Mês: abril 2013

Krazy Kat e o 11 de Setembro, por Art Spiegelman

“(…) Mas quem me pegou em cheio foi Krazy Kat. O triângulo amoroso Kat-Pupp-Mouse, de George Herriman, foi universalmente acolhido como a joia no  chapéu de bobo da minha forma de arte; e ao menos uma vez aceito entrar no coro que incluiu juízes culturais como cummings e Umberto Eco. Houve muitas tiras de “uma nota só” na história dos quadrinhos, como o efêmero Little Sammy Sneeze, de Winsor McCay, sobre um vira-latas de roncos potentes que derrubam o que estiver por perto: um carrinho de vendedor ambulante e, quem sabe, toda uma cidade. Mas nunca nada se comparou a Krazy Kat: a tira lírica e idiossincrática em estilo rabisco-deco apresentava um Kat que adora ser “esmagado por um tijolo” jogado por um rato de maus bofes, Ignatz, que em seguida é perseguido por um certo Ofissa Pupp (um buldogue discretamente apaixonado por Kat), que arremessa o vilão numa prisão feita de… tijolos! Os admiradores da tira podiam ler – e liam – as variações cotidianas de Herriman: da alegoria política (Mouse como anarquista, Kop …

15 HQs Ao Redor do Mundo

Além das pioneiras HQs franco-belgas, Tintin e Asterix, que nos apresentaram o mundo do passado e do presente visto dos olhos dos francófonos, existem outras HQs que retratam o estilo de vida nas mais diferentes partes do mundo. Aqui vai uma lista de 15 delas que li e recomendo: Adeus, Tristeza – A História de Meus Ancestrais, de Belle Yang China. Os desenhos, seguindo a tradição de Persépolis, parecem terem sido feitos por uma criança. Entretanto, a história dos ancestrais de Belle conta, além de muitas traições, casos de amor e brigas em família, a história da China. Cem anos de história: a invasão da Manchúria pelos japoneses, a Segunda Guerra Mundial, a grande fome e a ascensão dos comunistas ao poder. Apesar dos desenhos serem quase infantis, eles ostentam no contraste inocência/brutalidade uma grande carga de poesia.   A Arte de Voar, de Antonio Altarriba e Kim Espanha. Da mesma forma que Yang faz em Adeus, Tristeza, Antonio Altarriba volta no tempo para contar a história do seu pai que percorre praticamente todo o …

Músicas com Superman

Como muitos sabem, Superman completou 75 anos no último dia 18. Ele inspirou muitas canções também. Muito vai além de “Foge, foge, Mulher-Maravilha, foge, foge, com Superman”, aqui vão minhas preferidas músicas inspiradas no Superman:     Superman – Five for Fighting “Eu sou apenas um homem, em um lençol vermelho tolo Mineirando kriptonita nesta via de mão única Apenas um homem num lençol vermelho engraçado Procurando por coisa especiais dentro de mim” http://letras.mus.br/five-for-fighting/1867202/#     Waitin’ for Superman – Flaming Lips “Contem a todos Esperando por um Superman Que eles devem tentar aguentar O melhor que puderem Ele não os os largou Os esqueceu Ou coisa assim É apenas muito pesado para o Superman suportar”. http://letras.mus.br/flaming-lips/14930/#     I’m no Superman – Lalzo Bane (abertura de Scrubs) “Bem Eu sei o que tenho falado Você tem que trabalhar pra alimentar sua alma Mas eu não posso fazer tudo isso sozinho Não, eu não sou nenhum Superman Não sou nenhum Superman”. http://letras.mus.br/lazlo-bane/242637/#

Superman e o Merchandising, por Gerard Jones

O Merchandising no Mundo dos Quadrinhos “Na sexta história publicada de Superman, talvez a primeira concebida para sair num gibi (N.B.: Sim! As primeiras revistas do Super eram recortes e colagens de tiras de jornais), Jerry (Siegel) e Joe (Shuster) mostrarm que partilhavam com os leitores o conflito entre cinismo e sonhos. Eles jogaram o herói contra um aspirante a empresário que vende o nome do herói a um fabricante de carros, coloca uma cantora de cabaré gemendo uma canção de amor não correspondido para ele e patrocina um programa de rádio do herói. “Ora, ora, eu até já providenciei para que ele apareça nos quadrinhos”. Eles parodiaram o gênero antes de o gênero existir. Primeiro o super-herói desafia esse mesmo público a acompanhá-lo a sério nas fantasias de poder. Depois de todas as gags, é um prazer ver o substituto do Super-Homem que o empresário havia contratado, quebrar o punho no peito de aço do verdadeiro herói. O Merchandising no Mundo Real (…) Todas as cadeias de rádio rejeitaram a oferta (de um programa …

Minha Primeira Revista em Quadrinhos

Eu tinha oito anos e precisava ser vacinado contra o sarampo. Era uma campanha massiva de divulgação nacional, havia comerciais na televisão com a Xuxa dizendo “Xô, Xarampo!”e havia também a participação de Didi e Mônica. No dia da vacinação, que aconteceu em 1992, me lembro de uma sala cheia de azulejos brancos e de uma pistola automática que fazia a injeção doer menos. Bem próximo da minha marca de BCG, que na época me ajudava a saber qual era o lado esquerdo e o direito das coisas. Mas eu estava mais ansioso para tomar aquela injeção porque sabia que depois de aplicada eu iria ganhar um gibizinho. Sim, gibizinho. Os gibizinhos estavam na moda naquela época. “Gibizinho, gibizinho, gibizão, cabe no bolsinho e na palma da mão”. Eram metade do tamanho dos gibis formatinho e traziam no máximo dois quadros por página. Tinha gibizinho de vários personagens. Enfim, voltando à vacinação, eu, meus primos e todas as crianças que tinham idade para se vacinar contra o sarampo naquela época e no país, ganharam o …

Desmitificando os Super-Heróis, por Manuel Jofré

“A ideologia burguesa tem como função objetiva inverter a realidade. Nega a existência de classes sociais, definindo os homens como um todo coerente e unido, por exemplo. Ou, em outro momento histórico, não se preocupa em negar as classes sociais, as quais aceita, senão que nega a luta de classes e propõe, em toca, a possibilidade de ascensão social para alguns (arrivismo). Também pode propor soluções universais pra os conflitos: o amor (assexuado, evidentemente). O papel da ideologia é eliminar as contradições que os homens e o sistema social capitalista possuem. Nega ou deforma o fato histórico de que existem países desenvolvidos e subdesenvolvidos (fixando o espaço das histórias em quadrinhos numa terra de ninguém, como, por exemplos, nos casos do oeste, da selva ou da Gotham City de Batman), nega a existência da burguesia e do proletariado (colocando o rico como paternalista e o pobre como delinquente, vivendo em harmonia), nega a transformação social (propondo um mundo circular onde sempre triunfam os super-heróis, seja Batman, Tarzan ou Zorro), nega a propriedade privada dos meios …

Deuses, Deusas e Super-Heróis Atuais, por Miranda Bruce-Mitford

“Alguns personagens modernos de ficção alcançaram um status de semideuses similar ao dos antigos heróis gregos. Ninguém imagina que o Super-Homem e assemelhados sejam  pessoas reais, mas eles encarnam o arquétipo masculino da força poderosa e heroica que luta pelo bem. Ao consertar as coisas erradas do mundo, atendem a uma necessidade inata de todos nós. Astros das artes e do esporte também cumprem esse papel. Desde a morte de Elvis Presley, por exemplo, sua moradia em Graceland, nos Estados Unidos, se tornou um verdadeiro santuário, um centro de peregrinação para milhões de seguidores devotados. Heróis esportivos, como Ayrton Senna, ta,bem atraem um grande número de adeptos, principalmente homens, despertando neles a identidade de grupo. Essas necessidade também são atendidas em apresentações de rock, quando a plateia acende fósforos, isqueiros e velas para exprimir devoção a seus astros. O conjunto de pequenas chamas resultante remete ao simbolismo do fogo nas religiões e culturas ao longo da história”. Retirado de O Livro Ilustrado dos Símbolos, de Miranda Bruce-Mitford (Publifolha, 2001), pág. 11.

O TransGênero Super-Heróis

“Girls who want boys who like boys to be girls who do boys like they’re girls who do girls, like they’re boys Always should be someone you really love”. Blur – Girls and Boys Essa semana a DC Comics anunciou a revelação do que seria o primeiro personagem abertamente transgênero dos quadrinhos mainstream. Ela seria Alysia, a companheira de casa de Barbara Gordon, a Batgirl. A personagem já havia aparecido desde o primeiro número da série da filha do Comissário Gordon, mas a revelação aconteceu somente no número 19, deste mês. A  roteirista responsável pela criação de Alysa, Gail Simone, foi demitida pela DC Comics através de um e-mail e foi substituída por duas edições. Até que a manifestação dos fãs fez com que a escritora retornasse ao título. Além de conhecida por seu humor em séries como Deadpool, Agente X, Aves de Rapina e Sexteto Secreto, Simone, também é uma grande debatedora dos papéis de gênero nos quadrinhos. Antes de se destacar como roteirista, Gail possuía um site chamado Women in Refrigerator, que aludia …

Cinema vs. Quadrinhos, por Will Eisner

As diferenças entre as mídias, segundo Will Eisner, em seu livro Narrativas Gráficas: FILMES O público é transportado através da narrativa. Ela não deixa o tempo para contemplar ou saborear as passagens. O observador é um espectador da realidade artificial. TEXTO A aquisição requer a capacidade de ler, o que envolve pensamento, aquisição e lembrança… Os leitores convertem palavras em imagem. QUADRINHOS A aquisição exige menos do que o texto porque as imagens são fornecidas. A qualidade da narrativa depende da disposição de textos e imagens. Espera-se que o leitor participe. Ler a imagem requer experiência e permite a aquisição no ritmo do observador. O leitor deve fornecer internamente o som e a ação das imagens.

Corujas, Morcegos e Gotham City

Este mês encerrou-se apoteoticamente no Brasil o arco Noite das Corujas, na revista do Batman. Orquestrado por Scott Snyder e Greg Capullo, com histórias de back-ups co-roteirizadas por James Tynion IV e a arte por Rafael Albuquerque, este arco e o anterior, Corte das Corujas, fizeram parte da inciativa Os Novos 52 da DC Comics. A intenção era dar um novo início para os personagens da editora. O Cavaleiro das Trevas foi uma exceção. Sua cronologia continuou valendo, com pequenas (ou talvez grotescas, na opinião de alguns leitores) alterações. Desde o começo, a série publicada na revista americana Batman, sob a batuta dos nomes acima, se destacou das demais. Foi dado à Snyder, por assim dizer, o “controle” do bat-universo, visto o excelente trabalho que o mesmo havia feito nas derradeiras edições de Detective Comics, no pré-reboot. O roteirista é formado em escrita criativa pela Brown University, já trabalhou na Walt Disney World, e leciona escrita em várias universidades, entre elas a Columbia e a New York University. É a densidade de seus roteiros que …