As Eras dos Quadrinhos, História dos Quadrinhos, quadrinhos
Comentários 3

As Eras dos Quadrinhos – Post Scriptum

The Avengers - Os Vingadores (2012), arrecadou mais de 1 bilhão de dólares no mundo todo.

The Avengers – Os Vingadores (2012), arrecadou mais de 1 bilhão de dólares no mundo todo.

Contrariando as previsões de Mark Millar, de que a indústria de comics teria um ritmo de crescimento menor na década de 2010 e também a despeito da crise econômica mundial que se abateu sobre os EUA e o mundo a partir de 2008, o mercado de quadrinhos vai muito bem, obrigado. Segundo dados do ICV2, entre 2003 e 2013, o crescimento foi de 96%. Isso se deve, em grande parte, para o grande destaque dos comics em outras mídias, seja em animações, séries de TV, filmes e até mesmo a internet.

Em 2 de maio de 2008 estreava o filme do Homem de Ferro, o primeiro do Marvel Studios, que pretendia fazer nas telonas o que já era feito nos gibis: um universo interligado. A estratégia deu certo, e nos anos seguintes seriam lançados Thor, Capitão América – O Primeiro Vingador, além do segundo filme do latinha. Tudo isso para culminar em 2012 com um dos maiores fenômenos do cinema, The Avengers – Os Vingadores, reunindo todos estes personagens. O filme teve a maior abertura da história, arrecadando mais de 207 milhões de dólares. O lucro total do filme ultrapassou 1 bilhão de dólares. A DC também não fez feio, pois o recorde de abertura anterior a Vingadores pertencia a Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) que ultrapassou os 155 milhões de dólares. Em 2012 a editora das lendas lançava a sequência final da trilogia do Homem-Morcego, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que ficou em 8º lugar das bilheterias de todos os tempos.

O Retorno de Bruce Wayne, a efemeridade das mortes nos quadrinhos.

O Retorno de Bruce Wayne, a efemeridade das mortes nos quadrinhos.

Em meio a todo sucesso de Batman e Capitão América nos cinemas, os dois sofreram revezes nos quadrinhos. Ao final da megassaga Guerra Civil, de 2007, o Capitão América era morto, baleado a caminho de um julgamento. Por sua vez, ao final de outra megassega, Crise Final, de 2009, era a vez de Bruce Wayne morrer enfrentando Darkseid. Steve Rogers deu lugar ao seu parceiro-mirim, Bucky Barnes e o Batman deu lugar ao outrora Robin, Dick Grayson. As mortes de ambos os heróis foram muito divulgadas nas mídias americanas e internacionais, instigando o interesse dos leitores e do público em geral. Porém, como mortes nos quadrinhos não duram para sempre, dois anos depois Steve Rogers retornava em Capitão América Renasce e o Batman, um ano depois, em O Retorno de Bruce Wayne. Vale lembrar que não é a primeira vez que estes heróis são substituídos. Nos anos 90, o Capitão teve uma série de problemas com o soro do supersoldado e teve de usar uma armadura e o Batman, teve sua coluna quebrada por Bane, personagem que repetiria o feito no último filme da trilogia de Christopher Nolan.

Durante este tempo vimos iniciativas dignas de nota, mas que não lograram muito sucesso, como os selos Zuda e Minx da DC Comics. O Zuda Comics era um portal de webcomics onde os participantes entravam em um concurso para ter seu material publicado em uma compliação pela editora. Durou de 2007 a 2010. Já Minx, capitaneado pela editora da Vertigo Karen Berger era um selo voltado para o público adolescente feminino. Durou um ano e a série de maior sucesso foi New York Four, de Brian Wood e Ryan Kelly, que teve uma continuação, New York Five, em 2011.

Kick-Ass, de Mark Millar e John Romita Jr., virou filme e revolucionou os quadrinhos autorais.

Kick-Ass, de Mark Millar e John Romita Jr., virou filme e revolucionou os quadrinhos autorais.

Brian Wood, um dos grandes nomes e um dos autores mais prolíficos do período, há muito tempo vinha trabalhando com séries autorais, em editoras menores, até que foi chamado para escrever a série DMZ para a Vertigo (o autor já havia trabalhado na Marvel durante o Counter X de Geração X). Junto a Mark Millar, Brian Bendis e Ed Brubaker, para citar os nomes mais proeminentes, Wood faz parte de uma geração de autores que iniciou nos quadrinhos autorais, teve sua carreira incensada através de participações em revistas de boas vendagens nas duas maiores editoras de comics dos EUA e continuam a escrever séries autorais. É a revolução do quadrinho independente que voltou com mais força nos anos 2000. Mark Millar, por exemplo, lançou seu próprio selo o Millarworld e publica suas séries autorais por diferentes editoras, tendo se concentrado mais ultimamente no selo Icon da Marvel. Ele foi responsável por sucessos do cinema como O Procurado e Kick Ass – Quebrando Tudo. Esses autores continuam a chegar e mostrar seu trabalho, para então partirem para uma forma mais lucrativa de trabalho, na qual os diretos sobre as criações são exclusivamente suas. Exemplos mais recentes são Rick Remender, Nick Spencer e Scott Snyder.

Justice League #1, de Geoff Johns e Jim Lee, vendeu mais 200 mil cópias.

Justice League #1, de Geoff Johns e Jim Lee, vendeu mais 200 mil cópias.

Estes três nomes também participam das reformulações dos universos DC e Marvel, as inciativas Os Novos 52 e Marvel NOW! A primeira trata-se de uma reformulação (quase) total da editora de Superman, encabeçada pelos co-publishers Dan DiDio e Jim Lee e também pelo diretor de criação Geoff Johns. Após os eventos da minissérie Flashpoint (Ponto de Ignição, no Brasil) o universo DC é reformulado e todas suas série são renumeradas, com o intuito de atrair novos leitores para a editora. Além de trazer novas versões de vários heróis, a editora também integrou em seu universo regular personagens dos selos Wildstorm (vendida para a DC em 1999 e extinta em 2010) e Vertigo. Isso aconteceu em 2011, e a revista Justice League #1 vendeu mais de 200 mil cópias, um feito inédito desde a década de 90, principalmente se levarmos em conta o fenômeno do scans e a pirataria ilegal. Por um lado, a DC até se beneficiou com esse fato, visto que o Annonnimus, um dos grupos de pirataria e de reivindicação de direitos, usa da imagem do personagem V, da série V de Vingança de Alan Moore e David Lloyd (que virou filme em 2005 pelos Irmãos Wachowsky), popularizando ainda mais a série, fazendo a DC comercializar a graphic novel com máscaras do personagem inspirado em Guy Fawkes.

Na editora rival, Axel Alonso, o novo editor-chefe da Marvel pôs em prática o Marvel NOW!, substituindo longas runs de autores/artistas, com novos artífices, sem, contudo, se desligar da cronologia do universo de super-heróis. Entre o final de 2012 e o início de 2013 estão sendo lançados novos nos. 1 de inúmeras séries da Casa da Idéias e a recepção de público e crítica vem sendo positiva.

 The Walking Dead #100, de Robert Kirkman e Charlie Adlard, o maior sucesso de vendas desde a década de 90.

The Walking Dead #100, de Robert Kirkman e Charlie Adlard, o maior sucesso de vendas desde a década de 90.

Mas o maior sucesso deste período nos comics americanos, não se trata de um quadrinho de super-heróis, mas sim da série independente criada por Robert Kirkman e Tony Moore em 2003, The Walking Dead. Uma das séries mais bem-sucedidas da década da editora Image Comics, tornou Kirkman um dos sócios da empresa, fundada apenas por artistas. Walking Dead já vinha sido bem-recebida pelo público dos comics e pela crítica especializada por mostrar não apenas lutas contra zumbis, mas os conflitos entre humanos num mundo pós-apocalíptico. A revista ganhou notoriedade mundial quando foi transformada em série de TV pelo canal pago AMC em 2010 e se tornou um sucesso, batendo recordes de audiência para um show da TV a cabo. Para se ter uma ideia, a retomada de temporada neste ano de 2013 atingiu o índice de 12,3 milhões de espectadores, batendo seu próprio recorde de estreia. É claro que isso se refletiu nos quadrinhos, fazendo a Image lançar e relançar compêndios da série para todos os gostos, além de uma série semanal, The Walking Dead Weekly, relançando a série desde o primeiro número. Outro indicador que reflete o sucesso da série nos quadrinhos e na indústria de comics como um todo foi outro recorde: os mais de 380 mil exemplares solicitados no primeiro pedido dos varejistas para edição número 100 de The Walking Dead.

Astonishing X-Men #51, o casamento de Jean-Paul Beaubier (Estrela Polar) e Kyle Jinadu. Relevância social?

Astonishing X-Men #51, o casamento de Jean-Paul Beaubier (Estrela Polar) e Kyle Jinadu. Relevância social?

Com todos esses fatores, o mês de janeiro de 2013 terminou, em comparação ao ano que passou, com um acréscimo de 22% na venda das revistas e de 37, 89% na de graphic novels. Nada mais satisfatório para um mercado que vive de altos e baixos como o de comics. Entretanto, se pararmos para analisar podemos ver que o período atual da história dos comics possui algumas características vintage. E tudo que se torna vintage (dizem que é a partir de 13 anos passados) tende a retornar como tendência. Podemos encontrar nos dias de hoje o fenômenos dos números um, as mortes e retornos de heróis, os filmes e séries de TV influenciando os quadrinhos, a relevância social dada às questões gays (como o casamento de Estrela Polar), a ascensão dos independentes e um certo revival dos anos 90, nem tanto nas histórias, mas em personagens e retorno da valorização de artistas daquele período. Todos esses fatores vintage já estiveram presentes, de uma forma ou de outra em outras eras dos quadrinhos. O que teremos de nos perguntar, passados 13 anos, é se essas modificações na indústria terão gerado um novo paradigma ou se apenas estamos vendo repetições de fórmulas de sucesso.

Anúncios

3 comentários

  1. Pingback: Por que os quadrinhos são mais importantes hoje do que nunca foram? | Splash Pages

  2. Eu todos os textos sobre As Eras do Quadrinhos. Gostei e achei bastante elucidativo.
    Ainda sinto falta de um compedium de sobre historiografia dos quadrinhos, não só de forma linear, mas abordando o estado da arte, forma de literatura, linguagem, filosofia e outros temas que são pertecentes à essa mídia.

    Achei bastante pertinente falar que cada era é fruto de sua época, ou como você disse, o “Zeitgeist”.
    No geral, me colocou para pensar em alguns coisas sobre o quadrinhos que eu ainda não havia medido, quando os quadrinhos e seus desdobramentos na história.

    Vejo o cinema como um extensão desses quadrinhos, e ainda estão na fase da “Era de Ouro”, porque ainda, na sua grande maioria, o que sai por ai são história ingenuas ou infanto-juvenil demais (falo “infanto-juvenil” por ser bobas, ou como dizem, “teens” demais, mas não demerecendo os bons infato-juvenis que tem um monte). Claro! Há excessões como o Batman do Nolan e salvo também o do Tim Burton. Mas ainda é um processo que vai crescendo e superando tempo á tempo.
    Como o Alan Moore falou uma vez “esse heróis ainda são muito bobos e ingenuos demais”.

    Abraços.

    Curtir

    • guilhermesmee diz

      Valeuzes, Leonardo! Gostei bastante de escrever essa série. Geralmente escrevo outros postar na categoria história dos quadrinhos! Dá uma olhada! Abraços!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s