As Eras dos Quadrinhos – Parte 10

A Nova Onda – Agentes de H.o.l.l.y.w.o.o.d.

Amazing Spider-Man #36 (2001), a queda das Torres Gêmeas
Amazing Spider-Man #36 (2001), a queda das Torres Gêmeas

Kurt Busiek falou: “Você só pode identificar as Eras que realmente acabaram (…) Então, a época que você está vivendo no momento será sempre chamada de ‘Era Moderna’ até que você dê a ela um nome real – porque então você pode colocar uma lápide sobre ela, já que está na seguinte”. A comoção ao redor de revistas número um, de hologramas ou capas multifacetadas, a glorificação de heróis ultra-anabolizados, argumentos cruéis e raivosos com o intuito apenas de chocar não estão mais tão presentes entre os atrativos das revistas de super-heróis. Certamente, estamos vivendo um novo período. Foi o 11 de Setembro a crise que mudou a forma de como os super-heróis eram vistos pelo mundo.

Por um lado, a queda das Torres Gêmeas exigiu dos quadrinhos uma camada maior de realidade. “Em um mundo pós-11 de Setembro, até mesmo a frase ‘Olhe, lá no céu! É um pássaro! É um avião!’ soa diferente”, diz Robert Wilonsky para a SF Weekly “O sentido do escapismo nos quadrinhos não existe mais; o mundo de fantasia deve dar passagem para o verdadeiro”. O Homem-Aranha se deparou com o desastre em uma edição que teve a capa dominada pela cor preta. O Capitão América assumiu uma postura de luta direta e radical contra o terror em um arco de histórias que se encerrou com a revelação de sua identidade secreta ao povo americano. Em 2001, também, a Marvel rompia definitivamente com o CCA e lançava séries como os Novos X-Men, de Morrison, que trazia uma personagem do país dos talibãs com direito a burca e crenças muçulmanas, e a nova X-Force, de Peter Milligan e Mike Allred em cuja primeira edição, a equipe era quase toda exterminada por terroristas.

Contudo, vendo de outra maneira, “houve um breve momento logo após a queda das torres do World Trade Center em que o mundo parecia mais claro e menos ambíguo, como um gibi de super-heróis”, escreveu Chris Knowles “Novamente, havia os mocinhos e os bandidos, vilões e vítimas. Os eventos de 11/09 traziam uma necessidade profunda por alguma coisa ou alguém que salvasse o mundo de um mal sem nome e sem face que tinha o poder de espalhar o caos instantaneamente. Um tipo de destruição vista apenas nos quadrinhos ou em filmes inspirados neles. Para lutar contra estes demônios invisíveis, nós precisávamos de deuses. E, de fato, novamente, a indústria de quadrinhos respondeu – oferecendo a uma nação confusa e tomada pelo terror super-heróis que colocariam as coisas no lugar”.

Muitos dizem que o 11 de Setembro teve o mesmo impacto que a Grande Depressão de 1929, quando os sentimentos das pessoas chegaram a tal ponto de desesperança que passaram a buscar a força necessária nas revistas de quadrinhos, que produziriam, quase uma década depois, o gênero dos super-heróis. Títulos baseados nos heróicos homens comuns do 11 de Setembro foram lançados, bem como edições que buscavam angariar fundos para as famílias das vítimas, numa espécie de esforço parecido com o dos quadrinhos da Segunda Guerra que estimulavam a compra de bônus de guerra.

Detalhe do teaser-pôster do filme Homem-Aranha (2002), em que o Word Trade Center é refletido na máscara do herói
Detalhe do teaser-pôster do filme Homem-Aranha (2002), em que o Word Trade Center é refletido na máscara do herói

O filme do Homem-Aranha foi o grande representante do renascimento da força dos quadrinhos e ficou entre as dez maiores bilheterias da história do cinema. Se o filme dos X-Men, dois anos antes, havia dado origem aos primeiros passos da linha Ultimate Marvel, no filme do Aranha era a linha de publicações que exercia a influência sobre a película. Depois de Homem-Aranha, os estúdios de Hollywood viram nos quadrinhos uma mina de ouro, e as editoras de quadrinhos começaram a trazer para seus estúdios talentos dos sets da Califórnia e de outras mídias, como livros e seriados.

O cenário montado era de histórias que aliavam realidade com o escapismo. Após o 11 de Setembro, a estratégia dos quadrinhos de super-heróis foi trabalhar em duas frentes: atrair novos leitores com histórias desligadas da cronologia (linhas Ultimate e All-Star, Adventure e Johnny DC) e seduzir novamente o público que, por alguma razão, foi perdido algum tempo atrás, cansado das histórias repetitivas. Para chamar esse pessoal, as editoras voltaram a valorizar sua cronologia e trouxeram de volta do limbo personagens que foram relevantes nos anos 70 e 80, mirando no público universitário, na faixa dos 20 a 30 anos.

As novas histórias buscavam materializar elementos do mundo real no cenário fantástico das histórias de super-heróis, recorrendo alguma vezes à metáfora. Entre os temas, foram propostos a limitação dos super-heróis frente a determinadas situações, o fanatismo religioso, a violência contra minorias, a AIDS, as implicações do surgimento e da criação de superpoderes para a saúde e a biologia, a interferência de meta-humanos na política e na agenda dos governantes, as escolhas éticas presentes nas decisões dos super-heróis, a contracultura, o pavor de uma ameaça desconhecida infiltrada, a visão de pessoas comuns cujo cotidiano era invadido por super-humanos. Em 2006, o mercado americano de quadrinhos cresceu 13% em relação ao ano anterior, um grande avanço comparado ao final dos anos 90. Já em 2007, este crescimento ficou em 9%, segundo a distribuidora Diamond Comics.

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