana, mas são poucos que usam este termo, muito popular nos anos 80. Em 2003, a revista Overstreet Comic Book Price Guide introduzia uma Era de Cobre. Segundo a publicação, esta era iria de 1984, com o lançamento de Secret Wars, até 1992, o ano de lançamento da Image Comics.

Spawn #1 (1992): uma fusão do Homem-Aranha e do Batman?

Spawn #1 (1992): uma fusão do Homem-Aranha e do Batman?

Essa definição de período, entretanto, não considera que a criação da Image não leva à concepção de novos padrões, mas sim, da mimetização dos heróis que já estavam estabelecidos. Muitos dos aspectos de seus primeiros personagens vieram da Marvel e da DC. Somente anos mais tarde é que desenvolveriam suas particularidades e se libertariam da sombra de outros heróis. Spawn bebe na fonte do simbionte do Homem-Aranha e nos aspectos sombrios de Batman. Ripclaw e Warblade foram baseados em Wolverine, Cyblade em Psylocke, Stryker em Cable, Queda-Livre em Jubileu, Queimada em Tocha Humana, e assim por diante. O Youngblood, por sua vez, foi projetado para ser um spin-off de Novos Titãs, chamado Team Titans.

A. David Lewis, pesquisador de quadrinhos e colaborador do site Broken Frontiers, descarta as denominações Era de Cobre (metal mais valioso depois do bronze), Era de Cromo (em relação aos plásticos cromados que envolviam as revistas de colecionadores), Era da Ferrugem (referência à qualidade das histórias na Era de Ferro) e Era de Aço, propondo a Era de Hidrogênio, primeiramente pelas propriedades únicas do elemento que também se encontravam nos quadrinhos de então, como sua simplicidade, abundância, volatilidade e propensão a explosões. O hidrogênio também abarca uma ambigüidade, pois pode tanto compor a água, substância vital, quanto ser a matéria-prima de bombas atômicas. Em última instância, é o símbolo utilizado pelo Dr. Manhattan, personagem de Watchmen, obra que inauguraria tal era. Para o colunista, este período continuaria até os dias de hoje, mas estaria na premência de acabar.

A Marvel pediu falência em 1997, levando Mike Conroy a relatar, após concluir um panorama histórico do mercado de quadrinhos de ação nos Estados Unidos: “Graças à concentração de super-heróis e às exigências dos fãs, verifica-se uma perda no interesse pelos comics como um meio, acarretando num enxugamento até a raiz da base de fãs. A negligência com novos leitores tem feito com que cada vez menos leitores ocasionais descubram os comics, todavia, aqueles que o fazem, acabam encontrando muitos títulos impenetráveis – abarrotados com anos de continuidade e referências que interessam somente aos leitores de longa data”.

1 comentário

  1. Pingback: A Nova Revista da Marvel/Panini e os Fantasmas do Monopólio | Splash Pages

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s