Sexo, Humor e Estilo em Tension de La Passion, da Beleléu

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Assim como a música Sabão Crá-Crá, dos Mamonas Assassinas, Tension de La Passion, do coletivo Beleléu, envolve sexo, humor e variações de estilo, só que na forma de quadrinhos. Sem nenhuma pretensão a não ser fazer uma sátira aos romances melosos, também conhecidos como romances de banca, ou romances “cachaça” (como Bianca, Júlia e Sabrina), Tension de La Passion mostra várias formas de se interpretar graficamente uma história em texto. No caso, a história é a seguinte:

“A noite me envolvia, quando François apareceu, misterioso e sedutor.

Nossos corpos trêmulos se tocaram.

No estupor do momento, perdi a razão.

Nunca mais o vi, jamais o esqueci”.

São muitos os artistas convidados para ilustrar o texto de Stêvz: Daniel Carvalho, Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Eduardo Belga, Elcerdo, Koostela, Ltg, Mateus Acioli, Pablo Carranza, Rafael Campos Rocha, Rafael Sica e o próprio Stêvz. A edição é um caderninho quadrado, impresso em magenta sobre papel pólen. Alguns exemplos da interpretação dos desenhistas para a história seguem ao longo do post, mas eu queria falar um pouco mais desses três elementos que dão base à HQ: o erotismo, o humor e a variação de estilo. Também queria falar um pouco sobre o efeito que a união dos três na forma de quadrinhos causa no leitor.

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Sobre sexo nos quadrinhos eu já falei muito aqui no blog, mas uma definição do Alan Moore retirada de A Intrusa, de Bruno Azevêdo, também da Coleção Ardente (que tem o mesmo propósito de Tension ao parodiar os romances “cachaça”), diz o seguinte: “Culturas sexualmente progressivas nos deram matemática, literatura, filosofia, civilização e todo o resto, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a idade das trevas e o holocausto”. Culturas sexualmente progressivas também nos deram o humor. Muito antes de sabermos pra que serve o sexo ou como ele funciona, fazemos piadas com órgãos genitais e o ato sexual. E bem, pra explicar o que é o humor, nada melhor do que uma pessoa que estudou pioneiramente o sexo e a sexualidade, Sigmund Freud. O pai da psicanálise disse que o humor é algo rebelde, opositor à realidade, um triunfo do princípio de prazer, capaz de se afirmar apesar das terríveis circunstâncias reais. A essência do humor consiste em economizar os afetos que uma situação real exigiria. Logo, é um alívio. Ou seja, o que Tension de La Passion oferece é o próprio gozo em forma de humor. Gozado? Abrão Slavutsky define assim o humor: “O homem busca a felicidade através de seus atos e pensamentos. E um momento de alegria é um momento de gozo, um gozo que alivia o sentido trágico da vida. Por isso o humor, a alegria, a felicidade, tem a ver com a utopia. Por um momento vivemos um sonho”.

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Ok. Temos o sexo, temos o humor, mas um dos elementos mais corriqueiros do humor e, por que não dizer, do humor em quadrinhos, é a paródia e a variação sobre um tema. Sem nenhuma intenção humorística, em 1947, Raymond Queneau lançou o seu livro Exercícios de Estilo. No qual narrava sempre a mesma história de 99 formas diferentes. O livro pode ser lido aqui. Em 2005, foi a vez de Matt Madden, professor de histórias em quadrinhos, e quadrinista indie, lançar o seu 99 Ways to Tell a Story, inspirado no livro de Queneau. Só que dessa vez os exercícios de estilo se focavam essencialmente nos quadrinhos. Uma página de HQ contada nos mais diferentes estilos seja no clima, na ordem, no gênero, no tipo ou no estilo gráfico. E, sem querer, ou talvez intencionalmente, a obra além de apresentar uma gama da mesma história, não deixa o leitor sem exprimir um sorriso ou uma bela gargalhada, quando, estilo por estilo, a mesma história variava. O livro de Madden foi prometido para ser publicado no Brasil, porém, sem definição de data. Contudo, é uma leitura inspiradora e com um potencial tremendo para o humor.

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Da mesma forma, Tension de La Passion é uma forma de inspirar, fazer rir e desbloquear criativamente. Um dos fatores que contribuem para isso é, indubitavelmente, o casamento imagens e palavras. Como falou Scott McCloud em seu Desvendando os Quadrinhos, o casamento que se dá em Tension é o mais bem-sucedido da nona arte (também pudera: tem sexo, humor e estilo), mas estamos falando aqui da justaposição interdependente. Neste tipo de união, o texto e a imagem contribuem para gerar um significado. Da mesma forma existe em Tension o bom uso das elipses, ou das transições, como diz McCloud, que se dão, na maioria dos casos, de cena para cena, em intervalos de tempo indeterminados, mas que juntas, dão sentido ao todo. Uma história apenas, já ganha o leitor, mas todas juntas, com estilos gráficos diferentes, narrativas diferentes, potencializam seu efeito. Dizem os entendidos em literatura, roteiros e o escambau que uma cena não deve ser repetida mais de três vezes, para não cansar o leitor/espectador. Porém, se Queneau, Madden e agora o coletivo Beleléu não trouxeram marasmo e sim, inspiração e gargalhadas, isso quer dizer que no sexo, no humor e no estilo, algumas regras precisam ser desobedecidas de vez em quando.

 

tension195Tension de La Passion, do coletivo Beleléu está à venda no site da Beleléu, por R$ 15,00. Lá também é possível encontrar o romance A Instrusa, de Bruno Azevêdo e diversos produtos desse pessoal, incluindo o criativo Calendário Pindura, em que você monta uma tirinha de quadrinhos a cada dia do ano.

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