Desmitificando os Super-Heróis, por Manuel Jofré

The Green Team (Art Baltazar e Franco e Ig Guara) e The Movement (Gail Simone e Freddie Williams III)
The Green Team (Art Baltazar e Franco e Ig Guara)  – O dinheiro pode comprar a felicidade deles – e eles querem dividí-la com você! e The Movement (Gail Simone e Freddie Williams III) Eles são os superpoderosos desligados do sistema – agora, eles são a voz do povo!

“A ideologia burguesa tem como função objetiva inverter a realidade. Nega a existência de classes sociais, definindo os homens como um todo coerente e unido, por exemplo. Ou, em outro momento histórico, não se preocupa em negar as classes sociais, as quais aceita, senão que nega a luta de classes e propõe, em toca, a possibilidade de ascensão social para alguns (arrivismo). Também pode propor soluções universais pra os conflitos: o amor (assexuado, evidentemente). O papel da ideologia é eliminar as contradições que os homens e o sistema social capitalista possuem. Nega ou deforma o fato histórico de que existem países desenvolvidos e subdesenvolvidos (fixando o espaço das histórias em quadrinhos numa terra de ninguém, como, por exemplos, nos casos do oeste, da selva ou da Gotham City de Batman), nega a existência da burguesia e do proletariado (colocando o rico como paternalista e o pobre como delinquente, vivendo em harmonia), nega a transformação social (propondo um mundo circular onde sempre triunfam os super-heróis, seja Batman, Tarzan ou Zorro), nega a propriedade privada dos meios de produção (mostrando nos quadrinhos apenas economias artesanais e primitivas), nega o sistema capitalista (colocando-nos sempre diante do triunfo do bem), nega as contradições históricas e sociais (convertendo-as em problemas psicológicos de um indivíduo), nega a sexualidade (propõe-se dois tipos de amor: um prazeroso, erotizado e quase bestial, e o outro, legalizado, procriador, inocente), nega a lei da livre concorrência (sobrepondo um esquema moral do mundo, ou o predomínio do acaso), nega a dinâmica dialética (propondo simples conflitos), nega  as contradições insuperáveis do capitalismo (com o super-heróis superando os problemas de justiça), nega a história (mostrando um simples jogo de ações), nega o poder nefasto do capital (assinalando que o dinheiro é uma recompensa), nega os seres humanos (personificando o dinheiro), nega o social (ao mostrar os bons sempre sozinhos), nega a humanidade (colocand o super-herói como um Messias que impõe a justiça e a ordem, convertendo-o em um ser supratemporal dotado de poderes eternos), nega a justiça de classes (fazendo com que o super-herói solucione problemas que a justiça não pode resolver), nega a verdade (construindo o verossímil), nega a realidade (propondo uma aparência), nega a liberdade (o super-herói castiga os que se rebelam, prendendo-os, ou recapturando-os para o sistema), nega a igualdade entre os seres humanos (construindo um mundo baseado em relações verticais de domínio), nega o trabalho (os personagens estão sempre ociosos), nega a criação (originando um mundo repetitivo) e claro que, além de negar muitíssimas coisas mais, a ideologia das histórias em quadrinhos nega a si própria (nunca nenhum personagem as lê)”.

Manuel Jofré, em As Histórias em Quadrinhos e Suas Transformações em Super-Homem e Seus Amigos do Peito, de Ariel Dorfman e Manuel Jofré (Paz e Terra, 1978). Dorfman já havia analisado as histórias Disney em seu livro Para Ler o Pato Donald. Claro, o livro não fala somente mal dos quadrinhos, há também exemplos positivos citados pelos autores. Podemos dizer que, desde que o livro foi publicado no Chile em 1973, muitas mudanças foram propostas aos personagens de quadrinhos de super-heróis, contrariando muitas destas “leis” analisadas pelo autor. Alguns exemplos são os álbuns de Paul Dini e Alex Ross para os heróis da DC, Marvels, de Kurt Busiek e Alex Ross, Reino do Amanhã, de  Mark Waid e Alex Ross, Crise de Identidade, de Brad Meltzer e Rags Morales, Complexo de Messias, saga dos X-Men por vários autores. Os super-heróis tem sido mostrados hoje em dia, como agentes de transformações sociais, impotentes diante de grandes problemas da humanidade, como guerras, fome e miséria. Além disso, têm avançado muito na retratação do amor, do sexo e da sexualidade. Duas séries que prometem mostrar mais a relação homem/capital são as novas revistas da DC: The Green Team – Teen Trillionaries (os 1%), por Art Baltazar e Franco e Ig Guara e The Movement (os 99%), por Gail Simone e Freddie Williams III. Os quadrinhos de super-heróis evoluíram muito desde 73 e, em grande parte subvertendo as “leis” da ideologia burguesa que Manuel Jofré tanto combatia. E sim, os super-heróis leem quadrinhos, como se comprovam muitas capas, entre elas esta, de Astonishing X-Men e esta de Batman:

Os X-Men também lêem X-Men (Astonishing X-Men #12 -2005)
Os X-Men também lêem X-Men (Astonishing X-Men #12 -2005)
Batman e Robin Lêem Batman (Batman #8 - 1941)
Batman e Robin Lêem Batman (Batman #8 – 1941)

PS: Interessante reparar quem era o conselho editorial da Paz e Terra na época de publicação deste livro: Antonio Candido, Celso Furtado, Fernando Gasparian e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

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