15 HQs Ao Redor do Mundo

Além das pioneiras HQs franco-belgas, Tintin e Asterix, que nos apresentaram o mundo do passado e do presente visto dos olhos dos francófonos, existem outras HQs que retratam o estilo de vida nas mais diferentes partes do mundo. Aqui vai uma lista de 15 delas que li e recomendo:

Adeus, Tristeza – A História de Meus Ancestrais, de Belle Yang

China. Os desenhos, seguindo a tradição de Persépolis, parecem terem sido feitos por uma criança. Entretanto, a história dos ancestrais de Belle conta, além de muitas traições, casos de amor e brigas em família, a história da China. Cem anos de história: a invasão da Manchúria pelos japoneses, a Segunda Guerra Mundial, a grande fome e a ascensão dos comunistas ao poder. Apesar dos desenhos serem quase infantis, eles ostentam no contraste inocência/brutalidade uma grande carga de poesia.

 

A Arte de Voar, de Antonio Altarriba e Kim

Espanha. Da mesma forma que Yang faz em Adeus, Tristeza, Antonio Altarriba volta no tempo para contar a história do seu pai que percorre praticamente todo o século XX. Além de mostrar a luta de um simples trabalhador do campo que luta para sobre viver na cidade grande, traz as lutas pela liberdade pelas quais a Espanha passou no século vinte. De início pertencente a um movimento anarquista, o pai de Antonio acaba lutando contra o regime de Franco e também na Segunda Guerra Mundial, sempre sonhando que um dia poderia voar. Nessa parte cabem alusões belíssimas, no tom da história, em que, de alguma maneira, o pai de Antonio voa. Até encontrar o verdadeiro voo em seu momento derradeiro, mostrado logo no início da HQ.

 

Aya de Yopougon, de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie

Costa do Marfim. Aya é uma menina jovem e divertida que vive em Yop City no final dos anos 70. Diferente do que se possa pensar, não mostra o lado sofrido dos países africanos, mas sim suas cores, suas festas, a adolescência, a felicidade, os galanteios. Porém, não deixa de mostrar o cotidiano e os estilo de vida marfinense. Com direito a um “bônus track” com léxico, maneira de se vestir à moda marfinense, receitas de bebidas e quitutes locais. Aya virou filme em 2012 e, além do primeiro volume, existem várias outras aventuras da menina, publicadas originalmente na França.

 

O Fotógrafo – Uma História no Afeganistão, Vol 1 a 3, de Emmanuel Guibert, Didier Léfèvre e Fréderic Lemercier.

Afeganistão. O Fotógrafo mostra a jornada do profissional da câmera Didier Lefrèvre pelo Afeganistão acompanhando uma equipe dos Médicos Sem Fronteiras. O diferencial dessa série de álbuns é o casamento entre os desenhos de Guibert e as fotos de Didier, tiradas no final dos anos 80, quando o Afeganistão ainda estava sob o jugo dos comunistas. O Fotógrafo mostra o povo do interior do Afeganistão, aqueles que mais sofrem com a guerra: soldados, vileiros, crinaças, todos aqueles que necessitam de cuidado médico e não podem ter acesso dutrante uma guerra. Além de mostrar lindos retratos de um país e uma cultura cada vez mais dominada pelos estrangeiros, o Fotógrafo reverencia o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras, uma organização que merece ser sempre reconhecida.

 

O Gato do Rabino, de Joan Sfarr

Argélia. Com muito humor e questionamento religioso, conhecemos a história do gato de um rabino, que, ao engolir um papagaio, começa a falar. Não apenas fala, mas questiona a Torá, Deus e todos os fundamentos do judaísmo. Ele é apaixonado pela filha do rabino, mas é proibido de falar com ela. Junto dela, ele só pode miar. De maneira engraçada, somos expostos aos costumes da sociedade argelina/judaica e nos encantamos com a história. O Gato do Rabino virou Animação em 2011.

Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

Brasil. Além de mostrar vida e morte em suas miríades, Daytripper também é a cara do Brasil. Não se fixa em mostrar apenas o Brasil urbano, de São Paulo e Rio de Janeiro, mas também leva os leitores a conhecer suas paisagens rurais e litorâneas, nossos costumes e nosso povo. Daytripper foi lançada primeiramente nos Estados Unidos e é tão bom ver o nosso país retratado de uma forma que não é clichê. Conta com muita sensibilidade, numa história intrigante sobre o que você faz da sua vida e como ela é preenchida por amores, família, amigos e por cada viagem que fazemos.

 

Hiroshima, a Cidade da Calmaria, de Fumiyo Kouno

Japão. Hiroshima, a Cidade da Clamaria traz duas histórias que se passam em períodos de tempo diferentes, mas as duas tratam do efeito da queda da bomba atômica sobre a cidade em 1945. Longe de discursos políticos, este mangá é um típico “slice of life” com a diferença de que os habitantes da cidade ficarão marcados para sempre com o horror de conviver com uma cidade destruída e as consequências que a radiação produz em seus cidadãos.

 

O Menino do Kampung, de Lat

Malásia. Lat mostra ao mundo a realidade de um país pouco mostrado nas artes. Ele conta a história da infância de um menino que vive numa Kampung, um vilarejo malasiano à beira de rio. Além dos costumes locais, o álbum também mostra as profissões, as escolas,  a religião e as brincadeiras que permeiam a vida de uma criança que vive em um vilarejo isolado da Malásia.

 

Nova York, a Vida na Cidade Grande, de Will Eisner

Estados Unidos. Que cidade representa melhor o modo de vida americano do que Nova York? Entretanto, Eisner não se limita apenas a revelar esse modo, mas sim contar histórias rodeadas pelos efeitos de se viver em uma das maiores cidades do mundo. Composta por diversos álbuns do renomado artista de histórias em quadrinhos, entre eles O Edifício, Cadernos de Tipos Urbanos e Pessoas Invisíveis, talvez o último seja a melhor síntese de como se sente uma pessoa que vive em uma megalópole cercada de estranhos por todos os lados. Mais do que mostrar aspectos de uma cidade ou uma cultura, Eisner retrata coisas que acontecem com eu e você. E fica na mente a cena em que a moça tenta se encontrar com Joey, chamando-o em meio a um congestionamento, porque se esqueceu de combinar com ele qual dos dois lados da rua deveriam se reunir.

 

"Joey! Joey!", de Aria em Nova York, A Vida Na Cidade Grande, de Will Eisner
“Joey! Joey!”, de Aria em Nova York, A Vida Na Cidade Grande, de Will Eisner

Palestina, uma Nação Ocupada, de Joe Sacco

Palestina. Sacco é um dos pioneiros do chamado jornalismo em quadrinhos e em um dos seus primeiros álbuns retratando a vida em locais afetados pela guerra, ele optou por mostra o lado Palestino no conflito do Oriente Médio que dura anos, com idas e vindas incessantes. Através de histórias curtas, Sacco apresenta o ponto de vista dos Palestinos, entrevistando-os, visitando-os em suas casas, experimentando de suas comidas e conversando sobre suas religião e seus direitos a terem, assim como os israelenses, reconhecimento como uma nação soberana. Um tipo diferente de quadrinhos, que envolve política e traços underground. Quanto ao termo jornalismo, é um tanto questionável, uma vez que o autor escolhe um lado do conflito para se posicionar.

O Paraíso de Zahra, de Amir e Khalil

Irã. Os autores do ábum resolveram não revelar seus verdadeiros nomes, temendo a repressão do governo iraniano. Neste álbum, eles contam a história da busca da mãe de um irmão de um protestante contra as eleições fraudadas de 2009, que reelegeram Mahmoud Ahmadinejad. Publicado inicialmente em forma de blog, a história foi transformada em álbum posteriormente, e conta todas as dificuldades que são passadas no Irã nos dias de hoje.

 

Persépolis, de Marjane Satrapi

Irã. Diferente de O Paraíso de Zahra, Persépolis conta a história de Marjane Satrapi, sua infância e adolescência no Irã, pré e pós Revolução Islâmica. Em suas páginas, a autora também traça um pouco da história do país e como ele se tornou o que é hoje. Marjane sempre se sentiu como uma estrangeira em seu próprio país, foi para a Europa, aos 14 anos e depois retornou ao Irã, na década de 80, apenas para sentir novamente sua liberdade tolhida, suas desilusões com a forma como a sociedade iraniana estava organizada, e resolveu voltar para Europa, onde se tornou uma quadrinista renomada. Sua HQ virou filme e concorreu ao Oscar de melhor animação.

 

Pyongyang, Guy Delisle

Coréia do Norte. Chamado para trabalhar em um estúdio de animação, Guy Delisle logo se sentiu deslocado frente ao atraso e a falta de comunicação com os outros países do mundo enquanto esteve na capital da Coréia do Norte. Contando minúcias do dia-a-dia do país mais  fechado do mundo, o autor não pode deixar de apontar situações cômicas geradas pelo encontro de culturas ocidentais e orientais, abertas e fechadas em si mesmo. Também é impressionante reparar na repressão da ditadura ao povo, que deve venerar seus governantes e seus antepassados como se fossem mais do que deuses na Terra. Pyongyang está em produção para virar filme entre este ano e o ano que vem.

 

O isolamento da Coréia do Norte, em Pyongyang, de Guy Delisle
O isolamento da Coréia do Norte, em Pyongyang, de Guy Delisle

Uma História de Sarajevo, Joe Sacco

Bósnia-Herzegóvna. Diferente de Palestina, que traz vários retratos e histórias do povo Palestino e suas crenças, Uma História de Sarajevo, mostra o envolvimento do quadrinista com um mercenário que lutou na Guerra da Bósnia. Ele relata suas histórias para Sacco e o autor acompanha seu dia-a-dia atual nas ruas destruídas e decadentes de Sarajevo. Muito diferente da música Miss Sarajevo, do U2 e Luciano Pavarotti, Uma História de Sarajevo é um disco riscado misturado com a estática de uma televisão.

 

Valsa Para Bashir – Uma História da Guerra do Líbano, de Ari Folman e David Polonsky

Líbano. Com Valsa com Bashir, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e vencedor do Globo de Ouro 2009, o caminho foi inverso ao de Aya e Persépolis. Primeiro veio a animação e depois foi transformada em graphic novel. É um grande sonho, ou melhor, um grande pesadelo, onde imagens oníricas se sobrepõem à realidade e a poesia cruel da guerra. Onde um soldado, saraivado de balas parece estar dançando valsa com o grande provocador da guerra na qual lutam. As consequências da guerra na mente dos soldados também são abordadas. A graphic novel revela que a transição de uma mídia para outra nem sempre se dá em uma via de mão única.

Detalhe da HQ e do Filme Valsa com Bashir, de Ari Folman e David Polonsky
Detalhe da HQ e do Filme Valsa com Bashir, de Ari Folman e David Polonsky

 

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