“O mangá é minha esposa e o anime é minha amante”, por Osamu Tesuka

Osamu Tesuka, o "Deus" dos mangás.
Osamu Tesuka, o “Deus” dos mangás.

“Eu sempre produzo vários mangás ao mesmo tempo. Criá-los em paralelo é como uma catarse para mim. Quando sou obrigado a me concentrar em um só tema, acabo frustrado. Em outras palavras, sou do tipo que gosta de se envolver com muitas coisas ao mesmo tempo. Isso serve para arejar a cabeça. Enquanto escrevo a história A, vou inserindo em B elementos que não exitem em A. Quando me canso de A, espaireço me concentrando em B. É assim que faço.

Minhas obras sempre têm um caráter ou muito positivo ou muito negativo. É um exemplo meio estranho, mas o escritor Morio Kita sempre diz que suas melhores obras nascem quando ele está transitando entre o estado de depressão e o de euforia, porque as emoções são instáveis. Por isso eu tento me manter sempre instável. Concentrar-se em apenas uma coisa é sinônimo de fechar-se em um único ambiente. É de um estado constantemente mutável que nascem as ideias mais livres e criativas. Desenho uma comédia ao mesmo tempo em que publico um drama; crio histórias para o público infantil enquanto me volto para o leitor adulto; faço ficção científica paralela a um épico histórico – estou sempre trabalhando com opostos. Assim consigo mostrar minhas múltiplas facetas.

(…)

Eu sempre digo às pessoas: o mangá é minha esposa e o animê é minha amante. Sou apaixonado pelos animês, mas, como toda boa amente, eles custam caro (risos). Também são extremamente volúveis, altamente dispendiosos e costumam me abandonar de vez em quando. E é dificílimo manter os dois. Estou sempre pendendo para algum dos lados. Quando começo a ficar com o animê, deixo o mangá de lado, comprometendo as obrigações matrimoniais. Quando dou por mim, já é tarde demais, e a vingança é terrível – a indenização exigida é estratosférica. Então sou obrigado a voltar para a esposa com o rabinho entre as pernas e ficar quietinho por um tempo até que (risos)… Ah, mas tenho consciência que isso vai se repetir para sempre…”

Osamu Tesuka, o “Deus” dos mangás, em Conversas com o autor, publicado originalmente em Chugaku Kyouiku (Abril, 1986). Publicado no Brasil em Adolf – Volume 5 (Conrad Editora, 2007).

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