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Corujas, Morcegos e Gotham City

Scott Snyder, roteirista de Batman, Detective Comics, Swamp Thing, American Vampire, entre outros.

Scott Snyder, roteirista de Batman, Detective Comics, Swamp Thing, American Vampire, Severed, entre outros.

Este mês encerrou-se apoteoticamente no Brasil o arco Noite das Corujas, na revista do Batman. Orquestrado por Scott Snyder e Greg Capullo, com histórias de back-ups co-roteirizadas por James Tynion IV e a arte por Rafael Albuquerque, este arco e o anterior, Corte das Corujas, fizeram parte da inciativa Os Novos 52 da DC Comics. A intenção era dar um novo início para os personagens da editora. O Cavaleiro das Trevas foi uma exceção. Sua cronologia continuou valendo, com pequenas (ou talvez grotescas, na opinião de alguns leitores) alterações. Desde o começo, a série publicada na revista americana Batman, sob a batuta dos nomes acima, se destacou das demais. Foi dado à Snyder, por assim dizer, o “controle” do bat-universo, visto o excelente trabalho que o mesmo havia feito nas derradeiras edições de Detective Comics, no pré-reboot.

O roteirista é formado em escrita criativa pela Brown University, já trabalhou na Walt Disney World, e leciona escrita em várias universidades, entre elas a Columbia e a New York University. É a densidade de seus roteiros que chama a atenção. Diálogos internos nas histórias do Batman se tornaram um padrão, mas nas histórias de Snyder eles tomam outra dimensão. Ele passa a analisar não apenas os aspectos internos do personagem, mas também os externos, fundindo-os, assim, em textos ricos em informações, porém instigantes.

Detalhe da capa de Batman#3 (2011), por Greg Capullo.

Detalhe da capa de Batman#3 (2011), por Greg Capullo.

Na história que abre a nova série, Bruce Wayne discute sua relação com Gotham City, a ponto de dizer que as pessoas veem Gotham como “a cidade do Batman”. Em paralelo a isso, ele enfrenta uma rebelião no Asilo Arkham. O que nos leva a refletir sobre o significado da palavra “gótico”, que deu origem ao nome da cidade. O estilo gótico só foi nomeado alguns séculos depois de seu auge, classificado como o oposto da perfeição, relacionado com o que é obscuro e negativo. Nada mais apropriado não apenas para as construções da cidade do Homem-Morcego, mas para seus habitantes, principalmente os internos do Arkham e inimigos do Batman. O termo gótico vem dos godos, o povo bárbaro que arrasou o Império Romano em 410. O gótico só começou a ser valorizado com o início do romantismo, sendo usado como inspirações para obras de escritores como Goethe e muitos mestres do terror como Mary Shelley e Bram Stoker.

É no segundo número da revista que essa relação entre Gotham e o gótico se torna mais evidente. A história abre falando sobre a Torre de Gotham, construída por um dos antepassados de Wayne, que é ornada pelos “Cinco Guardiões”, cinco gárgulas, um dos ícones da arquitetura gótica. As gárgulas, que vigiam a cidade, indicam que o demônio está sempre de olho em você, assim como o Batman está de olho nos fora-da-lei. Outras histórias do Batman tratam da arquitetura de Gotham, uma delas, é Gates of Gotham, escrita pelo mesmo Snyder e Kyle Higgins e desenhada por Trevor McCarthy; a outra é Death by Design, escrita pelo renomado designer de logos e capas de livros e revistas Chip Kidd e desenhada por Dave Taylor. Não tive a oportunidade de ler nenhuma das duas, por isso não traçarei comparativos. Ambas permanecem inéditas no Brasil.

Já no terceiro número, o escritor traça um perfil dos novos inimigos do Batman: a Corte das Corujas, e o faz não recorrendo a perfis psicológicos, violência desmedida, golpes oportunos. Não. Ele o faz, assim como fez na nova série do Monstro do Pântano, analisando a biologia. Ele declara que morcegos e corujas são inimigos naturais. As corujas são os predadores dos morcegos, elas constroem ninhos na casa do inimigo. Segundo o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “Entre os astecas, ela (a coruja) é o animal dos infernos. Em muitos Códices, a coruja é representada como a guardiã da morada obscura da terra. Associada às forças ctonianas, ela também é um avatar da noite, da chuva, das tempestades. Esse simbolismo associa-a a um só tempo à morte e às forças do inconsciente luniterrestre, que comandam as águas, a vegetação e o crescimento em geral”.

Batman #5, por Chris Burnham & Natham Fairbairn.

Batman #5, por Chris Burnham & Natham Fairbairn.

A morada obscura da terra é mostrada no quinto número, no qual Bruce Wayne é preso em um labirinto e sentimos a vertigem da loucura que o personagem está experimentando, ao girar a revista para acompanhar a história, já que muitas páginas estão de cabeça para baixo, ou diagramadas lateralmente. Apesar de não ser um recurso tão inovador, serve para compor o clima da edição. Em certo ponto da narrativa descobre-se que o exército da Corte, os Garras, é composto de mortos-vivos. Mais uma relação das corujas com a morte. Segundo o dicionário, “ainda em nossos dias, a coruja é a divindade da morte e guardiã dos cemitérios para numerosas etnias indo-americanas”.

Sem expor spoilers, a grande relação da Corte das Corujas com a morte, contudo, ainda estava para se revelar. E mexe com toda a mitologia do morcego, revelando-se um dos melhores retcons já orquestrado. E ainda deixa o leitor, e muito possivelmente Bruce Wayne boiando na ambiguidade. Talvez esse seja o melhor proveito que podemos tirar de alterações na continuidade como essa: a dúvida, o questionamento. Ainda mais num universo rico como o do Batman recheado por perturbações mentais. As histórias de back-up, em que Snyder é auxiliado por Tynion e Albuquerque, também merecem destaque. Elas compõem todo um novo cenário, apresentando o pai do mordomo Alfred, Jarvis, sua luta contra a Corte e seu pedido para que o filho não sirva aos Wayne. Um pedido que nunca chegou às suas mãos.

A perturbadora mescla de homem/morcego/coruja.

A perturbadora mescla de homem/morcego/coruja.

Snyder chega ao ápice dos retcons contando como os morcegos foram parar nas profundezas das cavernas da Mansão Wayne. O que nos leva de volta ao Dicionário de Símbolos para verificarmos uma passagem sobre os morcegos: “Na África, segundo uma tradição dos fulas, o morcego reveste-se de dupla significação. No sentido positivo, é a  imagem da perspicácia: um ser que vê mesmo no escuro quando o mundo está mergulhado na noite. No sentido negativo, é a figura do inimigo da luz, da pessoa extravagante que faz tudo ao contrário do que deve, e que vê as coisas de cabeça para baixo, como um homem pendurado pelos pés. As grandes orelhas do morcego, no sentido diurno, são o emblema de um ouvido desenvolvido para tudo captar; no sentido noturno, excrescências horrendas. Rato voador, no aspecto noturno: cegueira às verdades mais luminosas, e acumulação, em grupos, de um amontoado de baixezas e deformações morais; no diurno: imagem de uma certa unidade dos seres, cujos limites se apagam no híbrido, graças às alianças”. Tem melhor definição para o Cavaleiro das Trevas?

Como já falei aqui, o Batman nunca foi meu super-herói favorito, mas tenho de reconhecer que, de longe, ele é o que rende as melhores histórias, justamente por causa dessa sua ambiguidade, desse seu aspecto soturno que o imiscui com os criminosos. Snyder, Capullo e seus companheiros fizeram um excelente trabalho com uma nova geração de inimigos para o Homem-Morcego. A coruja, animal símbolo da deusa grega da sabedoria, Palas Atena, também significa conhecimento, iluminação. Seja a nova luz jogada por esses artistas na vida pregressa de Bruce Wayne e na cabeça dos leitores, seja a dúvida que resta ao fim da história, encerro este post falando um pouco do aspecto positivo das corujas (que rendem, ao menos, dois ótimos arcos de história, e lucros para a DC Comics, que comercializa seus softcovers e hardcovers com máscaras dos vilões de rapina) vindo do supracitado Dicionário de Símbolos: “Entretanto, permanece como fato surpreendente que um vetor de símbolo tão universalmente tenebroso e associado às mais sinistras ideias, tenha podido, em algumas línguas latinas, designar como adjetivo a mulher bonita (fr. chouette = bonito(a), être chouette, ser bonito, distinto, perfeito, etc.), passando depois a designar tudo aquilo que é de bom augúrio”.

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2 comentários

  1. Moisés diz

    “Guilherme “Smee” Sfredo Miorando” deveria fazer um curso de redação para aprender que não se usa “o mesmo” e suas variações de gênero e número em um texto. Nunca.

    Curtir

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