As Eras dos Quadrinhos – Parte 11

Conclusão – Hal Jordan ou Kyle Rayner ?

Green Lantern #100
Green Lantern #100

As novas origens têm o mérito de serem histórias mais coerentes com o momento em que vivemos. Permitem que um novo público se forme, apoiado em um background renovado e capaz de apelar aos seus interesses e ideais, e de produzir identificação com o ambiente do leitor, deixando de insistir na base já obsoleta desenvolvida anos atrás. Que sentido uma equipe de pessoas com 30 anos que ganharam poderes na corrida espacial da Guerra Fria faria para os jovens nascidos após a queda do Muro de Berlim? Só se fosse uma obra retratando uma fase histórica, com caráter de relíquia e curiosidade, mas não causaria comoção como uma série corrente.

Claro, sempre haverá quem defenda e prefira o Superman da Era de Prata, com seus poderes sem limites, suas kriptonitas multicolores e suas transformações bizarras. A explicação para esse gosto é simples. Essas pessoas cresceram vendo o Superman agir dessa maneira, adequada ao mundo e à época em que desenvolveram seus valores e formaram suas perspectivas. Para elas, este é o verdadeiro Superman, esse é o paradigma legítimo. Ao seu ver, a identificação era mais fácil anos atrás porque aquele era o mundo deles. E a identificação que permite a projeção é o segredo do sucesso dos super-heróis.

Toda vez que os quadrinhos estabelecem um novo caminho para seus personagens percorrerem, surge uma nova onda. Aqui se encaixa outro postulado, a Teoria das Metamorfoses de Mensch, que sustenta a análise histórica das histórias em quadrinhos como uma sucessão de ciclos conduzidos por um grupo definido de valores. A teoria do economista alemão diz que a acumulação capitalista vem em ciclos sistêmicos sucessivos. O mesmo ocorre com as Eras dos quadrinhos. Cada uma delas é guiada por um paradigma, uma idéia geral, um consenso de como os heróis devem ser. Essa idéia domina o modo de produção e se expande. Na época da bolha especulativa, foi possível perceber o quanto esse paradigma se difundiu. Com o tempo, essa maneira de ver os heróis acaba sendo explorada ao máximo, até se desgastar, ou seja, perder a audiência. Isso se repetiu em cada Era, e a bolha explodiu. Com sua estagnação, outra forma de ver os super-heróis surge, e vai, com o tempo, tornando-se sua principal corrente, a pautar e a guiar o sistema.

Gráfico Tempo x Índice de Crescimento: A área situada entre os pontos a e b representam os períodos de transição.
Gráfico Tempo x Índice de Crescimento: A área situada entre os pontos a e b representam os períodos de transição.

Entre o abandono do primeiro paradigma e adoção do segundo, há um período de desaceleração do crescimento, em que o primeiro ciclo estaciona e, ao mesmo tempo, o novo se põe em movimento. Estes são os períodos de transição apresentados anteriormente, em que a indústria não tem uma direção e, entre abandonar o estabelecido (heróis contra nazistas, por exemplo), ela busca novos caminhos (western, horror, romance), até encontrar um novo rumo (heróis com poderes baseados na ficção científica). Muitas vezes, para a adoção de um novo paradigma se faz necessária uma crise que rompa o fluxo. Um exemplo é a morte de Gwen Stacy, embora Crise nas Infinitas Terras, da DC, seja um ponto de ruptura mais característico.

Toda essa revisão da história dos quadrinhos explica, exemplifica e permite concluir que os heróis precisam se adaptar para não serem destruídos, para que não permaneçam imaculados como um dogma. Hoje é o tempo da sinergia: a adaptação dos super-heróis a outras mídias e a outras gerações é bem-vinda, pois é ela manterá estas lendas vivas, atraindo novos e ávidos leitores/consumidores.

Em seu Manifesto Morrison, o escritor de WE3 comenta o futuro dos X-Men, personagens cuja revista que assumiria em 2001, afirmando que era hora da indústria de quadrinhos olhar para outro lado. O autor escocês diz que Marvel e X-Men deviam estar novamente em destaque na mídia e que era hora de capturar a audiência universitária e moderna porque este grupo está maior e mais consumidor do que nunca. Na época, filmes como Matrix e séries como Buffy faziam sucesso, abrindo caminho para os filmes de super-heróis e as séries de TV que estariam presentes em quase todas as conversas desse tipo de público. Morrison dizia que seus arcos deveriam ser como uma temporada de 24 Horas. Começo, meio e fim, com desenvolvimento e resolução dos personagens. Na próxima temporada, ou no novo arco, surgiria uma nova situação, e as cenas reiniciariam como se alguém fosse ver ou ler pela primeira vez.

 "Meu quadrinho ideal é aquele que expressa perfeitamente seu momento e te faz querer dançar, como seus discos prediletos fazem”
“Meu quadrinho ideal é aquele que expressa perfeitamente seu momento e te faz querer dançar, como seus discos prediletos fazem”

Essa aproximação entre séries de TV e quadrinhos está mais presente do que nunca, principalmente levando em consideração quantos profissionais trabalham para as duas mídias. Podem ser citados Brian K. Vaughan, Brad Meltzer, Jeph Loeb, J. Michael Straczinsky, Joss Whedon, Allan Heinberg, Paul Dini e Richard Donner, apenas para dar uma idéia. Atualmente, o mais comum é que as editoras programem seus arcos de histórias para durar cerca de seis edições e, passado algum tempo, reuni-las e lançar um encadernado contendo toda a saga. Hoje, além dos quadrinhos indie e dos webcomics, são os Trade Paperbacks (encadernados) ofertados em livrarias que desafiam o mercado direto: em 2007, tiveram um aumento de 20% na venda.

Isso é uma mudança de paradigma. Refletindo-a, uma modificação no perfil do consumidor, torna necessária uma modificação no conteúdo oferecido. O espírito da época deve estar presente nos quadrinhos, caso contrário os leitores não os tornarão válidos. “Meu quadrinho ideal é aquele que expressa perfeitamente seu momento e te faz querer dançar, como seus discos prediletos fazem”, disse o próprio Morrison. “O quadrinho ideal seria uma condensação holográfica de puro zeitgeist”.

Bibliografia:

ARRIGHI, Giovani. O Longo Século XX. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

BLUMBERG, Arnold T.. The night Gwen Stacy died: the end of innocence and the birth of Bronze Age. Disponível em: http://reconstruction.eserver.org/034/blumberg.htm

CONROY, Mike. 500 great comic book action heroes.New York: Barron’s, 2002.

DANIELS, Les. DC Comics: A celebration of the world’s favorite comic book heroes.New York: Billboard Books, 2003.

ECO, Umberto. O Mito do Superman. In: Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 2001.

GUEDES, Roberto. Quando surgem os super-heróis.São Paulo: Opera Graphica, 2004.

KNOWLES, Chris. Our gods wear spandex: the secret story of comic book heroes.  San Francisco: Red Weel/Weiser, 2007.

LEWIS, A. David. The Hydrogen Age. Coluna do site Broken Frontier. Disponível em: http://www.brokenfrontier.com/columns/details.php?id=185

WRIGHT, Bradford W. Comic Book Nation: the transformation of youth culture. Baltimore: The JohnHopkinsUniversity Press, 2003.

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No próximo post, uma atualização da matéria para os dias atuais. De 2008, quando a matéria foi publicada originalmente a 2013.

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