As Eras dos Quadrinhos – Parte 9

Período de Transição D – Nostalgia: Ah, como seu fantasma ainda paira…

Enquanto o mercado direto contraía e se concentrava nas mãos da distribuidora Diamond Comic Distribuitors, o mercado de comics propriamente dito fazia o mesmo. Houve uma queda de 14% no volume de vendas em 1998 e 5% em 1999, segundo o Comic Buyer Guide, chegando a menos da metade dos patamares de 1993, o melhor ano.

No conteúdo das revistas, pairava o fantasma da nostalgia. Era um sentimento que editores e leitores dividiam depois de perceberem que as mudanças drásticas que foram feitas na maioria dos super-heróis não eram garantia de boas histórias. Olhavam para trás, para as eras passadas, principalmente a Era de Prata, na ânsia de resgatar o sentimento que vinha daquelas aventuras, cheias de incongruências, mas ainda assim divertidas e descompromissadas. Alan Moore foi um dos primeiros a assumir esse sentimento e desenvolveu para o Supremo, criação de Rob Liefeld, quadrinhos propositalmente calcados nas aventuras e no universo do Superman da Era de Prata.

JLA #1, de Grant Morrison e Howard Porter
JLA #1, de Grant Morrison e Howard Porter

Foi realizada uma espécie de resgate do papel icônico dos super-heróis, já explorado em obras anteriores, como Marvels e Reino do Amanhã e ulteriores, como Superman – Paz na Terra e Batman – Guerra ao Crime. As editoras pensaram um passo atrás e tentaram ajustar o elenco de algumas equipes com formações que lograram sucesso no passado. A LJA voltava com seus sete integrantes mais notórios e passava a ser escrita por Grant Morrison, aclamado pela crítica por suas obras na Vertigo. Também tinha gosto de volta ao passado o retorno dos heróis que morreram no Massacre. Os Vingadores, por exemplo, voltavam a ser desenhados por seu artista clássico, George Perez. Os X-Men davam as boas–vindas novamente para Noturno, Colossus e Kitty Pryde. O Superman assumia um polêmico visual azul e elétrico, para depois se dividir em dois, o azul e o vermelho. A transformação fazia referência a uma história da Era de Prata, publicada em Superman#162 (1963) que se passava em um mundo imaginário.

The Sentry #1 (2000)
The Sentry #1 (2000)

No ano 2000, esse revival da Era de Prata chegou a um patamar diferente. A Marvel procedeu com a divulgação de Sentry, o Sentinela da mesma maneira que o filme A Bruxa de Blair espalhou boatos sobre a real existência da bruxa na mídia e na Internet. A revista Wizard anunciou que a Casa das Idéias havia resgatado uma antiga criação de Stan Lee e do artista Artie Rosen, nunca posta em prática. Tratava-se do Defensor Dourado da Decência. Naquele ano, a editora lançava a minissérie Sentry por Paul Jenkins e Jae Lee. No final da história, que vinha repleta de declarações de Stan Lee sobre a criação do personagem, a Marvel confessou que tudo não passara de uma farsa. Nunca existira aquele herói nos anos 60, Sentry era um personagem original e Artie Rosen, um artista fictício.

Houve outras inovações. Kevin Smith, diretor de cinema responsável pelos filmes O Balconista, Procura-se Amy e Dogma, deu início à linha Marvel Knights com a história Diabo da Guarda para o Demolidor. Smith foi um dos primeiros profissionais de outras mídias a estabelecer uma sinergia com os quadrinhos. Mais tarde, outros se juntariam a essa onda. A DC, que já inovava na linha Vertigo trazendo séries como Transmetropolitan, de Warren Ellis e 100 Balas, de Brian Azzarello, lançou o crossover DC 1.000.000, encabeçado pela LJA de Grant Morrison. Em 2000 e 2001 o volume de vendas dos comics aumentava em 1%.

Ultimate Spiderman #1, de Brian M. Bendis e Mark Bagley
Ultimate Spiderman #1, de Brian M. Bendis e Mark Bagley

Mas o maior sucesso do início do milênio foi a linha Ultimate Marvel, desenvolvida pelo editor-chefe Joe Quesada e por Bill Jemas, o presidente da Marvel na época. A proposta da linha era livrar os super-heróis da Casa das Idéias do peso de anos de cronologia, apresentando-os para novos leitores com histórias de origem ambientadas no século XXI. Talvez pensando da mesma forma, a DC levou às telas Smallville, seriado que conta as aventuras do jovem Clark Kent, antes de tornar-se Superman, com o plano de fundo dos dias de hoje.

Apesar de se passarem em universos à parte, podemos considerar a linha Ultimate Marvel e Smallville como uma mudança de paradigma. Peter Parker não era mais picado por uma aranha radioativa, mas geneticamente modificada. O Quarteto Fantástico não estava interessado na corrida espacial quando seus poderes surgiram, mas em desenvolver tecnologia de teleporte. Os Vingadores não são amigos super-heróis que se juntaram para conter uma ameaça que separados não poderiam derrotar, mas uma equipe militar em que cada integrante é desajustado e tem seus objetivos mesquinhos, mas todos são considerados Supremos.

Já o Clark Kent de Smallville tem de usar seus poderes para enfrentar pessoas comuns que foram transformadas pelos despojos de seu planeta natal, tem a seu lado uma Lana Lang de traços asiáticos e uma nova amiga que nunca deu as caras nos quadrinhos. Além disso, a origem de Clark é compartilhada com a de Lex Luthor e é a dinâmica desse antagonismo que dá movimento à série. Contudo, o programa tem um tempo marcado para acontecer. É quando o mito deste Clark Kent se consome: o momento em que Kal-El veste a roupa azul e vermelha. Assim, ele terá amadurecido e se tornado adulto. A dinâmica mudará e a série se encerrará. Novamente vemos a razão da resistência dos editores em casar ou dar filhos a estes personagens.

Possivelmente, a criação de novos paradigmas já seria suficiente para afirmar que os quadrinhos estariam vivendo um novo estágio, mas a crise que leva os quadrinhos a uma nova era, ainda estava por vir.

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