Quadrinhos e Violência, por Mikal Gilmore

Orquídea Negra, por Neil Gaiman e Dave McKean.
Orquídea Negra, por Neil Gaiman e Dave McKean.

“(…) Orquídea Negra chega a uma conclusão redentora e imprevisível. Aliás, em 1988, quando a obra apareceu pela primeira vez nas lojas especializadas em quadrinhos, em três episódios, diversos leitores tiveram dificuldade em aceitar que o conto realmente terminara no ponto e da forma como se encerrou, e ficaram na espera por um quarto volume que o encerrasse em terreno mais familiar. Afinal, no mundo dos quadrinhos – assim como no do cinema, da literatura e da política internacional –, qualquer conto que começa com violência necessariamente deve terminar com violência (afinal, fora matar o oponente, são poucas as táticas que resolvem uma disputa com a mesma eficácia). Além disso, a violência tem ganhado certo prestígio estético nos quadrinhos. Há momentos em que parece que a mídia foi projetada para fazer convite à contemplação de atos brutais e conflitos físicos. Numa página de quadrinhos, você pode congelar um ato enquanto ele acontece ou mesmo antes de ele acontecer; pode estudá-lo em detalhe, sua lógica e sua arte, e ao fazê-lo talvez possa conjeturar quanto aos mistérios da violência – ou seja, entender não apenas como ela acontece, mas também por quê. Se estudarmos tais momentos por tempo o bastante, talvez possamos encontrar uma maneira de impedir que os mesmos se repitam no mundo ao nosso redor – ou talvez simplesmente fiquemos com tamanha repulsa a tais atos que a violência real nos intrigue menos. Ou ainda, quem sabe, o inverso: ao congelar um instante de violência na página, talvez queiramos apenas encontrar uma maneira mais eficaz de curtir a violência, de examiná-la em minúcias e nuances, demorada e prazerosamente”.

Mikal Gilmore, editor e colaborador da Rolling Stone (1991). Excerto da introdução à Edição Definitva de Orquídea Negra, de Neil Gaiman e Dave McKean (Panini, 2013). É interessante ler esse texto principalmente depois de ter lido o filme e assistido ao filme de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess e Stanley Kubrick. Quadrinhos (assim como o cinema, a literatura e a política internacional) não são só ação, não só violência, não são só blablabla. Não são só feitos para divertir e também não são feitos só para se refletir. Quadrinhos, como toda forma de arte, sevem de catarse e também são uma forma de se expressar, seja pelas escolhas que fazemos produzindo ou fruindo os mesmos.

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