Superman e o Merchandising, por Gerard Jones

O cheque de $130 dado aos criadores do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster.
O cheque de $130 dado aos criadores do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster.

O Merchandising no Mundo dos Quadrinhos

“Na sexta história publicada de Superman, talvez a primeira concebida para sair num gibi (N.B.: Sim! As primeiras revistas do Super eram recortes e colagens de tiras de jornais), Jerry (Siegel) e Joe (Shuster) mostrarm que partilhavam com os leitores o conflito entre cinismo e sonhos. Eles jogaram o herói contra um aspirante a empresário que vende o nome do herói a um fabricante de carros, coloca uma cantora de cabaré gemendo uma canção de amor não correspondido para ele e patrocina um programa de rádio do herói. “Ora, ora, eu até já providenciei para que ele apareça nos quadrinhos”. Eles parodiaram o gênero antes de o gênero existir. Primeiro o super-herói desafia esse mesmo público a acompanhá-lo a sério nas fantasias de poder. Depois de todas as gags, é um prazer ver o substituto do Super-Homem que o empresário havia contratado, quebrar o punho no peito de aço do verdadeiro herói.

Detalhe da história publicada em Action Comics #6 (novembro/1938), no Brasil foi publicada pela última vez em Superman Crônicas - Volume Um
Detalhe da história publicada em Action Comics #6 (novembro/1938), no Brasil foi publicada pela última vez em Superman Crônicas – Volume Um

O Merchandising no Mundo Real

(…)

Todas as cadeias de rádio rejeitaram a oferta (de um programa de rádio do Superman), mas o patrocinador, a Hacker Oats, comprou espaço em dez estações independentes e colocou As Aventuras do Super-Homem no ar em fevereiro de 1940. A audiência disparou e, no fim, a Mutual Network e a Kellog’s entraram na brincadeira. Com o programa de rádio servindo de abre-alas, por volta de 1941 a tira do Super-Homem já saía em 300 jornais, e Duke Ducovny dizia que 35 milhões de pessoas acompanhavam suas aventuras em pelo menos um veículo de comunicação. A essa altura Harry (Donenfeld, dono da National Comics, a antiga DC Comics) negociava com a Republic Pictures um seriado a ser exibido nas  matinês, mas, de repente a Republic foi passada para trás pela Paramount, uma das gigantes do ramo. A Paramount pagou o estúdio dos irmãos Fleischer para fazer uma série de desenhos animados de Superman, gastando 50 mil dólares no piloto, quatro vezes mais que o orçamento normal de um curta de animação. Até então, ninguém nunca vira um desenho animado tão espantosamente cheio de ação.

Com a fama do Super-Homem, vieram centenas de milhares de dólares em licenciamentos de brinquedos, fantasias, quebra-cabeças, livros infanto-juvenis, relógios e cereis matinais. Harry formou uma empresa separada – a Superman Incorporated – para cuidar disso tudo, com Duke Ducovny à frente dos negócios. As vendas para o exterior eram estupendas, uma vez que a simplicidade do Super-Homem facilitava muito sua exportação para a Europa e América Latina. E os lucros não paravam de aumentar: a Action Comics vendia quase 1 milhão de exemplares por edição, e a Superman 1,5 milhão. A taxa cobrada dos anunciantes também subiu. Só o setor de quadrinhos rendeu 2,6 milhões de dólares para Harry no ano de 1941; e ele continuava publicando os pulps, imprimindo todas as capas, além de ter participação em empresas fornecedoras de papel e tintas e nas gráficas que imprimiam as páginas de suas publicações. E, com a ajuda do Super-Homem, estava expandindo rapidamente os negócios no ramo da distribuição. Não demorou para que a Independent News passasse a representar várias editoras de quadrinhos, produzindo milhões de revistas a mais todos os meses – editoras que vistas de fora, pareciam concorrentes, mas eram na verdade mais uma fonte de lucro para Harry”.

Anúncio do Programa de rádio As Aventuras do Superman ao lado de um boneco do Superman da época.
Anúncio do Programa de rádio As Aventuras do Superman ao lado de um boneco do Superman da época.

Extraído do capítulo Áureos Tempos, do livro Homens do Amanhã – Geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis, de Gerard Jones (Conrad, 2006). Tradução: Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira. Este ano o Superman faz 75 anos, aliás 75 anos que seus criadores, Jerry Siegel e Joe Shuster foram passados para trás por Jack Liebowitz e Harry Donenfeld, donos da National Comics, atual DC Comics, pagando para os criadores um cheque de 130 dólares pelos direitos sobre o Superman. Os criadores do Superman caíram no ostrascismo, mas não morreram sem antes serem creditados em todas as histórias do Superman, isso graças à Neal Adams, que assumiu em 1975 a Academy of Comic Book Arts. Por outro lado, todo o dinheiro que poderiam ter lucrado com licenciamentos e merchandising foram para as mãos dos donos da DC Comics ao longo dos anos. No mesmo ano de 1975 saía o primeiro filme do Homem de Aço, aquele dirigido por Richard Donner, com roteiro de Mario Puzzo e com o Superman definitivo Christopher Reeve. No filme, Siegel e Shuster são creditados como seus criadores. Siegel morreu em janeiro de 1996, depois de ter entrado para o hall da fama Jack Kirby em 1993. Foi também postumamente premiado com o Bill Finger Award for excelence in Comic Book Writer. Ironicamente, tanto Jack Kirby como Bill Finger trabalharam na indústria dos super-heróis após a criação do Superman. Não existe um prêmio Siegel. Já Joe Shuster, em 1976, quase cego, foi para um asilo na Califórnia. Ele morreu em 1992, em Loa Angeles. Em 2005 foi iniciado o Joe Shuster Awards, em homenagem à sua contribuição para as histórias em quadrinhos. Após a morte dos criadores, suas famílias moveram muitos processos contra a Time/Warner/DC Comics, mas sempre perderam. O último deles, movido pelas filhas de Siegel tratava-se dos direitos sobre o personagem Superboy, cuja história de criação é confusa, e também trata-se de um embuste contra Siegel. Como era de se esperar, as herdeiras perderam o processo. Quanto ao programa de rádio, As Aventuras do Super-Homem, foi responsável pela criação da Kriptonita e dos personagens Perry White e Jimmy Olsen. A animação dos irmãos Fleischer é uma das mais celebradas e cultuadas do gênero e a série foi disponibilizada na íntegra no YouTube, remasterizada. As revistas do Superman não vendem mais tanto quanto na década de 40, mas o herói teve inúmeros títulos na DC Comics, morreu, casou-se, mudou para poderes elétricos, dividiu-se em dois, tentou dominar o mundo, mas sempre manteve a mesma essência, o grande escoteiro, que luta pela verdade, justiça e o modo de vida americano que Siegel e Shuster almejavam. O Superman apareceu em diversos desenhos animados, séries de TV e filmes no cinema desde sua primeira série em 1941. Este ano, além de ganhar uma revista nova, Superman Unbound, por Scott Snyder e Jim Lee, estreará o aguardado filme Superman – O Homem de Aço, pelos mesmos produtores e roteiristas da última leva de filmes do Batman. Dirigido por Zack Snyder (Madrugada dos Mortos, Watchmen) e estrelado por Henry Cavill (The Tudors), o trailer inicial do filme com as palavras de Jor-El (Russell Crowe) ao enviar seu menino à terra para salvá-lo da explosão de Krypton emocionou este que vos escreve. Aguardamos ansiosamente, mesmo que a verdade e a justiça não tenham se cumprido no caso de seus criadores e herdeiros. Talvez o que tenha se cumprido mesmo foi o modo de vida americano…

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