Clássicos Ilustrados, por George R. R. Martin

Classics Illustrated #05 (1964) Giberton Publishing
Classics Illustrated #05 (1942), Giberton Publishing. Publicada no Brasil em Edição Maravilhosa – 2ª Edição #04 (1958), Editora Brasil-América Ltda.

“(…)E então havia a Classics Illustrated. Talvez tenham sido as primeiras graphic novels: romances seminais da cultura ocidental (misturadas com alguns que eram, hum, menos seminais) adaptados para os quadrinhos. Não colecionei a Classics Illustrated com a mesma assiduidade que colecionava os títulos da Marvel e da DC, mas comprei alguns deles ao longo dos anos. Mais tarde, no colégio e na faculdade, eu iria ler muitos dos trabalhos originais nos quais os quadrinhos foram baseados, mas isso foi anos depois. Os funny books vieram primeiro. Um conto de duas cidades, A máquina do tempo, A guerra dos mundos,  Grandes Esperanças, Moby Dick, Ivanhoé, A Ilíada, O último dos moicanos, A casa das sete torres, Os  três mosqueteirios, As mil e uma noites, até mesmo Macbeth… Eu li primeiro como funny books. Muityo antes de ler uma palavra de Dickens, Wells, Melville, Dumas ou Shakespeare, me deparei com Sydney Carton, O Viajante do Tempo, Capitão Ahab, D’Artagnan e Lady MacBeth nas páginas de papelk-jornal e impressas em quatro cores. E embora (ainda) não tivesse lido os livros, devorei as histórias.

Funny books – ou histórias em quadrinhos – eram controvesos nos anos 1950. Eles era amplamente lidos, especialmente pelas crianças (hoje, o público de quadrinhos é muito mais velho e muito, muito menor). Mas eles não eram aprovados por. Havia um psiquiatra chamado Fredric Wertham que alegava que os quadrinhos causavam a delinquência juvenil, e centenas de milhares de adultos aparentemente inteligentes acreditaram nele. Os professores confiscavam os seus quadrinhos na escola e preveniam que ler coisas assim iria “apodrecer, corremper e perverter a sua mente”. As mães jogariam fora a sua coleção assim que você virasse as costas (entretanto, não a MINHA mãe, tenho prazer em dizer). Quadrinhos sobre crime, quadrinhos de horro e até mesmo quadrinhos de super-heróis eram especialmente insultados, quase certo de transformar qualquer criança saudável em um criminoso violento. Os quadrinhos com animais engraçados ganhavam passe livre  como diversão inofensiva.

Classics Illustrated #04 (1990), First Comics, por Bill Sienkiewicz
Classics Illustrated #04 (1990), First Comics, por Bill Sienkiewicz. Publicada no Brasil em Classics Illustrated#1 (1990), Abril Jovem.

Mas os censores e críticos se dividiam a respeito de livros como as  Classics Illustrated. Alguns consentiam que eles poderiam ser coisa boa, vendo como ajudaram a introduzir as crianças `”literatura de verdade”. Outros insistiam que quadrinhos eram quadrinhos e somente quadrinhos, que aquela adaptações violentavam os grandes livros em que se baseavam, banalizando-os, e roubavam o leitor dos prazeres, encantos e deleite do original. Moby Dick em quadrinhos não era Melville, insistiam.

Estavam certos, é claro. Mas estavam errados também. Não Moby Dick em quadrinhos não era Melville, nunca poderia ser Melville… Mas a história ainda estava lá, e aqueles de nós que leram aquele quadrinho ficaram ainda mais enriquecidos por terem navegado no Pequod, e conhecido Ishmael, Quequeg e o Capitão Ahab. Para muitos, os quadrinhos da Classics Illustrated foram a porta de entrada que nos conduziu para drogas mais pesadas – os romances originais.

A história em quadrinhos não é o livro. A graphic novel não é o romance. O mesmo claro, é verdade para os filmes e a televisão. Quando adaptamos uma história de um meio para outro, não importa o quão fiéis tentamos ser, algumas mudanças são inevitáveis. Cada meio tem suas próprias restrições, sua própria maneira de contar uma história(…)”.

George R. R. Martin, criador da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo. Extraído da introdução do primeiro volume da graphic novel de Guerra dos Tronos. (Leya Brasil/Barba Negra, 2012).

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